2. Sentido Figurado


Não tinha talento para tocar instrumentos, e menos ainda para o canto. Pois decidiu ser compositor de músicas, e para isso precisaria dominar as ramagens certas da língua portuguesa. Observando que em testes de vestibulares as questões envolvendo estrofes de canções famosas geralmente tinham a ver com interpretação de texto e figuras de linguagem, optou por se aperfeiçoar na segunda, e todos os seus tópicos. Um por um, sorteados aleatoriamente pelo dedo indicador descendo sem rumo pela página do livro didático, e os olhos fechados com fidelidade máxima ao "seja o que Deus quiser".

Metáfora.

Suspirou de alívio com a sorte de não ser Anacoluto, ressentido por nunca ter entendido nada sobre este (ainda mais nutrindo certo desprezo contra o termo), e embora Elipse facilitasse a construção dos versos, de acordo com o que lera em algum manual de poetas. Muito bem, consistia em fazer uma espécie de comparação indireta com palavras figurativas. Fechou o livro e foi tomar um banho, concentrando-se no objetivo: metaforizar tudo o que visse pela frente.

"O banheiro mergulhado nas sombras"

Isso soaria bem se fosse um ficcionista, e não era. No entanto, quem disse que seria fácil?

"Ascendeu-se a lâmpada e a luz emergiu" não parecia estar dentro do contexto, sem falar que ficava vago, e seria horrível usar o complemento "das sombras", já usado.

O importante era persistir.

E tirar aquelas expressões literárias da cabeça.

"As torrentes deslizam por meu corpo em direção ao ralo", e veio a comparação inevitável surgindo de um dos elementos que mais ronda a cabeça dos seres humanos "como o dinheiro faz com a gente; respinga e às vezes jorra, mas vai sempre parar no ralo".

Achou que estava melhorando, embora tivesse a impressão de que usara a figura errada, porque fora uma comparação direta. Apanhou a toalha e voltou os pensamentos no elemento monetário:

"Passou, a água e o dinheiro se foram, e o que restou ficará para a toalha, que me deixará enxuto e liso!"

Continuando: 

"O dinheiro não é nada pegajoso, nem nossa amiga líquida, mas precisamos de ambos, e eles se vão com tanta facilidade! Se bem que o processo de partida da água é mais lento e menos doloroso quando ela nos serve pro banho: seus restos se impregnam nos felpos da toalha, penduram-se nas pontas de nossos cílios, escondem-se nas profundidades de nosso couro cabeludo".

Obstante a tudo, se manteve decidido. Abriu o armário do banheiro para escovar os dentes. 

"Pressiono o tubo da mente, extraio ideias claras e densas, depois encho minha inspiração de creme dental, que me dará um frescor...?". 

Tentando de novo: 

"A química da água chocando-se contra a pasta me lembra aulas que eu um dia quis escovar da memória, era péssimo na matéria!". 

Isso! 

"Meus colegas de turma eram incisivos e implacáveis, trituradores molares, e quanto a mim, a presa favorita"

Aproveitando: 

"Eu morria de raiva, a doença canina, minha boca se enchia de espuma branca"

Hã?!

Fechou o armário do banheiro satisfeito com os altos e baixos, que representavam progresso. Sorriu para o espelho, reparando com um ar de decepção de que seus próprios incisivos nem eram tão implacáveis, e o resto da arcada dentária amarelava tanto quanto ele, na época da escola. 

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