Conto 3 - As Sete Maravilhas do Mundo

Maria colocou os oito pães recheados com salsicha numa bandeja de alumínio. Pegou-a e caminhou com o jantar para a sala de estar. Ela usava chinelos porque o chão era de cimento e áspero e estava sempre com sujeiras difíceis de limpar. Sua casa era um tanto grande, com três quartos, um banheiro, uma cozinha e sala de estar, mas estava bem apertada naquele momento.

De frente para a televisão havia quatro crianças, três meninos e uma menina. Todos tinham menos de dez anos e todos eram netos de Maria. Na TV era transmitida uma notícia, algo que normalmente não prendia atenção dos pequenos, mas os quatro encaravam a tela sem piscar.

– Eu trouxe pão com salsichinha. – colocou a bandeja na mesa de jantar – Venham jantar.

Maria percebeu que seus netos caminhavam para a mesa no modo automático. Os olhares vazios, sem brilho, lhe chamavam atenção. Somente naquele momento ela lembrou de como seus filhos tinham esse olhar; ela sempre pensava que não podia fazer nada, que a vida era muito difícil e que nem sempre as crianças vão estar felizes. Nem todos têm sorte!

Isso faz muitos anos, mas ela errou. Pensou ter criado filhos fortes, mas não... De cinco, apenas um se salvava. Apenas um...

– Voinha, tem Ki-Suco? – ouviu a voz do caçula. Os quatro eram irmãos.

– Tem água.

Eles comiam sem pressa, ainda encarando a TV que passava notícias trágicas. Maria foi pegar a jarra de água e pensou novamente nos seus filhos. Naquela época eles não tinham água filtrada e se acostumaram a beber da torneira, mas a água costumava faltar no final de tarde. A sede era dolorosa. E o pior é que um deles é deficiente, tem retardo mental, e era o mais trabalhoso. Ah, eram tempos tão difíceis! Seu marido era um bêbado e batia nas crianças com frequência. Às vezes até Maria apanhava quando tentava defendê-los, mas isso acabou quando ela o esfaqueou. Desde então ficaram em paz e estão juntos até hoje!

– Alguém me ajuda a trazer os copos!

Ela viu a menina chegando na cozinha. Pobrezinha! Meninas não deviam ter um olhar tão vazio, deviam ser sonhadoras! Ah, sua menina também tinha esse olhar e acabou numa vida de prostituição e filhos indesejados. Os quatro filhos eram esses a jantar.

Maria levou a água para a mesa e sentou-se, pegando um dos pães. A notícia que passava na televisão era sobre uma criança que foi brutalmente assassinada. "Crianças não podem ver isso", pensou. Ela não proibia seus filhos de ver notícias porque naquela época pensava que crianças deveriam se acostumar com o mundo real. Foi um erro. Um dos seus filhos passou na TV há alguns meses, preso por tráfico de drogas.

– Cadê o controle?

Encontrou e mudou de canal. Passou, passou, passou até achar um canal de curiosidades. Estava passando algo sobre o Taj Mahal.

– Que lugar é esse, vó?

Todos lhe olharam. Eles estavam curiosos, mas ainda faltava o brilho no olhar.

– É uma tumba, um túmulo enorme. Fica na Índia.

– Um túmulo? O que é tão grande para caber nesse casarão?

– É uma homenagem. Vocês querem ouvir a história?

Eles concordaram, balançando a cabeça e falando baixo.

– Há muitos anos um imperador se casou com uma princesa persa e se apaixonou. Ela era sua terceira esposa e a sua preferida! Os dois viveram felizes por muitos anos, mas ela morreu ao dar a luz ao décimo quarto filho deles.

– Décimo quarto? Isso é quanto?

– Catorze. Sim, eles tiveram muitos filhos. O imperador ficou tão triste que quis fazer uma grande homenagem. Então ele teve a ideia de fazer um mausoléu, o maior e mais belo de todos! As paredes eram de mármore e pedras preciosas, como ouro, jade e cristal. Também havia um jardim e uma grande piscina que refletia como um espelho! Demorou 17 anos para ele terminar sua homenagem, mas era tão bonita que hoje é conhecida como uma prova de amor.

– Tu conheceu ele, voinha?

– Isso faz centenas de anos.

– Conheceu ou não?

Todos riram. Era uma piada e mesmo que fosse depreciativa a avó também riu.

– Tu já foi lá, voinha? – a menina perguntou de boca cheia.

Maria pensou nas diversas revistas e livros de viagem que tinha guardado numa caixa embaixo da cama. Ela sempre quis viajar e conhecer o mundo, mas nunca teve condições financeiras. Apenas conheceu uns estados vizinhos, no nordeste mesmo.

– Já. – mentiu – E-Eu visitei as sete maravilhas do mundo, vocês sabiam? Quando eu era jovem quis sair numa aventura e fui sozinha, a pé.

– Andando? É perto?

– Cada uma é em um país diferente, mas eu tinha muito vigor e confesso que peguei caronas também.

– Conta pra gente!

– Conta pra gente!

Todos acabaram de comer e sobrou dois pães. Só faltava seu marido e o filho que morava com ela, o especial. Maria cobriu os pães com um pano de prato enquanto pensava numa história para contar. Ela não tinha o costume de inventar histórias, era a primeira vez que fazia isso.

– O primeiro lugar que visitei foi no Rio de Janeiro, fui pro Cristo Redentor. Vocês sabiam que ele tem um coração? Fica por fora, como um colar. É mais ou menos do tamanho de vocês! Eu escalei o Cristo Redentor escondida, demorei dois dias sem parar!

– Tu não ficou com fome?

– E com sede?

– Eu fiquei, mas os turistas me deram comida escondidos. Eu fiz a mesma pose dele quando cheguei na cabeça. Desde então os turistas sempre fazem essa pose para tirar foto lá.

– Sério!?

– Depois eu fui andando para o Peru e conheci o Machu Picchu. Era uma cidade antiga que fica numa montanha. É bem bonito lá, tem muita grama e restos de casas. Quando cheguei uma turista me perguntou por que fizeram aquela cidade ali e eu falei que é para as pessoas morarem mais perto de Deus. Foi o que eu senti. Eu pedi pra gente fazer uma oração em homenagem àquele povo antigo. Todos fizeram e quando abrimos os olhos vimos um mar de orquídeas.

– Elas estavam antes ou apareceram depois?

– Foi depois da oração. Eu senti que Deus estava próximo de lá e ele nos provou que estava.

Maria ouviu um suspiro surpreso e viu os olhos do caçula – eles brilhavam. Um sentimento confortável crescia em seu peito.

– Depois eu fui para o México, peguei uma carona com um caminhoneiro. Eu estava a caminho do Chichén Itzá, mas só consegui chegar bem tarde. Vocês sabiam que um monstro protege aquele lugar à noite? Os mexicanos o chamam de El Cucuy. – as crianças deram risadas – Não riam porque ele é assustador! Tem o corpo curvado e enrugado, no lugar da cabeça tem uma abóbora com uma luz dentro. Eu tive que brigar com ele pra chegar ao Chichén Itzá!

– O que é esse lugar?

– É como se fosse uma pirâmide com escadas do lado de fora. Eu venci El Cucuy com um chute, minhas pernas estavam fortes por andar tanto, e subi as escadas. Lá em cima brilhava muito porque estava cheio de vagalumes. Eles estavam ao redor de um prato fresquinho de guacamole. Eu comi e os pequenos vagalumes dançaram pra mim. Nunca esqueci disso!

– Os vagalumes dançaram? – a menina se curvou sobre a mesa.

– É, e naquele momento eu percebi que eram fadas bem pequenininhas.

Maria notou que os lábios da menina ficaram entreabertos e com um sorriso, como se fosse uma boa surpresa.

– Eu continuei minha jornada, dessa vez fui para a Itália conhecer o Coliseu. O Coliseu é um anfiteatro, um lugar pros nobres se divertirem assistindo gladiadores se matarem. É um lugar cheio de desgraça! Eu tive uma visão do passado. Pude ver homens de armadura lutando com espadas longas em cima de cavalos.

– E como era a luta? Tinha muito sangue? – o menino mais velho começou a se empolgar.

– Muito sangue! Foi muito violento e assustador. Quando um homem caia morto a plateia aplaudia. O sangue banhava o chão e as paredes. Eu não quis ficar muito tempo naquele lugar e fui correndo para minha próxima aventura. Fui para as Ruínas de Petra, na Jordânia. Lá é como um castelo dentro de uma montanha. Sabe aqueles filmes de caçar tesouro num lugar cheio de armadilhas?

– Lá tinha um tesouro!?

– Tinha sim, mas antes eu tive que ter muito cuidado onde pisava. Alguns lugares no chão ativava armadilhas e eu quase morri várias vezes.

– Como, vó?

– A primeira armadilha ativou várias facas que saíram da parede e foram pra cima de mim. Eu tinha muito reflexo e desviei de todas. Teve uma que o chão se abriu e tinha vários espinhos embaixo, mas eu consegui pular a tempo! O importante foi que consegui chegar no tesouro.

– Tinha ouro?

– Não, não tinha ouro, mas tinha uma lâmpada mágica. Eu só podia fazer um pedido e eu pedi pra ir pra China.

– Quê? E o dinheiro?

– Eu não precisava disso, só queria continuar minha aventura.

Então Maria percebeu todos os olhares curiosos e brilhantes lhe encarando. Não pode evitar um sorriso, aquelas crianças tinham um olhar vazio desde que foram morar lá. Motivos não faltavam: sua filha nunca mais ia acordar. Mas ela suspeitava que antes do acidente eles já eram assim.

– Na Muralha da China tem uma lenda que você pode se encontrar uma única vez com uma pessoa morta. Isso começou com uma mulher que chorou tanto, tanto pela morte do marido que Deus concedeu uma última conversa naquela Muralha. Eu caminhei por toda Muralha pensando com quem falar. Andei e andei olhando as pessoas ao meu redor. Muitas choravam, outras conversavam com fantasmas, mas também tinha algumas que só caminhavam como eu. Aquelas pessoas foram ficando para trás e eu continuei caminhando até o fim. No final da Muralha eu vi muitas árvores, muito mato, um lago e alguns animais.

– Tu falou com alguém, voinha?

– Não. Eu fiquei encantada com aquela floresta e fui pra ela. Era uma floresta mágica!

– O que tinha lá!?

– Tinha sereias no lago e um dragão enorme e bem colorido! Eu voei nas costas do dragão e falei com os animais. Foi incrível!

Maria ouviu alguém destrancando a porta e foi cumprimentar o marido e o filho. Eles tinham ido pegar as roupas e pertences dos seus netos. O filho foi até as crianças e as chamou para brincar, era a terceira vez que ele pedia isso e apenas agora elas aceitaram. Os cinco tinham o mesmo olhar.

– Ei! Jantar primeiro.

– Não, mainha, eu vou brincar!

Seu filho, um homem adulto com mente de criança, mostrava os brinquedos que tinha. Seus netos estavam sorrindo. Maria suspirou. Pensou na época em que seus filhos eram crianças: eles brincavam, mas não tinham um olhar tão brilhante. Ela caminhou até o quarto e pegou a caixa debaixo da cama. "Que outras histórias eu vou contar?", era a pergunta fixada em sua mente. Sem perceber, ela também sorria e tinha um brilho no olhar.

Essa sugestão foi do streamer GaubsS no Instagram @/ _gaubss_

Me inspirei muito nas histórias exageradas que minha avó conta kkkk

Quer que eu escreva sobre algo? É só comentar <3

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