CLXXXVI
Sempre que você abria a boca pra falar sobre mim, eu me sentia menor do que já era. Me sentia um ser insignificante a olho nu, como uma bactéria que corrói um organismo silenciosamente. Mas graças a você eu era autodestrutiva. Eu já não me importava com a minha visão sobre mim, já que a tua era tão mais dolorosa e inversa e eu nunca soube de nada. Você era a minha ferida aberta que eu sempre batia – ou deixava bater. Você era o gosto mais amargo do fim do café que eu insistia em beber. Me lembro de mesmo assim pedir aos céus proteção. Pedir que você continuasse mais um pouco. Não que eu gostasse da dor, só acho que lido melhor com a presença e mesmo que doa, prefiro cicatrizar a ferir. E você sabia. Sabia que de mim só saía amor e ainda assim me tratava como se estivesse passível de mudança. Não estava. Por mais que eu me definisse pela tua definição, eu não me sujeitaria a me tornar você. A tua maneira de ser juiz no julgamento que eu nunca sequer serei réu, me dava sentenças. É uma delas era carregar comigo o fardo de me sentir insuficiente porque, pra você, nada foi tão bom. Você brincava com as minhas certezas como se fossem cartas de um baralho que seria descartado. Eu sempre tinha que refazer o jogo que sabia que ia perder. Você falava de mim como o criador fala da sua primeira criação: Podia melhorar. Não era o que eu esperava. Não pensei que fosse assim. Mas aconteceu. E, ao invés de inúmeros defeitos, eu queria que você se prendesse a qualidade que desencadearia de todo o resto.Mas se o todo não é bom, por que a parte seria?Você me fazia sangrar como corte aberto propositalmente. Jogava sal e água ardente. Você transformava meu amor em dor, com uma simples e tão pequena quanto eu, palavra: filha.
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