Capítulo 10

— Que isso? — perguntei, no meu íntimo assustada, afinal eu não o conhecia o bastante para saber qual poderia ser sua reação.

— Desculpe-me. — Afastou-se da porta. — A vida não precisa ser assim tão dura. Podemos relaxar um pouco.

— Você que pensa! A vida é dura sim e se eu relaxar o mundo, ou as pessoas nos engolem, ou nos dão rasteira que é difícil de levantar. Boa tarde. — Saí da sala.

Assim que fechei a porta escutei algo sendo batido com força.

Final da tarde, pronta para sair, escuto o meu nome sendo chamado.

— Diana, posso te dar uma carona? — Revirei os olhos. Não era possível ser de novo o Mateus.

— Mateus, por que isto? — Voltei para encará-lo. — Até pouco tempo você nem sabia meu nome, o que eu fazia da vida e que estudava direito, agora insiste em me pagar alguma coisa e sair comigo!

— Por isto mesmo! Quero te agradecer pelo o que fez por mim na frente do doutor Álvaro. E te conhecer um pouco, saber o que mais esconde — Deu um sorriso lindo. Ai meu Deus, o que eu pensei? —, além de querer ser uma advogada.

— Ah, então é isto? Tudo bem — Ele se animou. —, já agradeceu. Está tudo bem, eu não quero prejudicar ninguém aqui dentro, nem em lugar nenhum. Boa tarde, ou melhor, noite. — Virei e saí com ele no meu encalço pela calçada.

— Tudo bem se não quer uma carona, mas pelo menos me dê uns minutos. Vamos tomar um lanche ali na praça de alimentação da galeria.

— Mateus, isto já ficou chato e eu não quero ser indelicada. Eu. Não. Vou. Aceitar. Nenhum. Convite. Seu. — falei, pausadamente. — Entendeu agora?

— Não! Pode repetir? — Ele sorriu. Pois se achou engraçado.

— Você é esperto e já entendeu.

Afastei e caminhei sem olhar para trás. Confesso que aquela insistência mexeu um pouco comigo, mas nada que me fizesse mudar de ideia. A minha rotina e direção do que queria, eu já tinha traçado, era uma meta de vida.

Minha mãe e algumas amigas sempre insistiam que eu precisava sair e conhecer pessoas, ter um relacionamento, porém eu tinha medo de cair em tentação e na cilada da vida. Não podia me afastar do meu sonho e meta.

Olhei de lado e percebi que não era mais seguida. Respirei aliviada e diminuí meus passos. Cheguei ao ponto de ônibus com a cabeça a mil.

Antes de entrar em sala de aula já me encontrava mais tranquila. No intervalo, Vivi veio falar comigo, teríamos as próximas aulas juntas.

— Tudo bem?

— Sim — respondi, mas não sei se era verdade. — E você, pronta para a prova de amanhã?

— Nem fale! Mas se não fosse você estaria me escabelando.

— Exagerada. — Sorri. — Vivi, posso te fazer uma pergunta?

— Claro! Aposto que não é sobre direito financeiro, acertei?

— Sim, acertou. — respondi, envergonhada — Não tenho muita experiência, ou melhor, nenhum conhecimento com os rapazes.

— Pode perguntar, não sou uma perita, mas posso tentar te ajudar.

— Como saber se um cara está sendo sincero?

— Hum... pode ser uma pergunta de direito tributário? — Deu risada. — Diana, a cabeça do homem é indecifrável. É muito particular para cada pessoa, então fica difícil ter uma resposta correta.

— É, eu sei, mas alguma pista que possa me ajudar a pelo menos ter uma direção?

— Vamos pelo começo. Quem é? Alguém aqui da facu?

— Não. É do meu trabalho, pior, já é formado e mais velho.

— Um daqueles velhos donos do lugar? — Dei risada.

— Claro que não, ele é o assistente de um deles. Vou te contar um pouco sobre o que aconteceu.

Falei sobre o Mateus e as nossas conversas e ela ficou pensativa.

— A primeira coisa é aceitar um convite dele, assim poderá avaliar. Se ele vier com gracinha e avançar o sinal é porque quer apenas isso. Mas ainda não é tudo, já que ele deve ser experient no assunto.

— Assim fica difícil.

— Vou te ajudar, mas agora temos que ir para aula. Que tal amanhã na monitoria, ou se você quiser ir dormir lá em casa hoje.

— Amanhã. Não posso dormir fora, minha mãe ficaria preocupada.

— Liga para ela.

— Não temos telefone.

— Nem celular?

— Olha para mim, veja se tenho cara de ter um celular?

— E precisa de cara para isso? Sei que trabalha, é monitora e tem seu dinheiro.

— Pois não tenho esse aparelho. Somos eu e minha mãe, pagamos aluguel e outras despesas, o que tem me sobrado vou guardar para depois de formada.

— Está certa neste aspecto, mas em pleno 2012, celular está sendo quase um artigo de primeira necessidade. Veja o meu! — Tirou da bolsa um aparelho pequeno e me mostrou. — Não é grande coisa, este era do meu pai, ele comprou um melhor e fiquei com o dele.

— Eu não tenho ninguém para deixar um para mim, se eu quiser, terei que comprar.

— Pode se dar de natal. — Caminhamos para sala e nos sentamos. — Eu vou comprar um novo quando tiver o meu primeiro salário, por isso quero começar o estágio remunerado nas férias ou no início do ano que vem.

— Também queria estagiar, mas não sei onde vou arrumar tempo.

A sexta-feira foi tranquila. No escritório, pouco vi o Mateus, os advogados associados nem voltariam à tarde, eu sabia disso porque a senhora Nancy avisou.

Guardava minhas coisas no armário quando duas funcionárias entraram na cozinha conversando.

— Eu deixei meu currículo na mesa do doutor Bueno, você acha que fui ousada? — falou uma delas.

— Poderia ter entregado em mãos, seria mais inteligente — a outra questionou.

— Fiquei nervosa e não tive coragem. Sabe, ele não é altas coisas.

— O senhor Bueno?

— Não, sua doida, o meu currículo! — Deu risada alta. — Nunca fiz muita coisa na faculdade.

— Nem aqui, né amiga? Por isso, eu tenho mais chance que você.

Saí da área restrita dos armários e as cumprimentei. A loira cutucou a ruiva e falou:

— Ainda bem que a vaga é para as estagiárias formadas, senão a faxineira pensaria que poderia se candidatar por estudar Direito.

Fingi não escutar a sua provocação. Encaminhei para a saída da cozinha e já na porta escutei um barulho de coisas caírem no chão. Voltei meu olhar e os talheres estavam todos espalhados no piso.

— Não vai pegar? — A ruiva me perguntou. — É seu serviço deixar tudo em ordem antes de sair.

— Já terminei meu turno e deixei tudo no lugar, foi a senhorita quem derrubou — falei, continuei a sair e a outra gritou:

— Não fala assim comigo, mocinha!

— O que acontece aqui? — perguntou Nancy em minha frente.

— Essa garota está indo embora com a cozinha nesta desordem. E ainda falou para que nós arrumássemos.

— Eu arrumei tudo como sempre, senhora Nancy, não sei o porquê elas agem dessa maneira.

Ela passou por mim e entrou na cozinha, pela sua expressão não gostou do que viu. Então fiz o mesmo, voltei e me deparei com café esparramado na pia e nas xícaras que eu tinha lavado e deixado organizado sobre a bandeja. Meus olhos arderam ao ver aquilo. Minha vontade de chorar foi grande, porém engoli o nó que se instalou na garganta. Devagar tirei minha mochila das costas e a depositei sobre a cadeira. Assim que abaixei para recolher os talheres, escutei a voz da senhora Nancy.

— Pare Diana, as mocinhas vão arrumar a bagunça que fizeram.

— Nós? Por que eu tenho que fazer o trabalho dela? — Apontou para mim.

— Porque conheço muito bem a Diana e sei que ela deixou essa cozinha impecável.

— Eu não coloco as minhas mãos nesta bagunça, é com você Michele — Ameaçou sair, mas amiga a puxou pelo braço.

— Nem pensar que vai sair daqui, Lorena e me deixar sozinha!

Neste instante, algumas pessoas já se aglomeravam na cozinha para meu constrangimento, inclusive o Mateus.

— Pode deixar, senhora Nancy, eu arrumo rapidinho. — Abaixei para recolher os talheres.

— Não! Elas irão fazer isso. Pode ir, seu horário já foi encerrado.

Obedeci. Deixei os que tinha pegado na pia e me retirei, após pedir licença.

Ao respirar o ar do lado de fora, já na rua, meu choro veio junto. Não conseguia acreditar e imaginar o motivo que aquelas duas fizeram aquilo comigo. Nunca tinha dirigido uma palavra a mim. Eu jamais fiz algo a elas, pelo contrário, sempre limpei e organizei suas mesas onde trabalhavam, mesmo não sendo a minha obrigação.

— Muito injusto! Do que elas tinham medo? Que eu roubasse o cargo de assistente delas? Como se isso pudesse acontecer.

— Diana!! — Alguém chamou meu nome e eu nem precisava olhar para saber de quem se tratava.

Olá,
É muito triste quando as pessoas são tratadas sem respeito.
Alguém aqui já foi descriminado por algo? Conte para nós!
Até mais.
Lena Rossi

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