21 de Novembro de 2017
Preciso de alguém, alguém aqui comigo, que olhe para mim e o meu desespero e me acalme, e se importe, e me faça rir, me distraia, me dê um abraço e procure, mesmo com minha recusa e descrença, mostrar que de alguma forma eu preciso ficar bem para que ela também fique. E sobretudo que me ame e que goste de estar por perto e que compreenda a minha doença, que veja sem ver o quão difícil é para mim realizar as pequenas ações, com os menores dos gestos e esforços. Tudo exige de mim mais do que antes. Um levantar há de ser mais esforçado, uma andada mais arrastada e lânguida, uma risada mais pesada e custosa. É insustentável; sou fraca, sempre fui. É doloroso aos ossos, que se enrijecem e ameaçam quebrar-se; à cabeça, que dói nos mais variados lugares e nas mais variadas ocasiões, terminando com uma vertigem desafinada no pescoço; ao estômago, que se retrai a todo alimento que desce sem gosto, que vomita, que sente mal estar a toda hora. As coisas que penso são doentias e tristes, projetam-se na carne e já não sobrou espaço saudável em mim. Nunca me senti doente de forma tão violenta quanto agora e todos nunca foram tão incomplacentes com tudo que orquestro para demonstrar. É doloroso. Preciso de alguém que acredite quando eu digo que vou embora, que vou mesmo embora para sempre, que vai acontecer; e eu ponho a data, a data que acho que irá acontecer, um abril, abril do próximo ano, e embaixo meu epitáfio, o desejo de que me cremem. Eu faço a tudo isso, a três pessoas, como criança faz birra para ser notada. Desdenham-me, descreem por completo do que falo e escrevo, pois estou bem e isso é passageiro, eu não te amo e ainda há tanta coisa para mim. Explico que não tenho ânimo em construir nada, que os planos que eles possuem e contam com tanto prazer não têm a mesma cor para mim, que verbos no futuro fazem-me ter arrepios e soluços escondidos, pois as palavras, os verbos, farão, serão, viverão, tem sabor agre de inexistência. Eles farão, eles serão e eles viverão. Incluem-me neles quando não cogitam que eu não farei parte, que já terei ido, não acreditam que irei, que terei a coragem necessária. Para gente como eu não é preciso coragem. Coragem para ir só é preciso quando a vida se mostra polida e feliz, há o medo de morrer num atravessar de rua; gente como eu precisa de coragem para viver, temo é acordar, ir-se não é temeroso. Falta-me coragem e por isso mesmo vou.
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