25
Já era noite de ano novo.
Andrew e eu fomos até a programação que estava tendo na praia do Popeye, a virada show, que contava com Dj, bandas e cantores para alegrar a pequena cidadezinha, já que a prefeitura contava com a presença de mais de 30 mil turistas naquele ano para o réveillon.
Assim que chegamos lá o show estava por conta dos brutos sertanejos que cantariam durante a virada do ano. Ali na praia, tinha uma quantidade considerável de pessoas curtindo o show. Andrew e eu nos misturamos em meio a multidão. Pude ver algumas mulheres e homens dançando com uma lata de cerveja na mão, assim como também vi casais dançando colados.
No meio da multidão pude ver também rostos conhecidos. Juca, que estudara com Andrew e eu, nos viu e se aproximou, trazendo consigo uma galera da nossa nostalgia. Com ele estavam o Belo, a Laurinda, o João, a Carminha, Fátima, Galeto (Matheson), Fiona e o Farofinha (Carlos). Também se aproximou outro cara que eu não conhecia, mas que aparentemente estava junto com eles.
― Olá pessoal! ― digo empolgado fazendo questão de dar um abraço em todos.
Andrew fez o mesmo. Assim que chegou a vez do homem que eu não conhecia, lhe dirigi um sorriso cortês.
― Oi, me chamo Max! ― digo para ele. ― Acho que não nos conhecemos.
― É claro que nos conhecemos! ― fala o homem com total convicção nas palavras, o que me faz pensar da onde ele me conhecia.
― Você estudava na mesma escola que a gente? ― pergunto achando que só poderia ser isso.
― Claro!
― Ah, então você me via lá o tempo todo não é mesmo?
― Sim. Estudávamos na mesma sala.
― Sério? ― indago fazendo uma careta, tentando achar algum traço seu que me viesse à memória, mas não estava conseguindo obter nenhum êxito naquilo.
― Sério! ― ele responde com uma risadinha.
― Ai desculpa, mas não estou conseguindo me lembrar de você cara, me desculpa mesmo!
― Relaxa, talvez você consiga se lembrar de mim pelo meu nome de verdade. Eu costumava me chamar Emília.
― O quê? ― interpelo estupefato. ― Emília? Não brinca!
O homem ri. Andrew estava ao meu lado escutando tudo e os amigos fitavam nossa conversa em silêncio o tempo todo, mas agora riam juntamente com o garoto, enquanto eu ficava completamente constrangido pela vergonha que acabara de passar. Pareciam até que todos ali tinham combinado me pregar essa peça.
― Caramba, você mudou pra caramba! ― diz Andrew impressionado.
― É, eu entrei na dieta do Thammy Miranda! ― diz ele fazendo piada da situação. ― Agora me chamo Emílio!
Como eu podia não ter notado pelos olhos de Emílio? Ainda eram os mesmos. Aqueles olhos castanhos profundos com um brilho especial que outras pessoas não poderiam ter. Acho que eu deveria ter focado em seus olhos e lembraria no mesmo instante quem era. Seu olhar era unicamente inconfundível, mas eu consegui confundir. Eu era o maior idiota do mundo mesmo.
― Tá um gato! ― comenta Andrew por fim dando um sorriso.
Emílio dá um soquinho no braço de Andrew em agradecimento pelo elogio. Finalmente destravo e dou uma risadinha nervosa para tentar abafar aquela vergonha. Juca percebe todo o meu constrangimento e fala:
― Relaxa cara, todos que não sabiam da transição do Emílio cometeram o mesmo erro!
― A gente só queria mesmo ver se você ia conseguir reconhecer! ― Fiona rindo.
― Vocês são do mal! ― falo por fim rindo e entrando na brincadeira.
― Vem, fica aqui com a gente e curte a festa! ― convida Juca pondo seu braço sobre o meu ombro e depois o outro braço no ombro de Andrew.
Claro que não íamos recusar aquele convite. Ficamos perto deles curtindo a festa e tomando algumas bebidas. Logo chega Rebeca, uma garota que também já havia estudado com a gente, mas lembro-me bem que na época da escola ela era uma garota presa, por causa dos seus pais fanáticos religiosos. Vê-la ali foi uma surpresa, e a outra ainda maior, foi vê-la andando até Fátima e lhe depositando um beijo nos lábios. Assim que ela notou nossa presença ali, veio falar conosco. Ela me deu um abraço e depois outro em Andrew, que me lançava olhares de surpresa, o que me fazia rir e concordar com a cabeça.
― Fiquei sabendo que vocês dois estão namorando! ― comenta ela por fim com um sorriso entusiasmado expresso no rosto olhando para mim, depois para Andrew a depois para mim de novo, repetindo sucessivamente o gesto.
― É, estamos sim! ― respondo dando um sorriso nervoso e em seguida olho para Andrew que corresponde o meu olhar, depois volta a encarar Rebeca.
Rebeca era uma garota de cabelos cacheados cheios castanhos claros, pele branca como o leite e olhos escuros. Ela já não usava o aparelho que usava na época da escola e seus dentes estavam perfeitos dentro do perímetro bucal. Ela estava bem mais bonita desde a época da escola. Os anos acabaram lhe fazendo bem. Geralmente na adolescência estamos sempre nos ajeitando para mais velhos, pois usamos aparelhos para melhorar a dentição, usamos cremes para eliminar espinhas, tentamos inovar em cortes experimentais e cores novas de cabelo até nos encontramos de uma vez para posteriormente. A adolescência verdadeiramente é uma fase de experimentação e melhorias para o futuro, onde você vai ser realmente estar no seu auge.
Fátima, a namorada dela se aproxima e agarra pela cintura, ficando lado a lado com Rebeca. Fátima tinha cabelos ondulados bem curtos e usava um quepe virado para trás na cabeça. Usava também uma camiseta folgada com uma caveira mexicana estampada, calças jeans destroyed e um vãs vermelho nos pés, enquanto rebeca usava um macacão curto bege e uma sandália aberta nos pés. Uma era o oposto da outra. Uma tinha o perfil mais patricinha, já a outra era completamente roqueira, mas elas pareciam se dar extremamente bem daquele modo, afinal, nem sempre as diferenças afastavam as pessoas.
― E olha só aí vocês duas não é mesmo! ― exteriorizo. ― Quem diria hein!
― Pois é né! ― Fátima fala com um sorriso aberto de ponta a ponta no rosto, não escondendo nenhum pouco a sua felicidade de estar ao lado de Rebeca, que beijou sua namorada apaixonada.
Sorrio enquanto assisto aquela cena e logo um breve vazio se instala em meu peito por alguns segundos e logo passa quando a atenção delas volta a se concentrar em mim.
― Você é Andrew também parecem bem! ― discorre Fátima.
― É o que eu estava dizendo à eles amor! ― expõe Rebeca sorrindo.
― É, realmente! ― digo me achegando mais perto de Andrew para fazer todo aquele teatro de sempre.
Logo começou a tocar sertanejo universitário e todos começaram a dançar aquele arrocha bem grudadinhos. Todos em casais ali. Juca dançava com Carminha, João com a Laurinda, Belo dançou com a Fiona, enquanto Galeto e Farofinha dançavam juntos na zoação, já que até onde sabia, os dois eram héteros, mas tinham uma mente super aberta. Fátima e Rebeca não deixaram de dançar agarradinhas, já que eram um casal apaixonado. Acabei perdendo Emílio de vista por ora, mas acabei o encontrando dançando com uma garota morena bastante bonita um pouco mais distante da gente.
Andrew me puxou para um pouco mais perto dele e dançamos aquele arrocha, afinal não podíamos perder aquela dança tão divertida. Enquanto dançávamos, ríamos muito, nos divertindo juntos com aquilo tudo. Andrew me girou, depois girei ele é voltamos a dançar corpo a corpo. Aquilo me lembrava de quando dançávamos juntos em algumas festas da escola, já que não podia dançar com Ricardinho, porque ele tinha que manter a pose de hétero ― de Taubaté ― e convidar alguma menina para dançar com ele.
A verdade que eu nunca tinha notado até agora, era que Andrew era quem sempre me fazia sorrir independente da situação. Ele era o melhor amigo de todos. Me sentia livre com ele de uma maneira intensa e calorosa. Meus sorrisos com ele eram os mais sinceros mais do que com qualquer outra pessoa. Com Ricardinho eu nunca tive aquilo, já que eu mais chorava do que sorria. Agora depois de tanto tempo eu percebia o quanto aquela relação era tóxica. Eu merecia sorrir como eu sorria quando estava com Andrew. Aquele sorriso despretensioso, de liberdade, por estar me sentindo tão bem, que eu podia sorrir com o coração, não apenas com a boca.
Dancei por um bom tempo com Andrew sem me cansar. Tomei alguns goles de bebida junto com Andrew, mas desta vez sem exagerar, pois não queríamos que nada do que acontecera à alguns dias atrás, voltasse a se repetir. Tomamos umas apenas para ficarmos alegres, porém completamente conscientes dos nossos atos, então o que quer que acontecesse à partir dali, era de completa responsabilidade nossa e porque queríamos de fato fazer aquilo.
Só paramos de dançar, porque Juca nos pediu para que seguíssemos ele. Olhei para Andrew que deu de ombros, então apenas o seguimos mesmo sem entender nada do que estava acontecendo. Todos os outros também o seguiam, então na minha conversa mental, não via o porquê de não fazer aquilo também.
Seguimos Juca até fora da festa. Da onde estávamos, podíamos escutar a música, mas a luz dos holofotes já não chegavam mais em nós. Agora éramos apenas todos nós sob a luz perfeito do luar e o barulho do vento forte que cortava um pouco o som da música alta que vinha da parte da praia onde o show estava acontecendo. O som das ondas do mar se fazia cada vez mais evidente.
― O que estamos fazendo aqui? ― pergunto confuso.
― Já, já começa a queima de fogos na ilha de Santa Rita e olhar o céu sem toda aquelas luzes deixa o show ainda mais mágico! ― responde Juca esfregando uma mão na outra.
Agora olho mais adiante e vejo as meninas tirando suas sandálias e correndo em direção à praia. Carminha, Fiona, Laurinda, Rebeca e Fátima, agora com a sua calça virada até a panturrilha. Todas estavam com os braços cruzados uns nas outras lado a lado, correndo ao mesmo tempo e pulando a primeira onda que vinha em direção à areia. Sorrio enquanto assistia aquela cena, então vejo ao meu lado Andrew tirando seus sapatos novos e em seguida as meias. Alço minha sobrancelha direita, enquanto desço a esquerda fitando-o.
― E aí, quer vir comigo? ― indaga ele.
Automaticamente sorrio com aquela pergunta e tiro a minha sapatilha sem nenhum meia. Galeto e Farofinha também se oferecem para se juntar à nós e quando vejo, todos os homens já estão vindo para pular as ondas da praia também. Emílio ficou parado onde estava, então Galeto e Farofinha chamaram-no para compor o grupo com a gente, então foi quando ele tirou os sapatos e veio com a gente. Enquanto as meninas voltavam para a areia, Juca, Belo, Emílio, Galeto, Farofinha, Andrew e eu, fomos em direção a água, o que arrancou algumas risadas das meninas e também alguns aplausos e assobios.
― Agora vejam como é que se faz meninas! ― gritou Farofinha.
― Vai lá! ― torceu Carminha com aplausos e sibilos.
Fizemos o mesmo que elas, cruzando os nossos braços uns nos dos outros e esperando a onda se aproximar um pouco mais para pularmos. Assim que ela se aproximou um pouco mais, tentamos pular ao mesmo tempo, mas foi tudo por água abaixo, literalmente. Alguns pularam primeiro, outros depois desordenando todo o esquema bolado por nós de como fazer aquilo da certo. As meninas atrás de nós riram da nossa tentativa frustrada de pular uma simples onda ao mesmo tempo.
Tentamos uma segunda vez e no "já", conseguimos com louvor pular a outra onda, então depois disso, pular as sete ondas foi bem mais tranquilo. É óbvio que aquela primeira onda não tinha sido válida, já que saiu tudo fora dos conformes, mas com a nova organização deu tudo certo, por mais que em alguns momentos alguns cambaleassem ao pular, ameaçando cair em efeito dominó, mas por sorte conseguiram se manter de pé e concluímos sem interrupções o salto sobre ondas, o maior clichê das viradas de anos, além da roupa branca, é claro.
Assim que voltamos para a areia novamente, faltavam apenas cinco minutos para a meia noite, o que determinaria o próximo ano e também a queima de fogos por sete minutos consecutivos de pura magia no céu. Andrew estava ao meu lado e eu cruzei o meu braço no dele, recostando minha cabeça em seu ombro, à espera do momento em que os fogos de artifício coloriram o céu daquele novo ano que já estava às portas.
Não demorou muito para a contagem regressiva começar. A música do show já tinha parado de tocar e agora podíamos ouvir uma grande multidão contando em uma alta voz a contagem regressiva para o novo ano que iria entrar. Nós isolados ali na praia começamos a fazer o mesmo. Agora eu já não estava mais com a cabeça encostada no ombro de Andrew, vendo todo o movimento ao meu redor.
― Dez... ― disse olhando para os lados e vendo todos fazendo o mesmo. ― Nove... ― agora olho para o céu. ― Oito... ― sinto o meu coração acelerar no peito. ― Sete... ― Tento afastar a ideia louca que acabou de surgir na minha cabeça. ― Seis... ― Olho para Andrew completamente perdido. ― Cinco... ― paro de contar no mesmo instante sentido meu coração gritar loucamente. ― Quatro... ― Andrew percebe o meu olhar e olha de volta para mim com um sorriso meigo no rosto. ― Três... ― Sinto uma adrenalina louca atingir todo o meu corpo, entorpencendo as ideias claras na minha mente me dando um único foco. ― Dois... ― Sinto um impulso enorme atingir meu corpo e eu sabia que poderia fazer qualquer coisa naquele instante. ― Um... ― Acho que Andrew percebeu meu nervosismo, pois parou de contar e sorrir. ― Feliz ano novo! ― eu beijo Andrew no impulso da minha mente e corpo, apenas sentindo que era como meu último segundo de existência para fazer qualquer coisa que eu quisesse, então simplesmente fiz sem pensar muito, deixando me levar pelos meus reflexos e sem ignorar o desejo que senti de imediato.
Assim que nossos lábios se distanciam, percebo o que eu fiz. Meu coração agora batia aceleradamente, mas por outro novo motivo chamado: medo. Fito Andrew com olhos arregalados. A queima dos fogos começa acima de nossas cabeças enchendo de cor o céu negro. Durante o período da queima de fogos, evitei olhar para Andrew sem saber qual seria a sua reação após isso e pensando no que dizer caso ele perguntasse alguma coisa.
Assim que a queima de fogos cessou, nossos amigos vem em nossa direção para nos abraçar e desejar um feliz ano novo. Levantei do chão para cumprimentá-los, abraçando todos eles e sentindo algo muito estranho dentro de mim, um sentimento desconhecido que não sabia distinguir. Sentia apenas uma escuridão que fazia eu sentir como se tivesse triste ao mesmo tempo que sentisse culpa. Tudo o que eu queria era fugir de Andrew naquele instante.
Andrew se aproxima de mim e mesmo que eu queira sair correndo dele, permaneço ali, no entanto não o fito diretamente nos olhos, enquanto sinto o meu coração gritar para eu me lançar no mar igual uma oferenda de fim de ano, mas obviamente dessa vez não dei ouvidos a voz da minha cabeça, afinal já tinha me deixado meter em uma louca confusão mental e sentimental num pequeno minuto da noite.
Tudo o que eu não queria falar no momento presente, era sobre o que acabara de acontecer. Ainda não sabia qual desculpa dar à ele pela atitude que eu tomei. No momento não conseguia pensar, devido ao impacto que o nervosismo estava causando na minha cabeça, sentia um bloqueio se acomodar, impedindo-me de tentar pensar em qualquer desculpa.
― Max, está tudo bem? ― é tudo o que ele pergunta.
― Eu quero ir para casa! ― digo ainda sem encará-lo.
― Tudo bem! ― diz ele por fim. ― Eu te levo em casa!
― Não! ― exclamo no mesmo instante, acarretando um olhar de susto de Andrew para mim. ― Quer dizer, não precisa!
― Está tudo bem Max, eu te levo em casa. Sem problemas.
― Acho que dá para mim ir sozinho, você pode ficar e curtir o resto da noite com o pessoal. Eu estou um pouco cansado.
― Eu vou também Max, é a desculpa perfeita para mim ir para casa dormir também.
Vejo que nada do que eu falasse ia mudar a decisão de Andrew, então dou de ombros e assinto com a cabeça, então vamos até os outros para nos despedir. Alguns questionam nossa saída e outros fazem ares maliciosos para a gente, como se a gente realmente fosse fazer algo mais. A única coisa que pude fazer, foi rir, deixando tudo por conta da imaginação deles. Abraçamos cada um individualmente dizendo o quanto tinha sido bem vê-los novamente e passar um ótimo período de tempo com eles. Realmente gostei de reencontrá-los ali e ver o quanto eles mudaram, outros não, mas vê-los vivendo felizes era o mais importante.
Sigo o caminho silenciosamente. O clima aparentemente estava um tanto pesado sobre os nossos ombros. Evitei olhar Andrew o máximo que pude e toda vez que chegava o mais perto possível de focar em seu rosto, minhas lembranças se agitavam me mostrando imagens do olhar assustado de Andrew depois que eu o beijei sem nenhum precisão. O que eu tinha feito? Eu não sabia. A única coisa que eu tinha em mente naquele momento, era que eu queria de fato beijá-lo. Não sei porque, mas vê-lo sob a luz do luar com aquele sorriso magnífico no rosto dele me fez incontrolávelmente querer beijá-lo.
Certos filmes e seriados que vemos na televisão que mostram essa cerimônia de passagem de ano, também mostravam casais se beijando, dando o último beijo de um ano e o primeiro de outro. Talvez de uma certa forma no meu subconsciente, eu quisesse fazer aquilo justamente por aquele motivo. Antes mesmo disso acontecer, eu costumava me imaginar beijando outra pessoa como forma avassaladora de encerramento de ano.
Assim que chegamos em frente à minha casa paramos ainda em total silêncio. Meu coração está mais acelerado que nunca e eu sinto que meu corpo quer me trair, falhando naquele momento, o que me faria vacilar. Ainda não estou fitando Andrew, apenas olhando seus pés descalços, já que tanto ele quanto eu, trouxemos os nossos respectivos sapatos em mãos, já que a areia da praia havia grudado e ressecado os nossos pés.
― Max me responde uma coisa! ― iniciou ele e o meu coração quase pulou do meu peito para fora. ― Não que eu tenha achado ruim ou esteja reclamando, na verdade é só curiosidade mesmo, então lá vai. Por que você me beijou lá na praia?
Finalmente foco no seu rosto e posso ver seus olhos castanhos diretamente cravados em mim. Sinto que vou explodir naquele momento, mas infelizmente isso não me acontece, tendo em vista que aquilo ainda seria melhor do que ter que responder àquela pergunta que Andrew acabara de me fazer. Por que eu não poderia simplesmente sumir ou evaporar dali?
― Eu... Ah, eu... ― titubeei ainda sem saber o que dizer.
Uma lembrança logo invade a minha memória. Lembro de quando Andrew me puxou no meio da rua para me dar um beijo quando viu que Antônio, o seu ex, se aproximar para fazer ciúme à ele. Pensei que essa poderia ser uma ótima mentira para contar. Uma forma de vingança ao mesmo tempo que queria realizar um desejo meu de encerrar o ano com um beijo.
― Bem, você também já roubou um beijo meu para fazer ciúmes ao seu ex, então agora estamos quites! ― respondo por fim à sua pergunta.
― Max você está mentindo! ― fala ele cruzando os braços e expressando um ar de riso.
Merda!
― Bem, eu não sei! ― respondo expressivamente.
Andrew não diz nada apenas continua me fitando com os braços cruzados.
Embora minha boca tivesse falado uma coisa, minha cabeça gritava outra totalmente diferente. O fato é que eu o beijei porque eu queria. Não sei porque eu queria, mas eu queria e me deixei levar pelo meu desejo. Cada vez mais que o meu coração batia mais rápido e mais forte, minha cabeça gritava para eu dizer à ele o real motivo daquele beijo.
Quando sua cabeça entra em uma discussão com a sua boca, sua boca sempre vai ser a vencedora, porque ela realmente externa o que quiser, enquanto certas coisas que deveriam ser ditas ficam armazenadas na sua cabeça apenas para você mesmo. Coisas que muitas vezes nunca diremos em voz alta.
Eu queria poder dizer mais alguma coisa, mas tudo o que faço é abrir o pequeno portão da casa de mamãe e passar para o lado de dentro. Andrew descruza os braços e sua expressão muda com aquele gesto quase como se os dois tivessem uma ligação direta. Andrew agora me fita com a testa franzida enquanto sua boca se abre aos poucos como se ele fosse dizer mais alguma coisa, mas ela se fecha logo em seguida e e ele joga seu rosto para o lado cerrando sua expressão.
Meu coração está batendo de uma maneira tão intensa, que posso sentí-lo vibrar na parte traseira da minha cabeça. Eu nunca mais tinha vivido uma sensação tão forte que me fizesse aquilo. Minha mão ainda estava segurando o portão sem querer soltá-lo. Queria voltar a abrí-lo e correr até Andrew e lhe dar outro beijo. Arregalei meus olhos quando me peguei pensando aquilo. O que estava dando em mim? Por que eu estava querendo beijar o meu melhor amigo? Que porra é essa? Não!
― Olha, me desculpa Max! ― diz Andrew por fim.
― Olha Andrew, quer saber a verdade? ― encho o pulmão para falar aquelas próximas palavras. ― Eu te beijei na praia porque eu realmente quis tá legal? Eu te vi ali e não sei o que deu em mim, mas eu quis te beijar sinceramente e eu fiz. Talvez tenha sido algo pelo calor do momento ou mesmo um desejo já arquivado de beijar alguém no fim do ano, mas eu te beijei e a única culpa que sinto é pelo mexo de que a nossa amizade não venha a ser a mesma depois disso. Eu não quero te perder Andrew. Tenho muito medo disso.
Andrew abre um sorriso.
― Primeiro que você já me beijou antes e segundo que você já me viu pelado e eu também te vi pelado e agora um simples beijo vai acabar a nossa amizade, como assim?
Sorrio jogando ar para fora da boca. Andrew me fez ver aquilo como um drama ridículo da minha cabeça, o que se de fato fosse parar para analisar, era mesmo. Passo a mão pela minha testa que estava levemente suada devido àquela breve e pequena discussão que tivemos ali mesmo.
― Você tem razão Andrew! ― cedo por fim.
O silêncio entre nós volta a pairar e posso ouvir alguns grilos cantando no pequeno jardim da minha mãe.
― Bem, à propósito, parabéns! ― digo rindo. ― Você beija muito bem!
Andrew da aquela risada maliciosa dele que me faz querer socar a cara dele ― no bom sentido é claro ― na verdade nem mesmo sei se essa expressão tem um bom sentido, mas é isto.
― Que bom que você gostou! ― responde ele.
Dou uma pequena risada, então me despeço dele e sigo o bem devagar pelo caminho de pedra que tinha até o batente e por fim a varanda. Olho pra trás Andrew está se locomovendo pela rua se afastando, mas ainda estava avista. Ele percebe que estou olhando para trás, então acena para mim, que devolvo o gesto com um sorriso, mas não sei porque sinto um aperto logo que faço isso. A vontade de beijá-lo novamente volta tão forte quanto antes. Volto a olhar para trás, mas Andrew já não está mais à vista. Tento então afastar aquele pensamento da cabeça.
Fico por algum tempo na porta da casa da minha mãe totalmente imobilizado. Eu estava entre o caminho para a minha cama e o caminho direto para Andrew, mas não conseguia decidir o que eu queria fazer. Eu estava totalmente confuso naquele momento. Parecia até que mil vozes falavam ao mesmo tempo na minha cabeça o que eu tinha que fazer, enquanto meu coração sentia pontadas contínuas e meu corpo ponderava entre seguir para dentro e correr até Andrew. Eu estava uma bagunça. Estava à beira de um surto quando ouço uma voz me chamar no portão bem atrás de mim, acabando por me assustar. Viro-me para ver quem era.
― Andrew! ― gelo ao falar o seu nome.
― Max eu só queria falar que... ― começa ele aparentemente um pouco nervoso. ― Bem, ah...
Meu coração almejava alguma coisa que poderia sair da boca dele completamente ávido.
― Bem, eu só queria te desejar um feliz ano novo! ― fala ele por fim desfazendo sua antiga expressão nervosa.
― Ah! ― uma certa decepção me invade e nem ao menos sabia o que estava esperando ouvir dele que me empolgasse. ― Feliz ano novo!
Ele sai um novamente um tanto desconcertado e eu sinto nesse mesmo instante uma adrenalina percorrer todo o meu corpo de uma maneira intensa e naquele momento eu sinto que poderia fazer qualquer coisa, então enquanto Andrew ainda está saindo simplesmente o chamo e assim que ele olha para trás, corro em sua direção.
Enquanto corria aquele pequeno caminho de pedra, sinto que meu está voando até Andrew e apenas uma única coisa se passava na minha cabeça naquele instante. Um único foco. Abro o pequeno portão e ao chegar mais perto de Andrew o beijo intensamente me permitindo sentir tudo o que eu queria sentir naquele momento. Me sentia exatamente como na praia com mil fogos de artifício explodindo sobre as nossas cabeças enquanto eu o beijava sem me importar com mais nada.
Quando me afasto dele, meu medo volta por completo e eu o fito esperando uma reação para aquilo, mas o que havia acontecido na praia não se repete, pois agora consigo acompanhar o rosto de Andrew se transformar. Um sorriso se abre na sua face tão belo como uma noite estrelada.
― Parece que você tirou literalmente as palavras da minha boca! ― comenta ele.
Sorrio em resposta.
― Acho que preciso que você fale mais um pouco por mim! ― completa se aproximando novamente de mim e me envolvendo com seus braços, enquanto nossos lábios se encontravam novamente numa conversa fluente, contando nossas histórias.
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