prólogo

— Você é desprezível, Donavan.

Engulo em seco, empurrando para baixo o bolo que se forma na minha garganta.

Blaine arqueia uma sobrancelha, com o rosto a poucos centímetros do meu. O cheiro de nicotina, misturado ao do couro da sua jaqueta, me deixa nauseada.

Os olhos escuros como a noite estão vermelhos. Não sei se ele esteve chorando ou bebendo demais. Surge, então, uma vontade de rir dos meus pensamentos, já que eu não imagino Blaine Northwar chorando. Ou sentindo. Pelo menos não o Blaine que ele se transformou nestes anos em que estivemos separados.

— E você não tinha o direito, Northwar — rebato, segurando a vontade de estapear seu rosto. — É a minha vida, não a sua.

— Não vou deixar que acabe com mais uma vida.

Não consigo mais segurar as lágrimas, sentindo o calor úmido que escorre por minhas bochechas, até o meu queixo. Ele não tem o direito de tocar nesse assunto, não desta maneira.

Só que eu me esqueço no que Blaine se transformou. Um monstro.

Sua expressão sequer vacila quando fungo, tentando manter o controle da respiração para não continuar nesta cena lamentosa e emotiva. Demonstrar algo perto de Blaine é o mesmo que me deixar vulnerável a ele. E não posso deixá-lo estar no controle. Não mais.

Agora, estou erguendo uma guerra.

— Quer saber, Northwar? Você me chama de desprezível, mas você é pior do que isso. Você é sujo, imoral e asqueroso. Tenho pena de ter, um dia, considerado você parte de algo bom na minha vida.

Um lampejo de emoção passa por seu rosto.

Tocar no passado é algo pesado entre nós. Desde a minha volta, nenhum dos dois falou nisso. É uma regra implícita, como se não estivéssemos, de fato, preparados para cair. É assim que me sinto quando penso em tudo o que passamos: uma queda livre. O frio na barriga, a emoção e a queda. Alta o suficiente para matar. Pelo menos uma parte de mim morreu quando eu cheguei ao fim do caminho.

O ar do pequeno escritório fica mais pesado, me fazendo transpirar. O corpo esplêndido e forte de Blaine está inclinado sobre mim. Sua altura e o tamanho dos braços me causam um leve tremor. Anos atrás, seria de excitação. Agora, é de medo.

— Estamos na mesma página, então. Não consigo me recordar de um sentimento bom que envolva você, doutora Donavan — ele usa o termo com escárnio. — Você é a pior parte do que eu conheço como passado.

Minha mão trêmula vai até o bolso traseiro do jeans. Com mais força do que mensurei, espalmo a mão com o pingente no meio de seu peito. Blaine dá um passo para trás, baixando o olhar até minha mão. O contato com seu torso, mesmo que protegido pela fina camada de algodão, me faz arder.

— Quero que você se desfaça disso e de qualquer memória que me envolva. — Solto a corrente em sua mão, sentindo como se meu pescoço estivesse nu sem a pedra ali.

Giro em meus calcanhares e limpo os olhos com as mangas da camiseta. A luz avermelhada do ambiente o torna ainda mais macabro, e o som abafado vindo do salão do bar me deixa aliviada por saber que ninguém ouviu a discussão anterior.

Paro em frente à porta, notando uma lufada de ar vinda de Blaine.

Ele finalmente deve ter se tocado sobre o pingente na corrente.

Toco a maçaneta da porta, encarando o material entre minhas mãos.

— Eu estou de volta, Blaine — falo seu nome em um tom firme, movendo o sentimento nostálgico para fora de mim quando o olho por cima do ombro. — E você vai precisar de mais do que uma batalha para me derrubar. Eu não estou disposta a cair.

Uma risada baixa corta o ambiente no momento em que abro a porta. É um som que faz meu corpo todo tremer.

— Nem eu, querida.

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top