Capítulo 6
Mudar meus planos deixou minha mãe muito triste. Ela se culpava o tempo todo. Falava que se não tivesse assinado aquele contrato, eu não teria optado por outro curso. Podia até ser mesmo, porém, eu procurava enxergar de outra forma, acreditava que Deus me mostrava outro caminho. E se não tivesse acontecido aquilo, talvez eu que seria o certo para minha vida.
Trabalhar no escritório de advocacia me deu a oportunidade de vivenciar outras dificuldades, uma realidade que eu, Diana, não conhecia. Podia ser uma invisível aos olhos daqueles que ali trabalhavam, mas eu era atenta a tudo. Escutava e lia muitos papéis que circulavam e que eram separados para reciclagem. Até livros descartados comecei a levar para casa com a permissão da senhora Nancy.
Assim o direito entrou na minha vida e, mais além, quando um dos nossos padrões passou no concurso de juiz federal. Eu li a matéria que saiu no jornal sobre a carreira da magistratura federal, e confesso, essa parte da profissão me encheu os olhos. E meu sonho foi sendo moldado novamente.
Passei a resolver provas de vestibulares anteriores. Fazer redações com todos temas polêmicos da atualidade e mais, ler as redações de exames anteriores, com as melhores notas. Tudo isso foi me capacitando para as provas, além do cursinho e estudar em qualquer tempo livre que possuía.
Namorar?
Nem sabia o que isso significava. Meu foco era outro. Eu tinha um objetivo e não cabia distrações que se chamavam: homens e garotos.
— Fia, você não acha que precisa se distrair um pouco? Não deve ser bom uma garota de sua idade não sair e nem frequentar nenhuma festa.
— Não, mãe. Depois que eu entrar na universidade vou poder pensar nestas coisas. Por enquanto, estudar e trabalhar são mais importantes.
— Tudo culpa minha... — resmungou.
— Nem vou discutir mais sobre este assunto, mãe. Se eu tivesse trabalhando três vezes por semana, estaria estudando no restante do horário do mesmo jeito.
— E a medicina?
— Teria mudado também. Acredito que ir trabalhar neste lugar foi uma estratégia que Deus colocou na minha vida para clarear meus olhos. Acredito que tudo tem um propósito.
— Sei... seu avô outro dia me perguntou se você tinha namorado.
— E o que a senhora respondeu?
— Que você não tem tempo para pensar nisso, trabalha e estuda muito. E ele veio com a conversa que sonhava em ter uma neta médica.
— Engraçado — Parei o que fazia. — Quando eu falei de estudar ele disse que isso não era para mim.
— Outros tempos, fia. Eles perceberam que fizemos o melhor em sair da roça. Ele tem muito orgulho de você.
— Teria que ser de nós duas, não é mãe? Ou melhor, mais da senhora que de mim, porque quem o enfrentou não foi eu.
Sentei no colo dela e a abracei pelo pescoço. Beijei seu rosto e falei:
— Eu te amo, mãe. Sinto orgulho de ser sua filha.
— Orgulho de quê? Não temos muita coisa e nem consigo pagar sozinha nossas contas!
— A senhora é valente, trabalhadora, corajosa e me criou praticamente sozinha. Uma mãe e um pai. Nunca me deixou sentir falta de ter um pai para me homenagear na escola, sempre presente em tudo. Sou forte porque tenho seu exemplo. Não me falta nada.
— Deixe de falar bobagem! Queria ver se nós tivéssemos uma situação financeira melhor, uma casa boa para morar se você não fosse mais feliz! Teríamos tranquilidade na vida. — Levantou me tirando do seu colo.
— Pode até ser que mais conforto, mãe. Mas isso não é tudo. E vejo que felicidade não está nestas coisas. Tenho colegas com mais dinheiro, casa boa, roupas melhores e nem por isso são mais felizes, reclamam da vida o tempo todo.
— Essas meninas reclamam de barriga cheia. Tem tudo e não dão valor. A filha da Lourdes, dona da fábrica, é uma dessas, a mãe camela naquela confecção e ela não lava uma xícara em casa, não arruma uma cama e nem lava as próprias calcinhas. Só sabe pedir coisas novas. E sabe da última? — Olhei para ela e balancei a cabeça negando. — Diz que não vai mais usar as roupas que a mãe faz, quer comprar nas lojas.
— Sério isso? Mas por que se a confecção vende para as lojas daqui e das cidades vizinhas?
— Sei lá! Dona Lourdes disse que é coisa da idade. E quer seguir as coleguinhas. Para mim ela passa a mão demais na cabeça daquela menina. — Levantou. Antes de entrar no quarto concluiu: — Mas cada um sabe de sua vida e como criar os filhos. Por falar nisso, parece que ela pretende abrir uma lojinha na frente da fábrica.
Fiquei pensando um pouco e voltei a estudar.
Com a correria do dia a dia, o tempo passou rápido, semanas se transformaram em meses. Como o vento de chuva forte que tira tudo do lugar, não foi diferente com minha vida, sem perceber as provas do vestibular se aproximaram. Com ele meu nervosismo.
Domingo à noite, depois de enfrentar vários finais de semanas de provas, eu queria apenas dormir. Poderia hibernar, acordar depois de uma semana pelo menos, mas quem trabalha não tem este luxo. A vantagem era que eu não precisava acordar tão cedo.
Agora imagine se alguém que acordou a vida inteira às cinco ou cinco e meia, conseguia dormir muito?
Nos primeiros dias permanecia na cama um pouco mais, depois mal o sol levantava, eu estava de pé, fazia parte de mim. Meu relógio biológico sabia a hora certa de me despertar. Levantava, tomava café, deixava a casa em ordem, preparava o almoço e ainda sobrava tempo livre.
Veio o natal e passamos na roça com meus avôs, tios e primos.
Um dia, perto do ano novo, perguntei sobre o meu pai a minha mãe, era um assunto que ela sempre desviava.
— A senhora não acha que já sou crescida o bastante para saber essa história na íntegra?
— O que é isso?
— O quê?
— Essa coisa de intrega?
— Íntegra é por inteiro. Saber tudo que aconteceu entre a senhora e meu pai. Quem é ele, onde mora, o que faz da vida, porque não me assumiu. Essas coisas.
— Te falta alguma coisa, Diana?
— Não, mãe! A senhora sabe que não se trata disto. Eu apenas quero saber a minha genética. Acho que é um direito que tenho.
— Pronto! Era o que me faltava! Não passou a estudar para ser advogada ainda, nem começou o curso e já vem com essa história de direito.
— A senhora sabe que é verdade, nem preciso estudar para isso, está na lei dos direitos de toda criança e adolescente, conhecer sua origem, ter pai e mãe...
— Direito é uma coisa, fazer cumprir é outra, minha filha!
— Mas a senhora nunca quis nem me dizer o nome dele.
— Vai começar de novo com esse assunto, Diana? — Levantou e começou a mexer nas panelas.
Abracei-a por trás e beijei seu pescoço.
— Eu te amo muito, mãe. Não quero te chatear, mas tenho essa curiosidade faz muito tempo. Acredito que toda pessoa que não conhece os pais, como os adotados, ou o pai que abandonou, a mãe que sumiu no mundo deve passar por essa questão e se fazer a mesma pergunta. Qual é a minha origem?
— Eu estou aqui, não estou? — Ela virou para mim. — Sua origem sou eu e ponto final!
Jogou o pano de prato na pia e saiu da cozinha. Decidi não falar mais nada, por hora.
Noite de ano novo ficamos em casa, apenas nós duas e no dia seguinte fomos almoçar na casa do tio Atanásio e meus avós vieram também para cidade. Juntamos as panelas, como dizem, cada um levou um prato ou sobremesa e foi aquela fartura à mesa. Nós rimos, comemos e conversamos a tarde toda. Teve até moda de viola e cantoria. Minhas primas tocavam muito bem o violão. Os tios variavam os instrumentos, eram viola, violão, cavaquinho e até a sanfona. Cada encontro vira uma festança.
O escritório deu recesso para todos, do natal até depois da virada do ano. Retornaria no primeiro dia útil de janeiro de 2010.
No dia 18 de janeiro começaram a sair os resultados das provas dos vestibulares.
Ela vai passar? Ou terá surpresas neste caminho? O que você acha?
Sabemos que entrar numa universidade pública é o sonho de muitos adolescentes e adultos. Porém, sabemos também que para quem não tem oportunidade de ter uma formação adequada e de qualidade tudo tornam mais difícil.
Aguardem o próximo capítulo para saber que rumo vai levar a vida de Diana e sua mãe Glória.
Beijos e até mais.
Lena Rossi
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