Prólogo
Portland, Oregon, 12 de abril, 2010.
Aquela deveria ser só mas uma noite de trabalho, mas uma das inúmeras noites que Charlotte levava desde os 17 anos quando abandonara o orfanato em que fora deixada ao nascer em Los Angeles, por seus pais que desapareceram sem deixar pistas.
Crescera sozinha e sem ninguém, as únicas pessoas que conhecera ao longo da infância foram as pessoas do orfanato, algumas crianças e as irmãs que cuidavam do local, fora isso não tinha mas nada, nem mesmo um nome, fora registrada por irmã Matilda, que a batizara como Charlotte Weis, e lhe dera amor, carinho e educação como se fosse sua filha, mas ainda assim não se sentia feliz, sentia-se uma completa desconhecida.
Mas este não fora o único motivo pelo qual havia deixado o orfanato, poderia ter ficado e se tornado uma irmã de caridade, mas não, aquilo não era o que queria.
Objetivava ir mas longe e descobrir algo sobre sí mesma e sobre o estranho dom que tinha, podia ver e ouvir pessoas mortas, e sentia até mesmo quando as coisas ruins iriam acontecer.
Tinha pesadelos assustadores com monstros e sombras estranhas, sempre tentara evitar os pesadelos, mas era impossível. Por isso decidira deixar tudo e sair, estava sempre viajando de um lugar a outro, sempre na esperança de esquecer ou encontrar respostas.
Mas nós últimos meses desde que chegara a aquela cidade, vinha se perguntando se aquilo que fazia era realmente o certo, não podia procurar por seus pais, por que se quer sabia como eram.
Não tinha uma fotografia dos dois ou algo que alguém pudesse reconhecer e lhe dar uma dica ou pista a respeito dos dois, por isso deixara de lado a busca, concentrada-se apenas em respostas sobre si mesma, mas também não havia encontrado nada, decidira ficar na cidade.
Portland era tranquila, arranjara um emprego em um clube, ganhava 500 dólares por noite, e as vezes até 800 quando a casa estava cheia, tinha até conseguido amigos naquele local, e sempre que se sentia mal conversava com Stanley seu chefe.
Não tinha muitos amigos, e isso não fazia muita diferença, não queria chamar atenção para sí mesma ou ter alguém interessado em seu passado.
Estava começando a se adaptar e gostar da cidade, era um novo recomeço, e talvez até conseguisse esquecer seu passado. Tudo estaria bem, tudo estava bem desde que saíra do trabalho as duas da manhã de uma segunda feira, sonolenta e cansada, tinha bebido um pouco além da conta depois do expediente.
Martinez um de seus colegas de trabalho havia convidando-a para um drink, e tinha aceitado, não seria tão mal beber um pouco, poderia pegar um táxi e ir parar casa, e era isso que passava por sua cabeça enquanto caminhava apresada pela rua quase deserta.
Não havia muito tráfego aquela hora da noite, as ruas estavam silenciosas e desertas enquanto caminhava, os sapatos fazendo um barulho assustador de encontro ao asfalto, segurava firmemente a bolsa jogada sobre o ombro, com alguns dólares e uma carteira de cigarros e um esqueiro.
Os cabelos negros estavam suados e grudentos, e a roupa amassada, parecia desfocada com aquela jaqueta velha, acendeu um cigarro e soprou a fumaça.
Foi quando sentiu, um frio arrepio que a fez tremer e olhar para trás, nunca olhava para trás quando sentia os calafrios, e nunca parava, mas naquela noite, ficara totalmente sem ação, tinha parado de andar e olhado para trás, e foi quando o viu, ele estava parado lá, na sombra apenas observando-a.
Vestia um longo casaco marrom e o rosto estava encoberto pela escuridão, o encarou por alguns segundos antes de perceber que estava apenas assustada e cansada, não havia nada no lugar, e talvez fosse apenas uma sombra, era comum enxergar fantasmas a noite, já não tinha tanto medo quanto antes, por isso continuou apenas a andar.
Jogou o cigarro fora e olhou mas uma vez para trás, com a exceção de alguns sem tetos, e um gato cruzando a rua, não havia nada o que temer, mas ainda assim sentia medo, sozinha ali, nas ruas de uma cidade desconhecida, podia esperar desde o estupro a morte se fosse assaltada.
Tudo o que queria era chegar em seu apartamento tomar um longo banho e comer algo antes de dormir, queria logo sair dali.
Não estava com medo, talvez um pouco, vinha sentindo desde que sairá de casa que algo ruim iria acontecer, mas havia ignorado o preságio e ocupado a mente atendendo os clientes, vinha fazendo aquilo desde os 17 anos, e não podia deixar nada atrapalhar seu percurso.
O bar em que trabalhava ficava em um bairro do outro lado da cidade, afastado, haviam boatos de que aquela parte da cidade era perigosa a noite, que ocorriam assaltos na maior parte do tempo, principalmente a noite, geralmente viciados e ladrões.
Mas nem isso a fez parar, virou uma esquina parando em frente a uma loja de conveniências, enquanto a maldita sensação de que algo não estava certo a atingia com força, como um aviso. Se perguntou se seria assaltada na próxima esquina.
Acendeu outro cigarro, os dedos trêmulos devido ao frio, soprou a fumaça e sorriu, e tremeu quando a sensação de está sendo seguida a atingiu novamente, olhou para trás discretamente, mas não enxergara nada. Se encolheu e respirou fundo.
Ninguém prestaria socorro ou se quer olharia pela janela, por isso engoliu em seco e começou a andar, e foi quando sentiu novamente, o calafrio, dessa vez fora mas forte, e quando se virou instintivamente, engoliu em seco e congelou.
Parado na sombra de uma árvore, do outro lado da rua ela o enxergou, parecia sorrir em meio a escuridão, e por um momento pensara ter ouvido um rosnado, e tremeu antes de começar a andar apressadamente, sempre dizendo a si mesma que não era nada que aquela sombra ou o que quer que fosse não era real.
Mas como um aviso, seu coração assustado e acelerado a fez parar e olhou para trás novamente, e sentiu o pânico tomar contar de seu corpo, ficando totalmente parada enquanto o estranho homem ou o que quer fosse se aproximava lentamente dela.
No início não havia notado, mas agora que ele se encontrava a uma curta distância, podia notar que ele tinha olhos vermelhos, pensara que ele fosse um fantasma, mais a medida em que se aproximava indicava que não, e era isso que a assustava, ele podia até ser pálido e fantasmagórico, mas não era um fantasma.
E como por instinto virou-se abruptamente, e começou a andar, dessa vez más rápido, enquanto o pânico a fazia tremer, seu coração acelerado parecia prestes a sufoca-la.
Respirou fundo e olhou para trás, e soltou a respiração ao ver apenas a rua deserta, era apenas sua imaginação, estava um pouco alcoolizada, e o sono estava deixando sua mente confusa.
Mas não, não era fruto de sua imaginação, e só percebeu isso quando um vulto passou a sua frente, e de repente o estranho homem a encarava, parado e olhando-a com um sorriso diabólico no rosto pálido e magro, um riso frio e cruel, seus olhos pareciam vítreos e sem vida.
Suas pupilas eram tão vermelhas quanto sangue, a pele pálida se destacava na noite, era um fantasma, e ao que parecia alguém transtornado e ruim.
Pensou em tentar ignorar, mas deu um passo para trás quando ele avançou, aquela coisa era real demais para ser uma alma, achou que fosse um bêbado.
Talvez algum de seus cientes que a seguira com o intuito de assusta-la, ou talvez fosse realmente a alma de um homem morto, que vagasse por ali, mas a forma como a olhava, com pura maldade nos olhos vermelhos, a fez se afastar.
_ Quem é você? _ 0erguntou, a voz controlada, o máximo que podia diante do medo que sentia. _ Olha, se é dinheiro que quer, pode levar a minha bolsa. Só me deixe ir.
Tentara não parecer assustada, mas já estava completamente em pânico, e a voz soara trêmula, o que fez o estranho sorrir. Um riso que a fez querer correr.
_ Dinheiro? Isso não é o suficiente garotinha.
O sujeito tinha uma voz fria e arrastada, calma, sua expressão tranquila e suave a fez engolir em seco.
Se ele não queria dinheiro, o que mais iria querer? Não tinha jóias, e seu casaco era velho e desgastado, então se lembrou de algo que tinha lido em uma matéria de jornal naquela manhã, tinha lido sobre assaltos que terminavam em mortes e estupros, e talvez, percebeu tardiamente que fosse isso que iria acontecer, quando ele queria dizer " Isso não me satisfaz..." Não refería-se ao dinheiro, mas sim ao prazer carnal, ao estupro.
Tinha ouvido falar em ladrões e assassinos com mente fria e doentia, que abusavam de suas vítimas depois dos assaltos.
A possibilidade de ser tocada física e intimamente, a fez se sentir enjoada, recuou para trás, eufórica e assustada enquanto o estranho sorria, exibindo dentes pontuados e brancos, que por um momento a lembraram dentes de tubarão.
Era como se ele tivesse linchado os dentes para se tornarem pontudos, tão pontudos que perfurariam algo sólido, e rasgariam
o que tocassem.
Reparou nas mãos dele, estavam largadas em volta do corpo, quase cobertas pelas mangas do casaco, suas unhas eram grandes e negras, como as de um urso só que menores, então concluiu que aquele ser, ou coisa, o que quer que fosse, não era humano, e muito menos um fantasma, era algo primitivo, e irreconhecível, algo nunca visto antes.
E o olhar que ele exibia era como facas, eram frios e sem vida, sentiu a bile subir em sua garganta e prendeu um grito eufórico quando ele deu uma passo a frente, parecia um animal grande e selvagem, encurralando uma presa menor e indefesa.
Recuou instintivamente para trás, suas pernas bambas e trêmulas sobre os saltos do sapato. Pensou em correr, em gritar, mas percebeu que sua mente e seu corpo pareciam distantes, não conseguia desviar os olhos do olhar do sujeito.
_ Por favor, me deixe ir... Pode levar o que quiser, eu não irei lembrar, fugirei, só me deixe ir.
A risada fria e maliciosa dele a interrompeu, fazendo com que temesse, uma risada fria e doentia que fez os pelos de seus braços e da nuca se levantasse, aquele homem, havia nele uma maldade e escuridão inexplicável que o cercava, como um ser corrompido pelo mal. Se perguntou se ele seria um demônio? Ou talvez as cinco doses de tequila estivessem lhe deixando alta.
Um rosnado alto ecoou em seus ouvidos, arrancando-a de um transe mortal e ela gritou quando em um único piscar de olhos ele havia se aproximou.
O rosto quase tocando o seu, prendeu a respiração e as batidas de seu coração aumentaram quando algo frio, tão frio como gelo tocou sua clavícula, e depois subiu até o ponto pulsante em seu pescoço.
Olhou para baixo e foi impossível não engolir em seco, a coisa fria que pensara ser uma faca ou alguma outra arma, era na verdade a mão dele, a ponta de seus dedos tocando sua pele quente e úmida, a unha quase perfurando sua garganta.
_ Por favor... _sibilou, um sussurro entrecortado e fraco, que o fez alargar ainda mais seu riso ameaçador _ por favor...
_ Vítimas, em especial garotas assustadas como você, são sempre as melhores, exalam medo em suas veias. _ Disse ele tão próximo, que ela sentiu o hálito frio dele bater em seu rosto. _Estou ouvindo seu coração acelerado, e isso é excitante.
_ Eu imploro... Me deixe ir._Disse ela quando a mão gelada dele envolveu seu pescoço.
_Não haverá diversão se eu deixá-la ir.
_ Por favor...
Essas tinham sido suas últimas palavras antes de ter sido consumida totalmente pelo pânico e o medo, depois recordou-se, apenas da escuridão e o frio da noite, enquanto aquela coisa a jogava contra a parede de tijolos de um prédio, das mãos geladas dele em seu corpo, dos rosnados vindos da garganta dele.
Tentara gritar, pedir ajuda, até corgitara a ideia de reagir e correr, mas de alguma forma, quando os dentes pontiagudos dele tocaram seu pescoço.
Seu corpo foi tomado por uma dormência estranha, e quando percebeu o que ele estava fazendo tentou reagir mas não tinha forças em seus braços, sua mente estava vaga, como se houvesse tomado um sedativo, então tudo a sua volta escureceu.
Despertou minutos ou horas depois, largada no chão de um beco fetido e escuro, com latas de lixo e ratos correndo, tentou se mexer, mais seu corpo estava pesado, assim como suas pálpebras que insistiam fechar.
Havia uma dor insuportável em seu pescoço e nos pulsos, ardiam como fogo, algo corria em suas veias, correndo por seu corpo, como se corroesse seus ossos, tossiu e engasgou quando sentiu o gosto de algo metálico em sua boca, sangue, seu sangue.
Se recordou do estranho matando-a, devorando-a viva, da sensação de está sendo arrastada de seu corpo e da escuridão.
O barulho de passos a sua volta a despertou de um torpor e ela tossiu novamente, expelindo sangue pela boca, e pelo nariz, a luz da lua projetou uma sombra sobre ela, e ela tremeu, o monstro que à atacara estava bem ao seu lado, encarando-a como se encarasse uma obra de arte criada por suas mãos, um riso fino se destacou em seu rosto pálido e sujo de sangue.
_ Quem é você? _ Perguntou em meio a dor, sua voz parecia distante, como se estivesse falando em baixo da água.
_Sou Ezequiel, uma sombra da noite, e da morte, e em breve você também.__Disse ele e ela gritou, um grito fino e assustador, que ecoou em meio às risadas frias dele.__Isso se Zack não a encontrar primeiro e terminar seu sofrimento, se você me acha um monstro, espere até conhecer Zacarias.
Disse ele e desapareceu nas sombras, deixando-a ali, largada no chão, sangrando, agonizando, com a vida se esvaindo de seu corpo a cada segundo. Pensou que ele houvesse voltado para terminar o que havia começado, que não a deixaria ali.
Mas não, aquele ser doentio, era um monstro, sem alma, escrúpulos ou sentimentos, tinha ferido-a, rasgado seus pulsos e sua pele, deixando-a ali para que sangrasse até a morte, ou se tornasse algo como ele.
O pensamento de ser ele, de ferir inocentes, a fez cerrar os dentes e chorar, com gritos pressos em sua garganta, preferia morrer a ser como ele, e foi pensando nisso, que tomou uma decisão, e um único som escapou de seus lábios, se perdendo no vazio da noite, antes de fechar os olhos.
_Zack...
Foi tudo o que pronunciara, chamava aquele nome tão comum e estranho, que se quer sabia a quem pertencia, o chamava como se chamasse a morte, enquanto sua mente vagava em uma escuridão profunda.
De repente foi como se estivesse caindo em um abismo e tudo se apagou, até mesmo a luz da lua.
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