Capítulo 8

Faziam umas quatro horas que eu estava trancada naquele quarto de hotel. O almofadinha do Leonard ligou para meu pai lhe dando um relatório completo de tudo o que eu fiz, e tudo resultou no meu pai querendo me dar bronca e eu o ignorando. Traduzindo: ele não liberou dinheiro algum e fez eu ficar nesse hotel até aquele mala sem alça do Leonard voltar de um compromisso.

Chad deve estar do lado de fora da minha porta. Vi quando Leonard lhe disse algo e minha vontade de pular em cima daquele cara e lhe dar uns tapas só aumentavam. Era bom não nos colocarmos no mesmo vôo ou eu realmente lhe jogaria de lá.

Peguei meu celular e chequei as horas. Já eram cinco da tarde, logo iria escurecer e eu realmente estou tão feliz por dentro que queria me divertir um pouco.

Ver o sorriso daquelas crianças criou um sentimento dentro de mim que eu nunca senti. Eu nunca tive um bom relacionamento com criança alguma, na verdade eu nunca tive contato direto dessa maneira. Ver aquelas pequenas criaturas, com olhos brilhantes e sorrisos inocentes e ver o quanto já sofreram com ausência dos pais me machuca. Eu me sinto como eles, de alguma forma. Meu pai não se importa comigo, minha mãe está morta. Eu sou basicamente órfã.

Quando eu conseguir minha conta bancária de volta, a primeira coisa que irei fazer é ajudar aquele orfanato e entre outros. Eu não faço nada relevante com todo aquele dinheiro mesmo.

Meu celular vibra avisando sobre uma nova chamada.

Mack! 

— Salvador da minha vida, como tem passado? – perguntei ao atender.

O que você quer de mim agora? – soltei uma risada.

— Foi você quem ligou!

— Liguei para saber como está, só isso.

— Estou bem, bem trancada em um quarto de hotel. – revirei os olhos. — Eu estou em Nova York, vim fazer umas coisas por aqui.

— Precisa de dinheiro?

— Preciso!

— Eu não tenho. – diz e começa a rir me fazendo bufar em frustração. — Estou brincando. Recebi um dinheiro que estou lhe devendo, tem caneta para anotar  ai?

— Você está falando sério? – me sentei na cama.

— Sim, estou. Com essa grana eu estou indo para o Canadá. – corri até a cômoda pegando um bloco de notas e uma caneta.

— Vai fazer o que lá?

Procurar o amor da minha vida. Quero deixar tudo pago antes de ir.

— Já pode passar.

— Vá ao metrô, corredor doze dos armários e armário número trinta e dois. A chave vai estar atrás do lixo na lateral esquerda. Lá dentro tem uma caixa com mil dólares. – arregalei meus olhos.

— Você me deve tudo isso?

— Na verdade eu te devo quinhentos dólares. A outra metade é por sua amizade, confiança e companhia.

— Mas esse dinheiro, como ele está aqui em Nova York?

Era onde eu guardava meu dinheiro de emergência. Como recebi o dobro, não vou precisar mais.

— Você é um grande amigo.

— Eu sei. – soltei uma risada. — Tenho que ir.

— Vou sentir saudades.

— Também vou. Até mais!

— Até. Faça ela feliz!

— Quem disse que é 'Ela'? – riu e finalizou a chamada.

Sorrio mais abertamente. Ao menos alguém está indo em busca da sua felicidade.

Troquei de roupa e vesti minha jeans rasgada com cropped preto e um casaco cor de rosa. Nos pés uma bota preta de cano baixo de salto. Refiz a maquiagem e peguei minha mochila.

Abri a porta do quarto e chequei para ver se o segurança ao lado da porta era realmente Chad. Ele estava destraído e nem me viu me aproximar de seu ouvido.

Ele é realmente um péssimo segurança.

— Psiu! – susurrei em seu ouvido lhe fazendo dar um pulo de susto que me causou boas risadas.

— Quer me matar do coração? – pergunta segurando o peito dramaticamente. Me analisou e arqueou uma de suas sobrancelhas. — Onde vai?

— Vai não, vamos. – Fechei a porta atrás de mim. — Precisamos sair daqui antes que o robô ambulante volte.

— Isso não vai dar problema? Tem certeza? Isso vai pegar para mim.

— Você nem mesmo é um segurança de verdade, relaxa. O que fiz hoje vai surtir bons efeitos e meu pai não vai poder fazer nada. Agora vamos! – puxei sua mão e corri para a porta que ligava as escadas. — Vamos de escada pois assim temos tempo.

— Onde vamos?

— Precisamos buscar uma coisa no metrô e depois sei lá, vamos em alguma boate.

— Boate de novo? Você não tem outro lugar para frequentar não? – reclama.

— Ah, depois nós vamos onde você quiser ir. Mas hoje eu estou feliz, quero comemorar com estilo. – ele da de ombros. Finalmente após um BOM lance de escadas chegamos ao hall do hotel.

Passamos disfarçadamente por dois seguranças que eu conhecia e que eu sabia que estavam ali para garantir que eu não fugisse.

Uma senhora tinha acabado de descer de um táxi e foi nesse mesmo que entramos. Alguns minutos mais tarde ele nos deixou no metrô. Segui as coordenadas que Mack me deu e fui até onde fica os armários.

— O que viemos buscar aqui? – Chad questiona.

— Uma coisa. – digo procurando pelo tal lixo.

— Não me diz que... você prometeu! – encontro a lata de lixo e tateio suas costas encontrando a chave.

— Não é o que você está pensando. – procuro pelo armário e finalmente o encontro. Abro o mesmo e avisto a caixinha. A abro e realmente ali estão os mil dólares. Sorrio e retiro o dinheiro o guardando na mochila.

— De onde surgiu esse dinheiro? – Chad volta a questionar. Fecho o armário e novamente seguro sua mão saíndo dali.

— Um amigo meu estava me devendo. – respondi nos metendo entre as pessoas. — Ele está indo embora e precisava me pagar. Por irônia do destino eu estou em Nova York e pude receber.

— Entendi. – saímos do metrô e caminhamos pelo caminho da boate que eu sabia bem qual era.

— É perto daqui, da para ir de boa. – digo.

— Tudo bem. – respondeu por fim. Até um certo ponto do caminho eu encarei nossas mãos entrelaçadas e sorri com o fato dele não ter dado piti até então.

— Você canta bem. – diz me chamando a atenção.

— Obrigada. – agradeci. — Aprendi com a minha mãe. Ela cantava igual a um pássaro, era a coisa mais linda do mundo. – sorrio com a lembrança.

— Talento passado de mãe para filha. – diz e sorrio. — Você deveria focar nisso.

— Nem, não sirvo para esse meio. Sem falar que eu só teria fama por causa do meu pai, eu não quero isso. Se for para me conhecerem, que seja pelo meu talento ou pelo meus próprios feitos. – ele concorda.

— Você ficou incomodada com aquelas senhoras hoje pedindo foto?

— Um pouco. Mas foi mais pelo motivo delas quererem foto. Eu não sou nada além da filha do presidente, não faço nada para ter fama. Eu tenho três milhões de seguidores no Instagram e dois milhões e meio no twitter sendo que eu não fiz nada para merecer essas pessoas me seguindo.

— Sério?

— Sim. Não utilizo nenhuma das duas redes sociais pois meu amado pai tirou eles do ar com medo do que eu poderia publicar. – revirei os olhos.

Chegamos a boate e não demoramos a entrar. Não quando você tem dinheiro.

Estava extremamente lotada, uma música eletrônica estourava nas caixas de som e as pessoas se divertiam perdidamente naquele rio de cores. Nos aproximamos do bar e pedimos vodcas.

— A minha boa ação hoje! – Ergui meu copo.

— A você e seu grande coração. – ele diz me fazendo sorrir. Brindamos e bebemos as bebidas.

Quando o álcool começou a fazer efeito e esquentar meu corpo, puxei Chad para dançar. Mesmo estando com a mochila nas costas.

Tocava alguma música do The Cheinsomokers e dançávamos mais próximos que o necessário.

Quando senti que estava cansada e minha bexiga deu sinal de vida resolvi ir ao banheiro. Esvaziei minha bexiga sentindo um forte alívio, ao sair da cabine encontro duas garotas. Uma parecia não estar nada bem.

— Eu te disse que não deveria beber aquilo! – a de cabelos castanhos escuros disse a loirinha que não aparentava estar bem.

— Você foi a primeira a querer que eu bebesse! – a loirinha reclamou.

— Já liguei para sua mãe vir nos buscar. – a de cabelos loiros arregala os olhos e encara a morena.

— Você está louca? Minha mãe vai me matar! – passou as mãos pelo rosto. — Se meu pai descobrir, pior ainda.

— Ai é que está. Seu pai quem entendeu. – na hora a loira ficou mais branca que papel e parecia que ia desmaiar.

— Eu estou ferrada! – reclamou. — Eu disse que não deveríamos vir Eleanor!

— Você veio porque quis Agatha! Eu não te obriguei a nada. – a morena retrucou. As duas pareciam estressadas e ferradas.

— Eu estou passando mal, é real. – A loira chamada Agatha diz se apoiando na pia. — Sinto que vou vomitar meus pulmões.

— Ei vocês duas. – digo lhes chamando a atenção. — Eu tenho um remédio que pode melhorar um pouco os enjôos. Querem?

— Não está querendo drogar a gente não né moça? – Eleanor questionou.

— Me respeita garota, eu só estou querendo ajudar. – as duas se olharam.

— Pode ser. Se eu não estiver tão mal talvez mamãe não arranque minha cabeça. Eu aceito moça. – Agatha responde. Pego minha mochila e retiro de lá uma cartela com o remédio que costumo tomar quando passo a noite bebendo.

— Primeira vez que vocês vêm a uma boate? – questionei.

— Não, acontece que ela aqui não é acostumada a beber. Os pais são super protetores sabe? – Eleanor me conta. — Eu sou a Eleanor e ela a Agatha. Tenho vinte e quatro anos, sou mais velha.

— Alguns meses mais velha. – Agatha diz revirando os olhos após beber o remédio. — Eu sou a Agatha, tenho vinte e três.

— Vocês duas são mais velhas que eu? – perguntei em choque. — Mentira!

— Real oficial moça. Afinal, qual é o seu nome? – Eleanor questiona.

— Amalia, eu tenho vinte e um anos. – respondi.

— Eu faço direito. – Eleanor me informa.

— E eu biologia. – Agatha respondeu.

— Eu só existo mesmo. – dei de ombros. — Vamos saíndo? – elas afirmam e saímos do banheiro voltando para o barulho todo. — Toma uma água, ajuda a melhorar. – digo para Agatha.

— Obrigada. – ela diz com um sorriso. Nos aproximamos do bar onde Chad está, ele me percebe.

— Onde estava? Achei que tinha me abandonado e fugido com alguém.

— Isso por acaso é ciúmes? – perguntei com uma sobrancelha arqueada.

— Não foi o que eu quis dizer. – ele diz e reviro os olhos.

— Eu só fui ao banheiro, encontrei essas duas aqui e fiquei conversando. – apontei para as duas meninas atrás de mim que acenam para ele.

— Mulheres. – revirou os olhos e lhe belisquei. — Ai! Olha o processo. – me avisou.

— Seu namorado é um pitel! – Eleanor diz. Ela xingou ele?

— Pitel é bonito, tá? É coisa do Brasil. – Agatha explica.

— Ele não é meu namorado, é meu segurança. – as duas se encaram e depois nos encaram.

— Se não namoram, deveriam. – Eleanor diz e Agatha concorda.

Chad está alheio a tudo, como sempre.

Um homem se aproxima de nós e olha para Agatha.

— O que sente? Está bem? Precisa ir ao hospital? – ele questiona checando a garota parecendo preocupado.

— Está tudo bem pai. – ela responde e arregalo meus olhos. — Eu estou bem, foi só um mal estar. Como conseguiu entrar?

— Sua mãe. – ele respondeu parecendo óbvio. Foi então que ví uma mulher loira ao seu lado segurando um copo com um guarda chuvinha. — Onde conseguiu isso?

— Um carinha bonitinho ali me ofereceu. – escutei ela responder. Olhou para a garota loira e checou sua testa. — Se sente bem?

— Sim, não foi nada de mais. Bebi uma bebida que não caiu bem.

— Eu disse que era um auê todo para nada. – a mulher diz encarando o homem. — Sua filha tem vinte e três anos, deixa ela respirar!

— Poderia ter sido algo grave! – ele argumenta.

— Não comecem. – Agatha interviu. — Eu estou bem e foi tudo graças a Amalia. – ela diz me apontando. O casal me olha e tudo que consigo fazer é acenar. — Eu estou bem, ok? Mas ja podemos ir para casa.

— Para a nossa né? – o pai questiona.

— Se ela quiser ir para o apartamento dela, ela vai. – a mãe diz.

— Vou ficar em casa hoje mãe. Agora vamos indo? – os dois afirmam. Acenam para mim e andam na frente.

Agatha me encara.

— Seus pais são jovens. E você se parece com sua mãe. – eu digo e ela sorri abertamente.

— Obrigada. – ela diz. — Obrigada por tudo!

— Não foi nada. – sorrio de volta. Ela e a amiga acenam e saem logo em seguida. Suspiro e encaro Chad que está bebendo um whiskey. Roubo o copo de sua mão e tomo um gole.

— Você ainda não aprendeu a pedir o seu próprio não? – questiona mal humorado.

— Não, não aprendi. Vamos nessa? Cansei.

— Tão rápido?

— Sim. Vamos andar um pouco. – ele afirma. Saímos da boate e começamos a caminhar sem rumo pelas ruas de Nova York.

— Por que mudou desde que aquele casal chegou lá?

— Porque me bateu uma invejinha. – confesso. — Aquela garota tem uma melhor amiga, tem uma mãe e um pai. O pai deu para perceber que é super protetor com ela e a mãe é a favor da liberdade dela. Ela tem planos para o futuro dela e uma carreira. Eu nem mesmo sei quem são eles mas deu para ver que são ricos. Ela tem amor e apoio dos pais. Enquanto eu, a filha do presidente não tenho nada. – suspirei.

— Você tem a mim. – ele diz.

— De que adianta se você não me apoia quando eu quero jogar gente chata do avião? – ele riu. — Eu falo sério.

— Eu também. – ele para de andar e me encara. — De que adianta cantar uma música com uma boa mensagem sendo que você mesma não segue a mensagem? Quem disse que você não pode ter uma carreira? Quem disse que você não pode fazer planos para o futuro? Quem disse que você não pode ter uma melhor amiga ou um namorado? Quem disse? – me olhou por inteiro. — Você pode tudo sim.

— Por que você não entrou na minha vida antes? – susurrei lhe abraçando. — Aqui na rua você me abraça e tudo, mas quando estamos sozinhos você da ataque de louca.

— Porque você é uma maluca pervertida. – voltamos a andar. — Onde vamos agora?

— Beber umas cervejas por ai e mandar Beckett mandar o jatinho.

— Tá. – concordou e saímos a caminho de algum bar.

— Chad?

— Hum?

— Quantos anos você tem?

— Vinte e sete. – estreitei meus olhos.

— O que? Hoje é o dia de me deixarem em choque. – resmunguei. 

*

Como prometido aqui estou eu!

Já vou logo desejando um grande e bonito feliz natal para vocês! ❤

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