Toc Toc

O escritor olhava pela janela, parecia excepcionalmente triste nesse dia. O que era estranho visto que era além da comemoração da chegada do novo ano, era também seu aniversário.
A família se reunia todos os anos, a casa ficava cheia. Havia sempre muito riso, muita comida e confusões...

Alguém disse uma vez que política religião e futebol não se discute, mas não aqui. De um lado os Corintianos, do outro o aniversariante palmeirense, tinha aqueles que defende que "O estado tem que ser mínimo" o outro lado, do qual o aniversariante era exímio defensor defendia que, "Sem políticas públicas e sociais não há crescimento da nação".

O importante é que tudo acaba em cerveja, churrasco e muitas risadas.

No entanto, nesse dia em especial, algo parecia fora da ordem. Não dava pra explicar, era algo assim  que a gente sente, mas não entende sabe?
O escritor volta para sua mesa, passa o dedo levemente sobre os teclados do seu computador, eles tilintam sob seus dedos. Ah! Era um som tão conhecido, tão familiar ao escritor.

Ele deixa a mente divagar enquanto seus personagens passeiam por sua memória, são como lembranças de velhos tempos, histórias vividas juntos. —Entende o por que de não ser possível explicar?

O burburinho vindo da cozinha, onde a esposa e seus lindos filhos juntamente com outros membros da família organizam agitados o cardápio da festa de logo mais.
Normalmente o aniversariante estaria lá no meio, com a mão na massa e dando pitaco em tudo, azedando o humor da velha senhora, sua mãe que ainda acredita que homem na cozinha é desastre anunciado.

Mas não hoje. Hoje ele está nostálgico, alguém veio até perguntar se ele estava bem, mas anuiram que era devido a crise dos quarenta. Sabe como é, o tempo passa pra todos. Nisso anfitrião não desmente, isso lhes dará assunto e assim ele pode ficar a sós com seus botões.

Lembrou- se seu primeiro livro, da primeira história no Amazon, da personagem Otacília que lhe é tão especial, lembrou-se do momento em que descobriu o aplicativo Wattpad onde resolveu publicar as suas histórias para um público diferente.

Lembrou-se do seu ingresso na academia de letras do município, pois é, nosso herói aqui é um imortal.
Imortalizado nas suas criações, e sobretudo na literatura brasileira, que embora ainda não tenha alcançado multidões, ele sabe que conquistou um público fiel, e que suas histórias marcou pra sempre ques as leu.

Um filme rodava lentamente, parando em cenas especiais para seu coração. Foi tão intenso, que ele executava as tarefas pedidas a ele quase que mecanicamente. Como se corpo e alma ocupasse lugares distintos no cosmos naquele instante.
Ele tomou banho, ajeitou a barba, escolheu a roupa que iria usar na festa.
Ao descer, escolheu uma música do bom e velho Bob Marley, pegou seu ukulele, afinal ele sempre era requisitado nas festas de família.

Os convidados foram chegando, eram na maioria pessoas de casa, família e amigos próximos. Então ele dispensou as cerimônias. Mas mesmo com a casa cheia ele ainda olhava para a porta, parecia esperar alguém, ele não sabia explicar, afinal já tinha corrido os olhos sobre todos os presentes e não parecia ter faltado ninguém, mas ainda assim o escritor olhava para a porta.

Ele sacudiu a cabeça, na tentativa de organizar os pensamentos e decide voltar a atenção para a festa, e ao virar as costas para a porta ele ouve a campainha tocar. O escritor fica parado no meio do caminho, enquanto alguém se adianta para abri-la.

Ele percebeu que os convidados olharam curiosos por não conhecer os visitantes, mas o escritor olhava incrédulo. — como isso é possível? — indagou a si mesmo.

— Feliz aniversário, meu criador, eu passei a minha vida inteira sonhando com esse dia. - disse o convidado abraçando o aniversariante atônito.
— Venha ver, estão todos aqui, a Lú, a mamãe a tia Zu, até meu pai quis vir.

— Como isso é possível? — perguntou incrédulo.

— Você entende mais disso do que nós, além do mais a gente não via a hora de conhecer você pessoalmente. — dessa vez foi a bela Luzia, com esvoaçantes cabelos vermelhos, quem falou abraçando o aniversariante.

A tia Zu trouxe um dos seus quitutes e foi logo indo para a mesa da ceia, e a mãe do jovem Gabriel se dirigia a ele com lágrimas nos olhos, entregando um de seus quadros como presente de aniversário. Era uma pintura da praia do tucunaré, um marco na história e cenário marcante na vida de Luiza e Gabriel. O escritor se lembrou da cena na Barraca.

Na porta ainda aberta, ele viu Laura em meio a uma discussão com o Pedro, que a olhava apaixonado.

— Oi e aí escritor? Você não tinha ninguém melhor para por na minha cola, esse cara é uma mala ciumento.

O escritor riu, enquanto abraçava a jovem e recebia tapinhas nas costas do namorado em questão.

Não muito depois, um casal tímido, olhando para todos os lados, parecia não querer serem vistos, pelo menos ela agia assim.

— A mulher invisível? — perguntou o escritor.

— Olá, eu estou muito feliz por estar aqui, aliás nós estamos. Obrigada por nos compreender, e por nos tornar real.

O escritor sem palavras, apenas os via se aproximar e abraça-lo um após o outro, todos os seus personagens iam adentrando a sua casa, se misturando a sua família.
Quando a campainha tocou novamente ele se apressou em abri-la.

Um homem alto, vestindo um terno negro, olhos azuis profundos e intimidadores está diante dele, e ao seu lado uma bela e jovem.
Em uma mesura exagerada, pelo menos para aquele século, o grandalhão curvou-se diante do aniversariante.

— Vampiro Sebastian, ao seu dispor.

Instintivamente o escritor levou a sua mão ao pescoço, o criador reconhecendo a sua criação.

— Olá, lembra de mim? Milady em carne isso e muita fome. — disse com um sorriso que revelava mais do que apenas dentes.

Mal a porta se fechou e de novo soou a campainha, nessa hora todos os convidados estavam mais do curiosos.

Uma mulher trajando negro e óculos escuros, apesar da noite, adentra com ar confiante, quase uma Mib. Por um momento o aniversariante olha através da janela, como se lá fora espreitasse um grande mal.

— Olá diretor! Não tenha medo, está tudo limpo lá fora.

— Isadora! —declarou o escritor.

— Em pessoa, ah! Demétrio manda lembranças, está em um caso importante.

De repente uma agitação do lado de fora da entrada chamou a atenção de todos os presentes.

— Não vou ficar calma Geraldinho, ele vai ter que explicar o porquê de ferrar a minha vida.

— Ele é o diretor minha bela — o rapaz tentava acalma-la.

— Ele não tem ideia do que eu passei, aquele açougueiro dos infernos, deu a notícia no cru, sem anestesia. Quase destruiu a minha vida e para quê? Pra divertir quem? Aquela leitora maluca que não tem o que fazer? Me poupe Geraldinho.

— Linda, pensa bem. E se ele resolver escrever " Os últimos dias de Abigail de novo, a revolta do diretor"?

—Será?! Aí meu Deus! — disse ela colocando a cabeça para dentro da porta dando de cara com o escritor que agora sorria.

— Olá Abigail, que bom te ver com saúde.

— É né, mas quase me fez infartar, mas estou tão feliz por te conhecer, um pouco brava, mas feliz.

— Mas valeu a pena, não valeu? — pergunta o escritor olhando para Geraldinho que a olhava de volta com olhar abobalhado ao sei lado.
—Sim, valeu muito — disse respondendo ao olhar apaixonado de Geraldinho.

— Tem caipireja na cozinha, sirva-se a vontade.

Batendo palmas e com um gritinho feliz, a vivíssima Abigail seguiu em busca da sua bebida preferida. O escritor riu novamente — ela estava mesmo mudada.

Ele recebeu surpreso a visita de todos os seus personagens, um a um. Cada um coma sua característica marcante e marcada na alma do escritor.
De repente ele se sentiu leve, completo. Totalmente preenchido de uma felicidade que ele nem sabia que existia.

O escritor já voltava para a o quintal onde seus convidados festejaram quando a campainha tocou novamente.
O escritor ficou surpreso, afinal a casa estava cheia com cada um de seus personagens, quem poderia ser?

Ele abriu a porta e uma casal, que ele não reconheceu na hora. O homem lembrava um daqueles agentes da Cia ou do FBI.
A mulher, com longos cabelos negros, sorria cálida para ele.
Mas o reconhecimento veio mesmo quando uma pequenina de olhos negros como a noite saiu detrás das pernas do pai e sorriu tímida.

— Oi, eu sou o Marcus Daniels, esta é minha esposa Analü e nossa filha Lua Rosa.

— Eu tinha que voltar, jamais esqueci Marabá.—disse a jovem mulher que o abraçou com lágrimas nos olhos.

— Nossa criadora nos mandou representá-la na sua
festa, e desejar-lhe votos de feliz aniversário e um ano novo cheio de realizações, e principalmente cheio de ideias e livros.

— Obrigado! disse o anfitrião — Sintam-se se em casa.

De repente o ar foi sugado dos pulmões do aniversariante, devido a um enorme abraço de urso.

— Larga ele querido, você vai quebrar os ossos do homem.— disse uma voz rouca e firme atrás dele.
A dona da voz era com certeza parente do primeiro casal e por que não dizer —assustadora.

— Eu devo tudo a você,— disse o homem com voz embaralhada e deficiente. — minha criadora me disse que você foi um dos responsáveis para que ela não me matasse na trama. Sou o Ghost, seu eterno criado! E está é a minha bela dama Allana

Sem palavras o aniversariante apenas sacudia a cabeça, e as mãos dos convidados. Estranhos, mas com cara de casa.

E foi assim o mais incrível dos aniversários, uma noite de perguntas e respostas, lembranças e muita nostalgia.
A música saia melodiosa do ukulele, Gabriel e Pedro fez uma apresentação de capoeira, a tia Zu estava de olho nos solteiros da festa.

E o aniversariante agradeceu aos céus, olhou com amor para a sua bela esposa, ela que foi sua maior fonte de inspiração em cada uma dessas histórias. Seus filhos, frutos desta sintonia. Seus pais e irmãos e todos os seus parentes mais próximos, além de seus amigos que foram parte importante de sua caminhada.

De repente ele se sentiu privilegiado, realizado por ter construído algo tão perfeito e sólido. E percebeu que estava preparado pra o ano que se iniciava, e para todos os outros que estariam por vir.

Esse era sim, era um feliz aniversário!

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