Capítulo 22

       Acordei com uma mão tapando minha boca. Tentei gritar, mas a pessoa sussurrou para eu ficar quieta. Eu conhecia aquela voz.

       Concordei com a cabeça e afastei sua mão.

       Eu não sabia o que estava acontecendo, mas pelo que entendi era algo que Esdras não poderia descobrir, pois saímos do quarto em silêncio para não acordar o guarda que dormia na poltrona próxima da janela.

       — O que está acontecendo? — perguntei sussurrando.

       Ele não respondeu e continuou caminhando, o que me deixou ainda mais curiosa.

       — Logan — insisti.

       Ele suspirou irritado, mas começou a falar.

       — Lembra quando você perguntou se já nos conhecíamos e eu disse que não? Bem... eu menti.

       — Como assim? — questionei confusa.

       — É difícil de explicar, mas você já vai entender.

       Logan parou na frente de uma porta que eu nunca havia reparado e a abriu revelando uma escada.

       — Vamos — disse me puxando para o cômodo escuro.

       Aquela escada dava em outra porta, provavelmente era o porão do reformatório. O garoto deu três batidas e a abriu.

       Um grupo de pessoas estava no centro da sala conversando, eles ficaram em silêncio quando entramos. Reconheci Tristan e Agnes entre eles.

       Olhei confusa para Logan e me aproximei do pessoal com ele.

       — Oi, Aalis — disse Agnes sorrindo.

       Sorri de volta mesmo entendo nada.

       — Não sei se você conhece todos, mas eu vou apresentar. Essa é a Hannah — falou apontando para uma garota de cabelos castanhos curtos.

       Hannah fez o sinal de positivo com a mão.

       — Tristan — sinalizou o garoto que eu já conhecia muito bem.

       Cruzei os braços e ignorei o sorriso faceiro e a piscada que direcionou para mim.

       — A Agnes você já conhece. E por último o Tyler.

       Franzi o cenho.

       Eu conhecia ele, era o guarda do Nike. Decidi não falar nada por enquanto.

       — Nós somos como você, Aalis.

       — O que você quer dizer com isso? — questionei.

       Agnes se aproximou de mim e colocou a mão em meu ombro.

       — Caímos e tivemos nossas asas roubadas assim como você.

       Minha mente travou por alguns milésimos de segundos. Se eles estavam tentando me dizer o que eu pensava, aquilo seria loucura demais para mim.

       — Aliás, eu queria te pedir desculpas por derrubar suco em você aquele dia na cantina, nós ainda não tínhamos certeza se você era um anjo e seu interesse na Martha poderia nos prejudicar.

       — Vocês estão querendo me dizer que são anjos caídos? — perguntei fazendo-os rir.

       — Sim, Aalis. Nós somos anjos caídos, Martha também era — explicou Logan.

       Então eu estava certa esse tempo todo.

       — Nós viemos para o reformatório, pois achávamos que seria um lugar seguro para nos escondermos da Corte, mas pela morte de Martha você pode ver que estávamos errados.

       — Como assim seguro? O que esse lugar tem de especial?

       Foi Tristan quem me esclareceu.

       — San Rafael foi criado por anjos caídos, eles queriam construir um lugar em que a Corte não conseguisse achá-los.

       — Então por que fizeram uma capela? — questionei arqueando as sobrancelhas.

       — Não é um problema, contanto que você não entre nela.

       Eu pensava que só o fato de chegar perto de um templo religioso já entregava nossa localização, me equivoquei.

       — De alguma forma a Corte nos encontrou e acreditamos que uma Virtude está infiltrada aqui dentro.

       — Nós fomos tão cuidadosos — lamentou Hannah.

       — Então... Eu posso meio que ter entrado na capela, mas isso foi depois de Martha morrer — tentei me justificar.

       Os cinco me encarar pasmos.

       — Você tem noção do que fez — vociferou Hannah.

       — Serafins conseguem voltar no tempo, sua idiota! — agora era Tristan quem estava pronto para bater em mim.

       — Desculpa, mas quando eu caí não recebi um manual de como ser um anjo caído! — exclamei.

       — Vamos ficar calmos — Logan tentou apaziguar a situação.

       — Ela basicamente matou Martha — Agnes continuou com as acusações.

       — Eles podem ter nos descoberto antes, por que voltariam no tempo só para matar Martha?

       Logan estava certo. Martha não era especial ao ponto de os serafins usarem seus poderes para voltar no tempo e matá-la. Pelo menos era no que eu queria acreditar.

       — Além do mais, tivemos sorte em nos encontrar. Aalis viveu sozinha esse tempo todo, ela teve que descobrir como se virar na Terra por conta própria.

       Eles se aquietaram, mas Tristan continuou me encarando com raiva. Eu não me importava, não gostava dele mesmo.

       —Você ainda não me explicou por que eu tenho a sensação de que já nos conhecemos — indaguei.

       — Nós temos uma teoria de que já fomos humanos.

       — Isso não faz o menor sentido — rebati.

       — Você não teve sonhos estranhos? Como se estivesse vivendo a vida de outra pessoa.

       Aquele sonho do casamento veio à minha mente no mesmo segundo. Ele parecia ser real, como se fosse uma lembrança a muito tempo esquecida.

       — É... acho que sim — admiti.

       — Pois então. Antes de vir para cá, fui atrás de informações sobre meus sonhos. Acabei encontrando um túmulo em Atlanta com o nome da pessoa que sonhei ser: Thomas Forbes, ele morreu em 1993. Quando contei para o pessoal, Hannah disse que também havia descoberto algo sobre os sonhos dela.

       — Encontrei um restaurante em Denver com um foto minha pendurada na parede, aparentemente eu fundei aquele lugar — ela explicou.

       — Mas... Então como somos anjos? Eu lembro de ter sido criada pela Corte. E isso não explica por que eu sinto que já nos conhecíamos.

       — Nós ainda não sabemos como isso pode ser possível, mas estamos tentando descobrir — Tyler finalmente se pronunciou.

       — E quanto a nós dois, acredito que tenhamos nos conhecido quando éramos humanos, para mim essa é a única explicação. Você viu algo relevante em seus sonhos? Como seu nome, ou o lugar em que estava.

       Eu lembrava perfeitamente daquele sonho, como se o visse todas as noites.

       — Laurie. O nome dela era Laurie.

       Aquela história de ser humana ainda não fazia sentido para mim. Eu nasci alguns séculos atrás como anjo, era isso que eu sempre fui, um anjo. Não tinha motivos para eu duvidar disso. O casamento, a Laurie, foi tudo um sonho estranho.

       O garoto ficou pálido no segundo em que disse aquele nome.

       — O que foi? — perguntei confusa.

       — Você está bem, Logan? — Hannah perguntou preocupada.

       — Pode ser uma coincidência, mas a esposa do Thomas se chamava Laurie — disse pausadamente, provavelmente surpreso demais com aquela revelação para conseguir falar normalmente.

       — Se essa história de ser humano estiver certa, você acha podemos ter sido... casados?

       Ele concordou com a cabeça.

       Aquilo era loucura.

       — Com o que você sonhou? — perguntou com a voz esperançosa.

       — Um casamento ao ar livre, Laurie estava casando.

       — E você conseguiu ver o noivo? — continuou com o interrogatório.

       Todos me encaravam como se eu fosse dizer algo super importante.

       — Não, só os olhos dele. Eram castanho escuro quase... — me perdi nas palavras quando olhei diretamente para os olhos de Logan.

       — Preto — ele concluiu.

       — Era você — falei atônita.

       Agora eu não tinha mais dúvidas, era realmente ele o garoto do meu sonho. Aqueles olhos... como demorei para perceber?

       — Eu tive esse mesmo sonho, Aalis. Sempre que você começava a se aproximar tudo ia se esvaindo, nunca consegui ver seu rosto.

       A ideia de ter sido humana já não parecia tão louca assim. A gente teve o mesmo sonho, não poderia ser coincidência. Além de que Logan encontrou uma prova de que Thomas e Laurie realmente existiram. No entanto, ainda não entendia como viramos anjos e porque eu tinha lembranças de ter vivido séculos se Laurie nasceu no século XX.

       — Você deve estar cheia de dúvidas, mas saiba que ainda tem muita coisa que não sabemos explicar — disse Agnes.

       Ela ainda estava com cara de reprovação, mas não voltou a tocar no assunto sobre Martha.

       Eu poderia ou não ser a culpada da morte de Martha. Se a primeira opção fosse a verdadeira, eu não sei como me perdoaria.

       — Tem outra coisa que não contei para vocês.

       Novamente fui alvo de seus olhares.

       Respirei fundo e admiti de uma vez a besteira que havia feito.

       — Esdras sabe que eu sou um anjo.

       Tyler foi o único que reagiu ao meu comentário.

       — Por quê? — perguntou aparentemente tentando manter a calma

       — Quem é Esdras? — questionou Agnes.

       — É meu guarda — esclareci para eles — Eu estava com raiva porque roubaram minhas asas, acabei contando tudo pra ele. Mas ele é meu amigo, está me ajudando desde então.

       — Isso é arriscado, Aalis. Não pode contar sua identidade para os humanos, é algo muito além da compreensão deles.

       — Eu sei — reconheci.

       — Ei, pessoal. Já é tarde, precisamos voltar antes que sintam nossa falta.

       Todos concordaram com Hannah.

       Nos despedimos e cada um seguiu seu caminho de volta para os quartos. Tive sorte ao encontrar Esdras ainda dormindo.

       Quando deitei em minha cama, senti um sorriso se formar em meu rosto. Eu não estava mais sozinha.



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Oi meus princesos

Obrigada a quem chegou até aqui, vocês me emocionam <3

Espero que tenham gostado do capítulo, teve muitas revelações que podem mudar completamente o rumo da história

Não esqueçam de votar e fiquem ligados que vem mais por aí



Vi Mello

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