CAPÍTULO X: O FIM DA TRÉGUA.
O dinheiro da premiação do campeonato interescolar de natação foi depositado na conta do irmão do Marco a meu pedido, e ele concordou em me fazer esse favor. Com ele eu ajudei a pagar as contas da casa do Marco, ele relutou muito em aceitar, mas acabou cedendo. Meu aniversário estava cada vez mais próximo e eu planejava usar uma pequena quantidade do dinheiro pra comprar algumas coisas pra comemorar com os Untochers.
Na segunda-feira, eu e os Untochers estávamos na sala do clube quando alguém bateu na porta.
— Entre — respondi.
Era o Sr. Yana.
— Com licença, Jayme podemos trocar uma ideia? — perguntou ele.
— Claro — respondi. — Pode falar, não escondo nada dos meus amigos.
— É sobre a recompensa que te prometi caso vencesse o campeonato de natação interescolar. Esperei você tocar no assunto semana passada, mas você não tocou.
— Ah, desculpa, Jonas, é que aconteceu muita coisa nesses últimos dias, acabei esquecendo.
— Mas você ainda quer seu pagamento né? — perguntou ele. — Não vou negar que gostaria que você desistisse do pagamento que prometi.
— Não, senhor — respondi. — Promessa é dívida, meu parceiro.
— É que eu olhei o preço do restaurante recentemente… Pra comer lá tem que vender um rim — disse ele sorrindo. — Mas e então, quando posso pagar minha dívida?
— Pode ser hoje à noite, tudo bem pra você?
— Tudo — respondeu ele.
— Formou então.
*******
Não larguei o clube de natação após aquela pequena vitória, o Sr. Greenwood prometeu me escrever em várias outras competições onde eu poderia ganhar muito mais dinheiro caso ficasse no clube, e como eu tava precisando de dinheiro, obviamente eu aceitei. Então todo domingo após deixar a Diamante Negro, eu ia até à escola treinar.
— Sabe que eu levaria você se pudesse né? — disse eu a Marco quando estava de saída pra jantar com o Sr. Yana, por volta das sete e meia.
— Não esquenta, cara — respondeu ele. — De qualquer jeito eu não gosto de comida francesa.
Lá fora nós ouvimos o som de uma moto parando e buzinando frente à casa .
Quando cheguei ao lado de fora, o Sr. Yana me aguardava abordo de sua Harley Davidson chamada Charles, o xodozinho dele.
Não estava muito diferente de como eu o via na escola, usava calça preta e camisa social branca, só que ao invés de seus típicos óculos de aros pretos retangulares, ele usava um óculos sem armação; um detalhe sutil, mas intrigante, e é claro, um par de capacetes pretos, um na cabeça e outro pendurado no braço.
Eu me aproximei dele e peguei o outro capacete.
— Já andou de moto antes? — perguntou ele.
— Não, senhor — respondi. Estava um pouco nervoso.
— Não se preocupe, você vai gostar, é como andar de bicicleta… só que bem mais rápido e um pouco barulhento também.
Aquela foi uma das experiências mais emocionantes da minha adolescência e lembro até hoje de todos os detalhes, mas não vou me estender nisso pois é uma experiência impossível de ser transmitida através de meras palavras.
*******
Entramos no restaurante e um recepcionista nos levou até nossa mesa.
Fizemos os pedidos, o Sr. Yana pediu o prato mais barato da casa, um tipo muito estranho de sopa, e eu pedi um prato razoavelmente barato, um tipo de filé de peixe com um estranho molho preto, até que era gostoso, mas pelo preço eu esperava algo bem melhor. Escolhi aquele prato porque gostava de peixe e o preço não era muito alto, pra não parecer aproveitador, e também não era baixo, pra não parecer que estava com pena do bolso do Sr. Yana.
— Jonas, posso te fazer uma pergunta bem pessoal? — perguntei.
Ele pareceu um pouco receoso de início, mas logo respondeu:
— Faça.
— Você seria capaz de perdoar alguém que arruinou sua vida caso ela se mostrasse uma nova pessoa?
Ele não respondeu de imediato.
— É uma pergunta bem complicada. Como professor eu deveria dizer que "sempre devemos perdoar pois isso nos torna pessoas melhores", mas como seu amigo devo lhe dizer… Perdoar não é fácil, nada fácil na verdade. Então eis o que eu faria: Pegaria o rancor pelo que essa tal pessoa me fez e o nível de arrependimento dela e colocaria ambos em uma balança. Acredito que essa seja a melhor forma de descobrir se vale ou não a pena perdoar. Mas por que a pergunta?
— Não, por nada — respondi. — Só curiosidade mesmo.
*******
Pra sobremesa nós dois pedimos a mesma torta de limão com chocolate amargo, e até que não estava tão ruim quanto eu pensei que fosse.
— Como vão as coisas com seus pais? — perguntou o Sr. Yana.
— Bem… na mesma ainda — respondi.
— Jayme, você tem que fazer um pouco de esforço pra se reconciliar com eles, família é a coisa mais importante que uma pessoa pode ter.
— Eu sei, eu sei. Mas meu pai não aceitou minha escolha de ser um MGTOW, e conhecendo ele, não creio que vá aceitar tão cedo… se é que vai aceitar um dia. Mas e o senhor, o que faria se tivesse um filho MGTOW?
Ele sorriu.
— Infelizmente não posso ter filhos.
— Hã?! — fiquei surpreso. Éramos muito amigos, mas ele nunca havia me falado sobre aquilo.
— Vários anos atrás, eu fiz um check-up e acabei descobrindo que era estéril. Quando dei a notícia à minha ex-mulher, ela… bem, a palavra "ex-mulher" define bem o que ela fez. Perdi uma boa parte do patrimônio que havia lutado pra conseguir, não posso negar que ela havia me ajudado a conseguir, mas, o justo é que os bens fossem divididos meio a meio… e não setenta a trinta como foi. Basicamente a Charles foi a única coisa de muito valor que ela me deixou. Isso tudo aconteceu sete anos atrás, desde então eu tenho me reerguido aos poucos, se algum dia eu vier a me casar novamente, lembrarei de usar o "separação total de bens". Por isso sou simpatizante com aqueles que escolhem o caminho do MGTOW; no mundo em que vivemos hoje é uma boa forma de alto proteção.
Às nove horas, o Sr. Yana me deixou em casa, tocamos os punhos e ele seguiu viagem.
Naquela noite fui me deitar pensando no que ele havia dito sobre pegar o rancor pelo que Kelly me fez e o nível de arrependimento dela e colocar ambos em uma balança.
*******
Passando pela aula de história na sexta-feira, onde não aconteceu nada de que eu possa me queixar, exceto talvez o olhar frio da Srta. Yenifer, o grande dia finalmente havia chegado, domingo 25 de novembro, o dia em que eu me tornei um adulto.
Convidei os Untochers, compramos alguns refrigerantes, pedimos duas pizzas quatro queijos, botamos pra tocar só as músicas favoritas de todos nós e passamos a noite comendo bebendo e jogando conversa fora.
Recebi do Marco um belo par de tênis, Tomas me deu um cartão de memória com a coleção inteira de "A Torre Negra", de Stephen King, em audiolivro e Chris me presenteou com um CD contendo só as melhores músicas da Evanescence.
— Eu queria ter convertido pra um cartão de memória — disse Chris meio sem jeito. — Mas não tinha nem um sobrando e também não tinha mais dinheiro pra comprar outro, foi mal.
— Não esquenta, cara — respondi. — Depois eu passo pro celular usando o notebook do Marco.
Continuamos então a comer, beber e jogar conversa fora até tarde da noite. Aquele havia sido o melhor dia da minha vida em anos, a paz e a felicidade que eu sentia era algo que não me lembrava de ter sentido antes.
Mas essa felicidade não durou muito, mais especificamente ela durou até o dia 7 de dezembro, foi essa a data limite da trégua que a Srta. Yenifer nos deu.
Eu ainda estava irradiando felicidade até o final da aula do Sr. Yana, que aliás foi uma puta aula como sempre. Então, a Srta. Yenifer entrou na sala. Como o assunto da aula continuava a ser o império egípcio, eu ainda estava pensando que não teria como ela encontrar uma brecha pra falar do feminismo, mas como já disse antes, eu me esqueci de uma pessoa muito importante pra história do Egito, e ela era uma mulher… Cleópatra, como eu havia esquecido dela?
— Hoje, nós teremos nossa última aula sobre o império egípcio, e pra fechar com chave de ouro, decidi deixar uma das, se não a pessoa mais importante e famosa do antigo Egito, pro final. Senhoras e senhores… hoje falaremos de Cleópatra.
— Lá vêm… — ouvi Chris sussurrar enquanto passava a mão no rosto.
— Cleópatra VII Filopátor — continuou a Srta. Yenifer — foi a última governante do reino ptolemaico do Egito. Era descendente de Ptolomeu Sóter, um general Greco-macedônio e companheiro de Alexandre, o grande.
Dois importantes governantes romanos caíram aos seus pés como gatinhos, totalmente apaixonados. Mas como ela fez isso? É bem simples. Cleópatra sabia muito bem que um homem não pensa muito bem quando sua genital está ereta e tirou proveito disso, como era naturalmente muito bonita e atraente, não foi difícil para ela seduzir os homens ao seu redor. César e Marco António, não foram exceção à regra.
Porém, ela era muito mais que uma simples sedutora, era fluente em vários idiomas, entendia de estratégias políticas e militares, além de ser uma hábil debatedora.
Nunca chegou de fato a governar sozinha, mas os governantes homens ao seu lado não passavam da sombra de sua grandeza.
Parte do que ela havia dito até ali eram fatos, e a outra parte uma questão de opinião, então não havia nada que eu podesse considerar misandria ou coisa do tipo, era só uma pessoa contando uma história com uma boa porcentagem de opinião própria. O problema… Haha… O problema veio logo depois.
— Cleópatra é um dos melhores exemplos de que mulheres são sim muito melhores do que homens… em áreas que eles PENSAM dominar. De fato se existissem mais mulheres como ela na antiguidade, o mundo seria um lugar muito diferente hoje, muitas atrocidades cometidas pelos homens contra as mulheres poderiam ter sido evitadas.
— Ela voltou — ouvi Chris resmungar ao meu lado.
Acho que ninguém, ali além de Chris e eu, percebeu o que a Srta. Yenifer estava fazendo, ela estava pintando Cleópatra como um exemplo de mulher a ser seguido, de fato ela não era uma pessoa terrível e muitos de seus atos se justificavam pelas condições da guerra política que a cercava, mas ainda assim ela estava longe, muito longe, de ser uma boa pessoa. Cleópatra matou incontáveis membros de sua família pra assegurar seu direito ao trono do Egito, sem falar as pessoas que ela usou e descartou quando não precisou mais, entre eles estão os próprios César e Marco António.
E como se isso não fosse o bastante, ela ainda precisava mandar mensagens quase subliminares aos próprios alunos, de que mulheres são superiores aos homens.
Uma representante de um movimento que diz lutar por igualdade, pregando a superioridade feminina sobre os homens… Isso não era algo raro nem de longe, o problema era o fato dela estar fazendo isso bem na minha frente e no local que eu ia pra reter conhecimento.
A maioria dos MGTOWERS de nível dois acima não está nem aí pro que a sociedade pensa deles ou o que o movimento feminista ainda está pregando em pleno século vinte e um, mas Chris e eu não, nós éramos adolescentes e tínhamos o sangue explosivo de adolescentes correndo em nossas veias.
Vi Chris morder o lábio inferior e então levar o dedo a cicatriz na sombrancelha.
— Chris! — sussurrei pra ele o mais baixo que consegui. Ele olhou pra mim ainda mordendo o lábio. — Tenha calma, o diretor ainda não encerrou a investigação contra ela, vamos dar corda pra essa cobra se enforcar.
— Mas continuar ouvindo essa merda é foda — sussurrou ele com os dentes cerrados.
A aula continuou, mas eu já não conseguia ver nada de útil no que a Srta. Yenifer dizia.
— Ela era uma mulher tão fantástica — dizia ela — que, quando percebeu que sua luta estava perdida, preferiu tirar a própria vida, a se submeter aos desejos dos homens que governavam Roma…
"Isso… faça mais apologia ao suicídio, sua doente mental" — pensei.
A Srta. Yenifer também passou um trabalho no final da aula: "fazer uma redação, à mão, de no mínimo dez páginas, falando da importância de Cleópatra para história da humanidade".
Achei melhor não comentar que aquilo parecia apenas um remaster do outro trabalho que ela passou sobre Cleópatra e Joana D'arc.
*******
— Aquele dragão de cômodo, também passou pra vocês a mesma aula misandrica que passou na nossa sala? — perguntou Chris a Tomas e Marco quando nos reunimos frente ao local das bicicletas.
— Que é que cê acha? — respondeu Tomas mal humorado. — Temos que fazer alguma coisa pra acabar com ela.
— Não — respondi. — Vamos ficar quietos por enquanto, o diretor ainda tá de olho nela, temos que deixar ela mesma se destruir. Além disso, somos apenas estudantes, não temos poder algum sobre os professores, não há nada que possamos fazer pra mudar isso.
De repente eu vi Chris sorrindo feito um maníaco que avista uma vítima em potencial.
— O que foi, cara, que sorriso é esse? — perguntou Marco.
— Tive uma ideia — respondeu ele. — Por que não gravamos uma das aulas misandricas dela e entregamos pro diretor. Pode funcionar.
— É muito perigoso — respondi. — Os celulares e outros aparelhos eletrónicos sempre devem ser deixados nos armários, é uma regra clara da escola, se formos pegos usando algo do tipo na sala de aula, seremos suspensos, ou pior… expulsos. Além disso, mesmo que ninguém nos pegue, quando formos entregar a gravação pro diretor, ele vai saber o que fizemos. Aí então, seremos punidos de algum modo. Acho que o diretor não acredita que os fins justifiquem os meios.
— Se eu for suspenso ou expulso os meus pais me proibirão de jogar basquete — comentou Tomas. — eles deixaram isso bem claro uma vez.
— Meeerda! — resmungou Chris. — Não há realmente nada que a gente possa fazer?
— Deixe estar, Chris — disse Marco. — Tenho certeza que as coisas se resolverão logo… De um jeito ou de outro.
— O que cê quer dizer? — perguntou Tomas.
— Bem… O tempo da Srta. Yenifer nessa escola já está quase acabando — ele parecia um pouco nervoso ao dizer isso. — Ela é apenas uma substituta, logo, o Sr. Brech vai voltar. Além disso, se ela não tomar cuidado o diretor vai mandá-la embora antes disso.
— É, você tem razão — respondi. — Melhor deixar as coisas como estão. Suportamos até agora, podemos suportar mais um pouco.
*******
Naquela noite, na hora do jantar, Marco me deu uma notícia.
— Não vamos trabalhar nesse final de semana.
— Por que não? — perguntei.
— Meu irmão e a namorada dele vão fazer uma viagem pra visitar os pais dela na capital, sendo assim, ele decidiu fechar a Diamante Negro e dar folga aos funcionários.
— Ah, certo então. Folga é folga né?
Passamos o sábado, como já era de costume, fazendo os trabalhos da escola e jogando videogame. Mas foi no domingo que algo realmente interessante aconteceu.
Era por volta de umas dez horas da manhã, quando alguém bateu na porta; fiquei feliz que isso tenha acontecido pois Marco havia me deixado em uma situação realmente complicada ao me encaixar um combo foda no Street Fighter V.
— Eu atendo — disse eu pausando o jogo o mais rápido possível.
Quando cheguei à porta e a abri, tive uma surpresa.
— Kelly?!
— Oi Jayme. Posso entrar?
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