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A luz da sala de aula havia acabado de desligar. O professor de química, senhor Carton, teve que bater sobre sua mesa algumas vezes para que o silêncio voltasse para os alunos do primeiro ano do ensino médio.

—Por favor, se comportem — Ele disse, em seu tom de voz autoritário que lhe era típico —Abram as cortinas para que possam enxergar seus livros e eu continuarei a explicação.

Rosalie estava sentada em seu lugar, na última cadeira da última fileira a direita, bem a frente da porta de saída da sala. O representante de classe, Gart, pediu para que os alunos próximos às janelas abrissem as cortinas. Bem quando Rosalie estendia sua destra em direção a cortina, uma aluna sentada um pouco mais a frente puxou o tecido em sua direção e fez com que a luz enchesse o espaço escuro da sala de aula. Rosalie ficou parada com sua mão estendida durante alguns segundos, antes que Carter — o sobrenome de Zara Carter, uma aluna um tanto agressiva e também aquela que havia puxado a cortina — abrisse sua boca.

—Não serve nem para puxar a porra de uma cortina — Ela praticamente gritou, em um tom bem áspero, se virando novamente para a frente.

—Ei, ei — Senhor Carton bateu sobre sua mesa mais algumas vezes para silenciar o mar de vozes dos alunos após aquilo —Menos, Carter. Agora, de volta a página 156...

O restante da aula passou como se fosse um borrão. Havia alguma coisa incomodando Rosalie. Algo que ela simplesmente não sabia o que significava. Ela se pegou presa em seus pensamentos no meio do intervalo, com a bandeja de plástico que continha o seu almoço. Enquanto ela andava pelos corredores formados pelas mesas do refeitório, uma perna se colocou a frente de seu caminho, fazendo com que ela caísse. A bandeja foi a sua frente, espalhando seu conteúdo pelo chão de uma forma gosmenta e nojenta. Rosalie caiu por cima de si mesma, machucando seus joelhos e seus cotovelos, que ela havia usado para impedir que seu rosto fosse machucado na queda. Sabendo que não havia motivo para se levantar e procurar por uma briga, a jovem de cabelos brancos se levantou do chão e pegou sua bandeja — com o restolho de almoço que ainda estava ali em cima — começando a se afastar da provocadora. Apesar de não ter olhado por cima de seus ombros para ver quem era, ela sabia que só podia ser Carter. Depois dela ter levado uma bronca devido ao acontecido na sala de aula, era de se esperar. Rosalie se sentou em uma mesa no canto do refeitório, justamente ao lado de uma enorme janela que dava vista para uma pequena porção do imenso prateado do oceano. Ela passou uma de suas mãos sobre os arranhões em seu cotovelo, olhando na direção do pouquinho de mar que podia ver daquela posição. Ela ouviu passos se aproximando, juntamente com risadas. Tudo estava para piorar. O barulho de três bandejas sendo colocadas sobre a mesa onde ela estava sentada foi ouvido. Carter — junto com duas amigas que também costumavam bancar as valentonas — se sentou na mesa. Carter estava ao lado de Rosalie, enquanto suas duas colegas se sentaram no lado oposto. Elas apenas ficaram ali, comendo de uma forma aparentemente casual. Mas Rosalie sabia que a presença delas ali e a forma com a qual estavam agindo significava que ela não podia sair dali. Nem fazer sinal para um dos monitores. Nem mesmo falar ela podia.

—Bela vista, não é mesmo? — Jéssica Pearce seguiu o olhar de Rosalie e disse, rompendo o silêncio e sorrindo de canto para suas colegas.

—Sim, é uma bela vista — Respondeu Carter, pegando a intenção de Jéssica.

—Pena que tem uma esquisitona que nem ela olhando — Finalizou Rachael Harper, logo após mastigar e engolir a última colher de comida.

Rosalie se encolheu. Ela sempre fora do tipo quieta e submissa, mas que sabia correr bem rápido, já que muitas pessoas viam sua personalidade como um convite aberto para escárnio. Mas ela sabia, naquele momento, que não haviam chances de conseguir fugir daquelas pessoas. Elas eram três. E Rachael era a melhor corredora da turma. Depois que fosse alcançada, certamente Carter iria dar uma bela de uma surra em Rosalie.

—Por favor... — Rosalie deixou escapar esse murmúrio. Ela não aguentava mais toda aquela perseguição.

—O que? — Começou Carter, levantando uma mão acima do rosto de Rosalie, o que fez com que a garota se encolhesse ainda mais.

—Posso me sentar aqui, senhorita Wood? — Era Gart Walker, o representante de classe da sala onde as três estudavam. Ele tinha um olhar sorridente e confiante, mas era óbvio que ele não estava alheio ao que estava acontecendo ali.

—Nós e a Rosalie aqui estávamos conversando — Carter cuspiu, fuzilando Rosalie com seu olhar —Não é mesmo?

—Sim, estávamos só conversando — As outras duas garotas foram rápidas no gatilho, mas era óbvio que estavam assustadas com a presença de Gart.

Apesar dele ser uma pessoa educada, por ser representante de classe, ele podia fazer uma denuncia a escola por bullying, o que renderia uma suspensão para as três garotas. Além disso, ele tinha um bom domínio de artes marciais, o que impediria que ele fosse ameaçado pelas três ali presentes.

—Claro, sente-se — Rosalie respondeu, levantando seu olhar e dando um sorriso para Gart.

Isso deixou Carter extremamente irritada, e as outras duas garotas ficaram amedrontadas. Gart devolveu o sorriso de Rosalie. Se sentou e colocou seu prato sobre a mesa, começando a comer de uma forma casual. Sua mera presença ali iria impedir que as “valentonas” fizessem alguma coisa.

—Senhorita Wood, o que achou do exercício na página 140? — Gart continuou agindo normalmente, mesmo dada a atmosfera inquieta.

—Estava fácil — Rosalie descansou sua colher levemente acima de sua bandeja enquanto respondia —Eu terminei os exercícios enquanto ele explicava a página 137.

—Isso me lembra que ainda temos que terminar os exercícios do senhor Carton — Carter disse entredentes, já se levantando com sua bandeja em mãos —Vamos para a biblioteca.

As últimas palavras foram mais como ordens para Jéssica e Rachael. Ambas repetiram o ato de Carter e pegaram suas bandejas, se retirando do local sem mais dizer nada. Carter ainda esbarrou em Gart propositalmente enquanto passava.

—Está tudo bem? — Gart não era bobo. Ele esperou que as três saíssem do alcance de seus ouvidos antes de parar de comer e falar.

—Sim, está tudo bem — Respondeu Rosalie, com medo de uma represália por parte das três mais tarde.

—Você sempre pode fazer uma denúncia, você sabia? — Ele perguntou, um olhar preocupado no rosto —O bullying tende a piorar com o tempo. Elas não vão parar.

—E vão fazer ainda pior depois de uma suspensão — Rosalie respondeu, sua mão tremendo enquanto segurava a colher —É melhor deixar como está.

—Se você não der o primeiro passo, vai estar sempre no mesmo lugar, e nunca vai saber o que poderia acontecer — Gart respondeu, se levantando da mesa com sua bandeja vazia. Ele deu um último olhar preocupado para Rosalie antes de começar a se afastar.

As palavras de Gart entraram profundamente na mente de Rosalie. Ela estava pensando nelas mesmo enquanto fazia seu caminho pela calçada repleta de neve que cercava sua escola. Como não havia um transporte escolar, ela tinha de ir andando. Mas estava tudo bem, já que ela morava bem perto. Era uma caminhada de dez a quinze minutos que iria levá-la a alguns quarteirões de distância até sua casa em um condomínio residencial. Ela estava vestindo seu sobretudo de coloração azul bebê, que cobria até seus joelhos, juntamente com um cachecol peludo de coloração branca que cobria seu pescoço, ambos para protegê-la do frio.

Rosalie virou a esquerda na primeira esquina que aparecia em seu caminho. Seus passos eram apressados e ela estava um tanto nervosa, já que sabia que poderia haver uma represália por parte de Carter e sua trupe. De forma repentina, com o vento frio que se chocava contra seu rosto um tanto corado devido ao frio que estava ali, ela sentiu um aperto em seu peito. Era a quinta vez aquele dia, e ela já havia perdido a conta de quantas vezes haviam acontecido naquela semana. Seu batimento cardíaco acelerou, e ela sentiu como se tivesse algo diferente correndo por suas veias. Seu sangue ferveu, e ela suspirou. Apesar de ser estranha aquela sensação, ela já estava quase se acostumando com aquilo, já que estava acontecendo de forma regular. Olhou para a nuvem de vapor que se desfazia em sua frente e esperou alguns segundos, contando em ordem regressiva a partir do número dez. Assim que ela chegou ao número cinco, respirou mais aliviada. O aperto em seu peito havia sumido, e sua respiração havia se estabilizado. Mas a sensação de algo estranho percorrendo suas veias ainda permanecia. Ela continuou andando, quase alheia aos seus arredores, quando sentiu uma dor em seu couro cabeludo, seguido pela sensação de ser puxada para trás e então a neve, dura e fria. Lá estava Carter, parada e olhando para Rosalie de cima, com uma expressão pouco distinguível. Ao seu lado estavam Rachael e Jessica, rindo. Rachael pisou sobre o estômago de Rosalie, fazendo com que ela perdesse seu ar. Enquanto Jessica deu um forte chute nas costelas da menina indefesa.

A agressão seguiu pelos próximos minutos, com direito a socos, chutes e pontapés em pontos frágeis do corpo da menina, que já estava sangrando por sua boca e nariz.

—Parem... — Ela juntou as forças para pedir, se encolhendo em uma posição fetal.

—O que você disse, sua merdinha? — Gritou Carter, acertando um chute no estômago desprotegido de Rosalie.

—Por favor — Rosalie continuou pedindo apesar da sequência de golpes que estava recebendo —Parem...

Carter ia dar mais um chute contra o estômago de Rosalie. Quando o golpe se conectou com seu alvo, Rosalie deu um grito de dor e ódio. Seguido por isso, uma luz ofuscante tomou conta do lugar. Quando a luz se desfez, Rosalie estava deitada em posição fetal, mas nenhuma de suas perseguidores estavam ali. Ela se levantou após um pouco de hesitação, percebendo que as feridas não mais doíam. Olhou ao redor, procurando pelas três, apenas para ver algo extremamente assustador. Rachael estava chocada contra uma árvore próxima, sangue em sua boca e nariz. Jessica havia sido jogada para o outro lado da rua, e estava contra uma cerca de madeira. Um pouco depois, Rosalie se encolheu devido a um grande choque ao seu lado. Carter havia caído ao seu lado após ter sido arremessada para frente. Ela estava caída de face contra o chão frio e a neve ao seu redor estava em uma coloração vermelha.

—Meu Deus — Rosalie colocou suas mãos sobre sua boca, para evitar que  um grito maior fosse expelido.

Sem esperar mais ou sequer ver se alguma delas iria se levantar, ela saiu correndo em direção a sua casa.

Rosalie chega lá alguns minutos depois. Ela agora estava parada em seu jardim da frente, mãos sobre seus joelhos com uma postura arqueada. Sua respiração estava ofegante devido a corrida, mas havia algo estranho. Ela não sentia nada com relação aquelas garotas. Ela queria senti, mas não sentia. Simplesmente um vazio. Ela não entendia o que havia acontecido e também não sentia nada sobre a extrema forma com a qual elas se machucaram. Recuperando sua compostura, Rosalie se levantou e começou a andar em direção a sua porta. Estendeu sua destra e com esta envolveu a maçaneta, girando-a e liberando a entrada.

—Mãe, Pai — Disse Rosalie, anunciando sua chegada —Estou em casa.

—Está dez minutos atrasada, querida — Respondeu Mariah, a mãe de Rosalie. Sua voz vinha da cozinha.

—Me desculpe — Rosalie respondeu. Achou que fosse se sentir culpada pelo que aconteceu, mas ela só se sentia normal —Eu acabei me atrasando porque encontrei com umas amigas no caminho — A naturalidade com a qual aquelas palavras deixavam sua boca foi mais uma das coisas que ela adicionou a lista de acontecimentos que a estava assustando.

—Entendi — Respondeu Mariah —Vai querer jantar agora ou prefere esperar seu pai?

—Acho que vou esperar o papai — Rosalie disse, já se dirigindo até seu quarto.

Apesar de se sentir relativamente bem com relação ao que havia acabado de acontecer, ela se sentia exausta. Assim que sua cabeça tocou seu travesseiro, sua visão escureceu e ela entrou em um sono profundo e tranquilo. Ao seu redor, diversas coisas estavam prestes a acontecer, mas tudo o que ela poderia fazer era esperar. Dentro de seu sonho, Rosalie estava em um espaço completamente branco. Não parecia haver um fim para aquela imensidão. E havia um calor confortável que a envolvia cada vez mais conforme o sonho avançava, tornando ele cada vez mais confortável e difícil de acordar. A cada segundo que se passava, Rosalie estava em um sono cada vez mais profundo. Até que aquela sensação de aperto em seu peito retornou. Dessa vez com força total, como se ela estivesse tendo um infarte. Praticamente pulou de sua cama e se sentou, colocando sua mão sobre seu peito. Sua respiração estava extremamente acelerada, juntamente com seus batimentos cardíacos, que poderiam bater facilmente a velocidade da luz. Aquela sensação de ter algo percorrendo suas veias também se fez presente, desta vez causando uma dor excruciante. E ela gritou. Gritou com todas as suas forças. Pois era como se seu corpo estivesse queimando, como se lava percorresse suas veias enquanto eletricidade percorria sua pele, ao mesmo tempo que ela se sentia como quem tinha um infarte. Seus gritos eventualmente atraíram seu pai e sua mãe para seu quarto. Ela pôde vê-los se aproximando e se sentiu minimamente aliviada, mas então se lembrou do que havia acontecido com as garotas que tocaram ela durante um desses episódios.

—Papai... Mamãe — Ela reuniu suas forças para tentar avisá-los —Por favor... Saiam.

E uma luz começou a ser emitida do corpo de Rosalie. Mariah a tinha envolvida por seu abraço maternal, enquanto seu pai — George — ligava para uma ambulância na porta do quarto. A luz foi se tornando mais forte e mais forte, até que o quarto de Rosalie se tornou uma imensidão branca, assim como ela havia visto antes em seu sonho. Rosalie pode ouvir os sons dos gritos de sua mãe, enquanto a luz dilacerava seu corpo. Um pouco depois, uma grande explosão ocorreu. Ela não podia mais ouvir nem sua mãe e nem seu pai. Tudo o que restava era aquela imensidão branca que a engolia.

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