CAPÍTULO CINCO

        Kelly escolhia um livro para um trabalho, quando decidiu ignorar os sentimentos contraditórios que a tomavam. Não havia problemas em ter desejado beijá-lo, pensou, afinal ele era lindo, suspirou e pegou alguns livros, muito lindo.
        Só que eram amigos. E era melhor que continuassem assim, pensou lembrando dos ex-namorados. Ele tinha que ser tão perfeito?
        – Acho que vou começar a vir todos os dias à biblioteca – Johnatan sussurrou ao ouvido de Katty.
        Assustada, a jovem deixou cair os livros que segurava. Johnatan abaixou-se mais que depressa para pegá-los.
        – Quer me matar do coração? Eu estava distraída…
        – Pensando em mim?
        Katty corou.
        – Claro que não! Eu estava distraída procurando um livro…
        – Eu até acreditaria se você não tivesse ficado maravilhosamente corada.
        Katty fechou os olhos. Que raiva!
        – Tudo bem, eu estava pensando em você – confessou. – Satisfeito?
        – Sim… – ela fechou a cara mal-humorada. Johnatan riu. – porque eu também estava pensando em você.
        Katty corou mais ainda (se era possível). Ele realmente estaria pensando nela?
        – Você estuda a semana inteira? Katty perguntou tentando mudar de assunto.
        – Não. Terça-feira eu não tenho aula.
        – Mas terça você estava aqui na faculdade – comentou confusa.
        – É que eu vim resolver uns assuntos – disse vagamente.
        Ela o encarou questionando-o silenciosamente, mas ele também mudou de assunto.
        – Vim convidar você, a Katherine e o Victor para almoçarem comigo domingo.
        – No domingo?
        – Sim. Meu irmão vai vir com a esposa então achei que seria legal se vocês fossem.
        – Katherine vai almoçar com a família de Victor no domingo – desculpou-se.
        – Hmm. Que pena! Mas você pode ir. Eu passo na sua casa para te pegar. Pode ser?
        Num impulso Katty concordou.
        – Já vou. Depois a gente se fala – ele sorriu e beijou-a no rosto.  – Tchau.
        – Tchau – murmurou.
        Katty encostou-se na prateleira. Ela concordara em almoçar com ele? Deus! Ela ia acabar se apaixonando por aquele cara.
        Katty assustou-se com aquele pensamento. Afastou-se da prateleira e voltou a se concentrar nos estudos.

        – Oi, tudo bem?
        Katty recebeu o cumprimento alegre. Finalmente, a Layane estava online. Fazia dois dias que queria falar com ela, mas não conseguira. Layane participa de um projeto de pesquisa e era monitora na faculdade em que estudava.
        Jóia e vc?
        – Tudo bem, graças a Deus. E as novis?
        Katty contou o encontro de quinta-feira na biblioteca.
        – E ele me chamou pra almoçar c/ ele e o irmão dele.
        – E vc vai?
        – Bom, eu disse q ia.
        – Q bom!
        – Eu disse sem pensar. Eu simplesmente concordei.
        – Oh!
        – Na sexta, nós nos encontramos no corredor, mas só nos cumprimentamos. A Cassandra estava c/ ele… e eles pareciam c/ pressa. Mais tarde ele me ligou pedindo desculpas e o meu endereço. Eu devia ter dito q não ia mais!
        – Não seja boba. É só um almoço.
        – Eu sei, mas… Estou tão confusa… Não sei nem o q vestir.
        – Se fosse eu, vestiria saia e blusa.
        – Mas é o q você sempre veste!
        – Por isso mesmo. kkkkk
        – Você é uma boba!
        – kkkk. Mas vc devia apostar na saia. Vc fica muito bonita. Ah, e sem maquiagem. Só um brilho, acho q tá bom.
        – Brigada pelas dicas.
        – De nada. Se precisar é só pedir.

        Ansiosa, Katty abriu a porta do apartamento para Johnatan e prendeu a respiração. Ele estava lindo.
        – Você está linda!
        – Obrigada. Você também.
        Ele sorriu.
        – Sua irmã está?
        – Não. Ela já foi.
        – Vamos, então?
        – Sim – murmurou ainda indecisa.
        O queixo de Katty caiu quando desceram e ela viu o carro estacionado na porta do prédio. Nunca havia parado para pensar nas condições financeiras dele.
        Claro que ela repara que ele se vestia bem e sabia que Odontologia não era nada barato, mas se importava com coisas que o dinheiro não comprava como o bom-humor e o  carisma que ele possuía.
        No entanto, um Cross Fox…
        – Gostou? - Johnatan perguntou incerto abrindo a porta para ela.
        Katty entrou e esperou que ele entrasse também antes de dizer:
        – É o sonho de qualquer pessoa.
        Ele achou graça.
        – Isso inclui você?
        – Pode ter certeza.
        Ele sorriu satisfeito.
        – Meu pai acha um desperdício.
        – Por quê?
        – Porque ele gosta de carros grandes e espaçosos que dê para carregar bastante gente. Acho que ele espera que quando eu casar tenha um carro de gente grande… – ele riu. – … como David. Meu irmão – esclareceu vendo o olhar dela.
        Katty sorriu.
        – Que carro seu irmão tem?
        – Uma S10.
        – Então esse é o carro de gente grande? - perguntou sorrindo.
        Johnatan riu.
        – Parece. Mas eu escolheria uma Hillux SW4.
        Katty arregalou os olhos.
        – Uau!
        Johnatan sorriu. Depois de um tempo em silêncio, Katty pediu:
        – Me conte sobre seu irmão.
        – Bom, ele é mais velho que eu e mora em Uberaba. Elaine estava fazendo faculdade lá quando eles se casaram.
        – Por isso, eles se mudaram – concluiu Katty.
        Johnatan sorriu e então perguntou:
        – Já disse que eles são crentes?
        – Não – respondeu um pouco surpresa. – Você também…?
        – Não. Na verdade eu sou o filho pródigo. Tem quase dez anos que parei de ir à igreja.
        – De que igreja…?
        Antes que terminasse eles ouviram alguém gritar.
        – Ei!
        Johnatan, que estivera olhando para Katty, olhou para frente e freou.
        – Sua garota pode ser linda, mas meu carro é perfeito.
        Johnatan abriu a porta e o homem rodeou o carro.
        – Que comparação! - ironizou Johnatan.
        O homem abriu a porta do carro para Katty e envolveu-a em um abraço de urso.
        – Eu sou David. E você é a Katty, né?
        – Que barulheira é essa?
        Katty olhou para a jovem mulher que estava parada com as mãos na cintura.
        – Elaine, dá um jeito nesse seu marido!
        – Desse jeito a Katty vai pensar que veio parar na pré-história. Venha, vou te levar para ver gente civilizada.
        Katty entrou com a cunhada de Johnatan. A casa era muito linda, mas Elaine a levou para o fundo do quintal. Tinha um senhor que estava assando carne.
        – Se vocês dois estavam brigando por causa do carro, vou pendurar os dois na árvore – disse para os filhos.
        – … ou mais civilizada – corrigiu-se Elaine sorrindo.
        – Amor, desse jeito você vai assustar a Katty – comentou uma mulher trazendo um prato com mandioca.
        – Desculpe, Katty. Mas você sabe: para os pais, os filhos nunca crescem.
        Katty sorriu tentando esconder o choque. Ela tinha ido almoçar na casa dos pais dele?
        – Eu sou Júlia e este é meu marido, Samuel. Você goste de churrasco? É a única coisa que o Samuel sabe fazer.
        – Eu gosto demais.
        Katty estava acanhada, mas a família de Johnatan a tratava super bem e logo Katty estava se sentindo em casa.
        Samuel era a versão mais velha dos filhos. Quando Johnatan lhe falara sobre o desejo do pai, Katty o imaginara um homem sério e carrancudo. E por isso se surpreendeu com a espontaneidade e alegria dele. Era uma pessoa brincalhona, e muito bonita, apesar da idade.
        Júlia era um amor de pessoa: era carinhosa com todos, mas parecia a única com juízo. Toda hora ficava regulando os filhos, o marido e a nora. Era muito engraçado. Mesmo correndo de uma lado para o outro, supervisionando-os, ainda tinha tempo para brincar e aproveitar o domingo.
        Elaine era muito bonita e simpática e fazia Katty lembrar-se das amigas. Era uma pessoa bastante agradável e entendia-se porque David e ela se casaram. Eles tinham uma sintonia incrível.
        Dois em uma só carne, Katty pensou ao vê-los juntos. Eles não ficavam se beijando, se abraçando toda hora, mas cada olhar que trocavam era repleto de amor. Assim como os pais dele.
        Elaine, ao contrário da maioria das noras, parecia gostar muito da sogra e Júlia a tratava como filha. Já  Johnatan a tratava como irmã caçula – ou ela o tratava assim.
        Conhecer o lado família de Johnatan deixou-a impressionada. Era incrível observá-lo com a família. Tanto ele quanto David respeitavam bastante os pais e os obedeciam mais do que muitas crianças que conhecia.
        De longe percebia o quanto os dois irmãos se amavam. David e Johnatan estavam sempre brincando como se fossem duas crianças. A afinidade entre eles era palpável.
        Apesar de Júlia dizer que não precisava, Katty e Elaine a ajudaram na cozinha. Enquanto trabalhavam, Katty descobriu histórias engraçadíssimas sobre Johnatan e David.
        Como quando Elaine avisara que chegaria às duas horas e eles entenderam doze e ficaram esperando porque o ônibus que chegava de Uberaba às doze horas estava atrasado. Quando perceberam o erro tiveram que esperar mais uma hora antes que o ônibus certo chegasse.
        Depois do almoço, Katty e Elaine estavam em pé próximo a churrasqueira escutando Samuel explicar como fazia o churrasco. Elas riam bastante, pois ele descobrira que curso Katty fazia e como ele era médico, utilizava termos científicos.
        – Que calor – reclamou Elaine quando Samuel foi lavar os espetos.
        Johnatan que passava por perto escutou.
        – Você está com calor, cunhadinha? - perguntou antes de pegá-la no colo.
        – Me coloque no chão, Johnatan! – Elaine mandou, mas Johnatan levou-a até a piscina que não era longe de onde estavam e jogou-a lá dentro.
        – Johnatan – gritou furiosa ao emergir.
        Johnatan riu e Katty olhou para David. Katty pensou que ele defenderia a esposa, mas ele estava apenas sorrindo. Katty olhou para Elaine que brigava com Johnatan.
        Então, para sua surpresa, sentiu alguém erguê-la do chão. Antes que pudesse recuperar-se, David jogou-a na piscina.
        – Olho por olho, maninho – debochou David.
        Furiosa, Katty emergiu.
        – Desculpe o David – Johnatan disse oferecendo-lhe a mão.
        Katty segurou a mão que ele oferecia e puxou-o para a piscina.
        – O q…?
        – Isso é culpa sua – Katty disse quando ele emergiu. – Se você não tivesse jogado Elaine, David não teria me jogado.
        Johnatan não respondeu. Katty o fitou e percebeu que ele não estava olhando diretamente para o seu rosto. Seguindo olhar dele, ficou rubra ao perceber que sua blusa colara ao seu corpo.
        Johnatan a encarou e fitaram-se intensamente. Katty sentiu o coração disparar e a respiração acelerar. Ela umedeceu os lábios com a língua inconscientemente e Johnatan aproximou-se. A respiração cálida estava tão acelerada quanto a sua. Johnatan estava tão próximo que Katty conseguia ver as gotículas de água nos cílios dele. Ele aproximou o rosto do seu. Katty entreabriu os lábios.
        Então foram banhados com água. Assustados, olharam para o lado e viram David na piscina e Elaine rindo na borda. Júlia que ouvira o barulho de água aproximou-se com toalhas.
        – Eu viro as costas e vocês aprontam! Vocês podem ficar resfriados!
        Eles aceitaram as toalhas que ela oferecia.
        – E agora como você vai embora, querida? - perguntou para Katty.
        – Eu empresto – disse Elaine. – Nós vestimos quase o mesmo tamanho – e acrescentou para Katty: – Venha.
        Katty seguiu-a. Entrara só na cozinha, mas o resto da casa era linda também.
        – Aqui é o quarto do Johnatan. Espere aqui. Vou buscar a roupa para você.
        Katty assentiu e observou o ambiente enquanto Elaine não voltava. O quarto era bem mais organizado que o seu, percebeu. Em cima da cômoda tinha várias fotos e Katty aproximou-se para ver.
        Pegou uma delas e reconheceu os amigos de Johnatan. Curiosa observou o rapaz ao lado de Juliana e suspeitou que fosse o ex-namorado dela. No centro estava Johnatan e Kassandra. Katty devolveu a foto ao lugar.
        A foto ao lado era de Johnatan e David. Ambos estavam vestindo smoking.
        – Foi no meu casamento – Elaine comentou e Katty quase deixou o retrato cair de susto.
        Elaine mostrou outra foto. Nela estavam Elaine, David e Johnatan.
        – Você estava linda – Katty comentou.
        – Obrigada.
        – Como vocês se conheceram? - perguntou lembrando que ela estudava em Uberaba.
        – Meus tios moram aqui e um dia vim visitá-los. O David toca sax na igreja e de onde eu sentava eu podia vê-lo.Eu o achava tão arrogante e antipático!
        Katty arregalou os olhos surpresa.
        – Não fique surpresa. Se você ver o David na igreja, você acha que é outra pessoa. Ele está sempre sério, porque segundo ele a igreja é lugar de louvar a Deus. E eu achava que ele era daquele jeito sempre.
        – Como você descobriu que não?
        – Um dia meus tios me chamaram para visitar o irmão Samuel e a esposa. Eu concordei. Não fazia ideia que eles eram os pais de Johnatan.
        – Por que não?
        – David não era era de ficar muito tempo na porta da igreja e ele sempre ia sempre de moto porque os pais dele costumam levar irmãos para congregar.
        – Ah! O que aconteceu?
        – Eles sempre deixam o portão aberto para o caso de chegar visitas. Íamos entrar quando Johnatan saiu correndo. Eu pensei que não era a casa, mas antes que eu dissesse alguma coisa, David disse: “Deixa quando eu pegar você, Johnatan” e colidiu comigo. Foi tão rápido que não tive tempo de reagir. David me segurou para não cair. “Desculpe” ele murmurara. Meu coração batia tão forte que eu pensei que ele estava escutando. – Elaine sorriu. – Imagina o impacto: eu só o vira de terno e gravata, sempre sério; e lá estava ele sem camisa, sorrindo! E aqueles olhos castanhos…! Até hoje meu coração dispara só de vê-lo.
        Katty sorriu.
        – Seus tios não acharam ruim?
        – Não – Elaine riu. – Para mim foi uma eternidade, mas na verdade foi tudo muito rápido.Johnatan voltou curioso para saber o porquê David não fora atrás dele. “Ah, resolveu pegar a garota?” David ficou super embaraçado e me soltou. “Você deu sorte, maninho. Deixa quando as visitas forem embora” ele brincara.
        – E você tinha ficado encantada.
        – Com certeza. Ele foi tomar banho e depois voltou. Johnatan era do jeito que você conhece: uma comédia, quando junta os dois então.
        Katty sorriu.
        – No final de semana seguinte à minha partida, ele foi à Uberlândia me pedir em namoro.
        – Que lindo!
        – Elaine! - David a chamou.
        – Fique à vontade. Vou ver o que David quer.
        – Ok.
        Katty trocou de roupa pensando no que ouvira. Elaine era uma mulher de sorte.
        – Gostei muito da sua namorada, filho. Traga-a mais vezes.
        – Mamãe, a Katty e eu somos apenas amigos.
        – Ah, desculpe – disse para Katty. Johnatan olhou para trás. – Mas você é a primeira garota que Johnatan traz aqui. O que você queria que eu pensasse? -  perguntou ao filho.
        – Que é apenas amizade – Johnatan disse. – Vamos?
        – Sim. – Katty virou para Júlia. – Foi um prazer conhecer vocês.
        Júlia abraçou, assim como Elaine e David. Samuel saiu de casa e estendeu a mão.
        – Volte mais vezes, querida.
        Katty apenas sorriu. Johnatan levou-a até o carro em silêncio. E Katty não fez nenhum esforço para rompê-lo. Estava incerta, pois ficara lisonjeada com o cumprimento de Júlia. No entanto, a resposta de Johnatan a deixara arrasada, principalmente o tom que ele usara… Será que era tão ruim assim a ideia de namorarem? pensou infeliz.

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