1- A CHEGADA
O forasteiro para na parte mais alta do planalto sul, próxima das cidades de Sodoma e Gomorra. A região de Zoar é realmente magnífica.
Ele admira as planícies verdejantes e abundantes. Um lugar maravilhoso para se viver. Calmo, tranquilo... como ele precisa. Embora, é claro que tudo isso seja apenas uma especulação, de um guerreiro desabrigado. Derrotado. Humilhado. Não somente ele, mas, todo um exército.
Bel-Sar-Uxur. Esse é seu nome de batismo. Um comandante que foi soterrado por toneladas de concreto, quando um general arcanjo, chamado Thell, foi derrotar o maior guerreiro que existiu até então. Nimrod.
Os vigilantes destruíram a Torre e causaram as dissensões nas línguas.
O homem que está coberto com uma túnica branca, que tem suas barras bordadas em dourado e vermelho, parece um maltrapilho. Talvez um leproso, olhando-o de longe. As suas vestes estão sujas. Suadas. Já se passaram meses, desde a sua última refeição decente.
Com um saco de pano, amarrado transversalmente pelo seu corpo, Bel-Sar-Uxur continua sua peregrinação. As duas cidades, Sodoma e Gomorra, estão a algumas horas da sua distância. O forasteiro caminha sem pressa, por causa da fadiga que beira a exaustão.
O sol está a pino. E no decorrer que aproxima-se de Sodoma e Gomorra, observa que não passaram por ele batedores, montados em seus cavalos de raça, cuidando da vigilância. Poderiam as duas cidades abrirem mão da segurança? Ou haveria uma propósito para isso?
Os dias são perversos. Maus. Cheios de mortandade e assassínio. O homem, consegue ser ainda pior que os da sua linhagem.
O homem é o devorador do homem.
As muralhas, já se delineiam com suas formas claras, altas e poderosas, mas sem um soldado montando guarda sobre elas. Bel-Sar-Uxur novamente para olhando tudo em sua volta.
Nem os sons das animarias dos campos são ouvidas. Estranho? No mínimo.
No lado oposto de onde está, ele sabe que tem a fortificada cidade de Canaã. Mas, estranhamente, parece que essas duas cidades abriram mão de suas defesas. Pelo menos é isso que norteia sua mente. Mas, como o guerreiro que é, tudo são indícios, onde somente o tempo vai ter respostas.
E isso, exatamente por isso, o deixa mais vigilante. Atento. Seus olhos azuis se fecham. O forasteiro levanta um pouco sua fronte, e respira o ar que vem da cidade. Nada aparentemente estranho. Ruim? Talvez.
Das areias, vem a dança do calor, que sobe pelo ar igual a várias serpentes. Os seus pés calçados sentem o maltrato da quentura. A sua expressão é cadavérica, embora seus olhos sejam vivos e expressivos. O homem continua à sua jornada, ele já escolheu a cidade que vai ficar.
Sodoma.
A cidade de Sodoma, como já foi dito, tem seus muros altos. Uma muralha fortificada, que cerca toda a cidade. A entrada da cidade, que parecia ter o tamanho igual das tantas outras que morou, na verdade só parecia.
A entrada vai tomando sua forma agigantada, aumentando aos seus olhos, assim que o forasteiro vai chegando.
Bel-Sar-Uxur é alto. Um pouco mais de dois metros de altura. E quando ele para embaixo da entrada da cidade de Sodoma, seriam no mínimo cinquenta homens iguais a ele, montados iguais uma escada "invasora", para tocar no arco superior da entrada da muralha.
As pessoas entram e saem da cidade sem a mínima dificuldade de transitar. Sodoma é uma cidade comercial. E por ser uma cidade de negócios, a ausência de guardas, batedores ou soldados na entrada, é no mínimo... despretensiosa.
— Tenho mulheres! — Um senhor magro e careca, o puxa pelo braço. De dentro da multidão que o cerca.
— Não quero. — A voz do forasteiro é pausada. Mas, responde sem olhar para o cidadão.
— Tenho mulheres de todas as idades. — O homem magro, careca e caolho, repete a frase, acrescida de mais essa informação.
— Eu já disse que não quero. — O homem olha para o sujeito, que imediatamente entende a mensagem dos seus olhos azuis, e rapidamente recolhe sua mão direita, soltando assim, o braço do forasteiro.
— Eu tenho meninos... e de todas as idades. — Bel-Sar-Uxur respira com impaciência. A vontade dele é matar aquele ser franzino, ignóbil, minúsculo e desprezível ali mesmo.
Porém, com tantos adjetivos assim, seria uma imbecilidade dele, gastar o ínfimo da sua energia com o homenzinho careca.
— Eu quero uma estalagem. Mostre-me.
— Eu vendo sexo. Prazer. Se quiser um lugar para dormir, procure você mesmo.— O forasteiro sorri com a língua ferina do verme. Poderia matá-lo agora. Mas, da sua alforja, puxa uma pedra de ouro. Pequenina pedra de ouro. Do tamanho de um caroço de feijão.
Talvez até menor.
O dourado, mesmo sendo pequeno, reflete através dos olhos do comerciante, igual ao Sol por um espelho.
— Meu senhor, desculpe esse pobre homem, seu servo. Faz muito tempo que ele não sabe o que são bons modos. Como devo chama-lo meu senhor?— O forasteiro conhecia tipos iguais aquele. Homens avarentos, interesseiros, mesquinhos e que só faziam aumentar a cada dia. — Perdão. — O homenzinho careca entende no silêncio do visitante, que não deve falar mais que o necessário. — Por favor, siga-me. Vou levá-lo para um lugar digno do senhor.
Bel-Sar-Uxur sorri pelo canto da boca. Por baixo da túnica. O homenzinho careca, pela primeira vez sente medo do estanho. Ele não sabe o porquê, mas o olhar recebido do forasteiro, o fez sentir um pavor estranhamente familiar.
— Qual o seu nome? — Pergunta o viajante.
— O nome do seu servo é Rachid.
Rachid pelo canto dos olhos, percebe que o forasteiro está deslumbrado com as construções.
As casas são estruturadas lateralmente e idênticas. Lembra sua cidade. A parte rica. Porém, a grande diferença é que todas as casas, por onde estão passando, são do mesmo tipo.
E quando digo tipo, refiro-me a qualidade das construções. A padronização. Modelos. Não são de madeiras, mas de barro cozido na fornalha. Iguais aos matérias usados na Torre de Babel.
Todas as casas tem uma base alta, com dois pilares redondos na frente que alongam as marquises das residências, provocando sombras para quem aguarda ser recebido ou não pelo dono da casa.
— Mas duas ruas e chegaremos meu senhor. — Bel-Sar-Uxur não vê esgoto ao céu aberto. Tudo muito limpo. Ordeiro. Organizado.
O forasteiro tem vontade de perguntar sobre os guardas, mas evita por precaução. Ele já sabe que será alvo de assaltantes. Um forasteiro carregando ouro... Bel-Sar-Uxur deseja isso. O ouro não foi dado à toa.
A estalagem tem o mesmo padrão de construção das casas.
— Meu senhor, seu servo Rachid vai parar aqui. O que precisar, o senhor sabe aonde encontrar seu servo.
O forasteiro entrega-lhe mais outra esfera de ouro. O homenzinho careca, pede licença e sai da frente do forasteiro, sem dar-lhe as costas. E com as mãos juntas, em forma de reza, as gesticulam para cima e para baixo em agradecimento.
Em idioma antigo está escrito na entrada, o nome da estalagem:
הבית שלי הבית שלך
"Minha casa, sua casa"
Não é uma tradução literal, mas, o que o estabelecimento deseja mostrar ao seu cliente.
Bel-sar-Uxur entra na estalagem. A cor predominante dos tecidos é o vinho. Os tapetes feitos à mão decoram os pisos e as paredes. Uma mulher parda, com seus cabelos negros e olhos amendoados vem em sua direção.
— Seja bem vindo. — A mulher com vestes sensuais o recebe já entregando uma chave com o número do seu quarto. O homem acha estranho não ser cobrado, ou mesmo perguntado quanto tempo ficará ali. Mas, nada diz. Ele abaixa a túnica. Seus sucos embaixo dos olhos estão proeminentes. Caídos. Cansados.
Fechando a chave em sua mão direita, o forasteiro segue a mulher e saliva ao perceber o movimento do corpo esguio faz, ao subir a escada. Principalmente o movimento que a bunda dela faz, através da pantalona verde esmeralda, quase transparente.
A mulher mostra o quarto que ficará e desce em silêncio. O local é limpo e com cheiro de ervas. Sim... há ervas dentro de dois vasos com água, nas extremidades dos quartos.
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