Capítulo Dezoito
Sherlock abriu os olhos devagar, mas foi forçado a fechá-los de novo quando a luz queimou suas retinas. Um gemido escapou de seus lábios secos. Havia uma espécie de névoa cobrindo seus pensamentos, impedindo que seu raciocínio trabalhasse.
— Sherlock? – Uma voz chamou, ele tinha a sensação de que devia conhecê-la, mas os pensamentos não se organizavam o suficiente para isso – Sherly? – O apelido arrancou outro gemido do detetive. Ele odiava aquela abreviação. – Você pode abrir os olhos, eu fechei as cortinas.
Sherlock voltou a abrir os olhos com cuidado, a luz estava mais suportável dessa vez. Seu olhar se voltou para a figura em pé ao lado da sua cama, o rosto estava meio embaçado no início, mas aos poucos foi ganhando foco.
— Mcrof? – Sherlock franziu a testa ao ouvir sua própria voz.
— Sim – O homem mais velho parecia mais tenso que o normal. Por algum motivo Sherlock sentiu raiva, ele ainda não conseguia se lembrar o que tinha acontecido, mas tinha quase certeza de que Mycroft tinha algo a ver com isso.
O detetive se esforçou para se sentar, ele teve que fechar os olhos quando a vertigem o atingiu e só voltou a abri-los quando sentiu que o quarto havia parado de girar.
Ao mexer o braço, sentiu uma picada que chamou sua atenção para a linha intravenosa que o conectava com um saco de fluídos e o que ele imaginou ser uma bomba de morfina. Isso explicava a dificuldade de raciocínio.
Seu olhar se voltou para o próprio corpo e ele percebeu que estava usando uma camisola de hospital, tinha os dois pulsos envolvidos em bandagens e um curativo visível sob a manga curta da camisola.
Não era a primeira vez que Sherlock acabava no hospital, mas ele morava com um médico agora. John cuidava de todos os seus "ferimentos de batalha", mesmo que reclamasse sobre não receber para isso e que Sherlock "Devia fazer um maldito plano de saúde". Um sorriso involuntário apareceu em seus lábios ao pensar no típico discurso de John.
Aparentemente se lembrar do médico era o gatilho necessário para que suas lembranças voltassem com força.
— John – O nome saiu engasgado por causa de sua garganta seca. Ele se livrou da linha presa em seu braço e se levantou antes que Mycroft pudesse impedir. No momento em que tentou dar o primeiro passo, no entanto, suas pernas, dormentes por causa da morfina, cederam e ele caiu no chão com um baque surdo.
— Sherlock – Havia uma ponta de preocupação na voz de Mycroft que o detetive nunca tinha ouvido antes, mas não importava. Tudo o que importava era que Mycroft o havia traído.
— Não encoste em mim – Sherlock rosnou enquanto se esforçava para se pôr em pé sozinho.
Mycroft se afastou surpreso ao mesmo tempo que uma enfermeira entrava no quarto. Sherlock a reconheceu imediatamente, era uma amiga da senhora Hudson, Henrietta Tewell. A mulher de meia idade aparecia sempre aos finais de semana para jogar Poker.
— Senhor Holmes – Exclamou Henrietta. O chamado atraiu o olhar dos dois homens no quarto, mas ela ignorou Mycroft e foi até Sherlock. – Que demônio te possuiu para tentar sair da cama assim? – O detetive piscou surpreso com a abordagem, mas deixou que ela o ajudasse a levantar e se sentar na cama. – E você, – A mulher continuou com um olhar irritado na direção de Mycroft – Por que não o impediu de fazer algo tão estúpido?
— Eu... – Mycroft começou, mas foi interrompido.
— Pensei que estaria familiarizado com o conceito de pergunta retórica. – Henrietta parecia ter sido contaminada pela antipatia da senhora Hudson por Mycroft. – Agora, Senhor Holmes – Continuou, se voltando para seu paciente. – Deite-se e eu vou arrumar seu IV.
— Não – Ele protestou – Eu preciso ver John.
— John? – Ela pareceu confusa por um momento antes de relacionar os nomes – Dr. Watson está aqui também?
Sherlock não sabia responder a essa pergunta. A resposta mais óbvia era "Sim", mas havia outras duas opções. John poderia estar no apartamento deles e bem ou poderia estar em uma mesa de metal no necrotério. A última possibilidade fez com que os olhos do detetive começassem a arder.
— UTI – Sherlock olhou para Mycroft surpreso quando ele respondeu a pergunta.
— Não – O detetive tentou se levantar de novo, mas dessa vez foi impedido pela enfermeira. – Não se aproxime de mim – Sherlock gritou quando seu irmão deu um passo na sua direção. – Isso é culpa sua. Ele está na UTI por sua culpa.
— Sherlock...
— Se ele morrer, eu vou te matar. – Sherlock estava ficando cada vez mais histérico. – Eu juro que vou... – As palavras estavam presas na sua garganta – Saia daqui.
— Sherlock...
— Você ouviu meu paciente – Sra Tewell olhou para Mycroft – Saia ou eu vou chamar a segurança.
Mycroft queria discutir, mas ele sabia que ficar no quarto causaria mais danos a seu irmão. Ele já o havia prejudicado demais. Com um último olhar para Sherlock, ele se virou e saiu.
— Eu preciso vê-lo – As palavras saíram em um tom implorante, mas Sherlock não se importou. Ele não podia perder John. A lembrança das palavras e beijos compartilhados naquele porão fizeram seu peito apertar.
— Ei, se acalme. – Henrietta tentou em um tom gentil, muito diferente de quando entrou no quarto. – Eu vou levar você até ele, mas preciso descobrir algumas informações primeiro e arrumar uma cadeira de rodas para você.
— Obrigado – Sherlock suspirou um pouco mais aliviado.
— Agora deite-se – A enfermeira o ajudou a ficar confortável – Eu vou reconfigurar o IV com fluídos e manter o nível de morfina no mínimo, assim você ainda vai estar lúcido quando eu vier te buscar – Explicou enquanto realizava os procedimentos. – Voltarei em alguns minutos.
Sherlock apenas acenou com a cabeça. De repente se sentia cansado demais para dizer qualquer coisa. Ele ficou quieto encarando o teto enquanto os minutos passavam. Pela primeira vez, lhe ocorreu que ele nem sequer sabia como eles haviam saído daquele porão. Fosse pelo cansaço ou pela preocupação, o detetive não conseguia se importar com isso.
Sherlock podia sentir a exaustão voltando como uma vingança por causa de sua explosão com Mycroft, seus olhos estavam cada vez mais pesados e embora tenha tentado com todas as forças, ele acabou adormecendo.
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— Senhor Holmes? – Sherlock abriu aos olhos ao ouvir o chamado. Ele viu Henrietta parada ao lado de sua cama com um sorriso no rosto. Ele esfregou a mão sobre seus olhos para afastar os vestígios de sono e tentou se sentar. Ao invés de impedi-lo a mulher o ajudou.
— A quando tempo eu estou dormindo? – Ele perguntou, sufocando um bocejo.
— Cerca de uma hora em meia. – Sra Tewell lhe entregou um copo com água, ele não percebeu com quanta sede estava até sentir o líquido frio em seus lábios. – Quando eu voltei para dizer que teria que esperar para ver o Dr Watson, você estava dormindo, achei melhor esperar até que ele pudesse receber visitas para acorda-lo.
— O que aconteceu? – Perguntou Sherlock, seu estômago torceu com a ideia de que John tinha piorado – Por que eu não podia vê-lo?
— Se acalme, ele está bem. – A mulher o tranquilizou – Apenas precisava fazer alguns testes antes de ser transferido para um quarto normal.
— Ele...
— Está fora da UTI – Henrietta concordou, fazendo o detetive suspirar aliviado – Agora vamos. Nem pense nisso – Ela acrescentou quando Sherlock fez menção de tirar o IV. – Você perdeu muito sangue e mesmo com a transfusão, precisa de líquidos. Como você passou quatro dias inconsciente, teve que ser ligado a um catéter, foi uma sorte termos removido hoje de manhã – Ela fez uma careta – Teria feito um estrago se você o puxasse quando tentou levantar mais cedo.
Sra Tewell ajudou Sherlock a se mudar para a cadeira e, em seguida, desencaixou a parte superior do suporte de soro e o prendeu atrás da cadeira.
O quarto de John estava no mesmo corredor que o de Sherlock. O médico estava dormindo. Ele tinha bandagens envolvendo sua cabeça. Os ferimentos de bala não eram visíveis devido a camisola e ao lençol que cobriam seu corpo, mas o detetive sabiam que estavam lá.
John não parecia tão mal quanto Sherlock esperava. Estava ligado a um monitor cardíaco, uma bolsa de fluídos e tinha uma cânula nasal para fornecer oxigênio, mas era isso, nada de máquinas estranhas e ventilador.
— Graças a Deus – O detetive sussurrou, sem se importar com a ironia da fala vindo da boca de um ateu.
— Eu vou deixar vocês sozinhos – Disse Henrietta – Volto em alguns minutos para levá-lo de volta ao quarto. – Ela fez uma pausa antes de acrescentar – E nem pense em se levantar dessa cadeira. Paciente ou não, vou chutar esse seu traseiro magrelo, senhor Holmes.
Sherlock não conseguiu evitar o sorriso quando a mulher saiu da sala. A personalidade de Tewell era muito parecida com a da Sra Hudson.
Seus olhos se voltaram para John e ele moveu a cadeira para mais perto da cama. Ele não via sentido em conversar com o homem inconsciente, mas segurou sua mão durante todo o tempo e esperou que ele acordasse.
Henrietta voltou muito cedo, mas, para alívio de Sherlock, ela não tentou levá-lo de volta para seu quarto. Em vez disso, transportou uma nova cama para o quarto de John e o ajudou a se instalar.
Sherlock recebeu duas visitas naquela tarde. A primeira foi sra Hudson. Ela o acusou de ter quase ter causado um ataque em seu "frágil" coração. O detetive acabou por contar à ela sobre a conversa que teve com John no porão. A mulher sorriu e disse que estava feliz com isso. Quando ela deixou o quarto, o detetive tinha quase certeza de que a ouviu dizer à senhora Tewell algo sobre uma aposta e que havia ganhado 50 libras.
A segunda visita foi Lestrade. O policial contou o que sabia sobre como John e Sherlock foram salvos. Porém, o "tudo" de Greg era quase nada. A delegacia havia recebido uma denuncia anônima sobre tiros disparados no endereço, mas quando chegou lá só encontrou os dois no porão.
Eles haviam encontrado o corpo de Molly e outros dois, um homem e uma mulher não identificados, em algum lugar nas redondezas e só puderam supor que estavam relacionados ao mesmo crime.
Lestrade falou sobre a morte de Molly com tristeza, acreditando que, assim como Sherlock e John, ela havia sido uma vítima. Dizer que o sorriso no rosto do detetive com a notícia o chocou, seria eufemismo. Porém, o choque maior veio de descobrir que Molly era o Diabo, o criminoso que havia tirado seu sono por meses.
Durante toda a tarde e a noite John permaneceu inconsciente. Sherlock estava preocupado, mas o médico que veio fazer a checagem de rotina assegurou que era normal. Que o cansaço era resultado da concussão e da perda de sangue, mas ele não corria risco de morrer ou entrar em coma ao contrário dos dias anteriores.
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Sherlock não sabia dizer quando havia dormido, mas a luz do sol entrava pela janela quando acordou. Seu primeiro instinto foi olhar na direção de John. O médico ainda estava dormindo, o que o fez soltar um bufo descontente.
Ao tentar se sentar, ele notou um pequeno envelope ao lado de seu travesseiro. Por um momento ele estremeceu ao se lembrar do recado que recebeu de Molly, mas quase imediatamente reconheceu a caligrafia como a de Mycroft.
Parte dele queria rasgar a carta. Ele aínda estava com raiva. Seu irmão havia atirado em John, ajudado Molly a mantê-los presos, eles quase haviam explodido...
A parte lógica do seu cérebro venceu. Ele precisava de respostas e sabia que as palavras do irmão continham peças do quebra-cabeças que Lestrade não pode lhe dar. Com esse pensamento ele pegou a folha dentro do envelope e começou a ler.
Sherlock
Eu sei que você está com raiva de mim agora e embora pense que isso é infantil de sua parte, suponho que tenha seus motivos. Sei que deve estar curioso sobre como as coisas aconteceram e como vocês sobreviveram.
Bem, suponho que deva começar do início:
Eu encontrei Moriarty no dia em que ele invadiu sua casa para pedir ajuda. O confrontei sobre isso e acabei oferecendo minha ajuda desde que ele te deixasse em paz. Ele aceitou, mas as coisas não foram bem já que você acabou por procurá-lo.
Concordamos que não seria bom se você soubesse que eu estava envolvido, então, Moriarty aceitou sua ajuda. Ele passou informações falsas para você, junto com uma pequena parte das verdadeiras, apenas o suficiente para que não desconfiasse, enquanto passava o cenário completo para mim.
Eu descobri que o Diabo era Molly dois dias antes que ela sequestrasse John. Na verdade ela apareceu no meu escritório com uma pasta com cópias de uma duzia de documentos sigilosos do governo. Como você deve imaginar, recebi um ultimato. Se não seguisse suas ordens a Inglaterra estava condenada.
Mandei pessoas de confiança investigarem. Eu planejava denunciá-la assim que recuperasse meus documentos, mas houve um imprevisto. Ela sequestrou John e você enlouqueceu.
Eu descobri onde John estava e criei um plano para tirá-lo de lá. Disse a Moriarty para não lhe dar informações sobre o lugar. Eu sabia que sua presença traria muitas variáveis incontroláveis devido a sua relação emocional com John e tudo daria errado. Foi exatamente o que aconteceu.
O melhor que eu pude fazer foi seguir as ordens. Meu pessoal estava perto de encontrar o portador dos documentos roubados e eu achava que eles iam conseguir rápido o suficiente para que eu pudesse resgatar você e John.
A bomba realmente foi uma surpresa e, contra meu melhor julgamento, decidi que salvar você era mais importante que proteger o governo.
Quando Molly nos tirou da casa, entreguei um prego a Moriarty. Ele conseguiu abrir as algemas e conseguimos surpreendê-la. Nós a matamos e a dois de seus empregados. Consegui descobrir o código de desativação e parar a bomba com o celular de Molly e liguei para a polícia. Moriarty já havia fugido da cena e eu tive que fazer o mesmo. O governo já tem escândalos suficiente com os quais se preocupar.
Eu não vou pedir desculpas pelo que fiz ou pelo que disse. Não me arrependo de ter colocado o governo em primeiro lugar no início e também não me arrependo de ter salvo vocês. Se você não quiser mais falar comigo ou olhar para mim, é uma decisão sua. Eu só quero que saiba que independente das minhas ações, nunca quis te machucar.
Mycroft
Sherlock releu a carta três vezes, mas ele ainda não conseguia decidir o que sentir. Parte dele tinha ainda mais vontade de matar o irmão e outra parte queria agradecê-lo, afinal, Mycroft os salvou no fim.
— Por que você está olhando para esse papel como se ele tivesse ofendido sua performance de violino?
Sherlock se virou e não pode evitar o sorriso quando viu que John estava acordado. O detetive se ajustou melhor na cama para poder conversar sem precisar se torcer.
— É bom ver você acordado. – Sherlock queria dizer muito mais que isso, mas as palavras ficaram presas em sua garganta.
— Hum. Eu não estou surpreso em ver você em uma cama de hospital, mas por que eu estou numa cama de hospital?
— Molly – A resposta curta trouxe a compreensão para o rosto do médico, assim como um leve rubor.
— Ah. Isso... Foi... Bem... – John gaguejou
— Talvez seja melhor escolher melhor seus interesses amorosos de agora em diante. – O detetive brincou, apesar de seu estômago se torcer com a ideia de ver John com outra pessoa.
— Tarde demais – John respondeu com um sorriso – Não acho que um sociopata de alta funcionalidade seja uma escolha muito melhor.
Sherlock sentiu o coração acelerar com a declaração e um sorriso enorme se formou em seu rosto.
— Você quis dizer isso?
John pareceu hesitante por um momento antes de responder:
— Você quis dizer o que disse no porão? Sabe... Que você...
— Eu te amo – O detetive concordou – Sim, eu quis.
— Eu também – John parecia aliviado com a resposta. – Eu te beijaria agora, mas não acho que iria conseguir me levantar. Nem pense nisso – Acrescentou quando Sherlock tentou se levantar – Não quero ver meu namorado entrar em colapso no chão do hospital.
Sherlock não achava que podia se sentir mais feliz, mas ouvir John se referir a ele como namorado, provou que estava errado. Embora estivesse morrendo de vontade de beijar o médico, voltou a se deitar e se contentou em olhar para John. Ele havia esperado quase dois anos pelo primeiro beijo. Podia esperar um pouco mais pelo próximo.
Eeeeeeeeeee corta.
Finalmente tá acabando. Só falta o Epílogo agora.
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