Capítulo 2

No dia seguinte minha mãe anunciou que iria para a cidade procurar um emprego, a roça parecia que pegava fogo, tanto foi a gritaria que Faustina e vô Aniceto fizeram. E ela não voltou a palavra, mesmo com todas as ameaças que recebeu, disse:

— Eu já tomei minha decisão, Diana precisa estudar e ser alguém na vida. Ela não pagará pelos meus erros!

Na manhã seguinte saiu cedinho, antes de o sol ficar alto, rumou pelo caminho em direção à cidade. Eu passei o dia angustiada. Escondi na casa da árvore e roí todas as minhas unhas. Pedia a Deus para orientar e cuidar de minha mãe para que desse tudo certo.

Ao cair da tarde, eu continuava na escada de madeira da frente da casa, meu olhar se perdia na estrada de chão batido cercado da plantação de milho. Ao longe avistei uma luz, reconheci que era ela e corri ao seu encontro. Mamãe abaixou na minha altura e o seu rosto demonstrava felicidade, então falou:

— Consegui um emprego.

— E eu? — perguntei, ansiosa.

— Vai morar comigo na casa que irei trabalhar. Já passei na escola e pedi uma vaga para você. Agora é só levar sua certidão de nascimento e a carteira de vacinação.

Eu não contive a felicidade e saí correndo, pulando e fazendo estrelas e pirueta pela estrada.

No dia seguinte, arrumamos os nossos pertences, que não era muitas coisas e partimos. Meu avô se recusou a nos levar na charrete até a cidade. Mas o tio Expedito, que era padrinho de mamãe e sabia da revolta de vovô, fez questão de nos esperar na curva da estrada. Assim que nos viu falou:

— Entre logo ces duas, não quero inimizade com Aniceto. Bico calado dessa carona.

— Obrigada, padrinho, eu estou acostumada com essa caminhada, mas Diana, não.

— Deixe de bobagem e vamos logo — ele comentou, olhava preocupado pelo retrovisor do fusquinha.

E foi assim que nos mudamos para a cidade.

O emprego de minha mãe era de empregada doméstica em uma casa de família, onde eu, após voltar da escola ajudava a tomar conta do filho do casal que tinha um aninho.

Tínhamos um quarto com um banheiro pequeno, mas era o nosso castelo após o fim do expediente. Durante oito anos trabalhamos nesta casa. Período que concluí o primeiro grau, oitava série e começaria o segundo grau, o ensino médio de hoje.

Sempre fui uma ótima aluna, aprendia com muita facilidade todas as matérias, porém não me sobrava muito tempo para estudar fora de sala de aula. Isto acontecia, porque já nesta época eu ajudava na preparação das refeições.

— Filha, eu vejo que você tem ficado até tarde da noite estudando, isso me incomoda muito. — Olhei em sua mão um papel dobrado. — Recebi hoje na rua este jornalzinho.

Peguei de sua mão o folheto, a tinta de uma caneta circulava o seguinte anúncio: precisa-se de costureira de máquina reta, costureira de corte, bordadeira, auxiliar de costura e ajudante para serviço geral.

— O que pensou? — perguntei, devolvi o papel sem entender sua intenção, porque ela não sabia costurar.

— Pensei num jeito de você dedicar mais aos estudos, e não vejo outro caminho senão sairmos desta casa. Nós precisamos trabalhar em horários menores. — Ela levantou, chegou mais perto e abaixou a voz: — não temos horas para nada aqui. Vejo você a fazer lição quase no escuro e isto não está certo.

— Mãe, eu não quero te atrapalhar dormir, por isso uso somente o abajur.

— Não é isto, minha filha! Eu quero ver você dormir mais cedo e com seus estudos em dia — falou decidida. — Amanhã vou lá!

Deu certo.

Mudamos para uma casa pequena de um quarto. O aluguel comia metade do seu salário, porém, ficava perto da escola e de seu trabalho, eu não precisaria mais gastar o dinheiro do ônibus.

Ela foi contratada como ajudante geral da confecção de uniformes e iria aprender a costurar em máquina reta depois do expediente. E mesmo assim, chegava cedo em casa.

Eu estudava de manhã e tinha a tarde livre para fazer as lições, arrumar a casa e fazia o jantar.

Durante muito tempo, meus avós, ficaram afastados de nós duas. Diziam que eu iria pelo mesmo caminho de minha mãe e que eles não seriam cúmplices e nem nos aceitariam de volta com mais uma criança nos braços. E quando perceberam que nós duas tínhamos convicções daquilo que queríamos, começaram a se aproximar novamente.

Tudo aconteceu naturalmente e devagar. Eles começaram mandando umas merendas, produzidas no sítio, pelo tio Joaquim. Da outra vez pela tia Imaculada e assim foram se aproximando cada dia mais.

Por este motivo, nunca aceitei convite de garoto algum para sair. Aos dezessete anos, eu jamais havia tido um encontro.

Terceiro ano do ensino médio. Último do colégio.

As provas do vestibular aconteceriam no final daquele ano e início do outro. A escola que eu frequentava, era boa, mas não para preparar o aluno para o vestibular muito concorrido como o de medicina. Os meus amigos, com condição financeira um pouco melhor, faziam cursinho preparatório. Eu poderia exigir este dinheiro a mais para mamãe.

O que fazer? Pensava nisso o tempo todo. Até que uma amiga pensou em uma alternativa para nós. Arrumar um emprego temporário. E pensei seriamente naquela proposta, concluí que seria a solução.

Começamos a olhar os jornais e classificados. Fizemos entrevistas e recebemos muitas respostas negativas, por falta de experiência e o tempo que dispunham que era meio período. Até que uma proposta surgiu.

— Mãe, vou arrumar uma faxina para fazer três vezes por semana — falei rápido e esperei sua reação.

Ela parou o que fazia e sentou do meu lado. Ficou em silêncio por um tempo, depois perguntou:

— Por que isto agora? O que te falta, Diana?

— Nada! É porque tenho vontade de fazer cursinho durante este ano, senão vai ficar difícil passar no vestibular estudando sozinha.

Percebi sua preocupação, no entanto, ela não falou nada. Dona Glória era assim mesmo. Pensava no silêncio.

Alguns dias depois ela tocou no assunto e falou que pretendia fazer hora extra para que eu não precisasse trabalhar.

— Mãe, eu não quero a senhora se matando de trabalhar, senão o que vai adiantar me formar e a senhora cair doente? Eu vou para o colégio de manhã, faço faxina à tarde e vou para o cursinho à noite. Serão apenas três dias na semana, e mais, será em um escritório de advocacia e não em casa de família.

Fia... eu prometi a mim que faria de tudo para você conseguir ser alguém na vida.

— E vou conseguir, mãe, mas para isto — Segurei suas mãos. —, precisamos fazer juntas e não toda parte pesada ficar para a senhora. Deixe que eu faça do meu jeito.

Ela me abraçou e permanecemos por algum tempo bem juntinhas. Mas sentia sua preocupação em seus olhos, seu impasse em aceitar e por isso ficou calada. Ela era sempre assim, quando algo a incomodava agia dessa forma. Recolhia em seu silêncio e permanecia até dar uma solução ao problema.

No dia marcado fui ao escritório de advocacia conversar sobre a vaga e saber do serviço. O que eu não esperava era ter uma fila e tantas pessoas interessadas. Apertei minha pasta, com meu currículo, no peito e me enchi de coragem. Pensei: o que tiver de ser será!



E aí, o que estão achando? Sei que é muito cedo para ter uma ideia por onde vai essa história, mas garanto que o caminho vai ser tortuosos.

Beijos

Lena Rossi

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top