13 de Novembro de 2017
Meu amor, haverá dias em que não irei querer falar sobre você, do meu amor e do nós que nunca existirá. Haverá dias que irei querer falar sobre mim. Hoje é um deles.
Perdoe-me se te encher de frases curtas e recortadas por pontos finais, sequer estava desejando escrever alguma coisa. Faltam-me palavras e não porque a situação é complexa para se pôr em linhas, mas porque coisas se condensaram em mim de tal forma que parte do meu vocabulário se emendou noutros e outra parte apenas se foi.
Estou triste, é só. Não enumerarei aos motivos, pois isso não faria tu ou alguém compreender melhor.
Dir-lhe-ei que fechei meus olhos, há poucos minutos, ouvi uma música, a última música que escutarei na vida, e chorei. Não sabe disso, mas nasci numa música e penso que morrerei noutra, como em uma rima que o miolo foi tudo que passei, sorri e chorei. Então, à música, vou chorando, num choro em que o elemento principal não são as lágrimas ou os soluços, mas aquele bolo de secreção no fundo da garganta, que quando canto a última das canções faz-me desafinar e chorar mais ainda pela sensação de decadência que se instala – mui bem instalada. Ascendo a luz do quarto, não posso deixar de ascende-la, não ver a nada e ouvir a música e o choro é a pior das experiências. A porta está trancada, mas eu sei que lá fora há a escuridão da sala e da cozinha, saio para dar luz a esses cômodos, não aguento a fresta da porta do quarto enegrecida pela falta de luz doutro lado, há de ter luz ali também. Mais luz, menos choro.
Estou mesmo indo e... Let then know that i'm glad to go...
Ela disse, ontem, a mulher que me cria, que me castiga e que me reduz, disse que eu era incapaz de amar e de ser amada; eu era mesmo esquisita, não culpava os outros por me terem tanta falta de apreço, era eu, seria eu por toda a vida; não me viro, nunca conseguiria me virar, sou realmente esquisita; perguntou-me, como sempre pergunta, tem medo de gente, não tem? E eu chorei em sua frente sem que ela visse; não vê há nada, tampouco a mim e a minha tristeza por ouvi-la dizer tão bem a verdade; sim, a verdade, ela não me acusou com mentira alguma. A mulher fala bem, ninguém conseguiria esbravejar em tão bom som e com palavras melhores as verdades sobre mim; e eu as escuto contra a vontade. Sou e serei na exatidão de sua descrição e por isso mesmo já me é trabalhoso demais fingir que não sou. Nunca tomarei jeito, dispenso os supostos benfeitores com suas ajudas, nego a ser alguém melhor. É isso, sou péssima, nunca mudarei, serei sempre alguém péssima. Se não me fosse tão custoso atuar com e como os outros, ser feliz, simpática, não sei, talvez não exatamente feliz e simpática. Há gente antipática e ranzinza que é apreciada.... acho-me ranzinza e antipática, por que não sou...? Isso só piora as coisas. Não sou nem simpática nem feliz, talvez nem mesmo antipática ou ranzinza; quando estou sentada olhando para o chão, respondendo a uma pergunta, iniciando uma conversa... deve haver algum traço – encaixado em um ângulo obtuso de meu corpo, em minhas ideias ou na forma como as sucinto – que faz os outros terem como me têm. Ela é mesmo péssima, eles concordam e eu também.
Não tenho jeito, não tenho mesmo jeito. E essa frase tão curta, sem beleza ou poesia, fiz enquanto sentia o desespero sólido em alguma esquina daqui de dentro.... onde, com precisão, é que é difícil de explicar-lhe. O desespero agora é um corpo que alojou-se no interior doutro, do meu; tem pele para esfregar na minha, unhas para rasgar-me, voz para atazanar-me, já não lhe falta mais nada, é uma pessoinha mais humana do que poderia eu ter sido. Pior, tem consciência disso e é maléfico; é mal por eu ser assim, exatamente como as verdades ditas dizem que sou, porque mereço a maldade pelo que penso às escondidas; esqueci-me de falar que as verdades estão incompletas, há muitas que a mulher conhece e diz, mas há outras que ela não supõe e teria horror de supor, essas que não registro em parte alguma que não seja em minha cabeça doente, mas a essa última a pessoinha aguda e ávida por maltratar-me conhece bem e castiga-me também por ela; a sentença são pelas verdades do que sou mas também pelas verdades inacessíveis e desconhecidas ao resto, que nunca serão ditas por pessoa além de mim e essa que me rói; deve não ter ainda boca e nunca irá de ter, já terei ido e comigo levado embora esse encosto.
E, meu amor, quando se dá conta das verdades ditas sem sua permissão, do desespero que aspira e inspira, da incapacidade de continuar a levar a mim e a esse outro corpo, da lembrança das outras verdades que fazem mal apenas a mim... eu ouço a música, choro, ascendo as luzes. O mundo expulsa a mim; eu o quero tanto e ele não me quer, rejeita-me em suas menores ações do cotidiano. O mundo faz o que os outros fazem; odeiam-me. Pois sou assim, como a mulher fala, incapaz de ser amada.
Estou mesmo indo, uma hora, já, já. Estou dizendo-lhe, vai acontecer. Mas não deixe que eu vá sem que saibam que há uma mentira no mar das verdades que a mulher diz, miúda e quase se passa batido de sua natureza falsa quando colocada ao resto das veracidade, mas ela existe, deixe que eu lhe conte. Sou capaz de amar; amei muito, sigo amando e se tenho algo a culpar pela existência desse outro corpo é o amor que tenho por tudo. Eu amo, amo muito.
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