11 de Novembro de 2017

Sou sincera ao dizer que senti falta de gastar tempo contando-lhe essas coisas que jamais serão lidas. Há um motivo para meu sumiço; precisava dar um fim a uma história. Dediquei-me durante toda a semana a ela, principalmente nos finaizinhos da tarde; tudo para dar-lhe um fim perfeito, mas ela não o teve. Não porque não há perfeição; ela existe e posso citar um tanto de coisas que provariam minha verdade, mas irei isentar-lhe disso, afinal, o teu perfeito não é o meu, há de achar algo magnânimo por demais para se fazer de exemplo, pense-o, use-o e aceite essa minha tese. A coisa é que não cheguei à perfeição porque sou um desastre, é isso, não porque seja ela impossível de alcançar.

Disse que não daria exemplo, mas voltarei atrás. Dom Casmurro é uma obra perfeita, em toda a sua forma, conteúdo e escrita. Há a perfeição até nos detalhes que a maioria dos autores comem, como os coadjuvantes; em Dom Casmurro não, José Dias é tão bom quanto Bentinho — falo de construção, claro. Nesse caso, a beleza vem da justaposição à vida. Capitu e seus olhos de ressaca, Bentinho e seu ciúme, Ezequiel e sua semelhança com Escobar, é tudo assim perfeito e tão bem acabado porque não é uma história doutro mundo, passa-se nas esquinas das vilas e das cidades grandes, há Capitus nos sertões e nos litorais, há um Bentinho ciumento nas planícies e nos morros; a vida não foge de Dom Casmurro e Dom Casmurro não foge da vida: é perfeição pura por imitar com maestria os causos trágicos das imperfeições do cotidiano. Por isso, como privei-me de gastar tempo com esse meu diário, gasto agora linhas para exaltar Machado, como se isso valesse de algo.

Houve, ontem à noite na dormida, de ter eu pensado numas anedotas bem melhores que esse meu discurso do último parágrafo. Achei-as boas por demais, porém, ao invés de correr para o papel e tentar anota-las aos bolos — como costumo fazer—, fiquei rindo e vendo sem enxergar elas se dissolvendo na minha cabeça; eram boas, realmente boas, ri de sua graça e esperteza, ri também da sua morte. Elas costumam vir-me rápido, num soluço, e ir-se no intervalo do outro. Sempre as tenho, nunca as guardo, minha memória é fraca para muitas coisas e isto é uma delas.

Na falta de boas anedotas, falemos do dia de hoje, esse que não se passou nada aos meus olhos que não um final. Vale uma menção a um pensamento que ocorreu-me, esse eu não esqueci pelo motivo de já ter o tido antes, ele vem, vai embora, eu me esqueço até ele vir novamente, já voltou tantas que transformou-se em fixo e portanto em memória que não se esquece. São sobre os fins de tarde, mas não qualquer um. Os fins de tarde dos fins de semanas: dois fins conjurados num só há de ser um resultado realmente perfeito. Desgosto dos fins de tarde de segunda a sexta, são banhados em engarrafamentos de pessoas cansadas de existir, querem chegar em casa, esticar o pescoço e as pernas, assistir sua novela e dormir. Cinco dias onde os crepúsculos são ignorados pela multidão que já não aguenta olhar para si mesma, quem dirá para o céu por uns segundos. Não há graça nesses fins de tarde, mas os dos fins de semana? Esses não apenas são dotados de calmaria, mas de particularidades que só a ausência de pessoas pode trazer.

Hoje voltava da caminhada, cinco e meia, e pude correr pelas pistas vazias, acompanhadas das calçadas repletas de ninguém. Era eu e meu tênis fazendo calo, mas essa não é uma particularidade em si. Há, nos fins de semana, uma falta de pressa em ascender os postes da rua, o fim de tarde vem, os prédios engolem o sol e as ruas se enegrecem, mas o mecanismo que ascende as luzes alaranjadas — que por sinal é um mistério delicioso para mim — está preguiçoso por ser fim de semana, fica quieto e deixa a noite vir sem interrompe-la. De calçadas vazias, de pistas sem carros, de ruas anoitadas sem luz, que sobra? O céu, o fim da tarde e de um dia. Assim é, os fins de tarde só existem nos fins de semana e para aqueles ociosos — como eu — que ficam a correr por debaixo dele, olhando-o, rindo por pensar ser o único a saber que aquele fim não é dos comuns.

Hoje pus o fim numa história, num fim de tarde de um fim de semana. Dois fins se conjurando é perfeição, coisa de Dom Casmurro. Três fins juntos se provou um desastre, nunca tente unir a três fins, nem se contente com um, basta dois ou quatro — se for caso da perfeição se dar bem com os pares.

Que fiz, umas trinta linhas, não foi? E até agora não lhe fiz juras de amor. Estou curada de te amar? Longe. Demora, mas há de ter um eu te amozinho nas entrelinhas. Por uns bons dias deixei de derramar meu amor sobre aqui, não deixarei que esse escrito retome sem minhas falas que já devem cansar a ti — se chegasse a ler, claro, como não, penso que, no máximo, o leitor que o descobriu já o largou à minha quinta menção ao meu amor.

Pois bem, dada a perfeição, Capitu e a conjuração de fins, resta-me falar-lhe sobre outro pensamento que me ocorreu. Esse, assim como o dos fins de tarde, vem e volta e acabou por ficar. Trata-se de um detalhe, uma coisa boba que injetei nas páginas de uma história minha — a que hoje findei — por tua causa. Uma palavra que a apliquei 149 vezes. Já irei falar-lhe sobre ela e melhor faria se transcorresse sobre outras duas palavras que te tem a ver, mas hoje irei ater-me a ela em especial e, antes de fazê-lo, narrarei do porquê dela configurar cento e quarenta e nove vezes num livro.

Primeiro, usa-a muito; penso que diria a palavra 149 vezes por toda a vida, caso a proporcionasse às quase 300 páginas do livro — se não, ao menos algo muito próximo dos 149. Usa-a em número maior do que o resto das pessoas que conheço e por isso é uma das tuas palavras, mas não é só por esse motivo que ela me é especial. Há o segundo quesito que levou-me a usa-la por demais. São teus trejeitos pormenorizados ao dize-la; procura e puxa o ar dentro de si, espreme a boca em um bico quando a palavra nem o pede, vai com tuas sobrancelhas mais um pouco para cima, geralmente levanta um pouco os braços, é toda uma preparação que faz sem perceber, conjurando a tudo como se conjura aos fins, para soltar: senhores. E depois.... depois que diz a palavra toda orquestrada, que faz? Revelar-lhe-ei caso não tenha se dado conta: tu continuas da mesma maneira, com teu bico desnecessariamente lindo à deriva do vento, com a testa franzida do efeito das sobrancelhas e, costumeiramente, com os braços parados como a boca; é isso, não lhe basta a preparação, prolonga-se em todo o conjurado de gestos numa pausa demorada, coisa que só faz ao falar essa palavra, senhores. Há teus olhos, eles também atuam nessa peça mal assistida, mas sou má demais para conseguir traze-los a essas linhas, mas Machado faria bem, este dir-lhe-ia que nesses instantes de preparação e execução teus olhos são metade de ressaca. 

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