17 de Novembro de 2017
Há uma vontade em mim de simplesmente escrever e escrever, no entanto, minha cabeça está vazia, não consigo organizar os pensamentos e, apesar de me sentir um pouco menos depreciativa do que anteontem, o problema tornou-se outro; não estou feliz nem triste, sequer num meio termo ou numa linha tênue entre um e outro; é o não sentir nada, a completa indiferença por tudo e todos. Não choro, as coisas que me aborreciam passam-me despercebidas, não rio, pois as coisas alegres também me passam batidas. Sei que logo esse estado irá e dará lugar a outro, pois meu corpo e coração agem conforme esse ritmo nauseante há tempo suficiente para que eu perceba suas entonações, variações e mudanças. De toda forma, é desesperador fechar os olhos e não ter nada na cabeça, nem uma palavra para formar uma frase.
Daí, há dois dias, de súbito, entrou uma vida na minha, uma a parte, que não me influencia e vice versa. Sua história veio toda emaranhada em sinuosos nós e, apesar disso, pedia-me para que eu a contasse. Como contaria algo tão triste? Pois sim, a vida era bem triste, é bem triste. Alguém que, como eu, não sente, não sentiu por um período demasiado maior que o meu de agora, por décadas, vivendo, casando-se, tendo filhos, daí recebe uma caixinha, um livro beijado por ela em sua adolescência, dado de presente a única pessoa que ela havia amado; ele estava morto.
O nada dela e meu se chocaram e eu olhei para a folha em branco, esse abismo que não olha de volta, vai desviando e desviando... Como poderia contar algo quando minhas capacidades de imaginação estão completamente liquidadas? E a mulher disse conte-me, conte-me, apenas conte-me, verás que não é você que está contando, sou eu. E ela contou. Ela é diferente, escreve mais para si que para os outros; não segue capítulos ou ordem cronológica, repete palavras e, com indiferença tão igual a minha, sente-se inteiramente despreocupada a um leitor que não compreenda a ela ou sua narração. Ela é assim... Pus uns traços meus nos escritos dela, viraram a parte mais horrenda. Não deixo que ela seja plenamente livre, pois ainda há em mim essa vontade de um dia ser lida — ninguém daria atenção a uns escritos tão rebuscados como os dela. Tento conserta-los, ajeita-los, pôr em ordem. Estrago-os pois não são de sua natureza serem entendíveis a uma primeira olhada, ou belos e poéticos. Não há propósito neles, é isso.
Admito que possuo esse enorme defeito de criar personagens que me dominam ao invés de eu domina-los. Eu os vivo, bem mais do que quem os lê. Sonho pensando como eles, crio manias que só eles teriam, doou-me a eles quando, para ser sincera e realista, mais ninguém irá conhece-los além de mim. São gente, gente não gosta de ler sobre gente. Gente gosta de ler sobre universos inventados, personagens inumanos, cenas orquestradas. Não, não falo isso colocando-me em um patamar superior, muito pelo contrário. Eu sou errada em não conseguir escrever sobre o que gente gosta de ler. Escritor sabe escrever sobre tudo, os outros querem lê-los, pois escrevem o que gente quer ler. Eu não consigo, não há como. Minhas criaturas, no fim das contas, serão sempre minhas, morrerão comigo e, como eu, serão esquecidas tão logo formos.
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