Capítulo 9 - Trauma: Parte 2
– O que é uma Controladora? – dirigiu o olhar ao professor, exasperado – Pare de tirar a pele dela como se fosse um bicho!
Lima foi acometido por receio ao perceber a irritação do feiticeiro, que agora tinha os olhos de um vivo vermelho púrpura, como se as íris queimassem. Fingiu não perceber a transformação, concentrando-se no colega de quarto.
– Controladores são abençoados com mais de uma capacidade mágica, pertencendo a mais de um grupo da Escola, podendo ser Filho da Noite, Iluminíade, Leviantari e Transmorfo, além dos grupos de apoio, que têm menos destaque. Todos os Controladores registrados possuíam QI maior que 240 – Astrid falava rápido, era difícil acompanhar.
O aluno mais velho respirou fundo.
– Leo, precisamos estudá-la para descobrir o que ela é. Sabe muito bem que a identificação leva até um mês para ocorrer e as consequências da ausência da mesma. Principalmente na filha da fundadora-mor. Antes todos os feiticeiros agiam por conta própria, e quando faziam isso, eram caçados. A mãe dela mudou isso. Devemos essa contribuição à memória de Patricia.
Leonardo sentiu-se envergonhado. Apesar de mais velho, Lima sempre fora o irmão que nunca teve, para todos os momentos, mas mesmo assim portava-se como Freud, com calma e maturidade estimáveis.
– Perdão, professor. Não foi a intenção ofendê-lo.
As desculpas não foram suficientes para relaxar o outro, que tomou em mãos uma pastilha recém retirada do bolso do sobretudo, engolida a seco.
– Saiba onde é seu lugar, Sampaio. Eu sou a autoridade. Você é um bom aluno, nada mais – inclinou-se e fitou-o compenetradamente, as íris negras a devorar o peito do rapaz – Se deseja demonstrar seu valor, não ouse pela arrogância – e então recuou, a coluna perfeitamente reta – Na próxima, será punido severamente. Por ora, um dia suspenso.
Astrid trocou uma breve olhadela com o professor de tecnologia assim que o outro deixou-os, logo quebrando a tensão, que se desfez perante um largo sorriso.
– Bom, nota-se que tem desempenhado seu papel de protetor muito bem – a risada estridente preencheu o salão, em ecos – Fique tranquilo, senhor Sampaio, Marcos apenas deu um empurrãozinho para que se acerte com a moça.
Estranhou ouvir o primeiro nome do “Conde Drácula”, apelido pelo qual os alunos costumavam chamá-lo às costas, por sugar até a última gota de sangue de todos nas provas. Não literalmente, é claro.
– Bem, já que os assuntos foram resolvidos... – Maria levantou-se – Declaro a reunião como encerrada. Podem voltar à seus afazeres.
Lima carregava a novata junto à si, os braços apoiando-se nos joelhos e braço esquerdo da moça, cuja cabeça quicava na omoplata do rapaz enquanto este caminhava. Leo seguia-os ao lado, indignado. O amigo repreendera-o assim que tentou levantar a ex-vizinha, alegando não estar em condições de esforçar-se após a cabeça colidir com o asfalto.
Virou à direita no corredor, passando por uma enorme janela branca cuja vista mostrava as pessoas que caminhavam com seus animais na orla, à distância.
O caminho que percorriam não tinha como destino os dormitórios duplos, tampouco os que remetiam aos quatro grupos e aos que destinavam-se a apoiar estes últimos. O loiro seguia à Grande Biblioteca em passos largos, sem proferir uma palavra.
– Ei, por que estamos indo para a biblioteca? – Santiago perguntou.
Assim que percebeu que não seria respondido, suspirou e centrou-se em seus próprios pensamentos. Precisava descobrir quem era o tal Codinome. "E que diabo de nome de vilão é esse?", pensou.
Perdido em pensamentos e teorias de perseguição, passou pela grande porta de carvalho sem lembrar-se de tê-la aberto. Professor Freud não encontrava-se no recinto, mas era possível observar pequenos vagalumes dançando entre as prateleiras.
Uma centena de luzes aproximou-se e, assim que um tocou o mais alto, os outros juntaram-se como uma teia e o que encostara na pele humana pareceu crescer até o tamanho de uma criança de dois anos, revelando-se uma garota que trajava túnica branca os pés descalços e as madeixas loiras soltas, presas apenas por duas finas tranças que prendiam-lhe as têmporas, destacadas por uma flor vermelha que enfeitava a orelha. Ao forçar a visão, era possível observar que uma das fadas produzia mais luz e encontrava-se onde deveria ser o coração da garota, movendo-se igualmente. As fadas produziram uma projeção de sua líder, Maya, que agora assumira uma expressão preocupada.
Apesar de parecer maior, não conseguia comunicar-se por fala humana, que era proibida aos seres puros. Além disso, estes só podiam ser vistos por aqueles que acreditassem na magia e não pretendessem usá-la para destruir nenhuma criatura mágica.
– Princesa, preciso de sua ajuda – começou, chamando-a por sua hereditariedade real – O Conselho pediu que Alice contasse sobre possíveis eventos anormais ocorridos com ela, e isso remeteu à um trauma de infância que desencadeou em desmaio. Maria pensa que ela é uma Controladora... é possível?
A criatura esticou o braço, apontando para a moça e, em seguida, a mesa. Leo, que até então estivera maravilhado com a projeção das fadas, que era algo raro de se ver, empurrou alguns livros e canetas ao chão, mas juntou-os e colocou-os em uma das cadeiras após receber um olhar zangado do amigo.
A líder emitiu um chiado levemente incômodo e todas as prateleiras foram abandonadas por seu povo, que dividia-se em dois: aquelas que possuíam cabelos vermelhos e as que tinham-os brancos. Estas estenderam as pequenas mãos na direção do coração da humana, dirigindo fachos de luz branca, enquanto as outras dirigiam-os à testa, produzindo imagens de uma menininha correndo, dançando, lendo com a mãe... até que as imagens correram e pararam no fatídico dia. Os rapazes prenderam a respiração enquanto visualizavam tudo e as pálpebras de Alice agitaram-se, bem como o coração disparado, e a moça despertou, gritando.
As criaturas aladas fugiram, assustadas, e desfizeram a imagem de Maya, que pairava ao lado da moça, observando-a sentar-se, o suor percorrendo as têmporas até o queixo, pingando na calça jeans que trajava.
– Ele voltou – disse, estupefata.
– Quem, Ally? – questionou Leo.
A moça parecia confusa.
– Quem o quê? – indagou, sem entender por que estava ali, na mesa da biblioteca da Escola, com dois rapazes e uma fada olhando-a.
Quando Santiago estavas prestes a respondê-la, a fada tilintou em sua direção, querendo dizer algo, e Lima encarou Alice, a cor de seu rosto esvaindo-se.
O pequeno rosto de Maya meneava, afirmando algo. Os colegas de quarto entreolharam-se.
Alice levantou-se vagarosamente, e os três só o perceberam quando ela falou, séria.
– Eu conheço você! – os pés guiaram-na até um confuso Lima – É o garoto dos sonhos! – sorriu para Leo, esperando que o rapaz dissesse algo, ou apenas entendesse, mas o que recebeu foi uma expressão de dúvida, como se tomasse-a por louca.
Então lembrou-se de que não o perdoara e recuou alguns passos até esbarrar as costas em algo – ou melhor, em alguém.
Oi, meus amores 💕
Quero saber o que vocês pensam que acontecerá em seguida (amo teorias de todo o coração).
Não esqueça de colocar a história em sua biblioteca e de votar ♡
Até a próxima 💕
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