Capítulo 3


Alguns dias se passaram, nada de resposta da vaga de faxineira no escritório. Eu permaneci ansiosa, queria saber logo para acabar com aquela angústia. Pensei até em me candidatar a uma vaga na lanchonete perto da escola. O cargo era para anotar os pedidos e servir as mesas, pior, todas as tardes por um salário menor que o outro no escritório. Orava todos os dias para que Deus decidisse pelo o melhor para mim.

Mas, os dias passavam e nada.

Voltava da escola um dia, numa tarde chuvosa, dona Maria, nossa vizinha veio me dar o recado. A senhora Nancy, responsável pelas contratações do escritório de advocacia, pediu para eu entrar em contato. Troquei de roupa e voltei na mesma hora. Peguei o ônibus em direção ao centro.

Tinham selecionado três pessoas contando comigo. E eu seria a última a ser entrevistada. Após conversar com essa senhora, ela me disse:

— A vaga é sua. Os dias serão segunda, quarta e sexta a partir do meio dia, tudo bem?

Nem acreditei!

No entanto, minha cabeça fervilhou. Fiquei quieta e indecisa. Contorcia as mãos com medo de perder a oportunidade. Perguntava-me, como dizer a ela que estudava pela manhã?

— O que foi Diana, algum problema?

— É que minhas aulas terminam às onze e cinquenta e até eu chegar aqui... não quero me atrasar, entende? — expliquei.

— Ah é verdade, eu vi na sua ficha que está no último ano do ensino médio. E você precisa almoçar antes de vir trabalhar. Qual horário que achar melhor para iniciar?

— Meia hora será suficiente.

— Não, vamos fazer o seguinte. Faça uma experiência, no primeiro dia você vê quanto tempo precisa para sair da escola, almoçar e chegar aqui. Não quero que venha sem se alimentar, assim definimos seu horário, mesmo porque, os funcionários começam a sair para o almoço após meio-dia e meia.

— Tudo bem! — concordei.

O serviço principal seria limpar as salas dos advogados associados. O salão, um espaço de trabalho coletivo, tinha muitas mesas com divisórias entre elas. Neste lugar a limpeza seria exclusivamente para recolher os lixos e limpar o chão. A mesa de cada funcionário era responsabilidade do ocupante. Por último, os banheiros, masculinos e femininos. A cozinha era de uso comum e cada um que usava deveria deixar tudo limpo.

— Vou deixar todos os dias uma escala com a prioridade das salas dos advogados. Essas devem ser as primeiras a serem limpas, pois eles voltam às duas horas. Quando têm audiências, ou outros compromissos, eles retornam mais no final da tarde. Com as escalas você vai conseguir trabalhar sem eles por perto.

— Sim, senhora. Vou procurar seguir tudo direitinho e qualquer coisa que eu não fizer correto, peço que me diga.

— Vai dar certo. Gostei muito de você. — Sorriu e apertou minha mão passando-me confiança.

Se ela gostou de mim, imagine eu dela por me dar essa oportunidade.

No dia seguinte, sexta-feira, meio-dia e meia, eu já estava no escritório. Assim que entrei, as pessoas saiam animadas e conversavam entre elas.

— Boa tarde, Diana, achei que começaria apenas na segunda-feira — falou, senhora Nancy, assim que me viu.

— Achei melhor começar o quanto antes, mas pode contabilizar a partir de segunda, não tem problema.

Ela sorriu e não comentou nada, apenas tocou em meu ombro. Ao sair se despediu, então falou:

— Vamos nos dar bem, tenho certeza.

Como tudo que é novo traz certo medo, comigo não foi diferente. Senti receio de não dar conta e fazer o serviço errado ou que não gostasse de mim.

Entrei direto para o banheiro da área comum, ele ficava entre a copa e a cozinha. Troquei de roupa, tirei o uniforme da escola e vesti uma legging e camiseta, por cima coloquei um jaleco que não possuía as mangas, amarra nas laterais e com bolsos à frente. Este era o tempo de cozinheira na casa da família em que moramos. Prendi meu cabelo, comprido e cacheado em um coque e coloquei uma touca.

Os materiais de limpeza aparentavam ser caros, porém nada práticos para aquele tipo de limpeza. Precisava pensar em como pedir que eles fossem trocados, sem parecer chata, mas mostrar que os outros seriam mais eficazes e até mais baratos.

Demorei um pouco a mais do que previa neste dia, tudo estava bem sujo, precisava realmente de mais tempo e dedicação. Quando os funcionários retornaram do almoço, eu não tinha feito a limpeza do salão comum.

Totalmente sem graça, pedi desculpas pelo incômodo, mas ninguém ao menos respondeu ou virou a cabeça em minha direção. A princípio, senti-me entristecida, mas por outro lado foi bom, não houve necessidade de explicações, porque era como se eu não existisse dentro daquele lugar.

Observei, discretamente claro, as moças e os rapazes, todos muito bem arrumados. Suas roupas, aparentemente caras, eram muito diferentes do que eu estava acostumada. Os rapazes usavam ternos e sapatos lustrados, as moças da recepção vestiam conjuntos de saia e camisete iguais com um bordado no lado direito escrito do nome do escritório. Já as que trabalhavam no salão comum usavam roupas variadas e cada uma mais elegante que a outra, em seus saltos finos e cabelos bem alinhados.

E as conversas? Não entendia nada, totalmente fora da minha realidade. Parei de prestar atenção e me concentrei em minha obrigação.

Continuei meu trabalho até mais tranquila, pois sabia que não haveria olhares para cima de mim. O importante era fazer bem feito o que me propus. Uma coisa minha avó sempre dizia e tinha razão: "faça seu trabalho correto e bem feito, por mais simples que seja. O importante é ter certeza da sua capacidade de melhorar sempre. " E foi com este pensamento que me apeguei.

Cheguei em casa, cansada e feliz. Tomei um banho e preparei o jantar enquanto fazia revisão da matéria dada naquele dia. Assuntei ao escutar a voz de minha mãe, pois não a vi chegar.

— E como foi no trabalho?

— Hum... acho que diferente seria a resposta mais adequada.

— Como assim?

— Nada parecido com trabalhar em casa de família. Sei que agora no início está tudo mais sujo, mas a manutenção vai ser simples.

— Como que é lá? E as pessoas de trataram bem? — perguntou, depois de puxar a cadeira e se sentar.

— Nas salas dos advogados associados, acho que os donos, os móveis são de madeiras pesadas e as estantes, uma maravilha, cheias de livros. Na sala grande, onde muitos trabalham, cada um tem sua mesa e seu computador, alguns são separados com repartições de madeira, mas nada sofisticado.

— O que eles fazem?

— Quem? Os chefes?

— Não! Estes desta sala comum.

— Não sei direito. Parece que prestam serviços para outras empresas na parte contábil. Não sei se são todos advogados, contadores ou estagiários de direito. Sei que alguns são recém-formados. Estou falando apenas o que acho, apenas pelas conversas que escutei, não tenho certeza.

— Não conversou com ninguém?

— É bem capaz que eles iam dar confiança para mim, né mãe! Nem responderam quando dei boa tarde.

Ela ficou quieta e pensativa. Bem mais tarde, quando eu estudava na minha mesinha ela parou na porta do quarto e comentou:

— É por este motivo que não queria você trabalhando sem se formar. Não quero que passe por este tipo de coisa.

— Que tipo de coisa, mãe? Ser ignorada? Se for, fique tranquila, pois já estou acostumada. Quando entrei nesta escola, muitas meninas nem me olhavam na cara, achavam superiores por serem brancas, mesmo sendo pobres. Depois que perceberam que eu era mais inteligente que elas e tirava notas mais altas, mudaram de atitudes.

— Este mundo está virado mesmo, bem que seu avô fala e ele tem razão.

— Mãe! — Parei o que fazia e olhei para ela. — Não é de agora, infelizmente, desde a abolição da escravatura que essas coisas acontecem. Um período com mais, outro com menos preconceitos, mas sempre existiu. Nós, negros, precisamos provar o tempo todo que podemos e somos capazes.

— Quero ver quando você for uma médica se isso não vai mudar.

— Muda nada! Pode ser que algumas pessoas sim, mas outras nunca vão deixar de pensar que preto tem que ter emprego de preto.

— E existe isso?

— Vai me dizer que a senhora não se lembra daquela vez, o menino da minha classe riu quando eu disse que seria médica e, ainda afirmou que preta tem que ser babá, varredora de rua ou doméstica!

— Tive vontade de ir lá e fazer que engolisse cada palavra.

— Por isso, contei bem depois do ocorrido. — Fiquei pensativa, conclui. — Vou aproveitar e fazer uma redação deste assunto: preconceito racial. Pode ser tema do vestibular para este ano.

Ela levantou e saiu.

Um mês de trabalho, recebi meu salário logo que cheguei, mas a senhora Nancy disse:

— Preciso falar com você. Não vá embora hoje, sem antes me procurar para trocarmos uma palavrinha.

Gelei.

Pronto!

E se ela me demitisse? Estava contente com o dinheiro para fazer minha matrícula no cursinho.

Trabalhei tensa o resto da tarde.

***

O que será?

Deu curiosidade agora, né? Mas ficará sabendo apenas no próximo capítulo.

Deixe seus comentários. Vou adorar responder.

Beijos, Lena Rossi

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