Capítulo 30

       Quando finalmente paramos, estávamos sem fôlego. Cair fez com que nossos corpos começassem a enfraquecer, não éramos mais imortais.

       Estávamos próximos de uma das montanhas que preenchiam aquele lado da reserva, a abundância de árvores ajudava a nos esconder.

       — Quanto tempo vocês acham que temos até nos encontrarem? — questionou Laysa.

       — Imagino que não muito. Tenho certeza que Sapryn vai sair escondida para nos procurar, sem os guardas do reformatório — supôs Logan.

       Eu havia pensado na mesma coisa.

       Com os guardas, Sapryn seria obrigada a manter sua identidade humana. No entanto, se estivesse sozinha... bem, eu não queria pensar nessa possibilidade.

       — Tinha um outro cara com ela. Ele estava usando roupas normais, não parecia ser um guarda.

       Todos viramos para Tristan, curiosos com o que ele acabara de falar.

       — Como ele era?

       Por algum motivo, uma pontada de esperança surgiu em meu peito.

       — Não consegui ver direito, ele estava usando boné, mas tenho quase certeza de que era loiro.

       Senti o olhar de Esdras sobre mim, ele sabia o que estava se passando na minha cabeça naquele momento. Era Will, tinha que ser.

       — Aalis — me chamou com voz de advertência.

       — E se for ele?

       O ex-guarda não parecia acreditar nisso, pois negou com a veemente com a cabeça.

       — Ele quem? — Nike questionou.

       — Will está morto, Aalis — insistiu Esdras.

       — Quem é Will? — foi a vez de Hannah perguntar.

       — Meu irmão.

       Ela franziu o cenho confusa.

       — Da família que me infiltrei quando caí — expliquei.

       Era claro que William não poderia ser meu irmão de sangue, afinal, eu era um anjo caído. Entretanto, o considerava como se fosse.

       — O padrasto de Aalis matou Will a mandado da Corte.

       Encarei Esdras com raiva, ele não tinha o direito de revelar isso para as pessoas. Ele respondeu apenas dando de ombros.

       — Eu matei meu padrasto depois disso e fugi para os Estados Unidos. Me encontraram e fui mandada pro reformatório — concluí a história à contra gosto.

       Ninguém pareceu se chocar com a história, apenas Laysa alterou um pouco sua expressão. Eu não esperava diferente, eram anjos caídos, já viram de tudo nessa vida.

       — Aalis acha que viu Will em um bar quando estávamos indo sacar meu dinheiro.

       — Dá para parar de falar — alertei.

       Esdras levantou as mãos em rendição, o que me fez revirar os olhos.

       — Eu não acho, tenho certeza que era ele.

       — Mas se ele está morto, como teria... — Nike começou a falar, mas eu o impedi.

       — Nós já fomos humanos antes — falei me referindo aos anjos caídos presentes no grupo.

       De início pareceram não entender, mas logo percebi o olhar de compreensão do Esdras.

       — Você acha que a Corte transformou Will em um anjo? — perguntou surpreso.

       Concordei com a cabeça.

       Eu não tinha uma explicação para isso. Não sabia que motivos levariam a Corte a transformá-lo em anjo, mas também não sabia porque fizeram o mesmo comigo. Provavelmente seria uma eterna incógnita.

       Poderíamos ter continuado a conversa se uma espada não tivesse voado em nossa direção e cravado na árvore próxima de Laysa e Logan. A arma brilhava com uma estranha aura dourada ao redor.

       — Ela nos achou.

       Tentei correr, mas algo se prendeu ao meu pé e me puxou em direção ao chão. Antes que pudesse me livrar daquilo, um homem veio para cima de mim segurando meus braços com força para que não me movesse.

       Naquele momento tive total certeza de que Will estava vivo, pois era ele quem estava me segurando.

       Sua expressão de raiva me deixou confusa, fora a força que estava fazendo para me prender ao chão machucando meus pulsos.

       — Will? — perguntei duvidosa.

       Ele não parecia me reconhecer.

       Desviei o olhar a tempo de ver Nike aparecer por trás de Will com um galho na mão. Ele mal levantou sua "arma" e meu irmão já a arrancara de sua mão, lançando para longe. Ele estava muito mais forte e ágil.

       Aproveitei aqueles segundos em que Will parou de prestar atenção em mim e saí de baixo dele, voltando a ficar de pé. Não muito longe, Hannah, Tristan e Logan lutavam com Sapryn, claramente perdendo. Laysa havia sumido. Já Esdras estava um pouco afastado observando a luta, provavelmente sem saber o que fazer.

       — Foge! — gritei pra ele antes de me jogar nas costas de Will.

       Tentei segurar seus braços para que Nike socasse ele, mas Will era muito mais forte que eu. Não demorou muito para que conseguisse se livrar de mim, me jogando com força no chão. Bati a cabeça na terra e tudo começou a girar.

       Ele segurou o braço de Nike e sem pensar duas vezes quebrou seu úmero, o grito de dor dele me fez estremecer. Will não estava lá para brincar.

       Corri até meu namorado caído no chão. Sua expressão de sofrimento era clara, ele estava com muita dor. Não ousei olhar para seu braço, pois sabia que não devia estar nada bonito.

       Senti alguém se aproximar, estava pronta para atacá-lo quando virei e vi que era Esdras.

       — Eu tiro ele daqui — falou segurando o braço bom de Nike e o colocando sobre seus ombros.

       Nike tentou protestar, dizendo que queria ficar para ajudar, mas estava óbvio que ele não tinha mais como. Logo os dois sumiram mata adentro e eu me vi cara a cara com meu irmão.

       — Você não lembra de mim? — perguntei em posição de defesa, pronta para desviar de seus golpes.

       — Deveria?

       Ele se aproximou para me dar um soco, mas consegui desviar.

       — Você estava morto. Eu vi Jared atravessar seu corpo com uma faca.

       Lembrar daquela cena ainda me dava calafrios. Era como reviver meu pior pesadelo repetidas vezes.

       Will ignorou o que eu disse e continuou a me atacar.

       Um grito me fez virar em sua direção assustada. Tristan conseguira arrancar uma parte da asa de Sapryn, nós conhecíamos aquela dor.

       Meu adversário não parece se importar com a cena, pois chutou meu estômago enquanto eu estava distraída.

       Todo o ar saiu de meus pulmões e eu quase vomitei.

       Bati com as costas no chão, sem força e com dor demais para levantar. Se Will quisesse me matar, aquela era a hora.

       Ele voltou a surgir por cima de mim, pronto para acabar com a luta.

       — Por favor, Will. Não! — implorei.

       Tentei levantar meu braço direito para me defender, mas Will pisou nele com força me fazendo gemer de dor.

       — Por favor — sussurrei.

       Eu não tinha mais forças pra me defender.

       De repente, alguém surgiu em meu campo de visão. Ele estava vindo em nossa direção.

       Antes que eu pudesse gritar para Esdras sair de lá, ele estendeu algo, uma fotografia.

       William agarrou a garganta de Esdras e tirou a foto de sua mão.

       Lancei um olhar interrogatório para meu amigo, mas o mesmo não prestou atenção em mim já que estava sendo sufocado por meu irmão.

       — O que é isso? — o loiro perguntou com raiva e estendeu a foto em minha direção.

       Foi aí que entendi.

       Era a única lembrança que eu tinha guardada de Will, um fotografia nossa. Eu não fazia a menor ideia de por que Esdras estava com ela.

       — Larga meu amigo — falei tentando demonstrar confiança.

       Ele me encarou por alguns segundos até que finalmente largou a garganta de Esdras.

       Enquanto o ex-guarda recuperava a respiração, eu expliquei para Will a foto.

       — Somos nós quando mais novos.

       A expressão confusa de Will me entristecia, ele realmente não lembrava de quem era.

       Depois de analisar a foto mais uma vez, ele soltou meu braço. Esfreguei o pulso dolorido e, com cautela, me levantei. Não queria assustá-lo, pois sabia que isso resultaria na minha morte.

       — Foi em uma viagem para...

       Ele não me deixou terminar.

       — Paris — concluiu.

       Arqueei as sobrancelhas surpresa que ele sabia disso.

       — Tive um sonho nesse lugar — admitiu.

       Fiz questão de me aproximar, mas Esdras segurou meu braço para me impedir.

       — Jared nós levou para conhecer a Torre Eiffel. Paramos nessa praça por causa do cansaço, tínhamos caminhado o dia todo.

       — Jared?

       — Seu pai — esclareci.

       — Você disse que ele me matou. Por quê?

       — Foi a Corte. Eles mexeram com a cabeça do seu pai, deixaram ele louco. O fizeram acreditar que precisava matar você.

       — Como vou saber que isso tudo é verdade? — questionou.

       Will não parecia confiar muito em mim, mas não o julgava. Aquele momento devia ser o mais confuso de sua vida como anjo.

       — Esse anel — falei apontando para a sua mão — Era da sua mãe. Você o usa desde que ela morreu.

       Ele olhou para a mão e depois para mim.

       Sua expressão havia mudado, fazendo com que meu coração se enchesse de esperança.

       — Eu lembro de uma mulher loira que me levava para passear em uma fazenda quando eu era criança — revelou.

       — A gente morava em uma fazenda, Will. No sudeste da França, em uma casa amarela.

       — Com um cavalo muito estranho — falou soltando uma espécie de risada misturada com surpresa.

       — Sim, Pierre. O cavalo mais estranho do mundo, ele achava que era uma vaca.

       Ri também.

       — Eu lembro de algumas coisas, mas minha cabeça ainda está confusa — disse levando a mão à testa.

       Will realmente queria parecer lembrar, mas sua mente não estava cooperando.

       Tentei novamente uma aproximação, mas dessa vez Esdras não segurou meu braço.

       Coloquei a mão no ombro de William e sorri triste.

       — Tá tudo bem.

       Seus olhos me encaravam confusos.

       — Aalis? É esse seu nome né?

       — Sim.

       Um sorriso estava começando a se formar em seu rosto, mas percebi que seu olhar desviou para algo atrás de mim.

       Me virei a tempo de ver Sapryn deslizar sua espada pela garganta de Esdras.

       — Não! — gritei me jogando sobre o corpo do ex-guarda.

       Esdras tentava respirar, mas o corte em sua garganta o fazia sufocar com o próprio sangue. Seus olhos vidrados no céu repleto de estrelas estavam arregalados.

       Senti as lágrimas escorrer por meu rosto, Esdras ia morrer.

       — É isso que acontece quando um humano se envolve com anjos caídos — ela falou limpando a lâmina da espada na manga de sua camiseta.

       Vi não muito longe Tristan inconsciente no chão, e Hannah e Logan com dificuldades de levantar. Sapryn havia acabado com eles.

       A diretora estava sem uma das asas, mas isso não parecia afetá-la naquele momento.

       — Mate a garota, William — disparou para meu irmão com a voz autoritária que usava para falar com os alunos do reformatório.

       Segurei a mão de Esdras, que já não respirava mais, e fixei meus olhos inchados em Will.

       Se ele escolhesse me matar, eu não protestaria.

       O homem parecia confuso intercalando seu olhar entre Sapryn e eu. Não sabia se seguia as ordens da diretora ou acreditava em tudo o que contei sobre sua vida como humano.

       Will então tirou a espada que guarda nas costas e veio em minha direção.

       Fechei os olhos me preparando para receber seu golpe final, mas ele nunca chegou. Voltei a enxergar a tempo de ver a espada de Will atravessando o coração de Sapryn.

       A anjo entreabriu a boca deixando sair um último suspiro antes de cair morta no chão. Seu corpo emitiu uma intensa luz dourada e desapareceu como se ela nunca tivesse estado lá.

       Voltei minha atenção para Esdras.

       Ele não respirava mais e não tinha pulso, estava morto.

       As lágrimas voltaram a embaçar minha visão.

       Como eu iria contar para Katherine que seu noivo estava morto? E principalmente, que a culpa era minha.

       Senti braços envolverem meu tronco. Eu não sabia quem era, mas retribui o abraço encharcando a camiseta da pessoa com lágrimas.

       — É tudo culpa minha — sussurrei entre soluços.

       — Shhh... não é culpa sua — Laysa respondeu, era ela quem me abraçava.

       Eu não conseguia soltar a mão gelada dele. Sentia que se fizesse isso iria significar que eu aceitava sua morte, o que não era verdade.

       — Tem um jeito de salvar ele.

       Me afastei de Laysa o suficiente para ver Will.

       — O... o que? — perguntei abalada.

       — Lembro de ter lido um livro que falava sobre isso. Se um anjo sacrifica sua vida pela de um humano, o mortal volta à vida — explicou.

       — Isso significa que Esdras pode voltar a viver?

       Will concordou.

       Eu estava quase sorrindo, mas percebi o que teria que dar em troca.

       — Quem daria a vida por ele? Não acho que algum anjo aceitaria isso.

       Meu irmão continuou me encarando, esperando que eu entendesse o que ele quis dizer.

       — Espera aí. Você está dizendo que pretende dar sua vida pela dele? — questionei em choque, ele não poderia estar falando sério — Não! Eu não vou te perder de novo.

       — Aalis, é a única forma. Eu não pertenço mais à esse mundo, sequer lembro da minha antiga vida.

       — Não quero escolher entre um de vocês dois — falei voltando a chorar desesperadamente.

       Aquilo não poderia estar acontecendo.

       Eu nunca conseguiria escolher. Os dois eram importantes para mim e não queria perdê-los. Estava apaixonada por Esdras e finalmente recuperara Will, agora teria que ver um deles morrer? Era injusto.

       — Então não escolha. Me deixe fazer isso por você, Aalis.

       Will parecia determinado, não consegui identificar medo em seus olhos.

       Não respondi, pois não conseguiria fazer isso.

       O loiro se ajoelhou à minha frente e beijou minha testa, como fazia quando éramos mais novos.

       — Eu posso não lembrar de quando era humano, mas sinto que te amo.

       — Eu também te amo — sussurrei limpando as lágrimas que escorriam por meu rosto com a mão livre.

       Will se virou para o corpo de Esdras e aproximou seu rosto ao dele. O anjo tocou seus lábios nos do humano, como se fizesse respiração boca a boca, e logo os corpos dos dois começaram a brilhar, o mesmo brilho que Sapryn emitiu ao morrer.

       Precisei fechar os olhos por alguns segundos por causa da luz e quando voltei a abri-los Will não estava mais lá.

       Eu ainda segurava a mão de Esdras, mas ela não estava mais gelada. Eu conseguia sentir o calor retornar aos poucos, o que indicava que o sangue voltara a circular em seu corpo. O corte na garganta se fechou, deixando como lembrança uma horrível cicatriz escura que tomava seu pescoço de uma extremidade à outra.

       Seus dedos apertaram os meus de leve e logo o homem abriu os olhos, piscando algumas vezes para se habituar com a visão.

       — Aalis? — perguntou confuso quando me viu.

       Não respondi, pois meu único impulso foi beijá-lo.

       Quando toquei meus lábios nos de Esdras ele pareceu se surpreender, pois permaneceu estático por alguns segundos. No entanto, sem demora levou sua mão aos meus cabelos e retribuiu o beijo.

       Eu nunca o havia beijado antes, só em um sonho, mas definitivamente não era a mesma coisa. Seus lábios tinham gosto de twizzlers, o que foi uma surpresa para mim, pois não imaginava que ele gostava de doces.

       O beijo foi fraco e durou poucos segundos, mas serviu para deixar meu coração acelerado.

       Quando me afastei meu rosto estava vermelho e inchado, não sabia dizer se por causa do choro ou do beijo. Meu olhar desviou para Nike, que ao longe encarava a cena. 


 ▬▬▬▬▬♛♛▬▬▬▬▬ 

Eu não esperei até o penúltimo capítulo pra fazer eles dois se beijarem, magina.

Sem muito a dizer, vou deixar tudo pro último capítulo.

Amo vocês <3



Vi Mello


Obs: O Will pros curiosos de plantão

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top