Conto 1 - Jacaré de Sapatilha
Houve outrora uma mulher que estava à espera do seu bebê. Estava feliz e ansiosa porque sempre quis ter sua família, mesmo que aquele não fosse o melhor momento: o pai fugiu quando soube da gravidez e ela não tinha uma boa relação com os pais. Teria que fazer tudo sozinha.
Mas isso não importava para aquela mulher, afinal ela finalmente teria o bebê que sempre quis. Ela iria amá-lo com todas as forças e seria amada de volta, finalmente um amor verdadeiro!
Os nove meses foram longos por causa da impaciência, mas quando ela sentiu a dor do parto foi como se tivesse encontrado a poção da felicidade. Tamanha vontade de ver seu filho! O parto foi longo e ela achava que ia dar um grande sorriso ao vê-lo, mas sua expressão naquele momento estava estupefata. O bebê não era humano.
Não pode acreditar quando a médica trouxe um jacaré para os seus braços.
– Tem certeza que esse é o meu filho?
– Claro que sim! Nós não saímos da sala, não teria como trocar o bebê.
Era verdade, as enfermeiras só deram um banho rápido antes de colocá-lo em seus braços. De fato era seu filho. Era estranho porque tanto ela quanto o pai eram humanos. Por alguns segundos aquela mulher duvidou se poderia realmente amar aquele bebê com todas as forças, mas quando o viu lhe abraçando e procurando seu calor as dúvidas sumiram tão rápido quanto apareceram. Não importava como fosse sua aparência ainda era seu filho.
A mulher e o bebê viveram felizes numa casa cheia de amor. Quando o bebê chorava ela lhe dava carinho porque é disso que os bebês gostam.
Quando o pequeno jacaré deu seus primeiros passos ela foi numa loja comprar sapatos e os primeiros que viu foram sapatilhas. "Que gracinha", a mulher pensou, "Certamente vai combinar com o meu filho". A mulher adorava balé, mas nunca teve a oportunidade porque seus pais não tinham interesse. O seu filho ia ter tudo que ela não teve!
– Ma... Mama. – as primeiras palavras do Jacaré de Sapatilha soaram quase grosseiras por causa daquela voz grave.
– Ah, que gracinha, meu amor! – Porém a mulher só ouvia uma voz fina de criança.
O tempo foi passando e o Jacaré de Sapatilha teve suas primeiras aulas de balé. Ele achava divertido, todavia em pouco tempo as sapatilhas não cabiam mais em suas patas.
Com o tempo não importava onde procurasse não existiam sapatilhas que cabiam nele. Aquele calçado era para humanos, afinal.
– Mamãe, eu posso dançar balé sem sapatilha?
– Não se preocupe, meu amor, vamos encontrar uma do seu tamanho.
A mulher sorria docemente para o filho. O Jacaré de Sapatilha sabia que aquilo não era possível, então tomou uma decisão drástica: cortou os dedos dos pés. Desde então ele nunca tirou as sapatilhas para sua mãe não se preocupar.
– Eu disse que íamos encontrar uma! Você gostou bastante nessa, não foi?
– Ela é perfeita, mamãe.
O Jacaré de Sapatilha gostava de balé porque ele nunca tentou outra coisa diferente. Ele se esforçava duas vezes mais que os outros alunos e ainda era um péssimo bailarino. Suas pernas curtas lhe atrapalhavam e seu rabo longo atrapalhava os outros. Ainda assim, ele se sentia bem ao ver o sorriso orgulhoso de sua mãe.
– Meu amor, o que acha de pintarmos seu quarto? Que cor você quer?
– Preto.
– Preto!? Eu pensei que você ia preferir uma coisa mais clara, tipo um azul bebê.
– Tem razão, mamãe, acho que essa cor é melhor.
A mulher queria o bem do filho e o Jacaré de Sapatilha acreditava que a mãe o conhecia mais que ele mesmo.
Um dia, na aula de balé, o Jacaré de Sapatilha caiu e não conseguiu mais se levantar. Seus pés doíam mais que o normal. A professora o liberou mais cedo para descansar e ele não quis voltar para casa. Não queria mostrar à mãe que não tinha mais os dedos, então caminhou sem rumo pelo bairro.
Andou, andou e andou. Assustou algumas pessoas e ouviu risadas de outras, mas isso não o impediu de caminhar. Apenas parou quando seus pés voltaram a doer. Sentou num banco para descansar e ouviu um som que lhe trazia conforto. Com os pés doloridos, ele correu em direção ao som e viu um rio. Ele nunca havia visto um rio antes.
O som da água correndo lhe acalmava. Olhou o seu reflexo e pela primeira vez não estranhou sua aparência. Quis tocar a água e descobrir o que tinha no fundo. Estava hipnotizado.
– Desculpe, mamãe.
Sem pensar demais, o Jacaré de Sapatilha abriu os braços e se jogou na água gelada. Ele afundou e afundou por nunca ter aprendido a nadar, não sabia que não precisava nadar por ser um jacaré - seus pulmões o fariam boiar - e apenas foi levado pela correnteza com uma estranha sensação de conforto. Finalmente estava onde pertencia.
O tema "Jacaré de Sapatilha" foi desafiado no Twitter pelo usuário @/ProjetoHorusOfc.
Eu fiz os desenhos k e me inspirei bastante no dorama "It's Okay Not to Be Okay"
Quem quiser que eu escreva um tema comenta nesse trecho <3
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