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Acordei com a mente super ativa naquele dia.
Levantei da cama num salto. Meus olhos se abriram para não se fecharem mais. Sentia uma adrenalina percorrer pelo meu sangue e me fazia querer ficar acordado por muito tempo. Eu não lembrava do cansaço, fome ou qualquer outra coisa. Só tinha o foco em uma coisa. Almejava apenas o momento em que finalmente começaria a pôr o meu plano em prática. E se tudo desse certo, estaria mais que realizado. Como eu esperava para ser reconhecido. Ser um YouTuber bem sucedido era tudo o que eu mais anelava.
Preparei um café da manhã bem reforçado para mim. Andrew já havia saído para trabalhar. Ainda eram nove horas da manhã. Eu tinha até que acordado bem cedo para quem fora dormir de quase uma hora da manhã ansioso por aquele dia. Preparei ovos mexidos para acompanhar a minha torrada que ainda estava em preparo na torradeira. Vigiava o botão ficar verde, enquanto eu mexia os ovos na frigideira com uma colher comum.
Assim que terminei de preparar tudo, sentei na mesa para comer. O dia seria um tanto longo já que eu não iria trabalhar, portanto ficaria o dia todo sem fazer nada de importante, com a cara para o ar, assistindo, lendo, arrumando a casa, tentando me distrair um pouco para não sofrer o dia inteiro com a ansiedade que se instalava no meu íntimo. Mesmo sentando comendo, sentia a adrenalina correr dentro de mim como uma maratonista. Meu corpo permanecia em repouso, porém sentia que poderia escalar uma montanha pelo impulso que sentia dentro de mim. Tomei meu café da manhã, enquanto decidia o que faria a seguir.
Pensei em passar parte da manhã escrevendo o roteiro para o meu vídeo. Parte dele já estava pronto, com toda a história que Andrew e eu criamos na noite anterior sobre o nosso relacionamento falso. Não tinha mais muita coisa a fazer. Agora tudo o que restava era ter que entrar num bom senso com ele e alternarmos a fala. Por mais que eu fosse o dono do canal e estaríamos gravando para postar lá, mas queria que operássemos juntos para que tudo fosse bem mais real.
Muitas pessoas ao nosso redor já afirmaram que Andrew e eu tínhamos uma boa química juntos. Talvez fosse devido ao muito tempo de amizade que tínhamos e muito mais agora por sermos amigos que moram juntos, portanto deveria contar muito mais pontos para aquela boa relação nossa em público. Era por isso que Andrew era perfeito para atuar nessa mentira juntamente comigo.
Andrew e eu convivíamos todos os dias naquele apartamento. Mesmo que poucas horas juntos, mas mesmo assim era tempo suficiente para lapidar uma relação entre nós. Com tanto tempo debaixo do mesmo teto, nós já nos conheonhecíamos o suficiente. Tínhamos conhecimento das virtudes e os defeitos um do outro, também sabíamos dos bons e mal hábitos, portanto aquilo já era praticamente como um relacionamento.
Resolvi depois de tudo, dar uma olhada nas novidades do YouTube. Iria conferir o meu canal, para ver algum progresso ou algo do tipo. Não havia nada de importante. O número subira minimamente. Parecia até que a cada um ano uma pessoa nova se inscrevia no meu canal. Acho que o que sucedia-se ali, era pelo fato de que eu não tinha muitas amizades no meio YouTuber. Andrew também não tinha, então aquilo poderia acarretar para nosso desenvolvimento lento na área.
Ainda no YouTube, cliquei em alguns vídeos de tags com casais gays para ver. Os dois caras eram bastante bonitos. Um era moreno dos olhos verdes e tinha algumas tatuagens pelo corpo. O outro era pardo de olhos castanhos-escuros com um sorriso perfeito que chamava todos os olhares para si. Os dois formavam um belo casal. Cliquei na verdade, só pela beleza de ambos, para admirá-los enquanto via algo que me ajudaria a raiar novas ideias para meu plano inventivo.
A química do casal era muito boa. Eles sabiam dividir para que cada um aparecesse bem no vídeo por mais que apenas um deles fosse realmente o dono do canal. Era algo daquele modo que eu queria fazer com Andrew. Queria dar um destaque para nós dois no vídeo para deixar aquele ar ainda mais de convivência e experiência como um casal, desfrutando de uma liberdade convicta na frente da câmera.
Na frente da tela do computador vendo aquela casal num momento fofo no vídeo, me fez perceber porque as pessoas gostavam tanto de ver tags de casais naqueles últimos tempos. Aquilo de certo modo, despertava os sentimentos mais gostosos de se sentir quando se via um casal que você claramente shippava num momento fofo de interação. O casal do vídeo se beijou de uma forma carinhosa que fez o meu coração explodir de amor. Por um momento em minha cabeça se passou que eu teria que beijar Andrew no vídeo para dar esse toque afetivo ao telespectador para que eles sentissem o que eu sentira naquele momento meigo. Era algo que teria que conversar com Andrew assim que ele chegasse do seu emprego.
Continuei ali na frente da tela do computador procurando mais vídeos de tags com casais gays para mim tentar me inspirar. Cliquei em outro vídeo em que o YouTuber tinha cabelos pintados de roxo e usava um piercing ferradura no septo. Tinha a pele branca e olhos verdes. Usava um modelo de camisa raglan branca com as mangas rosas. O namorado dele que estava logo ao lado no vídeo, tinha a pele cor de chocolate e cabelos lisos feitos num topete arrebitado. Tinha olhos escuros e expressivos, de maneira que olhava para a tela e parecia olhar diretamente para quem estava do outro lado da tela como se estivesse realmente vendo a pessoa do outro lado. Ele também usava uma camisa preta lisa e um boné com estampa militar.
Enquanto o vídeo corria, me apaixonava mais por aquele casal. Eles estavam fazendo um jogo de perguntas e respostas sobre os dois. O jogo girava em torno de perguntas que mandavam através dos comentários e os dois tinham que levantar uma plaquinha com os nomes deles. A cada pergunta feita, eles levantavam uma dessas plaquinhas e se acaso os dois levantassem a plaquinha com a mesmo nome, acertavam, provando que se conheciam bem. O jogo inteiro foi bastante engraçado. Em alguns momentos os dois tiveram pequenos minutos de discordância, mas no fim, fizeram uma ótima pontuação como casal, provando que se conheciam bastante.
Pensei em fazer algo parecido com Andrew num próximo vídeo no canal. Achei que seria divertido um game para provar que nos conhecíamos bem, para não ficar uma coisa tão monótona e repetitiva nos vídeos falando apenas do nosso relacionamento. Deveria criar conteúdo para o canal que pudesse encaixar Andrew em todos e consequentemente passar a ter mais views. Tinha que usar a minha cabeça para aquilo.
Preparei um macarrão instantâneo para almoçar com o seu famoso caldo cancerígeno. Eu estava com preguiça de cozinhar naquele dia, então como estava apenas eu em casa, poderia comer sem culpa o que fosse mais fácil para mim. Eu também gostava muito de comer macarrão instantâneo, porém sabia que não deveria tornar aquilo uma rotina ou poderia ter uma possível anemia e um câncer futuro. Fora só por aquele dia mesmo, disse à minha própria cabecinha preguiçosa.
Na parte da tarde, resolvi atualizar a minha série favorita. "Game of thrones", que já estava na sua temporada final. Como um bom fã da série, estava em dia com os episódios e assim que assisti a mais de uma hora de episódio resolvi assistir um pouco de "Lúcifer", outra série que eu também adorava e fiz uma maratona completa. Até fiz pipoca no microondas para acompanhar enquanto eu assistia aos episódios.
Quando vi a hora, já estava avançada. Andrew já estava perto de chegar, comecei a ficar inquieto. Já não conseguia mais manter meu foco no televisor. Minha mente ficava escapando, não me deixando ficar concentrado em mais nada. Ficava vindo à todo o tempo em minha mente que estava prestes a hora de gravar o vídeo que poderia salvar o meu canal, se é que aquilo fosse acontecer de fato.
Desliguei a televisão e mexi um pouco no celular conferindo minhas redes sociais. Entrei um pouco no Instagram, curti algumas fotos, comentei em algumas coisas dos meus amigos dali de São Paulo, porém minha mente continuava a insistir naquele pensamento de ânsia. Sai e entrei no Facebook. Vi algumas publicações engraçadas e dei alguns "Raha". Comentei também alguns memes que me arrancaram uma boa risada, todavia a idéia parecia fixa na minha cabeça e sempre que achava que tinha ludibriado-a, ela provava que não.
Já eram mais de sete horas e nada de Andrew chegar. Comecei a ficar preocupado. Será que justamente no dia da gravação do nosso vídeo ele tinha ficado até mais tarde, preso no trabalho? Seria uma má sorte descomunal. Fiquei um tanto irritado no sofá. Já não conseguia parar de pensar naquilo. Me levantei e fui até o banheiro urinar, enquanto minha cabeça era invadida vorazmente por aqueles pensamentos.
Quando volto e sento no sofá totalmente largado, escuto o barulho de chaves sendo introduzidas na fechadura e tenho a certeza de que ele chegou. A maçaneta gira e a porta abre em seguida e vejo a imagem de Andrew de pé com uma caixa de pizza na mão.
― Eu trouxe o jantar! ― fala ele com um sorriso empolgado estampado no rosto.
Ufa!
Por mais que quisesse dizer aquela expressão em voz alta, não fiz. Apenas o olhei e lhe dirigi um sorriso agradável de surpresa, enquanto estendia os braços para pegar a pizza que cheirava muito bem.
― Estava mesmo com fome! ― digo pegando a caixa de sua mão.
Ele entra e fecha a porta. Caminho até a mesa com a caixa do alimento e a coloco sobre a mesa. Em seguida abro, sentindo aquele aroma cálido e aprazível subir contra o meu rosto que estava bem próximo. Meus olhos brilham ao ver a guloseima que estava com uma cara ótima. Minha boca enche-se de água e eu não resisto a tentação. Pego um pedaço e elevo aos lábios desfrutando do sabor sublime daquela fatia apetitosa.
― Você estava com fome mesmo! ― ressalta Andrew sentando-se ao meu lado e pegando uma fatia para comer também.
Comi pelo menos quatro fatias daquela pizza maravilhosa. Era um dos meus pratos favoritos, que nunca me cansava de degustar. Andrew comeu mais quatro e em um momento a pizza se foi completamente. O sabor dela era o meu preferido. Calabresa. Andrew odiava azeitonas, no entanto eu adorava e as que ele ia tirando de sua pizza, eu ia comendo sem nenhum problema. Assim que terminamos bateu aquela tristeza pós comida. Ficamos ali por mais algum tempo lamentando o quão rápido aquele manjar se foi. Andrew confessou que comeria mais quatro fatias sem problemas. Eu tomei um copo de água e já me dei por satisfeito.
― E então, quando vamos começar a gravar? ― perguntei num tom um tanto empolgado.
Andrew deu um sorriso torto.
― Deixa eu tomar um banho pelo menos, não quero aparecer no vídeo todo sujo e maltrapilho!
― Tudo bem! ― concordei com um gesto de cabeça e ele assim foi.
Fui esperá-lo sentado no sofá da sala, mexendo no meu celular rolando o YouTube para baixo só por fazer mesmo. Quando ele voltou, estava com uma roupa adequada, cabelos molhados e limpos. Vestia uma camisa branca com uma caveira colorida estampada e uma bermuda também multicolorida. Ele sentou-se ao meu lado no sofá e me encarou esperando alguma reação por minha parte. Lembrei que teria que pegar o único tripé que nós dividíamos no meu quarto para poder gravar aquele vídeo. Fui até lá e o trouxe para a sala. Ajustei o meu celular em cima do tripé.
― Então, o que estamos esperando para começar a gravar? ― pergunta Andrew quando vê que eu voltei a sentar, porém não coloquei a câmera para gravar ainda. ― Então vamos começar?
Eu faço um gesto positivo com a cabeça e me levantei do sofá, indo em direção ao meu celular no tripé para ligar a câmera para gravar. Antes de finalmente iniciar a gravação, adaptei o efeito da câmera para valorizar todo o ambiente em destaque. Ajustei o ângulo da câmera também. Por fim, liguei o flash para deixar o vídeo mais claro ainda e perceptível.
Com tudo pronto para gravar, voltei a me sentar do lado de Andrew que parecia tão nervoso quanto eu para aquilo. Por que não ficar, afinal era a primeira vez que nós dois estaríamos inventando uma mentira de tamanha magnitude para ganhar mais views no YouTube. O que aquilo poderia gerar? Nem sabíamos se o plano afinal de contas ia mesmo funcionar, mas colocávamos toda a nossa expectativa em cima dele para que no fim todo esse trabalho não fosse completamente em vão.
Gravando...
― Olá ativos aqui quem fala é o Max Muller e esse é o meu canal Maximizando! ― me apresentei para início de conversa como fazia em todos os meus vídeos. ― Se você ainda não é inscrito no meu canal aperta no botãozinho, você não vai pagar nada, além de que isso ainda ajuda muito o crescimento do meu canal. Se você gostou de mim ou gosta do meu conteúdo não perca tempo e venha ser um Maxcista.
Dei uma rápida olhada para Andrew que me olhava dizer todas aquelas coisas em silêncio. Lembrei que tinha que apresentar ele para o pessoal que estaria me assistindo e começar a introduzir o conteúdo do meu vídeo.
― Bem, hoje estou aqui com o Andrew, esse cara que vocês estão vendo aqui e hoje ele vai me ajudar com o vídeo! ― falei sacudindo levemente ele que estava com os braços cruzados me olhando com um ar malicioso. ― Antes de mais nada quero dizer que Andrew é o meu namorado e hoje no vídeo, vamos falar um pouco sobre o nosso relacionamento.
Uma pausa.
― A maioria aqui do canal, sabe que eu sou gay, pois eu gravei vários vídeos falando sobre a minha sexualidade e em alguns deles já até contei como foi o processo de me assumir para a minha família. Agora resolvi trazer mais um pedaço da minha história bem aqui! ― falei dando uma leve olhada para Andrew que correspondia bem à todos os meus gestos. ― Este é o meu namorado Andrew. Vim apresentar ele no canal para que vocês, meus inscritos, conheçam ele e também vim contar como nós começamos a namorar, para vocês ficarem por dentro de tudo!
― Oi, meu nome é Andrew e como vocês já sabem, sou o namorado do Max, esse homem maravilhoso que está aqui do meu lado! ― disse ele me dando um beijo na bochecha que me arrancou um sorriso tímido logo de imediato. O fato de não esperar aquele beijo, me fez ter a reação mais natural possível. ― Como ele já falou, vim ajudar Max a contar a nossa breve história de amor!
― Bem, como vocês já devem ter visto no título do vídeo, vamos falar sobre como começamos a namorar! ― digo num tom de empolgação. ― Foi algo um tanto inusitado.
― E põe inusitado nisso! ― fala Andrew num tom de piada e eu finjo dar um tapa nele.
― Como eu ia dizendo, foi algo bem inesperado, porque eu e Andrew somos amigos à muito tempo, desde quando éramos crianças lá em Iguaba Grande e crescemos juntos como dois amigos e não víamos possibilidade alguma de nos apaixonarmos um pelo outro de forma alguma. Mesmo nós nos descobrindo gays ainda na nossa puberdade.
― Daí eu vim primeiro morar aqui em São Paulo e depois ele veio atrás, então meio que ficamos morando juntos durante todo esse tempo. Eu tinha acabado de terminar o meu relacionamento de dois anos e ele chegou nesse momento para me prestar apoio. À partir daí nós ficamos mais próximos a cada dia que se passava.
Olho para Andrew falando tão convicto da veracidade daquela mentira contada por nós, que acreditaria nele se não soubesse de fato que aquilo não passava de um plano nosso com uma estória inventada por nós dois para selar aquele plano engendrado. Andrew volta a olhar para mim como se estivesse me passando a vez de falar, então volto a tomar posse da palavra.
― Andrew sempre foi um fofo comigo! ― articulei passando a mão suavemente pelo rosto dele que soltou um sorriso bobo que me enganaria de fato. No fim das contas, Andrew é que era o verdadeiro ator ali. ― Não foi difícil me apaixonar por ele. Aos dias que íamos convivendo, me apaixonava cada vez mais por ele.
Dei uma pequena pausa em minha fala. Nossos olhares se encontraram instantaneamente, então continuei dizendo:
― Houve um dia aqui nesse apartamento que em uma de nossas brincadeiras, acabei beijando ele, aí me deu uma louca, eu sei lá, aí pedi desculpas e saí correndo feito um louco para longe dele! ― digo rindo nervosamente como se aquilo realmente tivesse acontecido. ― Só faço merdas mesmo Brasil!
― O pior de tudo, é que eu fiquei lá igual um abestalhado na sala sem entender exatamente o que aconteceu! ― comenta Andrew numa falsa indignação, gesticulando e simulando a cara que ele fizera outrora.
― Ah, mas eu fiquei confuso gente! ― digo olhando em direção a câmera, cruzando os braços e fazendo um biquinho.
Andrew ri.
― Mas não justifica nada bebê! ― diz ele passando o dedo por meus lábios feitos em bico. ― Você tinha que me confundir porque se confundiu?
― Tinha! ― falo balançando a cabeça afirmativamente numa rápida frequência.
― A gente passou semanas num climão aqui em casa!
― Ah, mas depois disso eu falei com você e disse que eu estava apaixonado por você e você disse que também estava apaixonado por mim, já que nossa amizade ia mudar de qualquer jeito depois de tudo o que tinha acontecido...
― É e agora estamos namorando! ― concluiu Andrew me dando um abraço de lado, deitando sua cabeça sobre meu ombro.
― Então pessoal, o vídeo de hoje foi esse e se vocês gostaram desse vídeo deixem o seu like, porque isso ajuda o canal e também faz eu saber se vocês estão gostando ou não do tipo desse novo tipo de conteúdo que eu estou trazendo para vocês. Aqui quem manda no canal são vocês. E esse foi mais um vídeo um beijão e bye bye!
Levanto e aproximo minha mão da câmera, tapando a lente e encerrando o vídeo. Encerro a gravação no mesmo momento, apertando em parar. Tiro o meu celular do tripé e olho para Andrew que já se aproxima com o celular dele colocando no lugar do meu.
― E o que vamos fazer para o seu canal exatamamente? ― pergunto.
― Basicamente vamos contar a mesma história, você deveria saber disso!
Dou de ombros.
― Talvez.
― Bem, como agora sou eu quem vou falar, então não vou contar esta "estória" ― Andrew faz sinal de aspas com as mãos ― com as mesmas palavras que você, é claro!
― Eu sei. Acho que eu só buguei um pouco aqui.
Ele me dá um empurrão de leve só para me animar, o que de certa forma funciona. Dou um sorriso e ele aperta afetuosamente a minha bochecha o que me faz abrir um sorriso ainda mais largo.
Voltamos a gravar, porém agora Andrew que falava para o canal dele. Contávamos a mesma estória pela perspectiva de Andrew agora e eu o ajudei a contar algumas partes também, assim como fora no meu vídeo. Não fora completamente igual ao meu vídeo, é claro, porque nada era completamente igual. A forma como invertemos os papéis interferiu muito no desenrolar distinto do vídeo. A única coisa que não mudara fora a estória que contamos.
Com o vídeo já no fim, Andrew pediu para que eu e ele fizéssemos juntos o movimento de tapar a câmera com as nossas mãos. No mesmo tempo fomos e fizemos o movimento. Andrew apertou para parar a gravação e finalmente os nossos vídeos estavam gravados. Agora tudo o que tínhamos que fazer era editar o vídeo. Eu passaria o dia inteiro editando aquele vídeo, já que eu era o mais novo desempregado na grande São Paulo. Quanto a Andrew, eu não sabia, mas sabia que ele editar ia no seu tempo, já que trabalhava o dia inteiro praticamente. Só estava em casa na parte da noite e seria certamente aquele o momento que tiraria para postar o seu vídeo no canal. Uma coisa eu sabia, Andrew postaria o vídeo um pouco depois de mim. Minha pretensão era postar amanhã mesmo assim que eu terminasse de editá-lo.
Andrew havia tirado o seu celular do tripé e eu o levei novamente para o meu quarto para guardá-lo. Voltei para a sala e vi que Andrew assistia o vídeo que tinha gravado no seu celular. Me aproximei e assisti um pouco. À medida que o vídeo ia, via a nossa bela atuação naquilo tudo. Éramos realmente ótimos mentirosos. No entanto era por uma boa causa. Só para nós.
Com o fim do vídeo, Andrew baixou a câmera, voltando a sua atenção completamente para mim. Eu não lhe olhei de imediato nos olhos, mas quando finalmente encontrei o seu olhar ele era expectativo.
― E então? ― ele diz.
― E então o que? ― indago lhe dando um empurrão de leve.
― Acha que a globo já pode nos contratar? ― diz Andrew rindo.
― Ah, eu prefiro as novelas bíblicas da record porque eu sou uma moça evangélica! ― digo isso e Andrew ri.
― Você não presta! ― ele diz secando o riso. ― O fato é que somos ótimos mentirosos.
― Claro, já até podemos deixar o nosso currículo para a próxima temporada de Pretty Little Liars!
Andrew guarda o celular no seu bolso. O silêncio reina por alguns minutos ali. Eu odiava ficar no silêncio. Parecia que havia se perdido uma conexão. Achava tudo aquilo meio constrangedor. Não sei porque me sentir assim, porque eu estava em casa com o meu melhor amigo. Eu convivia com ele a vida toda e já nem era para eu me sentir assim, porque afinal, silêncio era apenas silêncio. Talvez não devesse haver nada de constrangedor nele.
― Bem, acho que devo cuidar para ir dormir.
Concordo com a cabeça. Andrew se levanta e eu faço o mesmo em seguida. Andrew vai para o seu quarto e eu vou rumo ao computador. Conecto o cabo USB e passo o vídeo que está em meu celular para o computador. Ainda são 22:00 horas. Pensei em começar a editar o vídeo, porém entro na plataforma do YouTube e o primeiro vídeo que eu vejo e de gatinhos fazendo gatices. Não consigo ignorar aquele vídeo e começo a assistí-lo. Logo outro. E outro. E mais outro. Quando vejo já são quase meia noite e eu ainda nem sequer havia começado a edição.
Por fim decidi que editaria todo o vídeo amanhã. De qualquer forma uma parte já estava encaminhada, que era a parte de ter passado o vídeo para o computador via cabo USB. Era uma coisa a menos para me preocupar no dia seguinte. Coloquei meu celular para carregar que estava com a bateria em quase dez por cento e já havia notificado que estava precisando mesmo de carga.
Voltei para desligar o computador. Esperei para que o sistema desligasse por completo. Ali ainda esperando, minha mente começou a falar. Eu finalmente havia gravado o vídeo que poderia alavancar o meu canal, me tirando do anonimato e finalmente me deixar ser conhecido em toda a Internet como muitos youtubers do ramo. Meu sonho ia finalmente a ganhar seus primeiros rascunhos até se tornar completo.
Mesmo que eu quisesse parar de sorrir, confesso que naquele momento eu não conseguiria parar. Já me via subindo até alcançar meu sonho. Claro que ainda seria uma longa jornada à trilhar, mas pelo menos já me sentia como se tivesse finalmente no caminho certo dos meus sonhos.
Finalmente o computador desligou, então fechei-o. Olhei a hora no meu celular que estava carregando, na verdade aquilo era mais um cheque de que meu celular estava carregando realmente, porque o meu carregador e o meu celular tinham um certo problema um com o outro e simplesmente do nada se desconectavam, parando de carregar. Eram exatamente meia noite e dez. Respirei fundo antes de tomar o passo. Sem sombra de dúvidas eu ia sonhar com aquilo, mas talvez já estivesse sonhando. Sorri enquanto caminhava até o meu quarto como se pisasse por entre as nuvens.
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