4. A SENTENÇA DE MORTE
As labaredas da lareira dançavam no ar do quarto quando adentrei de forma abrupta arrancando um cordão que estava preso em meu pescoço, a moeda dada por Jhon antes de partir estava presa em uma pequena rede que estava presa no cordão e que sempre esteve comigo desde que a minha escolha havia sido tomada.
— Você disse que Jhon estava morto. – a raiava tomava minha mente.
— Não é como contar carneiros meu querido. – Tituba pega o cordão que eu joguei sob a mesa e o segura. – É mais como contar sombras, mas isso não muda nada. – sua voz era serena e tranquila.
Ela se aproxima de mim e me segura pelos braços de frente ao enorme espelho que esta na minha frente, através dele posso ver meu rosto inchado pelas lagrimas derramadas misturadas ao ódio de que as previsões de Tituba não estavam corretas.
— O que é Jhon Aurus, comparado a tudo o que esta diante de você agora. Pare de choramingar garoto. Esse homem não merece suas lagrimas.
— Elas não são para ele. – digo por fim – São para o garoto que eu fui um dia.
— Esse garoto pertence a outro agora! – Tituba puxa meus cabelos.
Minha boca se abre e solto um grito, o espelho em nossa frente se despedaça e seus fragmentos came no chão enquanto Tituba solta meus cabelos.
— Foi ele quem o deixou para os lobos – ela continua, suas mãos tocando meu pescoço. – Não criança, foi ele quem o salvou dos lobos e a levantou para tudo isso aqui. Você tem uma grande visão – suas mãos acariciam meu peito – Não a perca de vista. Amanhã a lua estará conosco, amanhã tudo vai começar. Deixe a sua raiva para o Kanaima se alimentar. Ele não tem cumprindo a promessa? Seus inimigos agora não são seus escravos? Você não tem tudo o que sempre desejou?
As mãos de Tituba desciam até meu abdômen e subiam novamente em uma dança tranquila enquanto eu olhava para o que tinha sobrado do espelho a minha frente, meus olhos encharcados e minha pele estava sem vida. Jhon havia tirado toda a estabilidade que eu havia conquistado, teria sido melhor para mim e para todo o resto se ele tivesse continuado morto. Mas seu retorno a Salem só me trouxe duvidas e receios.
— Riqueza, poder... – Tituba continuava seu discurso.
— Quase tudo. – as palavras saíram amargas de minha boca.
Uma batida, me recomponho rapidamente enquanto Alberto aparece na porta com o semblante sério. Ele se curva levemente e nos olha.
— Com licença senhor, um cavalheiro deseja vê-lo.
Dou um meneio de cabeça e desço as escadas e caminho em direção a sala, sentado em uma de minhas poltronas estava o senhor Currey, seus cabelos brancos contrastavam com sua pele flácida e enrugada, vestia uma calça bege suja, usava botas sujas de barro e poeira, além de ter um casaco e uma toca de pele de urso pardo.
— A que devo esse imenso prazer?
— Eu gostaria de falar com o senhor. – Me sento em sua frente na poltrona oposta, ele se ajeita levemente. – Eu tinha uma pequena fazenda, primeiro ela partiu meu coração depois as minhas costas. Como ambos sabemos o coração melhora as costas não. Passei a caçar com armadilhas é uma vida dura arruinou os índios agora está me arruinando. – ele pega um frasco que estava dentro de um dos bolsos do casaco e o bebe.
Eu o olho sem o menor interesse, aquela conversa estava acontecendo em uma hora inoportuna, estava me segurando para não perder a compostura e manda-lo sair da minha casa. Mas depois que a bebida desceu pela sua garganta e dar uma careta, ele volta a se concentrar em mim.
— Uma coisa sobre armadilhas é que você pega boas caças a noite, mas de manha elas vão ser a refeição de outro e por isso eu fico com as armadilhas.
— Fascinante senhor Currey mas...
— É por isso que eu estava lá... – eu o olho surpreso – na noite em que fizeram aquilo, você e sua amiga mulata.
— Esperou muito tempo. – disse o olhando de forma intimidadora.
— Não era da conta de ninguém, mas Jhon voltou e podemos concordar que nenhum de nós gostaríamos de ver o jovem mestre Sibley sendo enforcado em praça pública e o que isso poderia causar a Jhon é claro, estaria disposto a mata-lo por ser quem você é?
Os pássaros cantavam naquela manhã enquanto eu caminhava em direção ao cemitério, meus passos eram os mesmos feitos por Jhon naquela manhã, já que eu o acompanhava a uma distância segura. Eu estava determinado a dar um jeito em toda aquela situação, não seria um velho que iria estragar o que eu havia construído, mas parei ao perceber que o jovem Hale estava sentado entre as lapides com seu caderno de desenho.
Seus olhos estavam concentrados no desenho que se dispunha a fazer, mas a caneta de ponta afiada lhe escapa os dedos, fazendo com que surgisse um corte em seu dedo, automaticamente fazendo com que ele o levasse a boca para estancar o sangramento. Jhon se aproxima dele agachando-se já que o pequeno artista estava sentado em cima de uma toalha, Andy o olha com um largo sorriso no rosto ao mesmo tempo que está surpreso em vê-lo ali.
— Nada mal.
— O reverendo Matter diz que desenhar é idolatria – o filho dos Hale diz ao juntar seus instrumentos de desenho. – Assim como adorar a natureza.
— Há coisas piores para adorar. – John fala em um tom divertido.
Andy olha bem para a face de Jhon e segura seu rosto o pegando de surpresa ao realizar tal ato, seus dedos tocam seu cavanhaque, virando seu rosto levemente.
— Gostaria de poder desenha-lo. – diz ao soltar o rosto de Jhon.
Um sorriso nasce no rosto de Jhon, ao mesmo tempo que os dedos de Andy soltam sua face e se colocam acima do material de desenho.
— Não sei se gostaria de ver um retrato meu. – Aurus da um sorriso a Andy e ambos soltam uma pequena gargalhada – Além do mais não tenho tempo para ficar sentado. Estou saindo da cidade.
As palavras de Jhon pegaram Andy de surpresa.
— Mas já? Está com medo das bruxas? Ou que achem que você é uma bruxa?
— É um longo caminho até Nova York. – Jhon se levanta – bom dia. – ele se despedi e continua pela pequena trilha que leva a uma das saídas da cidade.
Andy o olha seguindo pela estrada e distraidamente pega seu material de desenho e a toalha e caminha de cabeça baixa quase esbarrando em mim. Ao percebe minha presença sua face se altera. A surpresa é evidente em seu olhar.
— Ah... não queria assusta-lo.
— Não me assustou. – ele dá um pequeno sorriso – Só estou surpreso.
— Sim é claro. Um rapaz um tanto corajoso para desenhar no cemitério.
— Não tenho medo dos mortos – sua voz é impetuosa – e muito menos dos vivos.
— Isso porque você não sabe nada sobre a morte. E nem sobre a vida – acaricio seu cabelo enquanto continuo – Eu poderia lhe ensinar. Sobre a vida e a morte – comecei a seduzi-lo – e muitas coisas entre elas. – finalizei com um sorriso dando uma leve mordida em meus lábios.
— Obrigado senhor Sibley – disse incomodado, suas feições ficaram rígidas – Posso apenas aspirar a sua sabedoria – então se virou e seguiu seu caminho.
Eu observei o pequeno Andy caminhar tranquilamente enquanto brincava com um pequeno tufo de cabelo que havia arrancado de sua cabeça sem que percebe-se, então dou um sorriso triunfante enquanto sigo para o centro da cidade, geralmente pela manhã há um mercado que funciona em suas redondezas então todas as donas de casa e os vendedores da região estariam por lá a fim de fazer uma boa venda ou uma boa compra.
Um grito animalesco rompe o habitual som de pessoas que iam e viam em seus afazeres, eu reconheceria a voz dele em qualquer lugar e é claro de quem estava com ele gritando como o todo poderoso. As mulheres gritavam assustadas e os homens davam passagem ao garoto Emment que estava amordaçado com um capacete de ferro com uma guia de correntes enquanto babava como um cão feroz a procura de algo.
— Já que Emment não pode falar o nome das bruxas, ele ira nos mostrar a bruxa – a voz de Jacob estava triunfante, ele estava certo de que encontraria o que desejava.
O jovem rapaz começou a rastejar pelo chão batido a procura da bruxa, todos evitavam ter contato direto com ele, ele gritava com um animal, sua voz estava rouca e chegava a tons agudos de maneira impressionante. Então ele se aproximou de mim e me olhou. Eu conhecia aquele olhar, mas não seria tão fácil assim. Ele se levantou e mostrou todo o porte do seu corpo, estava apenas com as ceroulas em seu corpo, mostrando seus ombros largos e peitoral definido, eu podia contar cada musculo rígido do trabalho duro que ele realizava, é claro antes de eu fazer o que fiz.
Ele iria tentar me acusar, Jacob estava de olho em mim como um urubu em cima de pedaço de carne em estado de putrefação, mas com um simples meneio de cabeça ele obedeceu ao comando, não alterei em nenhum segundo meu semblante sério, enquanto Jacob segui agora Emment que corria em direção a um grupo de pessoas. Ele gritou novamente e olhou para Currey, apontou o dedo para ele enquanto gritava, mas eu queria um espetáculo então o jovem Emment levou o dedo indicador a boca e o mordeu arrancando a ponta do seu dedo, derramando sangue enquanto apontava para o velho. Ele deveria saber que ameaçar uma bruxa seria sua sentença de morte.
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