Conto 7 - Leotauro (Georgeane Braga)


Autora: Georgeane Braga

Geanesb0910

Conto: Leotauro (Fabiana e Guilherme)

Música Tema: I Knew You Were Trouble -Taylor Swift

Classificação: +13

***

Fabiana é leonina. Uma pessoa do povo. Bem...de alguns povos!

Guilherme é taurino. Um pouco reservado. E com um senso de humor incrível hehehe (Fabiana que o diga :))

Diferenças? Umas boas!

Ela vai aproveitar a atenção que o taurino dispensa.

Compatibilidades?

São determinados e teimosos, o que causa boas discussões!

Aproveitem, caríssimos, a história do ship dessa semana.

E aí? Já escolheu o seu preferido?

Beijos cósmicos de Astrogildo GregÓrion *-*

***_________***

_________ SZ _________

"FESTA DOS SIGNOS

Caros cursandos de Publicidade e Propaganda , preparem-se para a festa de encerramento de semestre.

Este ano faremos algo bem diferente e descontraído: um evento zodiacal!

Está solteiro e deseja encontra seu par/ship? Então fiquem atentos ao sorteio que ocorrerá breve, no Bloco 3 Q. Não esqueçam de deixar seu nome e signo na urna correspondente.

Boa sorte e boa festa!

Coordenação de P&P-UFU"


─ Você acabou conseguindo, hein ─ diz Bruna, minha amiga de curso, olhando para o anúncio da festa no quadro de avisos.

─ Não é um tema legal? Todo mundo gosta de signos, mesmo quem não acredita entra na onda. Pensa: serei a responsável por várias carinhas de felicidade pelo campus, ou seja, as pessoas me procurarão para agradecer ─ sorri deslumbrada.

─ Sei... você já pensou nas desvantagens dessa sua ideia? ─ indagou Bruna enquanto caminhávamos no corredor em direção ao Bloco 3Q ─ O problema não é tirar um cara com signo péssimo, o problema é tirar um cara feio ou otário. Com a sorte que eu tenho devo ser contemplada com as duas coisas.

─ Bem, levando em consideração que a festa será apenas para alunos do curso de Publicidade e Propaganda, de todos os períodos, óbviamente, então você está em vantagem, pois, a maioria é... satisfatória ─ rebati. ─ Em geral, eles não são tão otários assim.

─ Aff! Só não te dou um soco na cara porque sou sua amiga. Você fala isso porque não vai colocar seu nome na urna. Por falar nisso, tem certeza de que vai com o Mauro pra festa? C' sabe, ele nunca confirmou compromisso contigo... Ah, e aí está uma vantagem: se você for com ele mesmo, será menos um otário no sorteio.

─ Para de avacalhar meus planos, Bruna! E o Mauro não é otário! ─ briguei ─ Tenho absoluta certeza de que iremos juntos. Estamos ficando, lembra? Agora vai, coloca seu nome e esse seu signo mais ou menos, aí.

─ Não fala assim do meu signo! Sou ariana com muito orgulho! ─ disse Bruna colocando seus dados na urna. ─ E que os astros estejam a meu favor... mas, se isso não der certo Fabiana, acabo com sua raça!

─ Ah pára! Vai por mim amiga, é sua chance de conhecer alguém. Se não for eu para dar uma ajudinha no seu destino e de muitas garotas aqui, vocês não desencalham.

─ Você se acha, né? ─ fez cara de brava.

─ Claro que eu me acho. Sou leonina ─ e pisquei pra ela.

Sou Fabiana Carvalho e gosto de analisar as pessoas. Preferencialmente, segundo meus conhecimentos sobre a astrologia. Adoro isso! Me dá uma sensação de poder, sabe, como se eu pudesse resolver todos os problemas do mundo simplesmente colocando os indivíduos em seus devidos lugares, porém, na minha própria cabeça.

E já digo: a quantidade de pessoas que estão nos lugares errados, não é brincadeira, viu?

Quer exemplos básicos? Um pisciano em atividades que exigem concentração, por exemplo; um ariano liderando equipes, pois tem uma personalidade difícil demais para se relacionar, ou um leonino sendo voluntário em algo que não lhe trará nenhum tipo de reconhecimento.

Enfim, não quero julgar ninguém, mas, é a verdade nua e crua!

Sou uma típica leonina, então meu negócio é causar e aparecer! Quero ser vista e amada por todos! Adoro elogios e, por isso, não tenho pena de investir em roupas, salão de beleza e acessórios para que minhas entradas triunfais, aonde quer que eu vá, venham surtir cada vez mais e mais efeitos.

Resumindo: gosto que homens briguem por mim e sambo na cara das inimigas!

Mas, apesar disso, procuro o homem da minha vida, e tenho certeza de que ele se chama Mauro, tem 22 anos, é sagitariano (meu paraíso astral) lindo, fantástico e temos várias coisas em comum.

Ele me custou dias de pesquisa profunda no horóscopo depois que nos aproximamos e, analisando seu mapa astral, descobri que ele realmente era o número do meu sapato. O problema é que muitas achavam isso, e Mauro, como todo sagitariano, ficava na dele, não demonstrando querer compromisso. Afinal, sagitarianos são livres. Mas eu sabia que mais cedo ou mais tarde, nós iríamos sair do estágio "ficar" para "namorar", e isso estava a um fio de acontecer; eu pressentia. Mauro sempre olhou pra mim com bastante interesse e já estávamos juntos há dois meses.

Tenho uma política comigo. Uma listinha dos signos que não devo me aproximar: Aquário, Gêmeos, Touro, Áries e Capricórnio. Uns são frios demais, outros estúpidos demais; e ainda outros, com ego elevado demais pro meu gosto; não seria bom para o meu brilho leonino ou arriscar numa relação maçante.

Quando dei a ideia para a professora de Psicologia ─ que seria a organizadora da festa de encerramento ─ sobre fazer uma festa sobre signos, ela imediatamente concordou. Atília adora esse tipo de coisa. E eu iria ser reconhecida pela festa mais legal de toda a história da UFU e de quebra, os astros ─ e eu ─ poderíamos unir muitos casais.

Entrei no meu bloco, e como esperado, atraio vários olhares para mim. Alguns desejosos, outros invejosos. Dou um sorrisinho interno pelas reações detectadas e entro na minha sala. Olho direto para onde ele se senta e o vejo olhando para alguma revista, com um sorrisinho afetado.

Chego bem próxima e ele levanta os olhos para mim. Me analisa de cima a baixo e eu sorrio para ele. Aquela boca linda com dentes perfeitos, sorrindo pra mim também. Quase morro ali mesmo.

─ Oi. Tá cada dia mais linda e gostosa.

─ Obrigada. ─ digo, já sentada, colocando o cabelo para trás da orelha. ─ O que você 'tá vendo aí?

─ Uma revista que a Lívia me emprestou. É sobre signos e têm umas histórias super engraçadas. Lembrei de você ─ falou enquanto me passava a revista.

─ Shipper's Zodiac... engraçado, não conheço essa, mas parece interessante. Posso ver depois?

─ Claro. Só não esquece de me devolver porque a Liv a quer de volta ainda hoje. Com essa história de festa de signos, 'tá todo mundo pesquisando os pares ideais ─ riu. ─ A culpa é sua.

Liv? O que essa zinha 'tava querendo com meu namorado? Olhei para o rumo da "penosa", que estava conversando com outras iguais a ela, e me imaginei amassando a revista e fazendo-a engolir inteira! Nem era bonita. Era uma geminana de cabelos pranchados e que se achava a inteligente. Minha querida, me observe e copie!

O professor chegou berrando, e com ele, mais um bando de garotos que não passavam por mim sem olhar, descaradamente, para as minhas pernas. Só que tinha um que sempre me intrigava: o Guilherme. Sem sal de tudo. Eu nunca conversei com ele, a não ser poucas palavras durante um grupo de estudo, certa vez. O fato era que ele nunca olhou pra mim com interesse, e por mais que ele não fosse meu tipo, eu ficava me perguntando se não era gay. Segundo a Bruna, não era, pois havia namorado uma menina da História. Então porque ele não olhava pra mim? Imbecil!

Deixei a revista de lado e tentei me concentrar na aula.

Na hora do intervalo, sempre ia com a Bruna na lanchonete. Convidei o Mauro:

─ Amor, vou lanchar com a Bruna, vamos também pra gente conversar um pouquinho ─ disse estendendo a mão pra ele.

─ Então... vou encontrar uma galera ali... mas eu te levo em casa hoje, tá? Pra gente curtir um pouco ─ piscou para mim e me deu um selinho.

Achei estranho. Mas como sei que ele não gostava que eu ficasse no pé, não questionei.

─ Ok. Daqui a pouco eu volto então...

─ Que cara é essa, amiga? ─ perguntou Bruna.

─ Sei lá... 'to achando o Mauro meio esquisito esses dias. Deixa pra lá. Vamos falar sobre a festa.

Sentamos. Bruna vê o amigo esquisito dela e o chama:

─ Gui, vem pra cá ─ acenou com a mão.

─ Por que você 'tá chamando ele? ─ sussurrei.

─ Porque ele é meu amigo!? ─ falou como se fosse óbvio.

O carinha chegou, nem me olhou e se sentou. Sempre com um livro na mão e fone de ouvidos. Típico de pessoas que se isolam porque não são interessantes para ninguém, então eles usam esses artifícios para mostrarem que não se preocupam com o julgamento e rejeição dos outros.

─ Come aê, Gui. ─ disse Bruna entregando o pacote de batatas para ele.

─ Opa! Comida é comigo mesmo.

─ Já colocou seu nome na urna? ─ minha amiga quis saber.

─ Coloquei meio a contragosto. Acho isso uma besteira. Mas como é obrigatório e posso perder pontos de participação....

Como assim besteira? Garoto ridículo!

Resolvi interferir.

─ Você sabia que a ideia da festa foi minha?

─ Sabia. ─ respondeu colocando mais batatas na boca. ─ Por isso eu disse que é uma besteira.

Fiquei indignada. Aquela que se dizia minha amiga estava rindo da minha cara.

─ E vocês? Colocaram? ─ ele perguntou de volta.

─ Eu já. Mas a Fabiana não precisa. Vai com o Mauro ─ respondeu Bruna.

Ele deu uma risadinha quase sutil, porém, sarcástica, mas que não passou despercebida por mim.

─ Posso saber por que riu?

Ele me olhou, agora com ironia e disse:

─ Nada demais. Mas já que é a idealizadora desse evento, é melhor evitar contratempos, né? Vai que o cara te deixa na mão na última hora. Me dá um pouco desse refri aí, Bruna.

Ele não disse isso! Quem ele pensava que era?

─ Olha aqui, eu irei com o Mauro sim, tá? Aliás, se não fosse ele, eu poderia escolher quem eu quisesse. Não preciso colocar meu nome naquela urna!

─ Ah entendi... só os meros mortais. E o que te faz pensar que é tão especial assim? Já ouviu falar de arrogância, futilidade e superficialidade? Então, isso é você. Seu signo não te contou isso não? ─ e riu de novo com aquele ar de deboche. ─ Eu espero sinceramente que você tenha uma surpresa e caia desse seu pedestal, princesa! ─ deu ênfase no "princesa". ─ Vou pra sala, Bruna. Obrigada pelo lanche. Quando tiver mais é só me chamar.

E se foi.

Olhei diretamente para Bruna que fez uma cara tipo: "o que eu posso fazer?" fiquei furiosa.

─ Ele é um idiota!

─ Ele não é assim, mas não gosta muito de você, Fabi.

─ Eu não me lembro de ter feito nada a ele. Ah, já sei... é porque eu não dou moral pra ele, né? Vai esperando sentado, otário!

─ Amiga, ele... não gosta de você de verdade. Tudo aquilo que ele te disse é o que realmente pensa. Por isso que nunca te olhou. Ou seja, nem todos os homens se interessam apenas por beleza.

─ Pra mim isso é recalque. Quem desdenha quer comprar e ele sabe que eu nunca olharia para ele, mesmo que fosse meu paraíso astral. Aposto que é aquariano por se achar o diferentão!

─ Ele é taurino. E olha, tem muitos atributos, viu? Inteligente, leal, engraçado...

─ Comilão, desajeitado... viu ele comendo? Parecia que não via comida há meses. E aquele cabelo?

─ Você precisa conhecê-lo melhor. Ele é super legal.

─ Percebi.

─ Vamos, estamos atrasadas.

Voltamos para a sala, mas eu continuava chateada com o que o idiota havia me falado. Não estava sendo fácil engolir. Olhei disfarçadamente para ele e estava todo torto na cadeira, com o lápis na boca tentando resolver alguma coisa no caderno e... cadê o Mauro? Ok, ainda faltava algumas pessoas na sala. Era melhor não deixar minha raiva prevalecer. Voltei para os meus exercícios.

Passado alguns minutos, Mauro entra na sala. Logo atrás, entra Lívia toda desconfiada. Tentei não pensar. Era coincidência. Certeza! Ele não me trocaria por aquela sonsa.

No final da aula, despedi de Bruna e esperei por Mauro. Seguimos para o carro dele. Quando me levava em casa, sempre dávamos uns amassos antes de descer. No caminho senti que ele estava meio aéreo e, quando parou em frente a minha casa, eu questionei:

─ Mauro, 'to te achando meio estranho esses dias. Quer me contar o que está acontecendo? ─ pedi com calma.

Ele suspirou com a mão ainda no volante. Isso não era bom sinal. Não. Não faz isso comigo!

─ Olha Fabi, acho que 'tá na hora da gente dar um tempo. Você é uma garota linda, sabe, mas... não 'tá mais rolando. Desculpa.

Eu estava chocada demais para falar alguma coisa. Ele não podia fazer isso! A gente combinava em tudo! O casal perfeito: bonitos, populares, tínhamos até fã clube. Ele não podia jogar isso por água abaixo. E a festa? O que as pessoas iam dizer?

─ Peraí. ─ eu disse tentando ficar calma e conter as lágrimas ─ O que você está dizendo? E todas as coisas que você me disse sobre eu ser a garota da sua vida? A gente dá tão certo, eu não acredito que está terminando tudo comigo.

─ Terminando o que, Fabi? A gente não 'tava namorando. Se liga garota! A vida segue, a fila anda, ok?

─ Você está com aquela vaca da Lívia, não 'tá?

Ele me olhou e deu um sorrisinho. Eu odiava quando as pessoas riam pra mim desse jeito.

─ Olha, linda ─ e segurou meu queixo ─, não tenho que te dar satisfação da minha vida. Foi legal esse tempo contigo, mas não rolou. Você vai superar. Agora preciso ir, fica bem, ok?

Desci do carro em lágrimas. A humilhação era grande demais. Ele mal esperou eu bater a porta do carro e se foi. Fiquei ali o olhando ir embora e pensando. Nunca um cara havia me dado um fora. Principalmente meu par perfeito, o homem da minha vida, meu paraíso astral, meu futuro marido. A gente ia ter filhos lindos! Como ele pôde fazer isso? Eu não conseguia aceitar.

Chorei muito. Pensei em ligar para a Bruna, mas não tive coragem. Na verdade, eu não queria dar o braço a torcer quando ela dissesse: "Eu te avisei..." e nem dar o gostinho de ela ligar para o amigo e contar-lhe que eu acabava de desabar do meu pedestal, com direito a quebrar meus dois saltos Walter Steiger.

Minha pior preocupação no momento era como enfrentar aquela faculdade, com todos aqueles olhares de interrogação, desdém, pena e tudo o mais. O Mauro certamente estaria andando para cima e para baixo com a vadia e eu teria que colocar meu nome na urna dos desesperados. Jamais! Isso eu não faria nunca!

Provavelmente eu iria receber convites e mais convites dos meus fãs assim que soubessem da minha "disponibilidade". Mas ainda assim, era humilhante.

Acordei com olheiras imensas. Se não sumissem até à noite eu teria que caprichar na maquiagem.

Decidi o seguinte. Não poderia deixar todo mundo rir de mim. Montei um look arrasador para aquela noite. Marquei salão para dar um trato nos meus cabelos negros e cacheados, e compus meu visual com um belíssimo vestido curto e preto, e claro, saltos. Por dentro eu estava acabada, confesso, mas meu sangue leonino não me deixava rebaixar.

Cheguei ao Campus e causei o impacto que eu imaginava. Passei com meu nariz empinado, andando como se estivesse na passarela, e juro, não tinha quem não olhasse. Alguns caras levaram tapas na orelha dados pelas namoradas. Outros assobiavam, davam cantadas ridículas e ultrapassadas, mas estava valendo!

Ao entrar na sala, o professor abriu a boca, chocado, mas em seguida se recompôs. Não era ético, mas era homem. O Mauro me comia com os olhos. Imbecil. A fila anda, não foi você quem disse? Automaticamente, olhei para o fundo da sala, pra saber se o Guilherme também tinha sido impactado pelo meu visual, mas o cara estava fazendo anotações no caderno?!

Era gay. Só podia. Mesmo que ele não fosse com a minha cara, não podia negar que eu estava parando o trânsito. Olha para a cara desses babacas da sala?

─ Okay, meninos! Voltando para aula. ─ falou o professor estalando os dedos ─ Prestem atenção nessa correção.

Sentei e ouvi o cara de pau do meu ex, atrás de mim, sussurrando:

─ Você tá gostosa demais, Fabi.

Dei um sorrisinho interno. Quem sabe ele não voltaria atrás sobre o que me falou ontem?

O professor pediu para formarmos duplas, e vi a recalcada da Lívia, praticamente pular no colo do Mauro. Droga! Eu queria ficar com ele, mas a louca não me deu tempo.

A Bruna me chamou para juntarmos, e chamou também o estranho.

─ Mas é dupla e não trio ─ reclamei.

─ Deixa de ser chata. Vem logo!

Mal sentei e o tal de Guilherme já me veio com essa:

─ Não vai sentar com seu namoradinho?

─ Isso é da sua conta?

─ Na verdade não. E nem da SUA, né? ─ Me provocou.

─ O quê? Ele te trocou por ela? ─ indagou minha amiga apontando a caneta para o novo casalzinho.

Olhar para eles doeu no meu ego e minha expressão denunciou a resposta.

─ Não acredito. ─ Bruna falou.

─ Eu não quero falar sobre isso, ok? Vamos ao trabalho.

─ Vocês superestimam demais esses caras. Por isso que se ferram! E aí, o tombo foi grande? Você sabe... quando você caiu do pedestal ─ falou o inconveniente que estava me tirando do sério.

─ Você está adorando isso, né? Mas saiba de uma coisa querido, eu sou muito disputada. E você? Quantas mulheres iriam te querer? Se enxerga! ─ eu cuspia minha raiva, mas ele parecia inatingível.

─ Bom. Eu sou paciente, sabe, e muito seletivo. Não sou bonito, mas, tenho qualidades que só as mulheres inteligentes percebem, ou seja, não sou para você. Outra coisa: eu não ia te querer nem se você fosse a última bolacha do pacote depois de 24 horas de jejum. E olha que eu brigo MUITO pela última bolacha do pacote. Mas pra você eu abriria uma exceção.

Esse cara me deixava louca! Ele aflorava o pior de mim.

"Controle-se Fabiana! Ele não vale a pena!" Pensei comigo mesma.

Começamos o trabalho e, por mais que eu não quisesse, passei a observá-lo. Inteligente, despreocupado, chato. Contudo, as pessoas pareciam gostar dele. Eu não tinha muito contato com a turma do fundo, a Bruna tinha mais, e até que o pessoal era... mais ou menos.

Os dias passaram e a festa aconteceria em três dias. Aguentei muita risadinha das invejosas por conta do meu fora e a Lívia fazia questão de mostrar a todos que estava com o Mauro.

O bom de tudo é que eu não estava tão preocupada quanto a quem me acompanharia no evento, e dentre todos os meus pretendentes, excluí os geminianos, os capricornianos, e claro, os aquarianos. Dos que restaram, escolhi um escorpiano bem gato, pra nenhuma inimiga botar defeito.

─ Bruna, preciso comprar um sapato novo. Vamos comigo? ─ perguntei ao telefone.

Outro? Olha amiga, o Gui e eu vamos comer sushi; se quiser aproveitar, encontre com a gente, às 14h no Shopping, no O Shekinah, ok? ─ Bruna me informou.

Senti uma ponta de ciúmes. Minha amiga era bem diferente de mim. Uma ariana briguenta, mas despretensiosa no que fazia. Não se importava com o julgamento das pessoas e, o que parecia é que agora preferia ficar com o tal Gui mais do que comigo.

─ Ok. Eu passo por aí. Tchau.

Deitei na cama e comecei a pensar. E se os dois tivessem se apaixonando um pelo outro? O cara, apesar de careta, parecia uma boa pessoa. Me irritava, é claro, mas eu não podia negar que ele era bem... satisfatório. Guilherme era do tipo brincalhão, abraçava a Bruna e os dois riam juntos. Gostavam de ler e comentar sobre os livros, enquanto eu boiava. Ele me ignorava por completo. Aquilo me incomodava, e eu não sabia o porquê.

Comecei a compará-lo aos caras que eu conhecia. Ok, o Mauro foi um canalha. Percebi isso quando ele deu um fora na Lívia pra ficar com a amiga dela, a Vanessa ─ Putz, durou bem menos do que eu! ─ Confesso que comemorei e fiquei à espera de ele vir falar comigo, dizendo estar arrependido; e quando o vi caminhando e sorrindo em minha direção, achei que eu ia desmaiar. Abri o maior sorriso do mundo, minhas mãos gelaram, meu coração batia mais forte que os tambores do Olodum, e então, passou direto por mim para abraçar outra iludida.

Me senti naquelas cenas de filmes High School.

Mauro 3 X 0 A palhaça aqui.

Olhei para o lado e quem estava encostado na parede, de braços cruzados e, dessa vez, rindo para mim, ou melhor dizendo, de mim? Guilherme.

Eu até esqueci do meu mico. Minha raiva subiu de nível; ele me deixava nervosa. Fui voando na direção dele para tirar satisfações e saber por que se divertia tanto com minhas desgraças, quando uma menina chegou, deu um beijo no rosto dele e saíram juntos.

Mais uma vez fiquei com cara de Narcisa Tamborindeguy.

A verdade é que Guilherme me fazia enxergar coisas em mim que eu começava a questionar. Eu era fútil? Sem perspectivas? Os homens só queriam brincar comigo?

Vesti uma calça jeans básica e uma blusinha. Sandálias baixas. Amarrei o cabelo em rabo de cavalo e fui para o shopping.

Eu não estava num dia bom. Caminhei devagar e fui encontrá-los no O Shekinah, como combinado. Somente o Gui estava lá quando cheguei.

─ Oi.

─ Oi. ─ respondeu com descaso.

─ Cadê a Bruna?

─ Ainda não chegou.

─ Posso esperar com você ou minha companhia te incomoda demais?

Ele olhou pra mim. Não deu o sorrisinho de sempre. Parecia nervoso.

─ Sua presença me é indiferente. Senta aê ─ fez sinal com a mão.

─ Escuta, Guilherme... por que você não gosta de mim? Tem que haver um motivo para me tratar tão mal.

─ Você sabe o motivo, querida. Não gosto de mulheres do seu tipo, cujo foco na vida é tirar selfies o tempo todo, postar nas redes e conquistar seguidores. Já ouviu falar da música "Lôra Burra" do Gabriel, o Pensador? Ou já assistiu o episódio "Queda Livre" de Black Mirror? Deveria, pois fala muito sobre você.

─ Acha realmente que eu sou assim? Eu tenho sentimentos, tenho meus sonhos, ok? Não sou tão inútil quanto pensa!

Ele deu aquele risinho.

─ Inútil. Ótima classificação. Sabe o que significa? Vou te explicar: significa que depois que se usa, fica sem serventia, então se descarta.

Ele me olhava nos olhos, e eu senti uma coisa ruim no peito. Não queria demonstrar isso a ele. Levantei o queixo e uma sobrancelha, com ar superior. Mas ele continuou:

─ Sabe de uma coisa, Fabiana. Quando essa beleza toda acabar, não sobrará mais nada de interessante em você, já que não tem conteúdo. Aí, será tarde demais para refletir sobre qualquer coisa. Provavelmente cairá numa depressão, terá sido de vários homens, mas nenhum terá sido seu. Ou seja, acabará usada, feia e velha. ─ chegou mais perto ─ Totalmente descartada ─ completou.

Peguei minha bolsa e saí dali chorando.

Ele era cruel comigo. Muito cruel.

Dia da festa.

Rodrigo, o escorpiano bonitinho, me pegou em casa. A decoração estava linda e o pessoal divertia-se bastante. Eu estava orgulhosa de mim mesma. Dançamos e começamos a beber. A Bruna havia tirado um capricorniano no sorteio, mas até que eles estavam se entendendo bem.

Olhei ao redor procurando por Guilherme. Sabia que ele estaria com uma pisciana. Então eu o encontrei. Estava tão... diferente, bem arrumado, até parecia gente. Conversava animadamente com a menina, que era bem bonita por sinal, e não parecia entediado como achei que estaria. Continuei olhando os dois e desejei por um segundo, que ele conversasse comigo daquele jeito.

Olhou para mim e eu disfarcei.

Senti uma puxada pelo braço. Era o Rodrigo. Não tava muito a fim de ficar com ele, mas eu tinha que mostrar a todos, principalmente ao Gui, que eu estava me divertindo. Dançamos um pouco mais e depois ficamos juntinhos com ele me abraçando por trás. Meus olhos teimavam em seguir Guilherme.

─ Vem aqui comigo, gata ─ me chamou Rodrigo, levando-me para outro lugar.

─ Olha Rodrigo, não 'tô a fim de dançar mais não, tá?

─ Quem falou em dançar gostosa... vem cá, vamos dar uns amassos.

─ Melhor não ─ disse eu, me desvencilhando dele.

─ Ah, para com isso, gata. Pode parar de fazer doce que eu não sou diabético.

Aff! Eu mereço.

Ele saiu me arrastando em direção a um dos banheiros. Estava apertando meu braço com muita força e eu não conseguia me soltar.

─ Para, Rodrigo! Isso não tem graça!

─ Que isso, Fabi... vamos brincar um pouquinho. Você não sabe o quanto eu esperei pra te pegar. ─ E foi logo me agarrando a força.

─ Não. Para com isso agora, Rodrigo!

A música estava alta e não chegava ninguém por ali. Comecei a me desesperar.

─ Me solta agora, senão vou te denunciar pra polícia.

─ Solta ela agora! ─ Era a voz do Guilherme.

O cara me largou e olhou para ele. Eu saí correndo para perto do Guilherme.

─ Aí carinha, vamos divertir com ela ─ falou o bêbado. ─ Ninguém vai ficar sabendo, tenho certeza de que ela vai gostar ─ e riu.

O Guilherme andou até ele e deu um soco na cara dele e outro no estômago.

─ Ótima proposta, otário. Mas eu não gosto de mulheres desse tipo.

Olhou sério para mim e saiu dali.

Eu estava tão chocada com toda a situação que passei pelo meio da festa e saí do salão. Lágrimas teimosas corriam pela minha face. Por que eu me preocupava tanto com o que ele fazia e pensava de mim? Quer dizer... eu tinha essa preocupação com todos, mas as palavras dele me feriam e doíam muito. Todas às vezes que ele olhava para mim, eu via raiva, e todas às vezes que ele falava comigo ou sobre mim, eram palavras para me ofender.

Sentei num banco qualquer do Campus.

"Não chore por ele, Fabiana. Ele não merece." Pensava eu.

Alguém se aproximou de mim. Era ele. Com as mãos no bolso, permaneceu em pé e calado.

─ Por que você está aqui? Não preciso de companhia.

─ De nada.

─ De nada o quê?

─ Por ter te salvado do seu novo namoradinho.

─ Ele não é meu namorado! E eu ia conseguir fugir dele.

Ele não disse nada.

─ Por que você foi atrás de mim? ─ perguntei mais calma, depois de um tempo.

─ Porque eu o vi te arrastando contra a sua vontade.

─ Você não tinha que fazer isso. Nem gosta de mim.

─ Realmente. Devia tê-la deixado lá com ele.

─ SEU IDIOTA! EU ODEIO VOCÊ! VOCÊ É UM NADA, SABIA? SAI DA MINHA FRENTE! EU TE ODEIO! ODEIO! ─ eu gritei, chorando e ele se assustou com minha reação.

Chorei mais ainda, tapando meu rosto. Ele sentou perto de mim.

─ Eu não... ─ ele começou.

─ Tudo o que você sabe é me desprezar. Falar coisas horríveis sobre mim. Você acha que não dói tudo o que me fala? ─ soltei.

─ E por que você se importa tanto com as coisas que eu digo? Não deveria. Você mesma acabou de dizer que eu sou um nada, então não faz diferença.

Respirei fundo e disse:

─ Sabe porque eu fico com tantos caras? Porque ainda procuro o homem da minha vida. Parece idiotice, mas eu desejo encontrar um homem que me valorize mesmo eu sendo tão superficial e pouco inteligente como acha que eu sou. Eu analiso, me aproximo, faço até o mapa astral, e quando tudo parece perfeito, tudo desmorona.

─ Às vezes, temos que parar de tentar ajudar o destino e deixar as coisas simplesmente rolarem, entende? E se o homem da sua vida for alguém que você nunca analisou ou fez pesquisas inteiras? O seu problema, Fabiana, é achar que aparência e status é tudo, quando isso são detalhes indiferentes. Quantos caras precisarão te desrespeitar ou te fazer sofrer para você entender isso?

─ E se o cara certo demorar a chegar? E se eu não perceber quem é ele? E...

─ E se ele for o menos provável de todos? ─ Gui me interrompeu.

Olhei para ele e ele para mim.

─ Você me despreza. ─ Eu disse.

─ Você nunca me deu escolha.

─ Então...

─ Eu não queria te dar o gostinho de desdenhar de mim. Por isso, virei o feitiço contra o feiticeiro ─ sorriu, olhando para mim. ─ Mas, mesmo que agora saiba disso e se eu tivesse uma chance com você, eu não ia querer.

─ Por quê? ─ indaguei triste.

─ Por que minhas opiniões sobre você ainda permanecem.

Mais lágrimas rolaram na minha face. Ele não se manifestou.

─ Você tem técnicas duras para lidar com os sentimentos.

─ É uma blindagem contra mulheres como você.

Mulheres como eu...

─ Você acha que as pessoas nunca mudam? Mesmo que seja para conquistar outra? ─ perguntei com a voz embargada.

─ Valeria a pena? ─ ainda me olhava nos olhos.

─ Se ele prometesse confiar em mim, me ajudar, e me amar como eu mereço.

─ E você o amaria sem preconceitos? Mesmo que sua "reputação" fosse manchada? Aliás, ele pode ser um nada; sem muita coisa para contribuir com seu status.

─ Ele poderia ser sincero e verdadeiro comigo. Eu estou cansada de mentiras.

─ Então pode ser que ele acredite nela um dia, apesar de que as pessoas não mudam de fato, apenas melhoram. Será que ela estaria disposta a tentar?

─ O que eu sei é que ela não muda por ninguém, afinal, é leonina. ─ sorri fraco ─ Mas ela pode melhorar por quem a merecer, mesmo que seja um taurino.

E rimos juntos.

Ele se sentou no banco e eu cheguei mais perto dele e dei-lhe um beijo. Deitei a cabeça no seu ombro. Ele envolveu os seus braços ao redor de mim.

Esquecemos da festa dos signos.

Esta noite eu só queria que os astros fizessem seu trabalho, sozinhos. E que fosse um ótimo trabalho.


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