Capítulo 16 - De volta a realidade
- Aaaah! – gritei.
– Esta tudo bem? – Doug me olhava assustado.
Olhei ao redor, a alguns instantes eu estava dentro de um carro, bêbado e prestes a morrer e agora estou na frente de Doug e seus amigos. Ele estava vestido com uma camiseta do time e carregava a mochila em suas costas.
A nossa escola estava ao fundo, havia uma conversa animada entre varios estudantes e um vai e vem dos mesmos. Eu estava confuso. O que tinha acontecido?
- Noac? – a voz de Doug ecoou em minha mente e logo depois o silencio.
Todos me olhavam e esperavam por alguma resposta à pergunta de Doug. Minhas mãos seguravam as alças das mochilas com força, estas suavam de forma nervosa. Então senti na palma da minha mão o pedaço de papel. O bilhete que eu havia achado dentro do meu quarto.
– O gato comeu a sua língua vi... – disse um dos garotos.
– Guilherme! – ele olhou com a cara fechada para o garoto e ele fechou a boca antes de que terminasse a palavra – Esta tudo bem Noac, você parece que não está muito bem. Porque não ficou em casa?
- Hã... Eu só queria agradecer por tudo. – eu podia sentir o pedaço de papel embolado entre meus dedos.
- Não foi nada, mas está tudo bem mesmo não é?
Dou um breve sorriso.
- Sim. – disse e me virei.
Aline vinha correndo em minha direção, ela parou e se apoio em meu ombro.
- O que houve? O que ele disse? – ela me olhava curiosa.
- Nada.
- Como assim nada? Você tipo falou que gosta dele e ele não disse nada? – disse ela incrédula – E você falou com todos aqueles garotos ao redor dele?
O pedaço de papel andava de um lado para outro em minha mão, meus dedos o comprimiram o máximo que podiam, fiz uma pequena bola de papel enquanto a olhava calmamente e o coloquei dentro do bolso da minha calça.
- Eu não disse nada. – disse por fim caminhando ate o banco onde sempre eu me debruçava para fazer as leituras matinais.
- What? Porque?
Dei um breve sorriso ao me sentar e ela fazer o mesmo, peguei o livro de capa azul e o abri no ultimo capitulo de Will&Will onde um recibo de créditos para celular pré-pago indicava o lugar onde eu havia parado.
- Hmm... – fiquei pensativo – Sabe quando você recebe um sinal?
- Tipo o que? Uma premonição?
- Éhhh...
Ela deu uma risada.
- E o que acontecia nessa sua premonição?
- Coisas terríveis... Uuuuuh! – tentei imitar uma voz sombria.
Acabamos rindo, o sinal soa e todos começam a adentrar o interior da escola. Aline encontra algumas amigas líderes de torcida e começam uma conversa animada sobre uma festa que iria acontecer no final de semana. O primeiro horário era de cálculo e enquanto todos se acomodavam nas carteiras vejo Caio distante, longe de Doug.
Seus olhos encontram os meus, ele não desvia o olhar então eu dou um breve sorriso e seus olhos se alargam, a surpresa está em sua face, então o professor inicia a aula. Posso sentir durante toda a aula os olhos de Caio em mim, então peguei a pequena bola de papel que estava em meu bolso, a desamassei e a abri em cima da minha mesa e reli o pequeno bilhete.
Noac.
Eu não sei como começar a falar sobre isso, até porque não é comum que eu me sinta tão desconfortável sobre um assunto. Mas eu preciso de alguma forma colocá-lo para fora. Então eu queria poder coragem para poder falar a você algum dia o que escreverei aqui.
Queria poder sentar ao seu lado, mesmo que não gostasse de mim, mas apenas para ver você sorrindo. Para ver sua cara de vergonha quando alguém te deixa desconcertado. Poder protege-lo de tudo e todos. Queria poder te abraçar quando se encolhe na cadeira toda vez que zombam de você. Ou até mesmo partir a cara de qualquer um que ouse machuca-lo.
Quantas vezes me peguei olhando para você enquanto lia um livro ou apenas conversava com sua amiga. Eu faria qualquer coisa para te ver feliz, mas sei que jamais vai me olhar como eu te olho e nunca terei a chance de dizer que eu gosto de você.
Então uma ideia toma a minha mente. Claro que ela seria uma loucura, e seria algo estupido de se fazer, mas não seria mal testar se o que eu sonhei se tornaria realidade ou não. Mas então a brisa que veio da janela faz com que o bilhete flutue e caia no chão. Antes que eu pudesse pega-lo, alguém o pega antes e quando levanto a minha cabeça, vejo Caio com o pedaço de papel em suas mãos.
- Você deixou cair. – disse ele e me entregou o papel.
- Obrigado. – eu disse.
- Hãããã... Será que posso te perguntar uma coisa?
- O que seria?
- Não aqui não. Pode me esperar na sala de química no segundo tempo. É que não quero que mais ninguém saiba ainda.
- Tudo bem.
Caio se levanta e segue de volta até a sua carteira, então meu estomago começa a agir de maneira estranha como se houvesse borboletas voando em seu interior desesperada para sair. A aula de cálculo estava se tornando mais longa do que o normal e eu já começara a roer as minhas unhas. Aline se vira e me olha com uma das sobrancelhas arqueadas.
- Que? - eu digo meio que exasperado.
- Eu que pergunto – diz ela – Porque diabos esta maltratando seus dedos, daqui a pouco vai sair sangue de você tanto roer. Não sente dor não?
- Hmm... é que estou nervoso.
- Com o que?
- Caio quer falar comigo na sala de química no segundo tempo, longe de todos.
- Uhu! – todos olham para Aline e ela abaixa os braços que havia levantando, e no instante seguinte todos voltam a atenção a aula novamente – Se eu tiver certa ele esta afim de você – ela sussurrou.
- Será?
- Vai por mim... – disse ela confiante.
Os minutos se passaram e finalmente o sinal do fim do primeiro tempo soou. Todos começaram a sair da sala, quando pego minha mochila vejo que Caio não está mais lá. Aline me olha confiante e me dá um beijo na bochecha e sussurra uma boa sorte para mim.
Saio da sala e sigo pelo corredor movimentado até a ala leste do prédio, onde ficam os laboratórios. Me aproximo do laboratório e vejo caio sentando em uma das bancadas com um livro aberto, ele parece distraído.
- Oi.
- Hã... Ah, oi. – diz ele ao notar que estou ali.
- O que você queria falar comigo? – minhas mãos suam com intensidade e meu corpo deve estar gelado porque eu posso sentir o suor gélido descer pelo meu corpo.
- Eu preciso de sua ajuda, e como você é o mais próximo da Aline eu queria saber como eu poderia chegar nela. Será que pode me ajudar?
Fico inerte.
- O que? – digo surpreso e ao mesmo tempo desanimado.
- Pode me ajudar a sair com a Aline?
- Espera então porque você vive me encarando?
- Opa, não me interprete mal. Eu não curto, mas não tenho preconceito. Tentei falar com todas as amigas da Aline e não consegui nada que me ajudasse e todas me mandaram procurar você. Só que apesar de você ser... Hmmm...
- Gay. Essa é a palavra que você quer... – digo me sentando e suspirando.
- Você parece ser bravo então não sabia como falar com você sobre ela e meio que tentei falar com você antes, mas você sempre desviava e como sempre anda com ela não tem como te abordar. Por você ser bem na sua.
- Esta bem. Eu ajudo. – disse a ele dando um sorriso fraco que me esforcei para ser realista.
Ele me agradeceu e saiu da sala, fiquei ali sentado por alguns instantes, peguei a mochila que havia caído no chão e a coloquei em minhas costas, quando me aproximo da porta sinto meu pé sendo preso, então rapidamente noto que meu cadarço havia se soltado e meu outro pé havia pisado no mesmo. Meu corpo pendeu para frente e acabei derrubando alguém.
- Ai... – disse ele com a mão indo direto ao local onde havia batido.
Eu estava em cima dele. Seus olhos estavam fechados, mas logo se abriram e me olharam com surpresa. Me levantei rapidamente e fiquei de pé.
- Pode me ajudar? – Doug estendeu a mão a mim.
- Eu sinto muito, eu...
- Calma... Ei... Ei... esta tudo bem. Só vou ganhar um galo na cabeça. Mas você esta bem?
- Estou sim.
- Ah havia me esquecido. – ele abre a mochila e puxa uma folha de caderno grampeada a outra e faltando um pedaço de seu conteúdo.
- Seu trabalho de literatura. E desculpa, acho que acabei rasgando e perdendo um pedaço dele, você escreve muito bem.
Um estalo. Peguei o papel que estava em meu bolso e o comparei com a folha de papel. Olhei para a letra da folha que estava grampeada com o enunciado da questão, na capa havia o nome de mais duas garotas além do meu e da Aline. A questão dizia: Imagine-se em um filme de Hollywood, em que a personagem principal se declara para o seu melhor amigo. Não esqueça de colocar o nome do remetente e destinatário.
Encaixei o bilhete com a folha rasgada e vi que a letra era de Ravena, uma garota de óculos e sarnas no rosto que usa aparelho amiga de Luciene que é líder de torcida assim como Aline. Por alguma razão eu começo a rir. Doug me olha de forma curiosa.
- O que foi tão engraçado?
- Não é nada. Obrigado. – digo a ele me afasto, caminhando pelo corredor.
Tudo não passou de um sonho, e o bilhete um mal-entendido. As vezes histórias de amor existem apenas de um lado, um amor surreal, que não existe e é platônico. Só que uma hora temos que acordar. A vida não é um filme romântico ou uma comedia romântica. É tentativa e erro ou tentativa-erro-tentativa-erro e você se fode várias vezes. E apesar de tudo, eu apenas queria que tudo aquilo tivesse sido real, mas é pedir de mais.
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