Count On Me
"Você não vai mesmo me deixar dar um rosto ao nome?"
"Não faz nem ideia do quanto já é surpreendente que tenha um nome"
"Vamos, Jinyoung-ah, pra que tanto mistério?"
Se JinYoung fosse ser franco consigo mesmo, não existia um motivo para isso. Ele não se considerava feio, não tinha nenhum complexo com a própria aparência que o impedisse de mostrar-se para a alma gêmea. Mas ainda havia muito receio em Park e a muito tempo havia passado a ser extremamente reservado, cultivava a preservação da sua imagem.
"Não sei"
"Você vai me ver"
"Quando eu estiver preparado pra isso"
"Certo, não vou mais insistir"
"É por isso que nunca me pediu uma foto também?"
JaeBeom não entendia, mas se esforçava para compreender a complexidade que era a outra pessoa. Tinha noção que vinham de mundos diferentes, criações que divergiam, não sabia muito sobre o mais novo, então permitia-se ser paciente, mas com doses de questionamentos que fizesse achegar-se mais ao outro.
Neste caso, no entanto, era bem menos problemático. JinYoung sabia muito bem o motivo de não ter pedido para ver o rosto do outro. Lembrava que assim que o ouviu e descobriu o seu nome fora pesquisar nas redes sociais justamente para dar um rosto ao rapaz. Agora, porém, ele estava um pouco ansioso demais.
"Na verdade"
"Eu fico me perguntando: minha alma gêmea é um idol? Ele deve ser bonito"
"E daí eu penso, mas e se não for taaaao bonito assim?"
"!!!!!!"
"Vou ter que mandar uma foto imediatamente"
"Não acredito que você tá me chamando de feio indiretamente"
"Não chamei de feio"
"Eu apenas me pergunto a respeito"
"Então toma uma foto para tirar suas próprias conclusões"
Park mordeu o lábio inferior, seu cérebro mal havia recebido a informação e uma imagem começava a carregar o download. Seus olhos passaram a procurar por todos os detalhes no rosto que vislumbrava na tela.
JaeBeom parecia ter a pele ainda mais clara que a sua, lábios finos, embora escondidos em um sorriso que os pressionava um ao outro, não usava qualquer tipo de maquiagem e isso só fez com que JinYoung o admirasse ainda mais, pois sendo idol ou não, ele era lindo sem qualquer filtro. Park também notou o nariz arredondado, as sobrancelhas grossas, os olhos menores que os seus e até as duas pintinhas na pálpebra. Estava encantado pela alma gêmea.
"Uau"
"Nossa"
"Faz jus ao título de idol"
"Essa é sua forma de me dizer que sou bonito?"
"Porque você pode dizer diretamente, não vou me incomodar"
"Deve ouvir isso o tempo inteiro"
"Ou está cansado de ouvir, ou deve ser achar muito"
"Melhor eu não dar ainda mais Ibope"
"Hahahaha"
"Que gracinha"
"Eu não escuto isso o tempo todo e não sou nenhum convencido"
"Sou só confiante da minha beleza"
JinYoung sorriu, puxando a conversa novamente para admirar mais uma vez a face alheia. Juntando o rosto à voz, ele sabia muito bem que estava perdido, que se continuasse no mesmo caminho, muito em breve estaria completamente apaixonado. Ainda estava tentando mensurar se isso era algo positivo ou não.
"JinYoung?"
"Ainda está aí?"
"Estou"
"Sabe"
"Já faz uma semana que estamos conversando"
"Eu não vi seu rosto e entendo, mas também não ouvi sua voz, eu estou curioso"
"Manda um áudio pra mim"
JinYoung paralisou no mesmo momento em que leu, como se seu cérebro tivesse um pisca alerta, uma luz vermelha começava a surgir em sua visão. Estavam começando a andar em um caminho delicado e perigoso para a saúde mental do mais novo. Não, ele não havia dito a JaeBeom que não falava, preferiu esconder esse detalhe nada irrelevante.
"Eu não posso agora"
"Não posso fazer nenhum barulho"
"Aliás, eu preciso ir dormir, hyung"
"Boa noite"
"Tudo bem, JinYoung-ah"
"Boa noite"
JaeBeom suspirou, ele não era nenhum bobo e sabia que aquela era a forma que o mais novo tinha para fugir de si e isso o frustrava. Parecia que as vezes davam alguns passos para frente juntos, começava a imaginar que estavam verdadeiramente se conhecendo, em outros momentos, entretanto, parecia que JinYoung estava dando todos os passos possíveis para trás e logo percebia que não o conhecia nem nas coisas mais básicas.
Ficava intrigado, é claro. Questionava a si mesmo qual o motivo do outro se preservar tanto, até entendia os riscos de conhecer alguém dessa forma, mas, talvez por ser alguém bom, não sabia mensurar a autopreservação do outro em se deixar ser conhecido por si.
— Babaquice! — expressou Jackson, irritado.
Fazia então duas semanas que JaeBeom e JinYoung conversavam, Lim evitou o quanto pôde falar sobre isso e quando falava, era sempre o mínimo. Dessa vez, cometera o erro de deixar-se falar mais que o comum e de repente, fora interrompido pelo melhor amigo que parecia bastante descontente.
— Não é babaquice, Jacks, são os meus sentimentos.
— Babaquice — reafirmou, não se importando se suas palavras magoariam o mais velho. — O conceito de almas gêmeas é a coisa mais deprimente que existe. Pessoas sendo altamente dependentes de outra que sequer conhecem, confiando cegamente que o destino vai unir as duas pessoas e que elas serão felizes para sempre. As nossas vidas não são contos de fadas.
JaeBeom manteve-se calado, magoado. A intenção de Jackson era machucar, ainda que fosse uma intenção inconsciente. JaeBeom havia se machucado, mas não da forma esperada. Não se importava que Jackson dissesse aquelas coisas na intenção de abrir os seus olhos, mas se importava de ver o amigo tão amargurado com o fato de não ter sido correspondido.
— Jack... — murmurou depois de alguns minutos em completo silêncio, mas ainda não sabia o que dizer.
— Você foi um idiota dispensando YoungJae, uma pessoa livre de amarras e esteriótipos, que não te forçaria a nada, nem poderia usar uma ligação de almas pra te controlar. Eu te apresentei uma relíquia e você jogou fora por um cara que não disse mais do que o próprio nome, mas deixa você totalmente a mercê dele.
— Cala a boca, Jackson — bradou Lim.
Ainda que soubesse que o amigo estava machucado, não poderia permitir que ele falasse aquelas coisas, nem sobre YoungJae e muito menos sobre JinYoung.
— Você mesmo está tratando YoungJae como um objeto, ele não é uma coisa pra você oferecê-lo para mim como a resolução dos meus problemas. E sobre JinYoung, não vou deixar que fale dessa forma dele, você não o conhece, não tem o direito de julgá-lo.
— Até onde sei, você também não o conhece, então também não deveria protegê-lo — revidou a resposta.
A tensão estava grande e o clima nada bom entre os dois. Haviam sido raríssimas as vezes que os amigos tinham brigado e agora era por um motivo que nunca imaginaram. Jackson era sentimental demais, sempre fora, agia muito mais pelas emoções do que pela razão. JaeBeom, por outro lado, podia ser emocional quando se falava de relacionamentos românticos, mas em todo o resto era alguém racional e objetivo.
— É por isso que eu estou conversando com ele aos poucos, Jack, para conhecê-lo.
Jae foi até o amigo, sentando ao lado dele e descansou a mão em seu ombro.
— Eu vou ser claro com você: dos dois um, ou você supera Yixing ou corre atrás de conquistá-lo. O que você não pode continuar a fazer é descontar em mim e nem em si mesmo.
— Correr atrás dele? Você enlouqueceu? — Wang o olhou completamente indignado.
— Se essa é a sua resposta, ótimo. Então comece a trabalhar em superá-lo.
— Você fala como se fosse simples, hyung, mas não é! Não vou correr atrás de um cara que por oito anos não só ignorou minha existência como me evitou. E também... é difícil superar que fui rejeitado durante os últimos anos. Dói, hyung.
JaeBeom não viu outra resposta além de abraçar o chinês, este que encolheu-se nos braços protetores do mais velho. De fato, Jae não sabia qual a sensação que o mais novo estava sentindo, afinal, os meses que passou sem resposta de JinYoung foram deprimentes, mas não imaginava como reagiria se descobrisse que fora evitado por anos.
— Sei que dói... sinto muito que seja assim. Mas Jack, você sabe o que tem que fazer — falou de forma suave, acariciando os cabelos descoloridos do chinês.
— O hyung está tão radiante que tá ofuscando até o sol — YuGyeom falou, com um sorriso enorme de puro deboche com a cara de JinYoung.
Sua resposta foi apenas o revirar de olhos, mas não conseguia evitar as bochechas e as orelhas pegando uma coloração rosada. Voltou o olhar para a planilha de entrega de livros da biblioteca, estendendo a mão para que o garoto lhe passasse o livro e ele pudesse confirmar a entrega no sistema.
— Eu estou brincando com você hyung, mas na verdade estou feliz por você finalmente estar se dando uma chance.
— Se dando uma chance? Do que estão falando? — Ye-Eun surgiu logo atrás de YuGyeom, passando por ele para ficar atrás do balcão junto de JinYoung.
JinYoung olhou surpreso e depois para YuGyeom, fazendo uma expressão estranha, querendo dizer para o outro mudar de assunto, mas YuGyeom estava distraído demais para entender, ou apenas ignorou.
— O hyung está conhecendo a alma gêmea dele, noona — respondeu.
Ye olhou para o colega de trabalho, surpresa em excesso com a novidade que era praticamente um tapa em si. A garota gostava muito de JinYoung, suas amigas diriam sem pensar duas vezes que na verdade ela era completamente apaixonada por ele.
— Oh, alma gêmea? Eu não sabia... — Olhou para o livro que tinha em mãos, não conseguindo disfarçar o constrangimento.
Ye-Eun não tinha alma gêmea e mesmo sabendo que ela era uma das exceções, tinha convicção de que JinYoung também era, por isso não privou-se de deixar-se se apaixonar por ele.
— ... parece incrível — completou a frase, tomada por sua própria dignidade, tentando não transparecer a tristeza. — Ela é legal? — JinYoung moveu a cabeça em afirmação, não sabendo se deveria escrever algo, mas preferia não se aprofundar no assunto.
— Não é ela, noona, é ele. E ele parece alguem muito legal, não vai acreditar, o hyung deu muita sorte, a alma gêmea dele é cantor profissional, é um idol! — YuGyeom falava com tanta animação que parecia estar falando da própria alma gêmea, ou como se conhecesse JaeBeom.
JinYoung queria sumir, primeiro por estar sendo exposto tão repentinamente, segundo porque ele não queria ver a colega de trabalho de alguma forma triste por sua causa. Tratou de pegar um papel qualquer no balcão e escrever:
"Eu ainda estou conhecendo ele, não seja exagerado, dongsaeng" fingiu escrever apenas para YuGyeom, mas obviamente deixando a menina ler.
— JinYoung-Ssi... — chamou a moça, em um tom baixo e suave, mas suficiente para atrair o olhar do rapaz até ela. A garota se esforçava para não demonstrar a tristeza, mas o próprio sorriso não era tão convincente. — Você merece ser feliz. Eu espero que seja. Então cuide para que dê tudo certo com sua alma gêmea.
Park sentiu a verdade em cada palavra, o modo como a colega estava sendo sincera o comoveu. Ele levou uma mão até a testa e a outra até o coração, fazendo um movimento em conjunto, afastando de si ao mesmo tempo, um pedido de obrigado em sinais.
— Vou colocar os livros nas prateleiras — respondeu ela após assentir.
Shin rapidamente puxou o carrinho alguns poucos livros que precisavam voltar para as estantes e saiu dali sem pestanejar. Assim que a dupla estava sozinha novamente, JinYoung deu um soquinho no braço de YuGyeom, sua forma de puni-lo pelo incoveniente.
— Ai, hyung, o que foi? — fez-se de desentendido.
De bobo Kim só tinha a cara, e embora aparentasse ter feito tudo aquilo na inocência, seria uma grande mentira de sua parte. Ele via as intenções da moça e achava que a melhor coisa que poderia fazer por ambos era dar um banho de água fria nela antes que as coisas ficassem difíceis.
"Você é um pestinha! Por que falou aquelas coisas?" YuGyeom leu e deu de ombros.
— Estava te ajudando, só isso. — JinYoung estreitou os olhos, negando com a cabeça, mas como era do seu feitio fugir de todo tipo de problema e dor de cabeça, resolveu que o que estava feito já não podia ser mudado, então não valia a pena remoer.
— Então, o que acharam? — Nervoso, esfregava a palma da mão no tecido da calça moletom.
— Posso dizer sem dúvidas que eu estou surpreso — foram as primeiras palavras do produtor.
— Isso é bom ou ruim? — JaeBeom soltou um riso nervoso, verificando as expressões dos outros dois homens.
— É algo bom, JaeBeom — garantiu Jay.
— Você escreveu e produziu essas músicas com muita rapidez, eu estou impressionado — admitiu Simon.
— Eu tive muita ajuda, é claro! — apressou-se em afirmar com humildade, não almejando elogios apenas para si, mas para todos que trabalharam consigo e o ajudaram em tudo que foi possível.
— Estamos cientes disso, mas todas as letras são suas e ajudou na produção e arranjos, as demos são muito boas — reforçou Jay. — Ainda precisamos fazer alguns ajustes, acho que tenho algumas boas sugestões.
JaeBeom sorriu de forma iluminada. Acima dos elogios, ele queria mesmo aprender mais e fazer algo sincero, bem trabalhado, entregar o seu melhor.
— Você já pensou em um conceito para trabalharmos? — Jay lhe questionou.
Lim crispou os lábios de forma pensativa. Todas aquelas músicas haviam sido escritas enquanto ele pensava em JinYoung, antes mesmo de conhecê-lo, mas era para ele e isso era inegável. O conceito não poderia ser outro.
— Canção das almas — respondeu convicto.
— Canção das almas... — Jay repetiu.
— Isso é bom, as pessoas com certeza se identificam com esse tema — Simon apoiou.
— Okay, então trabalharemos neste conceito.
A expressão de surpresa não pôde ser evitada, chegando a ser um pouco cômico, como algo tão simples fizera o rapaz perceber que algo estava diferente.
— Sem chocolate quente? — questionou Mark.
JinYoung piscou os olhos um par de vezes até entender de fato a pergunta e o que deveria responder, tomando a timidez para si ao notar que o melhor amigo não deixou de perceber o que estava acontecendo. Mark era alguém distraído, mas uma coisa que ele sabia sobre JinYoung era que o melhor amigo seguia "rituais" todos os dias, acordando cedo, indo pra biblioteca, almoçando no mesmo restaurante todos os dias, voltando para a biblioteca, indo tomar chocolate quente consigo antes de voltar para casa. Eram anos de repetições, podia haver algumas alterações conforme as necessidades do dia, mas o chocolate quente nunca mudava, pois era a bebida preferida de Park.
"Decidi experimentar algo novo", escreveu no papel.
— Então o que vai ser? — Mark franziu o cenho enquanto esperava o amigo escrever.
"Um mocha menta" entregou o papel para o outro.
Mark leu e mordeu o lábio inferior, segurando o riso, pois aquelas palavras, embora não tivessem nenhuma conotação engraçada, fora lida de forma divertidíssima por ele. JinYoung odiava menta.
— De onde você tirou isso? — Não bastasse mudar o rito de sempre, ele estava mesmo disposto a experimentar algo com muitas chances de odiar? O que estaria acontecendo?
JinYoung cruzou os braços, sem desejar responder aquela indagação, mas isso só conseguiu arrancar as risadas que Tuan prendia.
— O que é tão engraçado, hyung? — YuGyeom sentou-se junto aos dois, havia ido ao banheiro naqueles poucos minutos.
— JinYoung disse que vai pedir um mocha menta — respondeu o mais velho.
— O hyung não detesta menta? — questionou Kim, olhando pra Jin.
— Até onde eu sei, sim. — JinYoung revirou os olhos com os dois falando de si como se não estivesse ali.
Park deu um uma batidinha na testa com a mão fechada em punho, a expressão de descaso em um simplório: idiotas.
"JaeBeom-Ssi disse que era o café preferido dele e me pediu para provar", explicou.
Os outros dois não se contiveram, gargalharam alto, não se importando com os olhares que atraiam das outras mesas. Park voltou a cruzar os braços, completamente indignado.
— Eu vou fazer o pedido — falou Mark, por fim.
— E quando chegar, eu vou fazer questão de filmar o hyung provando, isso com certeza vai ser muito bom — debochou YuGyeom.
A porta foi aberta repentinamente, causando um leve susto no rapaz que estava jantando enquanto assistia a um vídeo no celular.
— Pelo amor de Deus, não sabe bater? — reclamou.
— Eu até sei, mas também sei onde você esconde a chave reserva e chaves reservas deixadas do lado de fora existem justamente para qualquer pessoa pegar e usar.
— Desde quando você dá sermão?
— Não é sermão, só tô te mostrando que se até eu não faria isso, você deveria parar de fazer.
— ... Tem razão, se alguém besta como você não faria por precaução, eu deveria ser mais cuidadoso.
— Vou fingir que não me chamou de besta só porque estou de bom humor e porque vim te parabenizar.
— Tô esperando.
— O que?
— Os parabéns, ué.
— Ah, sim! Parabéns por entrar na nova empresa, você já é o meu artista preferido.
— Sim, claro, logo depois de todos os seus girlgrupos preferidos.
— Obviamente, tá jogando pesado demais se for tentar roubar o posto delas, você sabe que perde nessa batalha.
— Você é muito idiota.
— Mas sou seu idiota preferido.
— O segundo preferido, pois Jackson já ocupa o primeiro lugar.
— Muita audácia ter a coragem de dizer isso, Lim JaeBeom! Muita audácia!
— Eu sei que ser meu idiota preferido é muito importante para vocês, mas não se preocupe, você tem um lugar especial.
— Eu deveria te dar uma rasteira, francamente!
— Agora fala, o que veio fazer aqui, Kunpimook?
— Eu tô sabendo de uns rolês aí, daí vim tirar a prova.
— Jackson te falou sobre minha alma gêmea, não foi?
— Eu não diria "falou", tava mais pra um "reclamou" e também não diria "alma gêmea", tá mais para um "desconhecido, esquisito, que não revela a própria identidade" — enquanto falava, fazia aspas com os dedos.
JaeBeom suspirou, levantou e deixou o prato na pia de louças, depois virou para o amigo.
— JinYoung é uma boa pessoa, até onde eu conheci, mas ele é reservado, parece ter receio de se expôr.
— Bom, pelo menos você sabe o nome, Jackson fez parecer que nem isso você sabia.
— Ele só não mostrou o rosto ainda.
— Parece fazer o tipo tímido? — Kunpimook foi até a geladeira, abrindo sem cerimônia, tencionando pegar a garrafa com água, mas findou em pegar a jarra de suco.
— Não acho que seja o caso. Ele é reservado, mas bem direto nas palavras, parece dizer o que pensa, mas pensar muito antes de dizer. Ele não mandou fotos e também não me pediu — explicou. A esse ponto, o visitante já estava se servindo.
— Então ele também não sabe o seu rosto? — JaeBeom mordeu o lábio inferior.
— Ele sabe, mandei uma foto pra ele alguns dias atrás. — O amigo lhe olhou, neutro, diferente de Jackson, mas ainda assim Lim sentia a necessidade de justificar-se. — Pensei que isso não importaria muito, em alguns dias a empresa vai me anunciar oficialmente, ele veria meu rosto de qualquer forma. — Kunpimook assentiu em concordância.
— O que Jackson não errou em dizer, é que pelo visto, esse JinYoung conhece mais de você do que você dele...
— Onde você quer chegar? — Cruzou os braços, estava na defensiva. O amigo bebeu do suco antes de responder:
— Não quero chegar a lugar nenhum, só estou tentando entender essa história.
— Estamos nos conhecendo aos poucos, como eu já disse. JinYoung me contou algumas coisas, como: ele fará vinte anos em setembro, disse que trabalha em uma biblioteca, também mora em Seul, disse que tem dois amigos e que quando fossemos nos conhecer, ele os levaria junto por segurança...
— Ele realmente gosta de segurança, não é? — falou o amigo em um tom pensativo.
— Não acho que haja algo de errado nisso...
— Não exatamente, quero dizer, é sensato se preocupar com isso, mas não te pareceu meio exagerado?
— Não?
— Fala sério, hyung! Me diz, qual é exatamente o bairro que ele mora? — Deixou o copo vazio na mesa e o olhou com as sobrancelhas erguidas.
— Não sei. — Crispou os lábios em indecisão, embora de fato não soubesse.
— Qual o nome da biblioteca que ele trabalha?
— Também não sei...
— E o nome dos amigos dele?
— Não faço ideia.
— Exatamente!, o que quero dizer é: ele falou sobre si mesmo, mas de maneira evasiva. Não quer dizer que ele não queira que você o conheça, se for assim, tudo que você sabe não passa de mentira.
— Não acredito nisso, não acho que ele esteja mentindo — falava com confiança, porque a pouca ligação que tinham o fazia sentir-se assim.
— Para sua surpresa, também não acho — riu da expressão surpresa do outro. — O que eu acho, é que talvez haja um motivo para ele agir assim.
— Um motivo... isso... explicaria muita coisa.
— Vai em frente, eu tô preparado, pode ir. — YuGyeom estava mesmo com o celular em mãos, com a câmera ligada na direção de JinYoung.
O coreano mais velho o olhava com certo tédio, achando uma infantilidade, mas nada disposto a escrever algo, no entanto, deixou que a câmera registrasse os movimentos com a mão que fazia enquanto chamava o outro de idiota.
— Prova logo — Mark falou, apressando o amigo.
Havia tanta expectativa naquele momento que era quase como se estivessem esperando que na verdade JinYoung fosse falar e não que fosse experimentar um café diferenciado. Tentando ignorar a câmera e os dois amigos bobocas, JinYoung segurou a taça com ambas as mãos, sentindo o calor. Aproximou-o do rosto e pôde sentir o aroma das misturas, o café, o leite, o chocolate e, principalmente, a menta.
Finalmente, Park levou aos lábios, tomando um gole pequeno, para o caso de arrependimentos, mas grande suficiente para que pudesse saborear. Sua expressão não mudou no início, frustrando o Kim que imaginava uma careta exagerada. Mas no fim, depois de JinYoung abrir e fechar a boca um par de vezes — não como se fosse falar, apenas como quem degusta algo —, ele ofereceu um sorriso para a filmagem e para os amigos.
"É uma delícia", escreveu para eles. YuGyeom filmou para registrar.
— Que decepcionante — constatou o Kim, contrariando a razão, fazendo Mark rir.
— Para ser sincero, também esperava que você detestasse.
"É refrescante, diferente, mas é bom, eu poderia me acostumar rapidamente... talvez menta não seja assim tão ruim..."
YuGyeom continuava filmando, porque sei lá, ele poderia precisar disso no futuro, nunca se sabe.
— Ou você está tão apaixonado que o sabor de menta tornou-se apreciável.
JinYoung fez uma careta, não admitiria aquilo para os dois, menos ainda na frente de uma câmera. Limitou-se apenas a levar a taça novamente aos lábios e tomar mais do café. YuGyeom finalizou a filmagem a partir daí.
Porém, JinYoung não poderia deixar de pensar que na verdade, perguntou-se se os lábios de JaeBeom teriam o mesmo gosto. Se fosse o caso, ele estava mesmo disposto a fazer da menta o seu sabor preferido.
— Ainda não posso perguntar isso a ele, Bammie, é cedo demais.
— Eu entendo, mas quanto mais cedo souber, mais fácil e rápido será fazer algo sobre isso.
JaeBeom assentiu, concordando com o amigo, pois sabia que quanto mais cedo soubesse o que levava JinYoung a ser tão recluso e cuidadoso, melhor seria para avançarem no relacionamento. Mas ele precisava ser sábio e reconhecer os limites.
— Agora o próximo tópico da minha visita — falou Bambam, um pouco mais relaxado no sofá, porém não menos preocupado. — Que diabos aconteceu com o Jacks?
— Oh, isso... bem, então... — Lim enganchou-se em suas próprias palavras e isso preocupou mais o amigo de origem tailandesa. — Resumidamente, ele cantou para a alma gêmea dele e descobriu que este é um homem de vinte e tantos anos, que não se importava com almas gêmeas, então nunca o procurou.
— Vinte e quantos anos? — questionou Bambam, como se essa fosse a única informação relevante de tudo que ouviu.
— E oito, se não me engano.
— Caralho — Bambam soltou o impróprio sem conseguir conter-se. — São anos demais, dá pra entender o Jacks.
— É... só nos meses que cantei para JinYoung sem receber nenhuma resposta, foi horrível. Não imagino como deve estar sendo difícil para ele.
— Às vezes me sinto sortudo.
— Não fala isso perto dele, grandes chances dele se afogar em sentimentos reclusos, ou te bater por você ser "sortudo" e ele não.
A sorte de Bambam não provém de já ter encontrado um amor, mas da auto-suficiência, de não precisar de alma gêmea porque ele apenas não tinha uma. Tinha seus momentos para não se sentir sortudo por isso, mas no geral, era genuinamente apreciável ter suas escolhas de forma livre e desprendida.
JinYoung deixou os sapatos na sapateira como fazia todos os dias, pegando a pantufa de peach. A casa estava silenciosa, como de costume, mas ele sabia que os outros dois moradores estavam ali. Sorrateiro, foi direto para o seu quarto, onde no caminho pôde ouvir o barulho da televisão vindo do quarto do casal, apenas para provar que a constatação dele estava correta.
O rapaz fez o de sempre, deixou a mochila na cadeira da escrivaninha, procurou roupas limpas no guarda-roupas, depois tomou um banho e se vestiu. Sua primeira indecisão veio no momento de decidir se ia jantar alguma coisa ou se abria o notebook e tentava escrever um pouco. Sentia-se repentinamente inspirado. Por fim, colocou o aparelho na tomada e ligou.
Como alguém dado ao silêncio e a observação, escrever havia se tornado mais um dos seus hobbys que ele cultivava, além das fotografias e desenhos aleatórias no sketchbook que estava quase sempre na mochila. JinYoung gostava de escrever coisas pequenas como novelas ou contos, encaixava-se perfeitamente no seu estado de ser: curto, sem preâmbulos, sem muitos personagens e direto ao ponto. Julgava que pequenas histórias tinham um poder diferente de cativar as pessoas, ainda que não soubesse na prática, já que ninguém lia os seus trabalhos.
Não era insegurança, pelo menos, não completamente, o que não o levava a de alguma forma liberar suas histórias para as outras pessoas, era que considerava tudo um pouco pessoal demais. Havia o conto da "caixa na areia", o conto "o cachorro Bob", a novela "primeira canção", outra novela "a garota no banco da praça"; todas essas histórias eram íntimas demais para as expusesse.
JinYoung abriu a página de um novo documento, ainda totalmente em branco, sem ter certeza se iniciaria um conto ou novela, mas deixaria fluir como viesse e o possível nome já estava flutuando em sua cabeça, algo como: sabor de menta.
Sim, ei
Ouviu o chamado em sua cabeça, sorrindo instantaneamente, parando de digitar as primeiras palavras que se dispôs a escrever, assim podendo dar total atenção a JaeBeom.
Me conte tudo
Me diga como você se sente pelo jeito que você está olhando pra mim agora
Para que eu possa notar
Não importa quantas vezes eu suspeitei
A dúvida logo se tornará em fé
Você está apenas sentada ao meu lado
Fique de olho em mim
JinYoung, como sempre, dedicava uma atenção quase que sagrada a cada palavra entoada, sabia que sempre que Lim cantava algo de autoria própria era porque estava tentando lhe dizer algo importante e pessoal. A letra não deixava dúvidas, havia um pedido claro ali, Jin sabia muito bem.
Ooh-oh-ooh nem 24 horas é suficiente
Ooh-oh-ooh para te dizer como me sinto (sim)
Mordeu o lábio, fechando os olhos, tentou relaxar um pouco já cadeira e pensar como faria isso, como faria para abrir-se um pouco mais para o mais velho?
Você deveria contar comigo, querida
Você deveria contar comigo, querida
Não importa o que você quer
Eu irei te provar
Com todo o meu coração
Você deveria contar comigo, querida
Você deveria contar comigo, querida
Então você não irá ficar mais ansiosa
Vou te mostrar tudo
Então você pode confiar em mim
Àquelas palavras continham uma promessa que JinYoung não sabia se JaeBeom seria capaz de cumprir. Ele poderia mesmo lidar com todos os seus defeitos? Com os seus erros e com toda a carga que vinha em sua bagagem? JinYoung não sabia disso, mas sabia que estava privando Lim da escolha.
Você não tem que ler as mentes dos outros
Só precisa olhar pra mim
Vou ser honesto com você
Sem mentiras
Você precisa ficar calculando
'Garoto' você sabe que eu não faço jogos
Não perca o seu tempo, venha até mim
JinYoung soltou um riso com as palavras que ouvira, por segundos chegou a pensar que o mais velho era capaz de ler sua mente, pois quase respondia aos seus questionamentos. Lim era uma pessoa que transmitia uma essência tão verdadeira e cuidadosa que Park queria não se preocupar com mais nada e apenas confiar na alma gêmea, tentar não levar o peso de tudo sozinho.
Eu só quero a sua sinceridade
Eu quero te dar tudo
Eu espero que você aceite isso
Eu te quero mais do que nunca, com certeza
Porque estou tentando fazer você minha
JinYoung sentiu o coração disparar com a declaração, seu impulso de pegar o celular foi sanado, pois não pensou duas vezes, apenas pegou o aparelho, entrou na galeria e começou a procurar por uma foto própria.
Diferente da primeira vez que mandou mensagem a JaeBeom, por puro medo de perdê-lo, agora ele estava prestes a mandar aquela mensagem porque sentia confiança, porque queria avançar um passo à frente na direção de Lim.
Garota, você sabe que eu quero mais
Eu sei como você se sente
Porque eu sou aquele por quem você está esperando
Eu sou o único pra você
Park sentia-se estranho, mas um estranho tão bom que ele sentia que poderia explodir por não aguentar. Não havia vivido um amor antes, nem mesmo a paixão adolescente, então agora, mesmo com seus quase vinte anos, estava experimentando o frio na barriga, a ansiedade e a expectativa. Encontrou uma foto que considerava bonita e natural, querendo que JaeBeom tivesse uma boa primeira impressão.
Ouvir que o mais velho entendia seus sentimentos e estava ali como uma base de apoio, deixou o Park mais confiante, então finalmente apertou em compartilhar, junto da legenda: "eu confio em você, este sou eu".
Garota, você sabe que eu quero mais
Por que você ainda está hesitando?
Vou te mostrar tudo
Então você pode confiar em mim
JaeBeom sentiu o celular vibrando ao seu lado no sofá, desta vez ele não estava no piano e sim com o violão em mãos, fazendo um som para sua música. Havia chegado ao fim e com isso, pegou o aparelho e desbloqueou. Antes estava com a ideia de cantar mais um pouco, como fazia antigamente, monologando para JinYoung, dessa vez, no entanto, tinha o recurso de mandar e receber mensagens.
Seus olhos se arregalaram quando viu a mídia de uma foto ainda borrada por não ter feito o download, no entanto a legenda era clara e ele não hesitou em finalmente fazer o carregamento para que pudesse contemplar a foto.
Lim passou a analisar cada detalhe: cabelo preto, curto, mas com franjinha, cobrindo toda a testa; mas ainda reparou nas sobrancelhas grossas; nos lábios rosados e carnudos; reparou que ele tinha bochechas cheinhas; nas orelha sobressalente; e nos olhos que eram maiores que os seus. Tudo isso, todo o conjunto lhe causou uma reação da qual não tinha controle: o coração disparado.
"JinYoung-ah"
"Você é a pessoa mais linda que já vi no mundo"
Digitou sem nem raciocinar o que estava escrevendo e mandando, embora se parasse para pensar não mudaria uma única letra.
"Hyung, não precisa exagerar"
"eu lá tenho cara de exagerado?"
"Na verdade, tem sim"
"Pois saiba que não estou"
"E também estou feliz por você ter me mandado a foto"
"Eu estive pensando no quanto eu quero muito te conhecer de verdade"
"Sei que tem muitas coisas que você ainda não sente segurança em me contar, mas quero que saiba que eu quero te conhecer e vou te escutar quando estiver preparado para falar"
JaeBeom estava falando aquilo "escutar quando estiver preparado para falar", no sentido figurado, como quem queria dizer que o outro podia confiar em si. Mas para JinYoung foi inevitável levar as palavras no sentido literal e isso lhe trouxe um suspiro profundo.
"Tem muita coisa da qual eu tenho medo de falar, hyung"
"Mas eu quero fazer isso dar certo, então"
"Eu acho que poderíamos nos encontrar qualquer dia desses"
"Está me convidando para um encontro?"
"É isso mesmo, Park JinYoung?"
Park podia formular na sua mente as palavras saindo com humor e a risada que ainda não tivera o privilégio de ouvir.
"Bem, acho que sim"
"Então eu gostaria de dizer"
"Que ter um encontro com você é o que eu mais quero"
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