Capítulo 7



      Estendi minha mão até a bíblia e a toquei com a palma. Esperei alguns segundos até que fumaça começasse a sair de baixo da minha mão e então a tirei de lá.

     Kalamari e eu olhamos para o estrago que havia acontecido em minha pele, ela estava totalmente em carne viva com sinais explícitos de que havia sido queimada.

     — Agora acredita em mim? — perguntei fixando meu olhar no dele.

     A expressão de meu guarda não era nada boa, eu estava com medo que ele desmaiasse ou algo do tipo, mas por sorte isso não aconteceu. Kalamari apenas continuou a encarar a palma de minha mão como se de alguma forma ela pudesse responder todas as suas dúvidas.

     — Quantos anos você tem? — por fim se pronunciou.

     — Dezessete — respondi como se fosse óbvio.

     — Não só na Terra. Quantos anos você tem ao todo?

     Demorei alguns segundos para responder, fazia tanto tempo que estava fora da Corte que até mesmo havia me esquecido quanto tempo vivi lá.

     — Algumas centenas de anos — falei dando de ombros — Ainda era nova quando fui expulsa de lá.

     Esdras apenas concordou com a cabeça e envolveu seus dedos ao redor de meu pulso, o que sustentava a mão queimada.

     — Precisamos cuidar desse ferimento.

     A reação dele estava sendo estranha, o que me levou a crer que o mesmo devia estar em algum estado de choque. Decidi não contestar e apenas concordei em seguí-lo até a enfermaria do reformatório.

     Não era um cômodo muito grande, mas suficiente para abrigar quatro camas hospitalares e alguns armário com suprimentos médicos. Era sem sombra de dúvidas o ambiente mais limpo do reformatório, ao contrário dos quartos que cheiravam a mofo e a cantina com chão encardido.

     Kalamari fez com que eu me sentasse em uma das camas enquanto ele ia pegar pomada e algumas gazes. Aparentemente San Rafael não possuía uma enfermeira fixa então quem normalmente cuidava do lugar era a professora de matemática, a mais indicada para o trabalho por ter participado da Segunda Guerra Mundial como enfermeira. Sim, ela tinha quase cem anos de idade.

     Aproveitei aquele momento sozinha para refletir sobre tudo o que vinha acontecendo na minha vida ultimamente. Meu irmão havia morrido, eu matara meu pai, fui mandada para um reformatório, conheci Nike e Logan, ganhei um "guarda costas", perdi minhas asas e agora estava revelando todos os segredos dos anjos para um mero mortal que eu a pouco tempo descobrira o nome, mesmo que não tenha sido ele quem me contou. Era fato que muita coisa acontecera em tão pouco tempo, sem contar a misteriosa morte de Martha Reynolds.

     Algum tempo depois meu guarda voltou com tudo preparado para tratar minhas queimaduras.

     — Vai doer — falou como se eu já não soubesse.

     Ele sentou ao meu lado e, com cuidado, segurou minha mão. Estava feia, sequer parecia ter tido pele lá um dia, era apenas um amontoado de carne viva vermelha. Não sei por qual motivo vergonha tomou conta de mim, vergonha por ele estar vendo uma imperfeição em mim.

     — Por que fez isso consigo mesma? — questionou.

     — Era o único jeito de te provar que eu estava falando a verdade.

     Mordi meu lábio inferior com força quando o mesmo começou a espalhar a pomada em minhas queimaduras. Realmente estava doendo como ele havia dito.

 Embora anjos não sentisse dor, quando eu fui expulsa para a Terra me fadaram a viver como humana, ou seja, sentir tudo o que um humano sente. Isso inclui a dor, e as emoções também.

     — Me desculpe por isso, ainda está difícil de acreditar — desabafou.

     Eu sabia que não devia ser fácil para ele acreditar, William havia ficado um mês me chamando de louca até que eu decidi mostrar minhas asas para fazê-lo calar a boca. Só que agora eu não tinha mais como fazer isso, eu havia me tornado literalmente um anjo caído.

     A dor começava a diminuir conforme Kalmari cuidava dos ferimentos e uma sensação de refrescamento começava a tomar conta de minha mão. Após ele prender um curativo com firmeza, depositou um beijo por cima da gaze que cobria as queimaduras e desviou seu olhar para mim, dando um pequeno sorriso. Franzi o cenho, surpresa com seu ato, o que o levou a rapidamente se justificar.

     — Minha mãe costumava dizer que todo machucado sara com um beijo — disse virando o rosto para que eu não o visse, mas pude perceber suas bochechas se ruborizarem levemente.

     — Bom, eu espero que ela esteja certa — retruquei sorrindo.

     — Ela sempre estava — comentou soltando minha mão e desviou o olhar para uma janela não muito longe de onde estávamos sentados.

     — Estava? — perguntei me curvando para frente, para perto dele.

     Ele voltou a olhar para mim e deixou um sorriso triste transparecer.

     — Ela morreu a dois anos, embolia pulmonar, é o que os médicos disseram.

     — Eu...

     Estava prestes a dizer que sentia muito, porém, ao encarar os olhos de Kalamari, percebi que ele já estava cansado de ouvir isso. Eu não cometeria aquele erro.

     — Sabe, quando uma pessoa morre, ela não vai embora, pelo menos não totalmente. Sempre fica um pedaço dela no coração de cada pessoa que a considerava importante.

     Kalamari me encarou como se eu estivesse falando besteiras.

     — Ei! Estou falando a verdade. Sou um anjo, você não pode me contrariar — exclamei fazendo-o rir.

     Aquela risada era tão gostosa de ouvir que acabei por rir junto. Esdras estava me deixando ver um outro lado dele que, eu apostava, ele não costumava mostrar para muitas pessoas, e eu estava feliz por ser uma das que conhecia.

     — Eu não queria te contar, mas já que estamos em um momento de sinceridade. Bem, eu vou dizer. Minha mão ia se curar em menos de duas horas, você não precisava ter feito curativo algum.

       Aquele era um dos poucos resquícios da minha vida como anjo, além da audição aguçada e super força. Havia certas coisas que a Corte não poderia tirar de mim, pois fazia parte do meu ser, essas eram algumas delas.

     Encarei-o para ver que expressão surgiria em seu rosto e, para minha surpresa, eu o havia divertido com isso.

     — Então por que me fez fazer isso? — perguntou fingindo incredulidade.

     — Eu já te disse que não sou uma pessoa fácil, eu tinha que te dar um pouco de trabalho para manter minha integralidade.

     — Ah, certo, senhorita "não sou nada fácil". Vamos voltar para seu quarto, amanhã você tem aula e não pode usar a desculpa de que está doente, afinal, você mesma disse que é um anjo e se cura em poucas horas.

     Suspirei e me levantei da cama seguindo-o para fora da enfermaria.

     — Me lembre de nunca mais te contar algo que você possa usar contra mim — respondi frustrada.

     — Certamente não te lembrarei disso — retrucou me fazendo dar uma cotovelada em seu braço.

     Kalamari apenas riu e continuou a me escoltar até meu quarto.

     Era estranho poder conversar livremente com ele sem que o mesmo me ignorasse ou simplesmente mandasse que eu calasse a boca. Esperava que no outro dia continuasse assim, ou pelo menos que ele tivesse acreditado em minha história ao invés de me achar uma completa louca e me mandar para um hospício. Todas as decisões estavam nas mãos de Esdras naquele momento e eu torcia para que ele escolhesse as certas.





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Um pouco mais curto, mas com algumas revelações.

Kalamari está finalmente se abrindo para Aalis, será que vai rolar amizade entre eles?

Deixem o feedback de vocês nos comentários, prometo responder todos.



Beijinhos de Luz,



Vi Mello

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