1. O PECADOR
Salem, 1685
O amontoado de pessoas se aglomerava curiosamente ansiando descobrir o que os infortunados haviam feito para estarem ali em praça pública, presos em uma berlinda. Isaac estava com a cabeça raspada e machucado, provavelmente foi castigado durante toda a noite, já que sua boca escoria saliva espessa e vermelha. Ao seu lado estava o deles um homem gordo, que vestia uma bata vestes roupas negras olhava a multidão seriamente, pegou uma bíblia e os fez beija-la.
— Eu Isaac Vasari olhei para o corpo nu de Abgail Bosch e eu a bejei...
Abgail chorava inconsolável enquanto Isaac tentava dizer aquelas palavras com esforço.
— E... – disse o Sr. Sibley.
George Sibley era um homem de porte grande, possuía convicções religiosas fortes e era ele quem controlava Salem, nosso ilustre governador.
— E... – continuou Isaac.
— Cometeu o pecado da masturbação. – disse Sibley sem permitir que Isaac juntasse forças para falar.
— Cometi o pecado da masturbação... – conseguiu dizer por fim.
— Dezesseis açoitadas fortes.
O carrasco iniciou o castigo, as costas nuas de Isaac sentiram cada fio de couro tocarem sua pele, deixando um rastro de sangue enquanto ele gritava a cada açoite. O som ecoava em toda a praça. Então Sibley começou a discursar.
— Neste maravilhoso dia estamos mostrando a Deus o quão desejamos estar ao seu lado. Porque para estar ao seu lado não podemos permitir esse tipo de abominação que mancha a santidade do matrimonio.
O acoitamento continuava e a cada um deles, o sorriso de satisfação se intensificava em seu rosto. Pobre Isaac. Eu sentia muito por ele esta ali, preso e sendo julgado daquela forma. Se Isaac estava sendo castigado por apenas ter se masturbado o que ele faria comigo se soubesse? Por um segundo a ideia passou pela minha mente e pude sentir uma fração apenas do que seria a minha dor comparada a de Isaac.
Sibley pegou o ferrete quente que estava em cima de uma mesa, dentro de um pequeno fogareiro de metal, em sua ponta havia a letra 'F' que estava vermelha como as brasas de carvão. Então ele testou o ferrete na mesa e em seguida ergueu sobre o ar e vociferou.
— Por esta razão vocês passaram a noite na berlinda e você – disse apontando para Isaac após a ultima açoitada – recebera a marca de seu pecado. – ele empurrou o ferro quente sobre a testa de Isaac que gritou. – Fornicador!
Eu podia ouvir o som da pele sendo queimada, e o cheiro da carne em contato com o metal inundou o local. Virei rapidamente meu rosto enquanto ouvia a dor de Isaac.
— Não julgue para não ser julgado. – disse Jhon ao se aproximar do palanque montado no meio da praça.
— Quem disse isso?
— Jesus. Conhece ele? – desafiou Jhon.
— Jhon Aurus. Meu respeito pela memória de seu pai tem limites. – disse olhando com ódio para Jhon.
— Sorte a minha está saindo dessa cidade hoje. – disse Jhon se virando, mas antes deu uma rápida olhada para mim e sorriu, me fazendo ruborizar.
O dia havia sido longo, para chegar a minha casa costumo atravessar o cemitério que fica no extremo da cidade, o portão baixo de ferro enferrujado anunciava o quão velho era aquele lugar. Meus pés tocavam o chão e causavam estalos com o contato entre as solas dos meus sapatos e as folhas secas, quando sinto meu corpo ser puxado para o lado. Já estava pronto para me defender quando percebo de quem se tratava.
— Jhon! Você não aprendeu nada hoje?
— Claro. – disse ele sorridente ao me ver – Que se eu continuar debaixo das mesmas estrelas que aquele porco eu mesmo vou acabar estripando-o.
— Jhon... – disse repreendendo. – O que você faz qui?
— Não é obvio? Vim te ver.
— E não poderia esperar até amanhã?
— Não... Eu...
Abaixo minha cabeça e compreendo do que se trata.
— Então você já está indo. – disse olhando-o nos olhos.
— Eu prometo que vou voltar Marcos. Essa guerra não irá durar mais que um ano eu prometo. – viro meu rosto – Olhe – ele me mostra uma moeda velha – Isso é tudo o que eu tenho – ele quebra a moeda, a dividindo em duas partes, ele me entrega uma – Eu prometo que vou voltar, por você. E vamos para bem longe daqui.
— Tudo bem. – digo por fim, me sentindo vencido por aquele par de olhos castanhos. Jhon era um homem alto e forte, possuía um barba rala e cabelos lisos que iam ate abaixo de sua orelha.
Suas mãos tocam minha face e logo em seguida sinto sua boca tocar a minha. Ele curva meu corpo e me deita no chão acariciando meu corpo e mais uma vez eu estava me entregando ao pecado e por causa desse pecado eu teria que fazer uma escolha.
O som alto do meu nome me acordou naquela noite, caminhei devagar até a porta onde fui surpreendido por membros do conselho que me puxaram a força da minha casa. A cidade estava silenciosa e meus medos tornando-se realidade enquanto eu seguia para a entrada da casa dos Sibley. A casa se encontrava iluminada, atravessei rapidamente a entrada e a sala e fui levado ao escritório do Sr. Sibley.
Ele estava sentado, seu semblante era sério. Suas mãos estavam postas sob a sua boca, seu olhar me seguia enquanto ele indicava com um meneio de cabeça que eu deveria ser sentado na cadeira a sua frente.
— Nos deixem a sós.
Não houve nenhuma objeção, todos saíram e ficamos um na frente do outro. Ele se encostou em sua poltrona e começou.
— Você sabe o tipo de pecado que cometeu. Não preciso dizer o quão grave ele é.
As lagrimas rolavam pelo meu rosto. Enquanto ele me olhava, ele se levantou e se aproximou de mim, sentando ao meu lado. Suas mãos tocaram meu rosto, meus olhos se arregalaram com tal ato.
— Mas você pode se redimir comigo criança. Deixe-me purificar seu corpo e ninguém saberá dos crimes cometidos por você e Jhon. Quer mantê-lo vivo não quer? – suas mãos acariciavam seu rosto.
O que eu poderia fazer? Eu precisava manter Jhon seguro, mesmo que isso me matasse eu tinha que mantê-lo vivo. Eu o amo e se isto o manterá seguro, não tenho escolha então dei um meneio de cabeça e ele sorriu.
— Bom garoto. – então sua boca tocou a minha, eu me sentia enjoado com aquele velho me tocando daquela forma, seus lábios estavam desesperados pelos meus. – Que boca quente e gostosa – disse satisfeito abaixando as roupas e mostrando o falo que estava enrijecido. – Agora coloque essa sua boca aqui e cuidado com os dentes. – disse ele de maneira seria.
Era por ele que eu estava me sacrificando, essas eram as únicas palavras enquanto eu gemia com minha boca deslizando sobre seu membro, de sua boca saiam palavras obscenas, ate que ele retirou seu membro e me virou de costas.
— Não, por favor... – eu suplicava.
— Não achou que fazendo isso iria se purificar não é criança? Agora é que a gloria do Senhor ira adentrar em seu espirito e perpetuar a luz e destruir todos os seus pecados.
Com um único movimento senti ele me invadir, a dor era alucinante. Eu comecei a gritar então ele enfiou um pedaço de pano na minha boca e gemia enquanto se movimentava com força, então senti algo quente escorrer pelas minhas pernas e pingar atrás de mim, era avermelhado. Minha visão começava a escurecer, minhas pernas perderam as forças e desabei no chão. Eu continuava sentindo e ouvindo ele ali, delirando de tanto prazer, mas em meio a isso minha visão finalmente escureceu.
Quando meus olhos se abriram ele estava em pé. Havia um sorriso em seu rosto, eu estava sem roupa alguma e ele tão pouco vestia. Ele se aproximou de mim, puxou-me fazendo com que meus olhos olhassem o teto da casa. Sua boca mais uma vez tocou a minha e sua língua pedia passagem pela minha boca. Eu não tinha força alguma, nem mesmo para resistir.
— Que bom que acordou criança, creio que não feita a purificação total então acho que vamos demorar a noite toda para que finalmente você possa entrar no reino de Deus.
— Tiuba ajude-o a chegar em casa. – disse Sibley olhando-a – Com cautela. – finalizou saindo do escritório.
— Sim senhor. – disse ela se curvando levemente e adentrando o quarto.
Tituba era uma das serviçais de Sibley, ela era alta comparada a maioria das mulheres daquela cidade, sua pele morena harmonizava com os cabelos cacheados e longos. Seus olhos eram de um castanho escuro beirando o negro. Ela se ajoelhou, meu corpo esta jogado no chão do escritório em um canto atrás da mesa, eu tremia, mas não havia nenhuma lagrima em meus olhos. Apenas um trapo cobria meu falo.
Seus olhos se arregalam ao olhar para a poça de sangue que havia a poucos centímetros de mim, suas mãos foram até sua boca a cobrindo evitando que qualquer ruído saísse. Tituba acariciou meu rosto e sorriu de maneira terna. Suas mãos acariciaram minha face levemente. Os raios de sol começavam a atravessar a espessa camada de vidro.
Com esforço eu me levantei, meu corpo estava dolorido, caminhar seria um problema. A maioria das pessoas teria nojo de estar ao meu lado, mas ela parecia não se importar com o que havia acontecido a mim e para que ela estivesse ali, Sibley confiava fielmente nela. Que segredos seus pensamentos escondiam? Que segredos aquela casa tinha?
Com sua ajuda vesti minhas roupas e pelos fundos da casa fui levado por uma trilha na floresta que circuncidava Salem. Nenhuma palavra foi dita durante todo o percurso. O final da trilha dava nos fundos da minha casa, a olhei surpreso, mas ela apenas sorriu, me ajudou a entrar e deitar na cama, tirou de um dos seis bolsos um pequeno frasco e o colocou sob meu criado mudo.
— Pingue três gostas em um copo com agua, misture bem e beba, você ira se sentir melhor.
— Obrigado. – disse em meio as lagrimas que nasciam em meu rosto.
— Não chore criança.
— Eu... – as palavras me faltavam.
— Tudo bem... – disse ela me acalentando.
Meus olhos se abriram devagar, eu sentia incomodo em minhas nadegas que se estendia até as minhas pernas, olhei para a escrivaninha onde havia um copo cheio pela metade e o vidro aberto. As lembranças da noite anterior inundaram minha mente me fazendo desabar. Eu havia sido usado como uma prostituta, aquele velho maldito havia me usado para se satisfazer em nome da sua religião.
— Que bom que acordou. – disse Tituba ao entrar no eu quarto – Como se sente?
— Melhor, acho que isso – apontei para o copo – me ajudou. – Ela deu um breve sorriso. – O que é isso?
— Uma mistura especial de ervas. Mas agora vamos levantar a comitiva de militantes para a guerra esta saindo da cidade, não quer ver Jhon antes que ele vá para a guerra?
Dei um meneio de cabeça confirmando. Tituba me ajudou a levantar da cama e a me vestir, saímos de casa e seguimos para próximo de um aglomerado de pessoas que aguardava a passagem dos soldados. Jhon estava no final da fila, em um pequeno palanque montado estava o grupo liderado por Sibley que olhava satisfeito a saída de Jhon da cidade.
Jhon encontrou os meus olhos e sorriu, e ao se virar em direção a estrada que guiava para fora da cidade percebi os olhos de Sibley sobre mim com um sorriso no rosto. Virei as costas e com ajuda de Tituba caminhei devagar em direção a minha casa, mas fui interceptado por ele no meio do caminho. Tituba o cumprimentou e ele fez o mesmo, então olhou para mim e disse:
— Vai ser melhor assim, você irá me agradecer por isso um dia. – ele tocou meu rosto e sorriu amavelmente – Minha criança.
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