Abelhinha
O sol não brilha quando ela vai embora. não faz calor quando ela está longe. o sol não brilha quando ela vai embora. e ela sempre demora tanto para voltar. cada vez que ela se vai. me pergunto para onde ela foi dessa vez. me pergunto se ela foi para sempre. o sol não brilha quando ela vai embora. e essa casa deixa de ser um lar. cada vez que ela se vai.
Bill Withers, Ain't no sunshine
[...]
Seis anos de idade
23h:46
— Omma? — Cutuquei seu ombro de pé ao lado da cama, com meu pijama amassado e Tata apertado nos braços.
Chamei e logo me arrependi, mamãe não gosta que eu a chame assim.
— Mamãããããe? — Repeti com a voz chorosa, rapidamente esfregando a mão pelos olhos molhados, afim de evitar as lágrimas.
Resmungando, ela se remexeu sob os lençóis com uma aparência cansada.
Hoje é sábado, na verdade agora domingo. Aos sábados, Appa está de folga do restaurante e nós três passamos o dia juntos. Fazemos a refeição perto do rio Han, e passeamos no Parque Hangang, porém dessa vez fomos só nós dois, ela saiu bem cedinho e quando voltou já na hora da janta, passou direto para o quarto.
— O que foi, por que está chorando Melissa? — perguntou irritada por eu tê-la acordado, me olhando tão friamente que fui capaz de sentir um arrepio pelo corpo, embora esteja bem agasalhada. — O que eu já disse sobre você chorar o tempo todo?
Imediatamente usei meu ursinho Tata para limpar as lágrimas, evitando que novas se acumulassem sob meus olhos.
— Que o mundo é cruel com aqueles que sentem demais.
Esse é seu lema. Omma nunca chora e também não suporta o choro dos outros, principalmente o meu.
Sua expressão permaneceu áspera, enquanto confirmava o que eu tinha acabado de dizer.
— O que você quer? — Sua voz saiu ríspida mesmo que ela tenha tentado minimamente controlá-la.
Omma é assim, apesar de às vezes tentar o contrário, ela sempre é seca.
— Omma?! Desculpe. — Arregalei os olhos quando notei o erro, me desculpando rapidamente com seu olhar cansado grudado em mim. — Mamãe, eu não consigo dormir. — Admiti bem baixinho por fim.
Observei seus olhos lentamente rolarem sob a fraca luz do abajur, seus dedos pressionaram as têmporas, ela parecia tão fatigada, esgotada de tudo.
— Só volte para a sua cama, fique quietinha e logo o sono vem — disse simplesmente ao abanar as mãos em direção a porta.
Choraminguei mais uma vez.
Omma não entende, eu realmente não consigo dormir. Acho que comi muito do jjajangmyeon que Appa fez para o jantar. Já contei carneirinhos como ele me ensinou, confessei todo o meu dia a Tata e por fim, antes de desistir soletrei todo o alfabeto 4x.
E como ficou fora o dia inteirinho, eu senti sua falta e só queria ficar perto dela sentindo o cheirinho de rosas do seu perfume.
— Mas, mamããããe...
— MELISSA!!! — Gritou me assustando.
Na hora meus olhos se encheram de lágrimas, mas eu não posso chorar, não posso.
Alguém soltou um suspiro longo, mas fraquinho.
— Abelhinha?
Sua voz me chamou do outro lado da cama, já se sentando. Embora esteja de costas, eu sei que ele está sorrindo, ele sempre sorri para mim.
— Venha cá. — Completou.
Antes mesmo que saísse de sua frente, Omma já voltou a se deitar bufando, cobriu todo o rosto com o edredom e se virou para o lado oposto em que meu pai estava.
— Appa? — Funguei, sentindo aquele calor aquecendo meu rosto, o morno das lágrimas intrusas sendo amparado pelas suas mãos suaves. — Não consigo dormir.
— Tudo bem minha Abelhinha, não chore mais — falou mansinho, ele nunca grita comigo.
Ele voltou a deitar me segurando bem junto de si. Eu me aconcheguei em seus braços enquanto Appa protegia Tata e eu do frio com também um suspiro acompanhando seus atos antes de começar a passar as mãos pela minha cabeça.
Sem demora meus olhos foram piscando mais lentamente, e lentamente, meu Appa faz o melhor cafuné do mundo.
[...]
08h:00
Abrindo os olhos envolta na minha colcha rosa, com Tata ainda nos braços mas na minha própria cama, eu me espreguicei antes de levantar animada, já quase sentindo o aroma das panquecas.
Ainda esfregando os olhos, fui em direção a cozinha, encontrando Appa sentado sozinho em uma das cadeiras na pequena mesa. Percebi seus olhos tão tristes, igualzinho aos meus na noite passada. Direcionei o olhar para a pia, os ingredientes do café estão sobre ela, mas nada tinha sido feito, meu papai deve estar com fome, por isso parece deprimido.
— Appa? — Corri em sua direção pulando em seu colo com o maior sorriso do mundo.
Mesmo que não tenha panqueca eu estou aqui com ele, meu Appa não precisa ficar triste.
Recebi sua olhada surpresa por estar distraído segurando a fotografia de um homem que eu nunca tinha visto antes. Ele parece comigo e com omma, pois é diferente do meu pai e de todos a nossa volta, seus olhos não são puxados e de alguma forma me parece familiar.
Volta e meia, enquanto Appa penteia meu cabelo ou me ajuda a escovar os dentes em frente ao espelho, eu pergunto o porquê dos meus olhos não serem como os dele.
Papai diz que eu puxei Omma, mas mesmo que meus olhos não sejam esticadinhos isso não faz diferença nenhuma, pois ele me ama assim.
— Quem é esse Ahjussi?— perguntei balançando as perninhas no ar. — A mamãe foi no mercado?
Sem responder ele juntou a foto com uma folha de papel solta que só fui perceber agora que também estava em suas mãos e pôs tudo de forma apressada no bolso da calça de pijama antes de passar as pontas dos dedos disfarçadamente no canto dos olhos.
Passei para acordar Omma antes de vir para a cozinha, mas ela já tinha levantado. Perguntei se mamãe tinha ido ao mercado, já que domingo é dia de panqueca e não tem mais calda de morango.
Omma só gosta de calda de morango.
Ele piscou os olhos sem ainda dar um sorriso, mas olhou para mim por muito tempo antes de finalmente me presentear com um. Appa me apertou nos braços quentinhos, e como em um passe de mágica, as lágrimas sumiram.
— Escute o appa Abelhinha. — Ganhei um beijinho na testa e o abracei sentindo um tremor balançar meu corpo, mas quem tremia era ele. — A mamãe teve que viajar por um tempo, mas vai ficar tudo bem.
Omma viajou?
— Sem se despedir de mim? — perguntei ressentida.
Ela podia ter pelo menos me avisado, mas se Omma saiu assim apressada devia ter algum motivo, além do mais ela logo voltaria para casa.
— Não se preocupe com isso minha filha, ouça eu não vou trabalhar hoje só para passar o dia todinho ao seu lado. O que minha Abelhinha acha de irmos tomar café lá onde tem aquele parquinho que você tanto gosta e brincar o dia todo? — Papai indagou animado, embora pareça ter um fundinho de tristeza intrincada em sua voz.
Na verdade, eu quero ficar com a minha mãe, ela prometeu que trançaria meu cabelo e que deixaria a minha amiguinha vir brincar comigo mais tarde, só que ela não está aqui e eu não posso chorar porque o mundo é cruel com aqueles que sentem demais.
— Só nós dois? — Não quis demonstrar tristeza para o meu Appa, porém minha voz saiu suspeita.
Ele suspirou.
— Somos só nós dois agora Abelhinha — Sua resposta saiu mais baixa ainda. — Só nós dois.
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