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Agora estava tudo mais tranquilo.

De certa forma, depois que eu gravei o vídeo com a Dorinha Milão, era como se aquilo quase que por completo, já tivesse sido resolvido. Nunca mais iria querer outro problema com a Naty Cardoso. Basicamente todos os seguidores de Dorinha me ouviram e me apoiaram. Aquilo já me dava uma certa consideração em meio ao público da Internet. Meu coração de fato já estava mais tranquilo e era só uma questão de tempo para aquilo tudo se estabilizar e a minha imagem ser definitivamente sossegada novamente.

Sempre desejei a fama e isso era óbvio, afinal sempre estava correndo atrás de inscritos para o meu canal, patrocinadores e tudo mais, porém a maneira que eu não queria aparecer em meio a fama, era por meio de brigas e barracos. Para mim, aquela era a pior maneira de ser conhecido pelas pessoas. Sabe quando dizem que a primeira impressão é a que fica? No mundo dos famosos era sempre assim. Para sempre se ia de ser lembrado por um ato que você cometeu em seus anos passados.

Agora, eu estava na mesa da cozinha escrevendo o roteiro para o meu próximo vídeo no canal. Estava tentando bolar alguma coisa legal para os meus inscritos velhos, novos e ainda os futuros, que esperava por meio de afiança aquilo. Até aquele momento, eu ainda não tinha tido um feixe de luz na mente. Minhas ideias pareciam ter simplesmente sumido no momento em que eu mais preciso delas. Acho que minha cabeça não funcionava sob pressão.

Eu já tinha visto alguns vídeos de outros youtubers na Internet, algo que pudesse me fazer desenvolver uma ideia para algum vídeo. Eu ainda era novato com essa coisa de gravar vídeos com o meu, abre aspas, namorado, fecha aspas. Não era acostumado a fazer vídeos de tags. Os vídeos que mais estavam me dando visualizações eram os que Andrew estava. Eu não queria perder aquilo. Meu canal já não estava sendo o meu canal e sim um canal meu e de Andrew, já que ele estava produzindo mais vídeos para o meu canal do que o canal dele. Já fazia algumas semanas pelo menos, que ele não gravava nada para o canal dele.

Continuava ali tentando me concentrar, mas toda a concentração estava sendo pouca, pois não estava surtindo efeito algum. Meu problema estava no bloqueio criativo e quanto a isso eu não podia fazer mais nada a não ser esperar milagrosamente pela lâmpada surgir no topo da minha cabeça com uma ideia prontamente carregada.

Eu já havia tocado a folha várias vezes com a ponta da caneta e nada. Já havia feito alguns pontos de tinta na folha e essa foi a única coisa que consegui pôr na folha devido à tudo aquilo. Larguei a caneta em cima da mesa e esfreguei meu rosto com as duas mãos. Não sabia mais o que eu poderia fazer. Já estava ali há pelo menos umas duas horas e nada ainda havia saído da minha cabeça.

O silêncio nunca me incomodou tanto como naquele dia. Aquele apartamento estava como o próprio vácuo do espaço. Quieto e vago. Era ótimo dispor do silêncio quando sua cabeça parecia uma cachoeira profusa, jorrando ideias sem parar para se anotar no papel e às vezes parecia que o papel era um mundo tão mínimo para o quanto sua mente podia imaginar e criar naquele momento. Não era o caso.

Meu celular começa a vibrar em cima da mesa e consigo sentir as ondas vibrantes se espalharem por toda a mesa. Olho em direção ao meu celular e percebo que alguém está ligando para mim. Pego imediatamente e atendo. Era Pedro Castanhal novamente. Ele queria se encontrar comigo para que pudéssemos conversar. Acabei por marcar numa praça ali perto às quatro da tarde e ele confirmou que estaria lá pontualmente.

Desligo o celular. Ainda são 2:30 da tarde. Meu bloqueio criativo ainda não havia melhorado. Estava tão permanente quanto antes. Já estava para desistir de gravar aquele vídeo, quando me veio uma ideia. Consegui em meio aos vasculhos em minha mente, encontrar algo útil para pôr em um vídeo. No fim das contas, sabia que iria casar por pensar em algo.

Lembrei-me das vezes que eu brinquei de "Eu Nunca" em minha adolescência. Andrew também participava da roda, portanto ele também lembraria bem sãs vezes que jogávamos. Os garotos jogavam com bebidas alcoólicas para valer. Lembro que fiquei bêbado até uma das vezes, porque eu fazia todo o tipo de merda que se podia imaginar.

Alguns youtubers também já haviam feito aquele jogo em seus respectivos canais e sempre surtira muito bons os resultados em questão de visualizações. Agora era a minha vez se fazer. Eu agia segundo a moda do YouTube, então o que estava em alta, fazíamos para atrair novos olhos para o canal.

Automaticamente lembrei de Giovanni. Não sei se ele toparia vir e gravar esse vídeo. Esperava que sim. Reuniria pelo menos quatro pessoas, incluindo à mim, para fazer aquele vídeo. Já estava com a ideia mais que fixa em minha cabeça. Era uma forma de chamar mais pessoas para o meu canal também se colocasse a Dorinha Milão em um vídeo no meu canal, pois os fãs dela automaticamente viriam assistir o meu vídeo no meu canal, dando mais likes e visualizações. Consequentemente o vídeo seria recomendado para novas pessoas convidando novos inscritos para virem assistir o meu canal. Era uma ideia simplesmente genial.

Em meio aos meus vários pensamentos, vi que já eram quase três e meia. Eu tinha que começar a me arrumar para me encontrar com Pedro Castanhal. Corri para o banheiro para tomar um banho e assim que saí selecionei um novo par de roupa para vestir. Algo que me deixasse arrumando, mas não tanto. Algo despojado. Peguei uma bermuda jeans e uma camisa branca com alguns detalhes pretos. Pus uma sapatilha perky carbon no pé e me perfumei todo.

Quando olho no relógio já eram quase quatro horas e eu ainda iria andar até chegar ao destino programado, gastando mais algum tempo. Provavelmente chegaria alguns minutos depois das quatro horas. Se ele realmente fosse pontual, iria notar isso, caso não, tanto faria. Saí de casa apressado e andei o mais rápido que pude para chegar o mais breve possível no local.

Ao chegar lá, Pedro Castanhal já estava. Ele esperava com as mãos no bolso de sua bermuda preta. Ele usava uma camisa também preta e de mangas longas com um estampado cinza do Bob Marley. Usava uma sandália slide nos pés de cor verde neon e acho que não parecia se importar em chamar toda a atenção para os seus pés. Ele sorriu ao me ver chegar dez minutos depois do combinado. Acho que ele realmente cumprira a promessa de pontualidade feita outrora pelo seu telefone.

― Estou muito atrasado? ― pergunto automaticamente ao chegar ainda mais próximo dele.

― Não muito! ― diz ele sorrindo.

― Desculpa, mas eu acabei me distraindo!

― Tudo bem! ― diz ele não parecendo ligar mesmo pelo meu pequeno atraso.

― Bem, e então, sobre o que quer falar?

― Te chamei, na verdade, pra te pedir desculpas sobre tudo o que aconteceu na festa no outro dia...

― Não foi culpa sua! ― interrompo-o na mesma hora.

― Olha, mas eu tinha que te pedir desculpas pelo menos, afinal foi eu que te convidei para ir à minha festa.

― Não precisa se preocupar Pedro, relaxa!

― Isso já aconteceu há alguns dias atrás e eu tinha que pelo menos ter te ligado pedindo desculpas eu fui um péssimo anfitrião.

― Olha, sinceramente curti a sua festa independente de qualquer coisa e as pessoas realmente têm razão quando dizem que você organiza as melhores festas.

― Modéstia à parte, eu realmente faço as melhores festas! ― fala com um sorriso vaidoso estampado no rosto.

Sorrio em resposta. As ridas vão cessando até que se extinguem por completo e por alguns segundos o silêncio se faz presente entre nós.

― Eu tentei impedir a Naty de postar aquele vídeo detonando você! ― confessa Pedro quebrando o silêncio.

Voltei meu olhar para ele no mesmo momento.

― Infelizmente eu não consegui você já dever ter visto! ― concluiu ele.

― Já sim, mas valeu a tentativa mesmo assim!

― Agora tudo o que eu poderia no mínimo era te pedir desculpas por tudo.

― Olha Pedro, já passou, você não precisa se preocupar!

Mais um minuto o silêncio paira.

― Eu vi o seu vídeo com a Dorinha Milão! ― revela ele voltando a romper o silêncio.

― Ah é claro, eu fui gravar lá à convite e foi muito bom.

― É, realmente, Giovanni é uma ótima pessoa!

― É mesmo!

― Uma pena ele não ser gay, porque eu já dei em cima dele até demais!

― Realmente! ― digo rindo.

― É, mas um dia ele vai achar alguém que ame ele de verdade independente de qualquer coisa.

― Eu tenho certeza!

Pedro e eu passamos mais algum tempo ali conversando e acabamos entrando no assunto da Naty Cardoso novamente. Pedro contou que havia namorado ela há algum tempo atrás e que fora a maior decepção de sua vida. Naty era uma garota muito bonita isso era evidente e realmente faria muitas pessoas se apaixonarem por ela, inclusive Pedro.

Ele já a admirava porque ela sempre fora nem famosa no YouTube e sua conta só crescia cada vez mais. Na época Pedro ainda não era tão conhecido como era agora. Ainda estava, assim como eu, tentando subir cada degrau para um dia chegar a ter tudo o que tinha no tempo atual. Aquilo já fazia pelo menos uns cinco anos, época que eu ainda estava vivendo minha vida no interior e concluindo o meu fundamental ainda.

Pedro revelou que conheceu ela num encontro de youtubers. Ela não deu muita bola para ele ao conhecê-lo, mas ele insistiu em chamar à sua atenção. Ele tentara várias coisas e um dia conseguiu convencer a uma das amigas de Naty Cardoso à lhe passar o número dela para ele poder falar com ela. Agora com o número ganho, Pedro a chamou no privado. Ela o respondeu, mas sempre apenas por conveniência.

Depois de muito insistir com Naty por mais ou menos uns dois anos, ele finalmente estava conseguindo fazer com que ela começasse a enxergar-lo diferente através de suas mensagens insistentes e de seu senso de humor, então pouco tempo depois eles começaram a namorar. Gravavam vídeos juntos e foi dessa forma que começou a ser conhecido na Internet. Ela já tinha muitos seguidores que passaram imediatamente a seguirem Pedro quando descobriram que eles estavam namorando.

Algum tempo depois se passou e o namoro deles continuava, até que Pedro começou a enxergar quem era Naty Cardoso de fato. O amor nem sempre é cego. Ele poderia estar apaixonado como fosse por ela, mas conseguia mesmo assim enxergar que ela não era uma pessoa muito fácil. Aos poucos ela foi se mostrando uma garota arrogante e impetuosa e foi isso que fez com que Pedro fosse aos poucos deixando de gostar dela. Ele ficou frustrado.

Tempos depois, Pedro acabou por terminar com Naty. Foi um termino bastante tranquilo que de certa forma até surpreendeu Pedro, pois ele esperava uma reação igual a que ela tomara comigo, me expondo na Internet e me nomeando de todas as piores cousas possíveis na face da terra.

Pedro nem ao menos lembrava-se mais do que dissera à ela quando terminaram, mas é óbvio que ele não falou que terminou com ela porque ela era uma garota completamente arrogante e mimada. Ele inventou qualquer outra desculpa e ela simplesmente concordou com o que quer que fosse, então terminaram de uma forma bem parcial, mantendo a amizade. Foi um termino bem maduro.

Saber daquilo tudo para mim foi algo esclarecedor. Eu realmente não sabia da história completa e nunca imaginaría nem em um milhão de anos que poderia ter sido daquela forma, exceto a parte de que ele acabou ganhando mais inscritos por causa dela. Acho que aquilo era uma coisa até meio óbvia.

Quando me despedi de Pedro, senti que havia resolvido por fim todo aquele mal entendido de uma vez. Agora eu estava pronto para esquecer aquilo tudo e recomeçar tudo novamente de onde eu havia parado. Tudo acabou por se encaixar no fim das contas. Abracei Pedro e finalmente o deixei, voltando novamente para o meu lar.

Chegando em casa, troquei de roupa, pondo roupas mais leves para ficar em casa. Vasculhei no armário alguma coisa para comer e tudo que pude achar foi um pacote escondido bem no fundo de bolachas. Abri e comi com um resto de suco que achei na garrafa do almoço. Fiquei deitado no sofá tentando decidir o que fazer a seguir, mas confesso que estava impaciente para fazer qualquer outra coisa. Sabia que se botasse algum episódio de série para assistir eu não aproveitaria da maneira como se era devida e sabia que não iria conseguir me concentrar em qualquer outra coisa.

Por fim pego meu celular e fico olhando as minhas redes sociais. Era a única coisa no momento para mim fazer, pois queria apenas distrair a minha mente um pouco. Por ora consegui, mas logo Andrew apontou na porta e eu larguei tudo o que eu estava fazendo para recebê-lo.

Quando Andrew passou pela porta, vi que ele carregava um gato no braço e na outra uma sacola do mercado. Fui ao encontro dele e fiz um afago no pobre animal que parecia tão assustado. Tomei em meus braços e passei minha mão por sua cabeça por várias vezes até ele finalmente achar o conforto necessário em meu colo.

― Da onde ele veio? ― pergunto me dirigindo a Andrew.

― Estava na rua. O dono o havia abandonado porque descobriu que era uma gata e não um gato.

― Nossa que triste!

― Pois é. Ela não fez mal a ninguém para ser abandonada dessa forma. A sorte é que eu estava passando na mesma hora e quis logo trazê-la. Você sabe que eu me derreto quando se trata de animais.

Agora a filhote estava um pouco mais desinibida em meu braço e passava sua pequena cabeça pelo meu corpo. Ela miou baixo e aquilo me fez abraça-la ainda mais. Seu miado foi fraco e um tanto agudo. Ela ainda era um pequeno filhote de gato.

― Que nome você pensa em dar para ela? ― questiono passando meu rosto no rosto dela carinhosamente.

― Ainda não pensei nisso!

― E que tal malhada? ― sugiro devido ao misto de cores que ela tinha no pele entre branco, cinza e preto.

― Isso é nome de vaca!

― Ah, mas eu acho que combina com ela!

― Não! ― diz Andrew fazendo uma careta e balançando a cabeça negativamente. ― De jeito nenhum!

― Que tal Xana? ― sugiro um novo nome.

― Parece nome de vagina não depilada.

― E que tal xaneta?

― Parece nome de vagina que está engasgada com uma maçaneta.

― E que tal bola de pêlo?

― Isso é mesmo sério Max?

― Tudo bem, que tal Carlota?

― Isso parece nome de prostituta do século dezenove.

― E Madalena?

― Nome de prostituta da bíblia.

― E que tal Xanana?

― Olha, estou começando a desconfiar que você gosta de vagina!

― Tô começando a ficar sem ideias Andrew!

― Que tal colocar o nome dela de Kid?

― Kid? ― fiz uma careta espontaneamente. ― Tipo o Kid Bengala?

― Credo, é óbvio que não. Era pra ser igual a criança em inglês.

― Eu acho melhor não!

― Qual então?

― Poderia ser Nenê não acha?

― Ah, eu gostei. Remete ao pequeno tamanho dela, o que era justamente o que eu queria fazer.

― Então está decidido! ― dei o veredito final. ― Você gosta desse nome Nenê, gosta? ― falei com uma voz em falsete diretamente com a gatinha.

Andrew se aproximou e passou a mão pela cabeça dela e ela automaticamente fechou os seus pequenos olhos recebendo o afeto de seu mais novo dono.

― Ah, já comprei ração para ela no mercado quando eu vinha para casa. Vou pôr um pouco num pratinho para ela comer. Não é mesmo Nenê? ― disse ele se voltando novamente para ela.

Andrew saiu em direção a cozinha para pegar uma vasilha que pudesse colocar a ração da Nenê, já que ele não tinha comprado nenhuma vasilha própria para aquilo em nenhum Pet Shop no caminho. Pegou uma pequena vasilha de plástico azul arredondada e despejou um pouco da ração que ele havia comprado para ela. Ele colocou no chão da cozinha e eu a levei até lá no braço.

Ao chegar lá a coloquei no chão de frente para a vasilha. Ela deu passos atrapalhados até que caiu com a cara dentro da vasilha. Ela sentiu o cheiro da comida e aos poucos foi degustando o sei alimento. Olhei para Andrew que fitava a gatinha com um sorriso bobo aberto no rosto. Acabei sorrindo ao ver o sorriso dele, então volto a olhar para a gatinha que comia agora, nervosamente e já estava quase no fim da porção de ração que Andrew havia colocado para ela. Ela estava realmente com fome pelo visto.

Voltei a olhar para o sorriso de Andrew. Não sabia exatamente o porquê eu estava fazendo aquilo, mas era um reflexo inevitável. Ele olhou para mim ainda sorrindo. Senti uma pontada no coração assim que o seu olhar caiu sobre mim. Senti um certo nervosismo. Não consegui sorrir de volta completamente, apenas movi as laterais na minha boca numa tentativa falha do que seria um sorriso. Andrew voltou a focar o seu olhar na gatinha. Eu continuei reparando no seu sorriso. Não sei o porquê daquilo.

Desviei os olhos antes que ele voltasse a olhar para mim novamente. Também volto a do depositar o meu olhar na pequena filhote. Ela já havia acabado de comer, porém ainda cheirava o fundo da vasilha. Quando finalmente percebeu que a comida havia acabado ela miou andando em direção à Andrew. Ele a pegou no colo e a encheu de mimos como um pai faz quando o filho corre diretamente para o seu colo. Nenê parecia gostar muito do colo do seu novo pai. Dei um sorriso involuntário.

Andrew olhava para a gatinha como sendo o bem mais precioso de toda a sua vida. Seu olhar estava cheio de luz. A felicidade estava nítida em seus olhos. Conseguia sentir a transmissão do sentimento de preenchimento que estava sentindo por estar com aquela pequena mascote. Ele voltou a sorrir novamente e eu caí na graça do seu sorriso olhando como se pudesse viajar por entre ele. Voltei a dar mais uma vez aquele mesmo sorriso involuntário e cheguei a seguinte conclusão, Andrew me contagiava.

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