Capítulo 4


Débora enxergou Mateus em pé na entrada da congregação.

O povoado Morro da Alvorada possuía uma boa quantidade de casas distribuídas entre ruas e estradinhas de terra. Era o ponto central da região, o aglomerado rural mais próximo da cidade, e local perfeito para os cristãos dispersos se reunirem sem precisar adentrar na zona urbana.

A congregação era modesta, mas possuía o suficiente para abrigar os irmãos na fé e sediar as celebrações. Mateus gostava de ver a simplicidade emanando pelas paredes empoeiradas, vítimas dos ventos da localidade. Afinal, ele bem sabia o quanto era atraído pela modéstia, um atributo que parecia ressaltar a beleza de Cristo em detrimento de todo o resto.

— Você chegou cedo. — A voz de Débora soou baixa.

O homem mirou o chão, consciente de que o clima ainda estava pesado entre os dois.

— Como um clássico pecador arrependido — comentou num suspiro.

Débora deixou um meio sorriso se desenhar em seus lábios e fixou no mesmo ponto que ele ao chão.

Os membros da igreja se aproximavam, e alguns jovens remexiam nos equipamentos de som lá dentro. Embora estivessem debaixo do céu noturno, ela recordou daquela interação que teve com o noivo, na porta da igreja dele, um momento especial que se fincou no baú suas memórias favoritas. De repente lembrou que sua igreja na cidade ainda não havia recebido os dois como um casal, e pensamentos sobre quão maravilhoso seria se Mateus decidisse congregar nela a distraíram um pouco das mágoas recentes.

— Você está bem? — Mateus a despertou.

O homem havia erguido a cabeça e olhava na direção dela, que ainda não queria encará-lo.

— Estou melhor — ela murmurou, evasiva. — E você?

— Pergunta difícil — ele respondeu, desanimado.

Mateus não estava bem. Contudo, não desejava lamentar-se mais ainda pelo ocorrido, a autopiedade não resolvia a situação. Ele verdadeiramente se arrependeu, o pecado estava confessado. Bastava agora receber o perdão e a sabedoria para evitar outra situação como aquela.

Os dois noivos ficaram um instante calados, contemplando a sombra um do outro no chão. Débora sentia-se mais leve depois de ter passado a tarde refletindo sobre o ocorrido, chegando à conclusão de que Mateus não agiu de forma premeditada. Ambos caíram na armadilha das circunstâncias desfavoráveis, e do ponto de vista dela os dois eram culpados por terem confiado demais em suas próprias consciências. Apesar de reconhecer isso, ela achava que perdoá-lo cedo poderia deixá-lo mal acostumado.

Com tal pensamento e uma dose de orgulho a garota enveredou para o interior da congregação, encontrou um banco livre e sentou-se nele. Mateus enxergou na fuga dela a resposta para sua indagação interna sobre ela o ter desculpado ou não. Pelo visto, não.

O senhor Geraldo se aproximou com a esposa e ambos cumprimentaram o futuro genro de forma natural, o que o fez pensar sobre o ocorrido não ter chegado aos ouvidos deles. A mãe da moça, porém, estava consciente da situação, mas sabia disfarçar muito bem. Já o homem grisalho passou a desconfiar quando viu a distância que a filha estava do noivo sobre quem tecia tamanhos elogios o tempo todo.

— Senti sua falta, Mateus — investigou Geraldo, com um olhar intrigado. — Achei que fosse jantar conosco hoje.

— Ah, me desculpe. — Mateus não conseguiu elaborar uma resposta além desta.

— Vamos, o culto já vai começar! — Dona Amélia tentou puxar o marido, sem sucesso.

— Sabe de uma coisa, rapaz?

Mateus se atentou à mão do senhor Geraldo sobre seu ombro e estremeceu pelo toque firme e o olhar fuzilante desferido por ele ao dizer:

— A parte boa de ser pai de uma moça cristã é que quando meus olhos não estão sobre ela eu sei que os olhos do outro Pai estão. O que eu não posso fazer, Ele pode!

O noivo engoliu em seco e assentiu.

— O senhor tem razão ao dizer isso — respondeu com firmeza, embora nervoso.

Geraldo retirou a mão do empresário e ergueu o indicador para finalizar o momento de intimidação:

— Jamais se esqueça disso, hein!

— Não esquecerei! — rebateu o outro, agora mais convicto.

Por um momento Mateus ficou confuso sobre qual sogro poderia ser mais ameaçador.

O casal se deslocou para dentro do espaço onde os demais se acomodavam. Mateus respirou fundo e caminhou em direção a Débora. Ela, para sua surpresa, usava a Bíblia para guardar o lugar dele ao seu lado. Pelo menos uma fagulha de esperanças naquela noite tenebrosa.

Ele sentou e os dois ficaram quietos, interagindo apenas com o culto.

A mensagem temática foi sobre o texto de 1 João 1.9, a saber:

"Se confessarmos os nossos pecados ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça".

O pregador deu ênfase na segunda promessa do versículo, onde o Senhor revela seu poder e disposição em purificar os pecadores arrependidos por seus atos.

Débora e Mateus foram impactados. Sentiam-se falhos, humilhados pela falta de domínio próprio e a ideia de que poderiam ter se beijado. E se poderiam fazê-lo, também eram capazes de ir adiante no ato até as últimas consequências. Ambos relembraram das vastas advertências do evangelho para não confiar em si mesmos quanto aos perigos das tentações pecaminosas. Lembraram de José, fugindo com uma toalha. Lembraram de Davi, que não teve a mesma sabedoria e deixou os olhos vagarem sobre o que não lhe pertencia e experimentou o gosto amargo da queda e suas consequências.

Mateus compreendeu o que ouviu em uma pregação anos atrás:

"A melhor forma de evitar cair em grandes tentações é evitar cair nas pequenas".

Para muitos seria um exagero aquele nível de contrição por uma simples tentativa de beijo. Contudo, o empresário sabia que um "pequeno" pecado como aquele poderia se tornar, anos mais tarde, em um adultério. Afinal, se ele teria coragem de beijar uma mulher que não era sua esposa agora, por que não o teria dali a alguns anos, mesmo após estar casado? A ideia pesou em seu peito. Não podia deixar de ser vigilante.

Suas meditações se harmonizaram quando mais um versículo ecoou por sua mente:

"O casamento deve ser honrado por todos; o leito conjugal, conservado puro; pois Deus julgará os imorais e os adúlteros". (Hebreus 13.4)

Era isso. Antes mesmo de honrar Débora como irmã e futura esposa, ele devia honrar o casamento, a aliança sagrada estabelecida por Deus. Deveria agir, em primeiro lugar, por causa Dele e para a honra Dele. A convicção o encorajou.

Já Débora, ao seu lado, meditava sobre o perdão. Ela, que com frequência se achegava ao Senhor em busca do perdão e da restauração do relacionamento com Ele, ainda remoía a ira contra Mateus naquele instante. Sentiu-se hipócrita por não ser tão misericordiosa como o Senhor de quem se dizia discípula. Às vezes parecia que "Hipocrisia" era o seu sobrenome. A Palavra ouvida e lida por tantos anos continuava sendo extremamente necessária em sua vida. O evangelho nunca deixava de surpreendê-la, a não ser quando não prestava atenção suficiente a ele.

Quando o pregador pediu para os fiéis se colocarem em pé para a oração final, o casal se ergueu, fechou os olhos e inclinou a cabeça. Os dedos de Débora se esgueiraram até os de Mateus, entrelaçando-se a eles. Ninguém viu o meio sorriso nos lábios do homem. Em silêncio, acompanharam a oração intercessora do pregador, suplicando perdão e graça da parte de Deus para si e para o próximo.

Abriram os olhos extasiados com o poder restaurador do evangelho. Eles olharam um para o outro e trocaram um sorriso harmonioso. 

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top