CAPÍTULO IX: SONHOS ESQUECIDOS.
Kelly tirou os tênis e se sentou na cama, uma nítida expressão de alívio gritava em seus olhos.
— Senta aí — disse ela. Então sentei no carpete. — Aí não, sente aqui na cama.
— Não vou sentar na mesma cama que uma garota nem fudendo — respondi. — Já é um milagre eu entrar no mesmo quarto que uma.
— Você que sabe — retrucou ela, parecendo um pouco ofendida.
— Mas então… vai me contar o porquê de não ter falado sobre sua doença?
Kelly passou o dedo sobre o anel novamente.
— Não queria tirar proveito da situação pra obrigá-lo a me perdoar, não queria que sentisse pena de mim… como tá sentindo agora. "Olhar de pena"… É tudo que as pessoas tem me dado nesses últimos anos, estou cansada disso. Mas agora não importa mais, você já sabe de tudo… e vai me perdoar apenas por pena.
— Hahaha! — fingi gargalhar.
— Qual é a graça?
— Quem disse que eu vou te perdoar? — perguntei. Ela ficou confusa. — Não sou movido por pena, até eu perdoá-la, você ainda vai ter que explicar muita coisa, e rastejar um pouco também. Sou um pouco sádico agora, sabe?
— Sério mesmo? — ela sorriu.
— Você é masoquista por acaso? — perguntei.
— Bem, não, é que eu quero que você me perdoe por vontade própria e não pelo meu estado de saúde.
Fizemos uma pausa na conversa.
— E a sua mãe, como ela reagiu à notícia da sua doença? — perguntei.
— Não sei muito bem… não tenho falado com ela desde o dia que saí de casa. Mas acho que ela não se importou muito, já que nem me ligou pra ter notícias.
— Sua mãe não veio visitar você?! — perguntei espantado.
— Ela se mudou pro exterior com o marido dois anos depois de eu ter saído de casa. Acho que ela não deixaria as belas ruas de Paris pra vir saber como a filha doente está.
— Sobre a sua cirurgia… — comecei mas ela não me deixou terminar.
— Ah sim, tenho uma chance de trinta por cento.
— De dar errado?! — perguntei abismado.
— Não — respondeu ela com frieza. — De dar certo.
Senti minhas entranhas se contorcerem.
— Mas sempre gostei de uma luta em desvantagem — disse ela sorrindo. — As vitórias mais lembradas são aquelas onde não havia quase chance alguma de vencer. Tipo a batalha de Termópilas, sabe?
— É, mas… os espartanos não venceram os Persas, lembra? O rei Leônidas e seus bravos soldados foram mortos em combate.
Ela ficou séria por um instante, encarando-me, então caiu na gargalhada, rindo compulsivamente.
Aquela imagem dela rindo me despertou vários sentimentos, um deles foi a curiosidade.
— Como você consegue… sorrir apesar de tudo? — perguntei.
A gargalhada foi se esvaindo aos poucos até ela ficar séria mais uma vez.
— É que eu cansei de tanto chorar. No começo, nos primeiros meses, mesmo quando eu já estava procurando por você, eu costumava chorar… chorar muito. Se não chorasse de dia, chorava de noite; se não chorasse no banho, chorava na cama. Então o tempo passou e eu percebi que chorar não mudaria as coisas, apenas servia pra demonstrar fraqueza. Substituí as lágrimas pelo riso e tenho vivido bem melhor desde então.
A chuva continuou a fustigar o telhado da casa.
Tirei o celular do bolso e mandei uma mensagem pro Marco:
"Estou bem.
Consegui as informações que precisava.
Não sei que horas vou voltar por causa da chuva.
A vó da Kelly é uma boa pessoa e tá me acolhendo na casa dela.
Jayme."
Então ele respondeu:
"Ok, vou repassar pros outros".
Kelly se levantou e foi até a janela do quarto, abriu as cortinas e ficou observando a chuva lá fora, os clarões dos relâmpagos no céu.
— Achei que quisesse deitar — comentei ao me aproximar.
— Só um minuto, quero ver a chuva lá fora — respondeu ela enquanto observava a chuva com um olhar quase apaixonado. — "Você diz que ama a chuva, mas abre seu guarda-chuva quando chove."
— William Shakespeare?! — disse surpreso. — Você gosta de literatura?!
Ela assentiu.
— Eu queria ser escritora até antes de descobrir o… — Ela fez uma pausa e baixou um pouco o olhar. — Bem, o câncer.
Eu já tinha ouvido falar que as pessoas com câncer se recusam terminantemente a falar o nome da coisa em voz alta, não sei bem o porquê, mas deduzo que seja por medo de aceitar que ela, a doença, exista de fato. Sendo assim, uma forma de negar a existência da realidade em que vivem. Ou talvez seja medo da simples menção da palavra possa fazer a coisa piorar e tirar suas vidas logo depois. Superstição? Talvez, mas desafio você a não ser quando se tem a morte massageando seus ombros dia após dia.
Ambos ficamos em completo silêncio ouvindo apenas o som da chuva lá fora.
Então, depois de alguns segundos de silêncio, ela voltou a falar.
— Sabe o que é interessante?
— O quê? — perguntei.
— A chuva… No dia em que nos reencontramos, estava chovendo e, por isso, você me deixou ficar na casa do seu amigo. Agora está chovendo de novo e, por isso, você está aqui comigo… no meu quarto. É como se alguém lá em cima quisesse que nos entendêssemos.
— É só coincidência — respondi, mas não tinha tanta certeza disso, eu podia não ser religioso, mas fui criado por pessoas religiosas, e a fruta nunca cai muito longe do pé.
— Posso te fazer uma pergunta? — disse ela.
— Além dessa que tá fazendo agora? — perguntei.
— É, além dessa.
— Vá em frente.
— Por que você foi falar comigo naquele dia?
Não respondi de imediato. Estava cogitando se deveria ou não mentir.
— Eu era apaixonado por você — respondi.
— Hã?! — Kelly soltou um guinchado.
— Desde que vi você no primeiro dia de aula, fiquei interessado, mas não tinha coragem nem de falar com você, que dirá te chamar pra sair. Então, um dia, eu comecei a fazer… "aulas" online, pra aprender a falar com garotas. As coisas que fiz naquela esquina, todas elas faziam parte do curso "Aulas Online Para Ser Um Pegador", uma puta idiotice.
— Você… tá dizendo que… que era apaixonado por mim?!
— É, eu era — respondi.
Kelly me olhou por um tempo, parecia ao mesmo tempo surpresa, triste e decepcionada.
E então ela voltou pra cama.
— Quando você vai fazer a operação? — perguntei.
— No início de fevereiro — respondeu ela.
Houve outra pausa na nossa conversa.
— Estou curiosa a respeito de uma coisa — comentou ela.
— O quê? — perguntei.
— Por que você mora com aquele seu amigo? Fugiu de casa? — perguntou ela sorrindo e claramente brincando.
— É — respondi. Ela me olhou como se tivesse acabado de pisar em uma mina terrestre. — Vá em frente, pode perguntar por quê.
— Por quê?
— Meus pais não lidaram muito bem com o fato de eu ser um MGTOW. Tive de escolher entre morar com eles ou ser um MGTOW, optei então por ser um MGTOW.
"TOC TOC", de repente, Alguém bateu na porta do quarto, era a Sra. Pricel.
— Kelly, posso entrar? — perguntou ela.
— Claro, vó — respondeu Kelly.
A Sra. Pricel entrou no quarto e me viu sentado no chão, por um instante, pude ver uma certa decepção no olhar dela.
— Preparei o quarto de hóspedes pra você — disse ela olhando pra mim. — Acho que não vai parar de chover tão cedo, então você vai ter que dormir aqui hoje.
Tentei argumentar, mas ela foi muito persuasiva, e quando me dei conta, já estava deitado na cama do quarto de hóspedes.
As luzes se apagaram e eu me peguei pensando no que havia descoberto naquele dia, era como se muita informação tivesse sido baixada de uma vez só diretamente no meu cérebro.
Não sei exatamente quando dormi naquela noite, mas a última coisa que me lembro de ter pensado foi: "Eu realmente ainda odeio essa garota?"
Nem eu mesmo tinha mais certeza. Eu realmente queria odiá-la, mas não sentia que estivesse conseguindo.
*******
Quando abri os olhos novamente, o barulho da chuva sobre o telhado havia parado. Peguei o celular na gaveta do criado-mudo e olhei a hora, seis e quinze, eu tinha pouco menos de duas horas pra chegar à casa do Marco, tomar banho, tomar café e ir pra Diamante Negro. Não estava atrasado, mas também não estava com muito tempo sobrando.
Me levantei da cama e desci as escadas, quando cheguei à cozinha, por onde pretendia sair de fininho, me deparei com uma figura de avental frente ao fogão preparando panquecas.
— Kelly?
— Ah, oi, Jayme! — disse ela sorrindo como sempre. — Panquecas?
— Tenho que ir se não vou me atrasar pro trabalho — respondi caminhando em direção à porta.
— Espera um pouco — disse ela correndo até mim e segurando meu braço. — Não vou deixar você ir sem provar as panquecas. Além disso, você vai ter que tomar café de um jeito ou de outro, seja aqui ou na casa do seu amigo.
— Uma porção só — respondi.
Kelly sorriu e assentiu com a cabeça.
Ela colocou três panquecas empilhadas sobre meu prato e me fez escolher entre mel ou chocolate pra cobertura, usei minha sagacidade e pus o mel de um lado e o chocolate de outro.
Apesar de uma combinação um tanto quanto estranha pra cobertura, as panquecas estavam realmente boas, boas de verdade.
— Minha vó me fez praticar até aprender a receita e o modo certo de preparar — disse Kelly como se lesse meus pensamentos. — Não só com as panquecas, mas com vários tipos de comida.
— Você sempre acorda cedo assim pra fazer o café?
— Na verdade, eu… estava querendo impressionar você — o rosto dela estava um pouco vermelho nas bochechas.
Ela havia conseguido, mas eu não daria esse gostinho a ela.
Enquanto comia as panquecas, a Sra. Pricel entrou na cozinha.
— Já acordados tão cedo?! — disse ela.
Eu quis dizer algo pra comprimentá-la, mas como estava com a boca entupida de panquecas, apenas acenei pra ela com a mão esquerda. A Sra. Pricel sorriu e acenou de volta.
— Kelly, você deveria dormir um pouco mais, filha — disse ela com preocupação na voz.
— Vó, já conversamos sobre isso — protestou Kelly. — Eu não posso passar minha vida inteira descansando sobre uma cama.
— Tá bem, tá bem, não vamos discutir.
A Sra. pricel então se sentou à mesa também e se serviu de algumas panquecas. Seguindo o exemplo da vó, Kelly fez o mesmo.
Quando terminei minhas panquecas e olhei pro rosto amigável da Sra. Pricel, decidi que estava na hora de lhe contar a verdade.
— Sra. Pricel, tem uma coisa que eu preciso contar pra senhora a meu respeito — Fiz uma pausa. — A verdade é que…
— Você é o rapaz condenado por assediar minha neta dois anos atrás — completou ela. Fiquei pasmo. — Desconfiei um pouco quando o vi pela primeira vez, mas só tive certeza quando ela disse seu nome. Posso ser velha, mas minha memória ainda é boa.
— Mesmo assim a senhora me deixou ficar em sua casa?! — perguntei ainda espantado.
— Na minha época de adolescente, o que você fez, pelo que estava sendo julgado, não era nem de longe, mas nem de longe mesmo, um crime. Porém Kelly queria realmente que você pagasse por aquilo — Nesse momento, Kelly abaixou um pouco a cabeça. — Fiquei triste quando você foi condenado, achava que você deveria ser de fato um bom rapaz, mas não havia nada que eu pudesse fazer.
— Sua adolescência devia ser uma boa época pra se ser um homem, não? — comentei.
— Não sei de certeza, mas acho que sim. O avô da Kelly, por exemplo, me conquistou ao falar dos meus quadris, coisa que é totalmente impossível de se fazer hoje sem ter que pagar uma multa no mínimo. Não me senti ofendida, mas, aquela foi a cantada mais estranha que já tinha visto. Quando ele morreu vinte anos atrás, ele não conseguia acreditar no rumo que as coisas tavam tomando em relação às leis que oprimiam os homens em benefício das mulheres.
— O feminismo não luta pela igualdade de gênero, ele luta pra oprimir os homens e transformá-los em brinquedos pras mulheres — disse Kelly com agressividade na voz.
Pasmei ao ouvir ela dizer aquilo.
— Obrigado pela hospitalidade, mas tenho que ir agora ou vou me atrasar pro trabalho — disse me levantando da mesa.
Então me encaminhei em direção à porta.
— Jayme — a Sra. Pricel me chamou quando estava com a mão na maçaneta da porta. Olhei pra trás. — Venha nos visitar de novo qualquer dia.
— Não prometo nada — respondi fechando a porta.
*******
No metrô, que dessa vez estava um pouco mais apertado, eu me peguei recordando minha estadia no reformatório.
A vida no reformatório era ruim, mais por ter que seguir regras, pela comida ser horrível, pelo tédio constante que por qualquer outra coisa. Lá, ninguém arrumava confusão, todo mundo estava ocupado cuidando de sua própria vida pra se preocupar com a dos outros. Então rolava uma atmosfera pesada de solidão entre todo mundo, mas era o preço que se pagava pela paz e a tranquilidade.
Eu tinha um colega de cela, ele não era de falar muito, mas como eu também não estava falando quase nada naqueles dias, foi ele quem puxou assunto comigo, só que até aí, já havia se passado quatro dias no reformatório.
— Ei ó… ferrugem, por que cê tá aqui?
— E por que você tá? — repliquei.
— Roubei uma loja com meu padrasto, ele disse que como eu era menor não daria nada, mas olha onde tô agora. Bem… pelo menos não é o presídio estadual. Agora é sua vez, ferrugem.
— Por causa de uma garota.
— Cê estuprou ou bateu nela?
— Não, assediei ela. Pelo menos foi o que ela disse pra todo mundo.
— Sinceramente, ferrugem, cê não tem cara de que assediaria alguém.
— Toquei no braço e no quadril dela, aí vim parar aqui.
Ele tirou um cigarro do bolso.
— Essa parada é mais cara que ouro aqui dentro. Cê quer fumar?
— Não, eu não fumo.
— Tem certeza? Não é todo dia que alguém vai te oferecer um cigarro, nem pra todo mundo, só te ofereci porque sei que tu não devia tá aqui.
— Tenho certeza sim. Pode ficar pra você.
— Sabe, ferrugem… Eu conheci um cara que foi acusado de estupro. Ele tinha uma empresinha de fazer camisetas estampadas, sabe? Mulher, dois filhos e uma vida relativamente confortável. Um dia, uma funcionária acusou ele de tentar estuprar ela, aí já sabe, né?
— Fodeu?
— É, fodeu. O cara perdeu a mulher, a guarda dos filhos, perdeu até a empresa por causa do divórcio. Aí um dia… ele se enforcou, não aguentou a humilhação, sabe? Mas um tempo depois, um amigo dele que era advogado provou que tudo não passava de um plano da funcionária pra conseguir uma indenização. O advogado limpou a honra do cara, mas ele já não tava mais aqui pra comemorar.
— Você era muito próximo do homem?
— Era o meu pai.
Depois de dizer isso, ele foi pra um canto fumar seu cigarro.
— Se ele fosse MGTOW, como o amigo advogado, não teria morrido… e eu não taria aqui falando com você agora.
— O que é… MGTOW?
— Uhm? Você não sabe? Tá certo então, deixa que eu vou te explicar.
E foi ali, na cela daquele reformatório, que aprendi o que era o MGTOW.
Agora lá estava eu, dois anos depois, tentando entender se odiar a garota que me colocou ali era justo ou não.
*******
Cheguei à casa do Marco a tempo de tomar um banho e ainda seguir com ele pra Diamante Negro.
— Você já tomou sua decisão a respeito de perdoar ou não a Kelly Pricel? — perguntou ele quando estávamos arrumando as toalhas das mesas.
— Bem… mais ou menos.
— Preciso que você convoque uma reunião da Untochers lá em casa hoje à noite — disse ele.
— Tá bem. Na verdade, eu já pretendia fazer isso pra compartilhar com vocês o que descobri. Mas e você, qual é o seu objetivo nessa reunião? — perguntei.
— Preciso mostrar uma coisa.
Tirei o celular do bolso e mandei uma mensagem pro Chris e pro Tomas avisando sobre a reunião.
*******
Como já era de costume, a reunião começou às sete.
— Chamei vocês aqui por dois motivos. Um: pra lhes falar sobre as coisas que descobri na minha ida à casa da Kelly Pricel. E dois: pra que Marco nos conte algo que não faço ideia do que é. E então, Marco, você começa ou eu começo?
— Comece você, presidente — respondeu ele.
*******
— Câncer?! — exclamou Tomas assustado quando terminei de contar os eventos com riqueza de detalhes.
— Porra, câncer é algo que eu não desejo nem pra meu pior inimigo — disse Chris.
E Marco me encarava de olhos arregalados sem conseguir dizer nada.
— Marco? Marco, cê tá bem, cara? — perguntei.
— Uhm? Ah, sim estou — respondeu ele acordando daquele estado de transe. — Apenas… O que descobri parece fazer um pouco mais de sentido agora.
— Anda logo, cara, mostra essa porra — resmungou Chris.
Marco então pegou o notebook e nos posicionamos pra ver o que ele queria mostrar.
— Ontem à noite eu estava procurando umas paradas aí na internet e, acidentalmente, acabei me deparando com isso — percebi que ele estava entrando em uma rede social. — De início, eu não acreditei no que estava vendo, por isso quero que vocês vejam com seus próprios olhos.
Então eu finalmente percebi de quem era a rede social que o Marco estava nos mostrando, era a da Kelly.
— Por que cê tá nos mostrando isso, cara? — perguntou Tomas.
— Quero que deem uma olhada nessas fotos aqui.
Assim, Marco abriu a galeria de fotos, e nós vimos dezenas de imagens de manifestações de algum tipo de movimento ou coisa parecida.
— Vejam quem tá aqui nesse canto da imagem — disse Marco apontando pra tela do notebook.
Cheguei a cabeça um pouco mais pra frente e vi a inconfundível figura de Kelly Pricel em meio a um monte de outras pessoas, a grande maioria homens, segurando um cartaz de letras azuis cursivas que dizia "masculinidade é uma virtude não um defeito".
— Agora dá uma olhada nessa outra aqui — disse Marco passando a imagem.
Novamente em um canto da imagem localizei Kelly segurando um cartaz. "Um homem pedir desculpas por ser homem é o mesmo que se desculpar por existir", era o que dizia ele dessa vez.
Outra foto e dessa vez a encontrei no centro da imagem. "Não deixem a sociedade transformar seus testículos em grilhões", era o que dizia o cartaz dessa vez.
— Para tudo! — exclamou Chris. — Jayme, a garota que fudeu com sua vida… luta… pelos direitos dos homens? Uh… Minha… minha cabeça não consegue assimilar isso.
— Sabe aquele anel que ela deixou aqui na noite em que vocês dois se reencontraram? — perguntou Marco. — Lembra o que tinha escrito nele?
— Lembro — respondi. — "Kelly Pricel: M. L. F. M".
— Então, eu pesquisei essa sigla. — Marco digitava as letras na barra de pesquisa enquanto falava. — E encontrei isso aqui.
A pesquisa mostrou um resultado:
"A 'Movimento de Libertação da Força Masculina' (M. L. F. M) é uma ONG que luta para que a voz e os direitos dos homens sejam respeitados pela sociedade. A 'M. L. F. M' foi fundada seis anos atrás por Dominik Donkuk, um prestigiado advogado, e Carla Sunshine, uma renomada socióloga. A ONG tem ganhado muita força nos últimos anos, tanto de homens quanto mulheres do mundo inteiro."
— Eu entrei na página oficial dessa tal ONG e pelo que entendi, todos os membros ativos dela ganham um anel com seu nome escrito — explicou Marco.
— Você tá dizendo que a Kelly Pricel é membro dessa ONG? — perguntou Tomas.
— Tudo indica que sim.
— Ela mudou de uma "femimistazinha" escrota pra uma defensora dos direitos masculinos? — grunhiu Chris. — Não é possível, a natureza humana não permite mudanças assim… Permite?
— "Humanos sempre se arrependem de seus piores erros quando enfrentam a figura da morte" — respondi.
— Walter de Psychic-Braker — disse Marco. — É uma boa frase.
— Acho que uma coisa se tornou inegável agora — disse Tomas. — Essa garota definitivamente se arrependeu do que fez com você, presidente.
— Concordo — respondi.
— Ela passou de misandrica pra uma possível unicórnio — comentou Marco. — A natureza realmente pode operar milagres.
Chris e Tomas assentiram meio pensativos.
— E quanto a você, presidente… o que pretende fazer agora com essas informações? — perguntou Tomas.
— Confesso que ainda não sei direito — respondi.
E realmente não sabia, ainda estava apegado ao meu ódio por ela, e não queria me desfazer dele, mas também não podia negar que ela havia mudado e merecia meu perdão.
NOTA DO AUTOR:
NO MGTOW, O TERMO "UNICÓRNIO", É USADO PARA SE REFERIR A UMA CATEGORIA DE MULHERES QUE PARECEM SER FEITAS SOB MEDIDA PARA OS MGTOWERS. OU SEJA, ELAS POSSUEM TODAS AS QUALIDADES E DEFEITOS QUE O MGTOW DESEJA QUE ELA TENHA.
Segundo capítulo postado hoje. Votem e comentem.
O fim está próximo.
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