Capítulo 5 - Memórias
— Professor Freud?
Um homem levantou-se e sorriu para a garota. Cabelos escuros e uma barbixa de bode saíam de sua pele. Por trás de um par de óculos de armação moderna, sobrancelhas grossas e olhos caídos escondiam-se. Aparentava não ter mais que quarenta anos.
Alice observava as estantes, boquiaberta. Visitara uma das alas da biblioteca no dia anterior, mas a central tirava-lhe o fôlego. Ela sentia-se em algo equivalente ao paraíso. Uma longa fileira de pequenas mesas com objetos estranhos envoltos por redomas de vidro separava as fileiras de estantes. Caminhou até um deles, intrigada.
— Eu já vi isso antes.
— Impossível, querida — disse o homem, aproximando-se — Esse medalhão foi feito por uma amiga, há muito tempo.
A garota ainda observava o objeto quando Savannah aproximou-se de ambos.
— Ah, professor. Era sobre isso que eu vim falar — coçou a cabeça, inquieta — Esta é Alice Saint-Marie.
O mestre assentiu, nostálgico, e olhou da aluna para a novata, que forçava a memória em busca de algo que remetia àquele objeto.
— Savannah, me dê licença por um momento? — pediu, sem desviar o olhar da jovem — Preciso falar com ela a sós.
Assim que a colega retirou-se e fechou as portas atrás de si, Alice virou-se, confusa.
— Para onde ela foi? — perguntou, receosa.
— Acompanhe-me e prometo que responderei suas perguntas.
O professor guiou a garota até o centro do corredor e ambos sentaram-se frente à frente, separados apenas pela mesa da mogno adornada por duas pilhas de livros, caneta tinteiro, envelopes e um pequeno porta-retratos cuja foto não era visível à Alice.
Freud apoiou os cotovelos na mesa e entrelaçou os dedos, observando-a. Alice estava assustada. Não entendia o que o homem queria com ela, muito menos por que encarava-a fixamente, os grandes olhos castanhos imóveis.
— Então... O que o senhor quer falar comigo? — perguntou, após remexer-se na cadeira, desconfortável.
— Por favor, trate-me por "você". "Senhor" me deixa mais velho — pigarreou — Sua mãe é Patricia Saint-Marie?
A novata sentiu um calafrio percorrer sua espinha, do cóccix ao pescoço, arrepiando-a. Mesmo assim, confirmou.
— Bem, ao menos sabemos por que reconheceu a joia — ele coçou a testa — Sua mãe fê-la há muito tempo, talvez a senhorita tenha vislumbrado-a trabalhar.
— Você conheceu minha mãe? Ela trabalhava aqui? Não, ela era apenas uma escritora!
Freud estalou os dedos, e segundos depois, virou-se para sua esquerda, encarando fixamente uma bolha de luz que pairava no ar. Alice apenas entendeu do que travata-se após forçar a visão: uma criatura cujas asas pareciam feitas de luz, sem adornos e pompons como nos desenhos animados. Era apenas luz. Os cabelos esbranquiçados em coque permitiam notar que não possuía orelhas pontudas ou algo similar. Era assombrosamente humana, exceto pelos olhos lilases compreensivos e harmoniosos, além do tamanho, que não passava de um punho fechado.
— Meu Deus! É uma fada! — gritou, entusiasmada.
A criatura voou até o rosto de Alice, pairou no ar a sua frente e observou-a. Maravilhada, a mineira tocou uma das asas com o dedo indicador, ao que o ser reagiu produzindo um som semelhante ao tinir de sinos, enquanto sorria e balançava as perninhas para cima e para baixo, as mãos apertando a barriga. Ela sentia cócegas.
A garota parou de acariciar a doce criaturinha, que sentou-se em sua perna direita, com as próprias cruzadas ao estilo indiano.
— Acho que Maya gostou de você — Freud sorria ao folhear um livro antigo, de capa e lombada duras e amarronzadas. As folhas amareladas emolduravam fotos. Ele percorria cada fotografia com o dedo indicador, depois pressionava-o em um pequeno pote e virava a página.
— Por que você tem fadas aqui? — indagou, curiosa. O ceticismo esvaindo conforme cada informação lhe era entregue.
O mais velho bufou, visivelmente incomodado.
— Antigamente tínhamos problemas com goblins. São baixinhos, magrelos e adoram pregar peças — dizia, sem desviar os olhos do álbum.
— Pensei que os elfos fossem assim.
À menção do ser místico, os ombros e asas da fada caíram, e ela pareceu suspirar, provocando risos na garota.
O som do virar de página assemelhava-se ao ruído emitido quando, sem querer, Alice deslizava as unhas na parede.
— As características físicas assemelham-se muito, não posso negar, porém elfos são seres semelhantes às ninfas, mas de estatura equivalente à de um rapaz em seus quinze anos, supostamente imortais e diz-se ainda que alguns, após abençoados pela deusa Hemera, filha de Nyx, recebem o dom de controlar a luz — tossiu — Diferentemente dos goblins são agressivos ao extremo e possuem uma paixão nada secreta pelo roubo. Principalmente de objetos mágicos — Com um meneio de cabeça, indicou o amplo espaço — E nós temos muitos deles. Um dia sua mãe ajudou-me a chanta... domesticá-los para que passassem a recuperar artefatos para nós em troca de moedas de ouro.
O senhor de meia-idade respirou fundo, como se a lembrança de Patricia ferisse-o profundamente.
— Um dia eles perceberam que o que recebiam não valia mais que o trabalho, rebelaram-se, e tivemos que prendê-los. As fadas e leprechauns* ofereceram-se para ajudar, o que não funcionou como gostaríamos. Estes, por serem exímios sapateiros, apesar de dedicarem-se às fadas, e leais companheiros, ajudam-nos com a checagem dos dormitórios, realizando relatórios impecáveis. Já suas senhoras, apesar de possuírem notáveis habilidades magicas, são impedidas de saquear devido aos malditos votos que fazem, mas ao menos ajudam-nos à localizar cada obra da biblioteca, o que eu faria com facilidade antes de separarem-nos por cor.
A diminuta cruzou os braços, irritada. Parecia imitar a voz do educador.
— Encontrei! — virou o exemplar para que Alice pudesse ver a imagem que indicava — Olhe.
A garota assustou-se, apoiando-se nos braços da cadeira para não cair. Ao toque, uma imagem holográfica tridimensional ativou-se, pairando a poucos centímetros da superfície desgastada pelo tempo. Patricia segurava uma pedra vermelha circundada por ferro dourado, presa à uma corrente da mesma cor. "O medalhão", lembrou-se a garota. A mulher sorria, os olhos castanhos brilhavam, orgulhosos.
Na vã tentativa de tocá-la, os dedos da menina atravessaram a figura. Foi invadida por uma sensação de vazio interior e lágrimas acumularam-se em sua linha d'água, ameaçando cair.
Maya percebeu a tristeza da jovem e, com as pequenas mãos, guiou o grande anular até as bochechas da jovem Saint-Marie. Esta não resistiu a um sorriso. Ainda sentia-se assustada, não podia negar, mas fora maravilhada com a visão de um ser tão puro... Voltou os pensamentos para a biblioteca e o homem do outro lado da mesa.
— Conte-me como conheceu-a.
O outro cerrou as pálpebras, deixando que a cena dominasse-lhe a mente.
— Estávamos em uma clínica de reabilitação. Nossos pais tomavam-nos por loucos, mas éramos apenas dois jovens com inteligência em excesso. Conseguíamos nos virar... até o dia em que ela completou dezesseis anos — suspirou — Ficou deprimida, não aceitava comida ou bebida. Um tempo depois, mais ou menos uma semana, contou-me tudo. Sua mãe desenvolvera poderes estranhos, como fazer pequenos objetos levitarem. Deixamos de resistir aos confinamentos e fomos liberados por comportamento exemplar alguns meses após ela tomar-me como aluno, e uma vez fora do alcance das câmeras, aprendi tudo bem rápido devido à minha memória fotográfica — ele indicou a própria cabeça — Criamos a Escola Mística para auxiliar pessoas com os mesmos dons mágicos, que nada mais é que a capacidade de utilizar uma maior porcentagem do cérebro, mas ela acabou engravidando do namorado na primeira década de fundação, e afastou-se para cuidar da senhorita. Depois... bem, creio que não seja necessário repetir tão trágico acontecimento.
Alice sentiu-se culpada. Ao cuidar dela, a mãe afastara-se de uma vida gloriosa. De uma vida. Levantou-se, esquecendo-se subitamente da fada, que levantou voo rapidamente, e de tudo ao seu redor, correndo à porta, transtornada. O orientador fez menção de segui-la, mas desistiu ao ser interceptado por uma confusão de sinos, bater de asas e uma criaturinha bastante decidida.
Vocabulário:
*Leprechaun: tido como o sapateiro do povo das fadas. Também conhecido como duende, gnomo e tumor.
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Desculpem-me a demora, meu celular estragou :/
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