Conto 4 - Virgicórnio (Hanna Martins)
Autora: Hanna Martins
Conto: Virgicórnio (Lyra e Ren)
Música Tema: Run to you- Lasse Lindh
Classificação: Livre
***
Caros, caríssimos shippianos!
Confesso que o titio Astrogildo não sabe o que dizer dessa união que trazemos hoje... tsc, tsc, tsc...
Virgicórnio? Isso é lá ship que se apresente? 'Tão querendo morrer? Que casal em plena razão iria se arriscar com uma mistura dessas???
Mas levando em consideração que o amor não é razão, e sim, emoção, os astros podem estar certos ou não...
E esperemos que eles estejam, não é?
*-*Beijos Cósmicos a todos! *-*
*_____________*
"É uma verdade universalmente reconhecida que os capricornianos são mestres em obter aquilo que desejam", palavras de minha amiga Jane. Ela ultimamente está com a mania de ser entendida nos signos nas horas vagas. Mas, aquele capricorniano ali, que lê tranquilamente, enquanto uma dúzia de garotas que estão por perto despejam um litro de baba no chão — correndo grandes riscos de causar graves acidentes —, não vai conseguir seu objetivo. Palavras de Lyra Miller. Uma virginiana que sempre faz as coisas da melhor maneira possível. Definitivamente, estou passando tempo demais com Jane.
Ren Sullivan, como posso explicar Ren Sullivan? Ele é simplesmente um dos atores mais disputados entre os diretores, amado pelos fãs, celebrado pela crítica. Nenhum escândalo em sua sólida carreira. Nadinha. Nem mesmo uma foto com o cabelo estranho em um dia ruim. Aqueles cabelos negros perfeitos parecem nunca sofrerem dos males que acometem os meros mortais. A perfeição personificada, alguns ousam o descrever. Ele tem toda aquela aura que transmite serenidade, elegância e inteligência com um certo toque de mistério. Ren Sullivan, o meu co-protagonista. Ren Sullivan, a pessoa que mais se opôs a minha presença neste filme.
Ele levanta os olhos do livro e me olha. Desvio os olhos rapidamente. Não havia percebido que fiquei tanto tempo o analisando. Veja bem, se eu quero ganhar esta batalha, tenho que conhecer muito bem o meu oponente. Tudo pode se ganhar com muito planejamento e esforço. Estou até trabalhando em uma estratégia, que consiste em 101 passos, para vencer Ren Sullivan.
Ren voltou-se novamente ao seu livro. Ele tem uma bela figura, preciso admitir. Belo porte, alto, olhos incríveis... que acabam de me capturar em flagrante novamente, droga. Assim não dá para fazer minha pesquisa de campo corretamente. Ele está fazendo graves interferências nos estudos renianos.
Ren pega seu café e caminha lentamente até a minha mesa.
— Algum problema, Lyra?
— Problema? — sim, vários.
— Você estava me olhando... pensei que estava com algum problema.
— Nada — contesto, tomando um grande gole de café.
— Certo... — me lança um dos famosos olhares Ren Sullivan. — De qualquer forma, não se atrase para as gravações...— fala sugestivamente.
Atrasar? Eu? Com certeza a palavra atraso não está em meu dicionário.
— Eu não irei — asseguro com muita ênfase.
— Ótimo. E cuidado para não se perder pelas ruas de Amsterdã.
Sorrio, evitando fazer qualquer comentário.
Ren sai do restaurante com passos elegantes e juro que posso ouvir um grande suspiro coletivo quando ele faz isso. Meu caro Ren, você realmente gostaria de provocar alguns problemas cardíacos em jovens inocentes? Você precisa tomar a responsabilidade, se for causar acidentes a jovens desavisadas.
O que faço com Ren? Analiso a questão sobre todas as óticas possíveis, porém, não encontro uma resposta satisfatória. Ren nunca me quis neste filme. A razão para isso... digamos que minha imagem nos últimos tempos não é das melhores, com certeza, o perfeito Ren Sullivan não gostaria de associar sua imagem impecável com certas coisas.
Na verdade, também não me apetece estar aqui. No entanto, devido a certas circunstâncias, minha agência decidiu que eu deveria me dedicar um pouco a atuação e deixar a música de lado, por um tempo. Tentar mudar a imagem, "ser uma garota mais... bem, mais... você sabe", palavras do diretor da minha agência. E qual a maneira mais fácil, segundo a mente ardilosa do diretor de minha agência? Um filme daqueles sérios não "esses filmes para a bilheteria. Não, um filme digno de Cannes que todo aquele pessoal cult aprecia", palavras dele. E cá estou eu com Ren querendo me atirar pela janela ou em algum canal mais próximo (há muitos por aqui), toda vez que seus belos olhos têm um vislumbre de minha pessoa.
Quando chego ao local de gravações, Ren está gravando uma cena. A primeira cena que vou gravar é com ele. Sorte para mim. Pego o script e começo a repassar as falas.
— Quem eu sou? — leio minha fala. — Você me pergunta quem eu sou? Bem... Há várias... respostas...
Repito a fala diversas vezes até encontrar um tom que me agrade. Jane diz que eu sou uma perfeccionista ao extremo. Prefiro que me chame de uma pessoa exigente. Não há nada de errado em querer dar o melhor de si. E já que estou aqui, por que iria fazer um trabalho ruim?
— Quem eu sou? — repito a fala. — Talvez, eu deva falar mais suavemente aqui — faço uma marcação no script. — Quem eu sou? — recito novamente a fala. — Bem melhor! Mas, talvez se eu...
— Você poderia elevar o tom um pouquinho mais... — a voz de Ren me surpreende.
Não havia notado que estava recitando minhas falas bem diante dele. Quando me concentro em algo, às vezes, perco a noção das coisas ao meu redor.
— Certo, elevar o tom... — faço uma anotação no script.
Noto os olhos de Ren recaírem em meu script repleto de anotações e marcações coloridas. O genial Ren Sullivan não deve precisar de anotações em seu script. No entanto, acontece que sou alguém iniciante no campo de atuação. Já fiz alguns filmes, é verdade, porém, nada muito grande. Preciso ainda de muita prática para me permitir não ter qualquer anotação no script.
Ele me lança mais um olhar (um daqueles indecifráveis) e sai de perto de mim. O que há com ele?
— Todos prontos? — pergunta nossa diretora, Lizzie.
Ela passa para nós as instruções da cena.
— Todos em seus lugares! — instrui a diretora.
Me posiciono em frente a Ren. Ele não tem nenhuma fala nesta cena.
— Ação!
Dou um passo em direção a ele e recito minha fala.
— Corta.
— Posso fazer novamente? A última fala não ficou bem.
A diretora concorda e lá vou eu, refazer a cena. Embora seja uma cena pequena, não quero que fique ruim.
Amsterdã com toda a certeza é alguém um tanto indeciso. Uma hora chove, já em outra, faz sol. Convenhamos que o humor de Amsterdã não é dos melhores. Uma fina chuva se faz presente, impedindo que a filmagem prossiga. Nossa diretora decide fazer uma pausa nas gravações.
Fico repassando as falas em meu canto. Uma ótima ideia. Mas, para Ren Sullivan aparentemente esta não é uma boa ideia. Noto seu olhar sobre mim. Ele realmente está levando para outro nível sua antipatia por minha pessoa. Preciso trabalhar em meus 101 passos para derrotar Ren Sullivan urgentemente. O passo 43 ainda precisa de alguns ajustes.
Ele fica lá me olhando, uma mão em um grande copo de café, a outra, no bolso do casaco (um casaco que lhe cai muito bem), o pé direito apoiado na parede, em uma pose de modelo. Por acaso ele acredita que estamos em meio a uma sessão fotográfica para alguma revista? Pego o celular e finjo que estou muito entretida. Isso afasta a atenção de Ren de mim? Não. Ótimo, estou contribuindo para tornar as horas de tédio de certo ator menos tediosas. Sou uma pessoa muito útil, não é?
Ren sorri. Um sorriso presunçoso. Olho para meu celular... de ponta cabeça. Ajeito o celular e saio do campo de visão de Ren. O que há de errado comigo?
A chuva dá uma trégua e nos prosseguimos com as gravações. Ren como um ótimo profissional faz todas as cenas sem o menor problema.
Já é tarde da noite, quando voltamos para o hotel. Jane me liga.
— Lyra, como foi o seu dia?
— Bem...
— Claro. Você organizou sua roupa por tecido ou por cor?
— Por tamanho... — silêncio do outro lado da linha. — Jane! Não há nada de errado com organização. Nada.
— Sei.
— Jane!
— O que foi? Não disse nada... Mas, me conta como estão as coisas com o Ren?
— Aquele lá me adora! Vive cuidando de mim. Cada passo que dou, ele supervisiona. Definitivamente, sou o amor da vida de Ren Sullivan. As fãs vão enlouquecer, quando souberem de nossa história de amor.
Jane solta uma gargalhada.
— Vocês combinam tão bem! Capricórnio e virgem são perfeitos um para o outro!
Não, Jane não está sendo sarcástica. Ela veementemente acredita que uma virginiana e um capricorniano estão destinados. Preciso roubar aqueles livros de signos de Jane, urgentemente.
— Vocês são determinados, práticos, dedicados, realistas, inteligentes, racionais... — ela começa a listar nossas características signianas.
— Jane, você deveria ter arrumado um hobby melhor.
Depois de me despedir de minha amiga entendida nos signos, pego o script e começo a repassar as cenas que tenho amanhã. Será um longo dia. Tenho várias cenas com Ren para gravar.
Uma parte me preocupa. O romance. Este é um elemento muito importante da trama. Criar um clima romântico apropriado pode ser um problema. Amanhã temos uma cena assim. Mas, como nesta cena o foco romântico dependerá de Ren, então não teremos problemas. Afinal, ele é Ren Sullivan, não é mesmo?
— Que círculos negros enormes! — reclama um dos maquiadores, enquanto faz a minha maquiagem.
Acho que deveria ter dormindo mais do que duas horas.
Ren ao meu lado levanta os olhos do script e me olha. Lá vem os olhares misteriosos dele. Esse aí deve ter estudado a cartilha: "Faça olhares enigmáticos e intrigue as pessoas ao seu redor". Não me abalo. Ele dá uma boa olhada nos grandes círculos negros que ornamentam meus olhos. Posso até vislumbrar seus pensamentos:
Olheiras, é? Por que isso não me surpreende? Com a fama dela...
Por que eu não insisti mais para retirá-la deste projeto?
Preciso de mais café. Vai ser um longo dia.
Os lábios de Ren se abrem. Seus olhos estão ainda em mim. Lá vem algum comentário sobre como os atores precisam se cuidar e bláblá.
— Outro copo de café para mim, por favor — eu realmente sei ler mentes! Os X-men estão aceitando inscrições? — Quer outro copo de café, Lyra?
— Ah, não. Ainda tenho café — aponto para meu copo. Sou uma pessoa prevenida, peguei um copo bem grande de café. — Obrigada.
Ren sorri. Aquele sorrisinho presunçoso que leva meio mundo a loucura. A cartilha "Sorrisos matadores — como usá-los" com certeza foi decorada por esse aí.
Saio do camarim improvisado e um verdadeiro festival de cores se mostra diante dos meus olhos. Tantas cores, cores que talvez nunca tenha visto antes. O céu azul, o ar límpido, as cores deslumbrantes, por um momento esqueço de tudo ao meu redor. Esse é o efeito do sortilégio de Keukenhof, o jardim das tulipas.
— Uau! — não posso evitar expressar minha admiração em alto e bom som. — Tudo é tão perfeito!
Tenho certeza que meu queixo deve ter caído.
— Bom dia, Lyra! — Lizzie interrompe meu momento de deslumbramento.
— Bom dia, diretora!
— Vejo que você está muito animada para as gravações. Isso é muito bom! Bom dia, Ren! Estava procurando por você.
Me viro e me deparo com ele, que está muito mais perto do que eu gostaria. Há quanto tempo ele está aí? Será que ele viu meu pequeno momento de deslumbramento? Por que ele sempre precisa me ver em situações embaraçosas?
Deixo Ren e nossa diretora discutindo a cena e volto para o camarim improvisado. Aproveito para me abastecer com mais café. Café, o líquido mágico que te deixa acordado.
As gravações logo começam. Nessa cena eu não tenho nenhuma fala. Aliás, Ren também não tem fala alguma. A cena é toda sobre expressões. É toda sobre um homem se descobrindo apaixonado. E, segundo nossa diretora, o amor não pode ser traduzido em palavras.
Nos posicionamos. A claquete é batida. Ren me olha e em seguida desvia os olhos de mim.
— Corta — grita Lizzie. — Ren, faça de novo, agora com um olhar mais... apaixonado. Ela é a mulher da sua vida, lembre-se disso!
Olho para Ren. É a primeira vez que a diretora pede para ele refazer uma cena. Parece que os atores geniais também têm seus dias ruins, até mesmo Ren Sullivan.
Começamos a encenar novamente. Porém, a cena mal se inicia e a diretora interrompe.
A cena é encenada mais de dez vezes. Lizzie não parece satisfeita com o resultado.
— Vamos fazer uma pausa — ela anuncia.
Ren concorda um tanto resignado.
Aproveito para ir pegar um pouco de café no camarim improvisado.
Abastecida com um grande e bom copo de café, resolvo voltar para o local das gravações. No entanto, no caminho, me vejo perto de Ren e nossa diretora. Ela fala alguma coisa e Ren, embora tenha aquele ar sereno de sempre, não parece tão calmo assim. Depois de tanto estudo na área reniana, acho que sei uma coisinha ou outra.
— Para essa cena não quero apenas técnica, mas também sentimento... — capto a fala da diretora sem querer.
Ren nota a minha presença e lança um olhar desconfiado. Perfeito, agora ele pensa que fico bisbilhotando por aí.
— Ah... — diga alguma coisa, Lyra. — Estava te procurando, Ren... para discutir a próxima cena.
Ren assente, tenho certeza de que não muito convencido de minha desculpa esfarrapada.
— Vou deixar vocês discutindo. E, Ren, pense no que eu falei — Lizzie diz, um pouco antes de desaparecer de nosso campo de visão e me deixar a mercê de Ren.
O olhar de Ren recai sobre mim.
— Então... — sua voz tem um tom sereno. De acordo com Jane, os capricornianos raramente se abalam ou demonstram exteriormente suas emoções mais fortes. Realmente, ando passando muito tempo com Jane. Daqui a pouco vou estar afirmando que a culpa é do meu signo.
— É... estava te procurando... Mas, tudo bem, não era importante.
Ren arqueia sutilmente a sobrancelha.
— Não?
— Não — afirmo e tomo um grande gole de café.
— Entendo... — diz com um olhar malicioso.
— Você deve ter problemas mais urgentes para resolver do que os meus...
— Tenho. Realmente tenho — Ren sorri, um sorriso duro e sarcástico.
Tomo outro gole de café e resolvo ignorar Ren pelo resto do dia. E meus planos têm a colaboração de nossa diretora. Lizzie resolve dar folga para Ren hoje, na verdade, ela diz que decidiu alterar nosso cronograma e filmar as minhas cenas primeiro. No entanto, sei que o motivo real é dar folga para ele.
Passo o resto do dia gravando e bem longe de Ren, que voltou para o hotel.
Volto exausta para meu quarto de hotel. Nem mesmo meus shows me deixam neste estado. Preciso de banho e cama. Entretanto, tenho que estudar as cenas de amanhã, vou tentar colocar em prática algumas técnicas de atuação que aprendi recentemente. Do que eu preciso? Café.
Outra noite sem dormir corretamente e mais círculos negros em torno dos meus olhos, constato, enquanto observo meu reflexo no espelho. Os maquiadores vão gastar boas horas trabalhando nesta cara.
Como as gravações só vão se iniciar depois das nove da manhã, aproveito para esticar as pernas e dar uma boa volta em torno do hotel.
Qual é a probabilidade de encontrar Ren de manhã em minha frente? Aparentemente, muito alta, já que ele é a primeira pessoa que avisto assim que saio do hotel.
Ren observa o canal, que fica em frente ao hotel, suas costas estão curvadas e seu rosto tem uma expressão que me parece um tanto desolada. O que há de errado com ele? Assim, ele deixa as pessoas pensarem que é um cara legal. Isso não combina com Ren Sullivan.
Ele se volta para mim, antes que eu possa desviar o olhar e fingir que não vi absolutamente nada.
— Lyra...
— Vou a cafeteria que fica aqui perto, dizem que tem um café muito bom — me apresso em falar.
— Ah, compreendo — olha significativamente para minhas olheiras.
— Aproveitou sua folga? — indago, olhando para o canal.
— Foi bom ter uma tarde de folga, há muito tempo eu não tinha uma — olho para ele, sua voz é macia e gentil. Não me diga que terei que reescrever minha tese sobre Ren Sullivan? E eu que acreditei que estava tão perto de terminá-la.
— É... é bom não fazer nada de vez enquanto... — falo, apenas para dizer alguma coisa.
O olhar de Ren recai sobre mim.
— Já compus muita música em dias de descanso — continuo a falar porque ter o olhar de Ren sobre você é um tanto embaraçoso, principalmente quando ele não está em seu estado de sempre. — Às vezes precisamos de um pouco de tédio... — nem mesmo sei o que exatamente estou falando. — Sabe... para descobrir coisas novas...
Ren assente. Novamente, o que há de errado com ele?
Por falar em pessoas imprevisíveis, uma chuvinha fina começa a cair.
— Cuidado com a chuva — diz, se afastando de mim.
É, provavelmente, vou ter que reescrever minha tese sobre Ren Sullivan. Tantos dias de estudos perdidos.
Ren apenas se junta as gravações à tarde. Ele se encontra calmo e imperturbável como sempre. Aquela cena de manhã foi provavelmente uma ilusão ótica.
Gravamos até tarde da noite. Ren não tem nenhum problema com suas cenas. E eu preciso refazer algumas cenas diversas vezes.
— Lyra, caminhe um pouco mais rápido — instrui Lizzie.
— Ok. Eu posso parar e depois gritar? Acho que ficaria melhor.
— Hum... — ela me analisa. — É uma boa ideia.
Ren me olha.
— O quê? — não posso evitar perguntar. — Você acha que não ficaria bom?
— Eu concordo com a diretora, é uma boa ideia.
Quem é você e o que fez com Ren Sullivan?
Volto as costas para ele e trato de me concentrar.
A claquete é batida. Faço a cena. Peço para refazer mais uma vez, não gostei do resultado. Ren apenas observa. Seus olhos avaliam todos os meus movimentos e expressões. Não me intimido e prossigo firme e forte, tentando fazer meu melhor trabalho.
Quando as gravações terminam, estou seriamente desmaiando de sono.
— Trabalhou bem hoje, Lyra! — me parabeniza Sam, que ficou encarregado de nos levar até o hotel.
— Obrigada — falo, bocejando.
Ren, ao meu lado no carro, levanta os olhos do script e me lança um rápido olhar. Ignoro-o. Me aninho no banco e meus olhos se fecham sem minha autorização.
Abro os olhos lentamente ainda naquele limiar entre o mundo dos sonhos e a realidade. Dou uma boa espreguiçada. Acho que estou quase atrasada para as gravações. Me levanto rapidamente da cama. Espera. Há algo de errado no ar. Como foi que eu cheguei até minha cama? Aliás, como eu cheguei até meu quarto? Por que há uma parte faltando em minha memória? Ainda estou com as roupas de ontem.
A última coisa que recordo foi Sam trazendo eu e Ren para hotel, depois disso, cochilei no carro e... e... mais nada. O que aconteceu depois disso? Com certeza, Sam deve ter me levado até o quarto, porque logicamente certa pessoa não faria isso.
Assim que avisto Sam no restaurante do hotel, vou até sua mesa para agradecê-lo pelo favor de ontem.
— Bom dia, Sam.
— Bom dia, Lyra. Espero que você tenha tido uma boa noite de sono.
— Tive sim. Obrigada por me levar até o quarto.
Sam me olha.
— Mas, não fui eu que te levei até seu quarto...
— Não? — isso só pode ser uma piada.
— Ren te carregou até o quarto. Ele tentou te acordar, mas como você não acordava, então pegou você no colo e levou até o quarto — fala, brincalhão.
Perfeito. Tudo o que quero é dever favores para aquele lá. O que mais me falta acontecer?
— Bom dia, Lyra — diz Ren, atrás de mim, por que eu ainda faço estas perguntas? — Bom dia, Sam.
— Bom dia, Ren — me volto para ele.
— Dormiu bem, Lyra?
— Dormi — assinto, sorrindo.
Ren puxa uma cadeira.
— Não vai sentar-se? — indica a cadeira para mim.
Me sento.
— Vou deixar vocês dois tomarem o café da manhã, logo venho buscá-los — fala Sam, levantando-se da mesa.
Por que as pessoas gostam de me deixam sozinha com esse aí?
Enquanto tento tomar meu café da manhã calmamente e fingir que nada aconteceu ontem, afinal devemos deixar as coisas do passado no passado, Ren me lança alguns olhares divertidos. Termino meu café rapidamente, isso não tem nada a ver com o fato de ter certo alguém em minha frente, apenas quero repassar minhas falas. Juro. Quem estou tentando enganar? Sim, é verdade, tem a ver com o fato de certo alguém estar em minha frente, mas, a principal razão é que quero repassar as minhas falas.
— Diz para o Sam que estou no meu quarto — falo, me levantando da mesa. — E... obrigada por me levar até meu quarto — esboço o meu melhor sorriso, adquirido após muitas aulas de interpretação.
— Lyra... — ele faz questão de ressaltar cada sílaba do meu nome. — Você precisa dormir mais, não quero ficar mais com minhas roupas manchadas de babá... — sorri.
Respiro fundo.
— Não se preocupe, vou seguir seu conselho. Obrigada por se preocupar comigo.
— Somos colegas — continua a exibir seu melhor sorriso.
Ren realmente é bom na atuação. E eu sou um desastre. Preciso estudar mais.
Quando Sam vem me buscar, já organizei todos os meus livros sobre interpretação para fazer uma revisão mais tarde. Preciso estar prevenida contra os ataques de Ren Sullivan.
*****
— Ren, vamos deixar esta cena para depois... — diz nossa diretora.
Ele olha para o script e por um momento julgo que irá falar algo, porém, no final assente.
— Tudo bem.
Olho para meu script, é uma cena em que meu personagem e o de Ren caminham sob o luar. Uma cena bem romântica. Interessante, ainda não gravamos nenhuma cena que tenha uma grande carga romântica (não que eu queira gravar cenas românticas com Ren). Pensando bem... a única cena que ele teve dificuldades para gravar foi uma cena com um grande teor de romantismo. Olho para Ren. Ele retribui o olhar.
— Interessante... — murmuro comigo mesma.
— O que é interessante? — acho que falei um pouco alto demais.
— A nossa próxima cena — contesto rapidamente.
— Hum... — seu olhar permanece em mim e ele cruza os braços.
Rapidamente, meus olhos se voltam para o script. Mas, nadinha de Ren desviar o olhar de mim, já que é assim... olho para ele também.
Ren se aproxima. Me dou conta que estamos sozinhos, cercados apenas por tulipas, a equipe de gravações está ocupada com os equipamentos de filmagem e nossa diretora também me abandonou, quer dizer, nos deixou sozinhos.
— O que foi? — sorri com aquele sorriso que já se transformou em um velho conhecido meu.
Preciso advertir que foi ele que começou.
— Estava aqui pensando... sabe... nossa diretora tem adiado certas cenas... todas com o mesmo tema — dou uma boa olhada nele. — Você não acha isso interessante?
Por um segundo (que me parece incrivelmente longo para um segundo), ele me analisa, sem dizer uma palavra ou fazer qualquer movimento. Subitamente, seus pés começam a andar em minha direção. Ele se aproxima tanto de mim que posso sentir o aroma de sua colônia. Uma mistura de madeira com um toque cítrico.
— E o quê? — sussurra em minha orelha.
Concluo que aqueles rantings dos atores com a voz mais sexy (ele sempre é o número um) estão muito certos.
— Bem... — infelizmente, meu nível de atuação ainda não é dos melhores. — É apenas um palpite — dou um passo atrás.
Ren segue o meu passo.
— E?
— E?
Ele sorri.
— Ren! Lyra! — chama Lizzie.
Ren volta-se para Lizzie com o sorriso mais inocente do mundo, nenhum traço daquele sorriso de segundos atrás.
Solto um suspiro. Por que ele tinha que ser Ren Sullivan? E como o tom da cena foi mudar assim? O que aconteceu aqui? Tenho certeza que isso tem uma explicação perfeitamente lógica e aceitável...
Vejamos:
Ren sempre consegue o que deseja.
Eu descobri seu ponto fraco.
Ele não quer que ninguém descubra seu ponto franco.
Conclusão: Ren apenas estava revertendo a situação com seu talento de atuação e tudo mais.
Viu? Não afirmei que havia uma explicação perfeitamente lógica e aceitável?
Tento me concentrar no trabalho. E faço um grande trabalho considerando que Ren, vez ou outra, me lança alguns olhares enigmáticos, o que provoca em mim certas recordações. Eu já encontrei uma explicação perfeitamente lógica e aceitável para o que aconteceu, então por que ainda estou pensando nisso? O que há de errado comigo?
****
— Vamos fazer uma pausa — anuncia nossa diretora.
Devo confessar que recebo o anuncio com muita satisfação. Pego meu script e saio a procura de um local tranquilo para estudá-lo. Estamos em um belo parque, não será tão difícil assim encontrar um local tranquilo... espero.
Em meio as minhas andanças em busca do refúgio, quero dizer, local perfeito para o estudo, avisto Ren sentado embaixo de uma frondosa árvore. Ótimo. Era tudo o que eu desejava.
Como ele parece estar muito concentrado lendo o script, acredito que é um ótimo momento para dar meia volta e procurar um novo local. É exatamente isso que faço.
— Lyra? — sou pega bem no meio da ação.
— Ren... — volto-me para ele. — Eu estava lendo... — aponto para o script em minha mão.
— Ah... eu também estou estudando...
Assinto apenas para fazer qualquer coisa. O que falar quando não há nada para falar?
— Então... vou deixar você estudando... — me viro.
— Lyra...
Droga.
— Hum? — me volto para ele.
Ren me olha. O que há com este olhar? É... diferente. Não sei explicar, sei apenas que é diferente...
— O que foi?
— Ah... — ele reflete por um breve momento. — Nada... — ele volta-se para o script.
Olhando-o assim...
Às vezes, vislumbro esta atmosfera solitária em torno dele.
— Que fala você está repassando? — me vejo sentando-me perto dele.
— Apenas... algumas cenas que vamos gravar mais tarde — diz laconicamente.
Folheio meu script ao acaso.
— Certo...
Ren me olha furtivamente.
— Lyra... — hesita por um instante.
— Sim? — finjo não notar sua hesitação e continuo a folhear o script.
— Esta cena... — o olho.
Ele volta a página e aponta para uma cena qualquer. Me inclino sobre seu ombro para lê-la.
— Ah, esta cena... — tenho quase certeza que não era exatamente sobre esta cena que ele queria falar.
— Você acha que seria melhor ser rodada à noite ou de dia? — indaga.
— Acho que a noite vai combinar com o clima melancólico que essa cena exige. Mas, acredito que ela combina ainda mais com o crepúsculo...
— Você tem razão — concorda prontamente comigo.
— Tenho? — digo sem esconder minha surpresa.
Ren sorri.
— O que foi? — pergunto.
— Sua reação — ri.
— O que há de errado? Não posso ficar surpresa porque Ren Sullivan concorda comigo?
Uma risada franca e aberta se desprende dos seus lábios.
— Isso foi um elogio ou um insulto? — pergunta, brincalhão.
— Considere um elogio.
Ele continua a rir em alto e bom som. Tenho que admitir que vê-lo rir deste modo tão franco e aberto é um tanto fascinante. Estou acostumada a ver seu modo agradável e reservado, mas não essa faceta despreocupada e alegre. E isso é... interessante.
******
— Lyra, não se mova tanto e vire-se para a câmera mais lentamente — instrui Ren.
— Ok. E depois eu caminho até você?
— Isso.
Uma das coisas que não se pode negar que Ren tenha é profissionalismo. Ele é muito bom no que faz. Por isso, não há nada de errado em pegar algumas dicas com ele. Se quero melhorar meu nível de atuação, seguir as dicas de Ren pode ser bem instrutivo.
Até que eu e ele temos algumas coisas em comuns. Jane que não me ouça, senão ela vai gritar em plenos pulmões que estava certa o tempo todo sobre como capricórnio e virgem têm muito em comum e combinam perfeitamente e depois vai resolver abrir uma agência de signos ou coisa parecida. Porém, preciso admitir que em certos aspectos somos parecidos. Um deles é que levamos o trabalho muito a sério.
E até que estamos nos dando bem, considerando que ele não me olha mais como se quisesse me atirar em algum canal, isso é um grande progresso.
Terminamos de gravar a cena. Ren passa mais algumas dicas e inclusive fica até mais tarde para repassar a cena bem importante que preciso gravar amanhã.
— Obrigada pelas dicas — falo, enquanto esperamos pelo elevador no hotel.
— Você trabalhou bem.
Não posso evitar arquear a sobrancelha e olhá-lo com o canto dos olhos. Ele sorri.
— Uau, um elogio de Ren Sullivan! — murmuro.
Ele solta uma risadinha.
— Por que isso me soa mais como um insulto do que um elogio...
— Você deve estar surpreso... — digo mais para mim mesma do que para ele.
— Surpreso?
— É, sei que você não me queria neste projeto.
Um breve instante de silêncio. Não ouso o olhar.
— É, verdade — afirma.
Sinto algo estranho após ouvir a confirmação da boca dele.
— Não o culpo — digo, olhando para a porta do elevador. — Sei que muitas pessoas no seu lugar também iriam se recusar a trabalhar comigo, afinal... — tento soar indiferente, mas não sei se consigo muita coisa — no ano passado, minhas fotos estavam estampando todas as revistas de fofocas praticamente todos os dias da semana... Ser associado comigo não é bom para a imagem...
— Lyra — me surpreendo com a voz forte e segura dele e o olho. — É verdade que eu tinha receios em trabalhar com você, mas isso não tem absolutamente nada a ver com escândalos ou algo assim. Eu não me importo com fofocas.
Meus olhos não conseguem sair de Ren.
— O que me importa é o trabalho. Se alguém faz um bom trabalho e o leva a sério, por que eu me importaria com fofocas? — ele olha diretamente nos meus olhos. — Eu tive receios em trabalhar com você, admito. Mas, era sobre o trabalho. Você tem uma boa e sólida carreira como cantora, porém, como atriz tem pouca experiência, é ainda uma iniciante. Seu papel exige muito de uma atriz, até mesmo atrizes experientes teriam dificuldades para representá-lo bem. Eu temia que você tivesse muita dificuldade para interpretá-lo... Eu estava errado. Você leva o trabalho muito a sério e sempre procura melhorar sua atuação e aprender mais. Você está se saindo muito bem.
Isso foi... foi inesperado...
— Lyra, não vai entrar? — fala, segurando a porta do elevador.
Entro rapidamente.
Silêncio.
— Sobre aqueles escândalos e tudo mais — digo baixinho, quando estamos chegando no andar em que fica o quarto de Ren — eles não são verdadeiros.
A porta se abre.
— Eu sei. Nunca acreditei que fosse verdade — diz ele, saindo do elevador.
*******
— Estou correndo, correndo, correndo... — cantarolo. — Precisa de algo mais — concluo, anotando no papel.
— Essa é a sua nova música? — diz Ren, encostado na porta do camarim improvisado.
Levo um pequeno susto.
— A chuva já parou? — indago, tentando me recuperar do susto.
— Não, ainda não — precisamos gravar uma cena ao ar livre, porém a chuva chegou sem aviso prévio, por isso, estamos aqui, esperando ela passar.
— Ah...
— Posso ver? — indica minhas anotações.
— É apenas um esboço, ainda falta muita coisa — estendo o papel para Ren, que se senta na cadeira ao meu lado. — Desde ontem estava com esta música na cabeça. Um amigo pediu que eu escrevesse uma música para seu novo álbum... Uma música sobre o amor.
Ren analisa a letra.
— Uma música bem romântica.
— É sobre como o amor pode tornar as coisas mais fáceis.
Ele me lança um longo olhar.
— Sempre admirei os músicos e sua capacidade de expressar os sentimentos de um modo tão fácil...
— Não, não é tão fácil — contesto.
— Mas, parece... E o amor é o sentimento mais difícil de ser expresso. Algo que é muito difícil de compreender, explicar... — sua voz é baixa e seu olhar distante. — O que é o amor?
— O amor não tem explicação, não é para ser compreendido, mas sentido.
Seu olhar recai sobre mim, surpreso.
— Você está tendo dificuldades nas cenas em que deve expressar amor, porque está tentando explicá-lo com a razão, não é?
Vejo passar pelo semblante do sempre impassível Ren uma verdadeira torrente de emoções diversas.
— Como você...
— Eu apenas... — dou os ombros — deduzi...
— Eu ainda não consegui encontrar o tom certo para estas cenas — explica ele.
— Mas, é este justamente o problema, não existe um tom certo, uma técnica. Ren, como você age quando está amando?
— Eu...
— Ren?
— Bem, eu...
— Você nunca amou alguém?
— Já! — ele contesta rapidamente. — Quer dizer, já tive diversos interesses amorosos...
— Alguém que o sorriso o hipnotizasse tanto que você não consegue mais parar de olhar? Alguém cujas lágrimas te deixam tão triste e a pessoa mais infeliz do mundo por não ter o poder de detê-las? Você já pensou que estava ficando louco, porém, não se importou nenhum um pouco? E o mais importante esse sentimento que você sente, mas não tem qualquer explicação lógica. Nenhuma. Você apenas sente. Alguém já fez você se sentir assim?
Ren continua a me olhar, sem pronunciar qualquer palavra.
— Eu gosto de ver sempre o lado lógico e prático das coisas, mas não há lógica no amor, preciso reconhecer. Nós nunca vamos encontrar uma explicação.
— Bem... — ele se levanta. — Vou levar isso em consideração.
*******
— Vamos gravar aquela cena que...
— Podemos gravar a cena em que meu personagem e o de Lyra passeiam juntos?
Lizzie dá uma boa olhada em Ren.
— Tem certeza?
Ele assente sem uma sombra de hesitação.
— Hoje, está fazendo um bom clima para gravar essa cena.
A cena em questão exige um alto grau de romantismo. Olho para Ren, tentando decifrar seus pensamentos.
— Ok — nossa diretora concorda depois de um momento de ponderação. — Vamos gravar esta cena hoje, no final da tarde.
— Ren, por que você quer gravar esta cena hoje? — indago, após Lizzie nos deixar.
— Porque é um bom dia para gravar esta cena — contesta laconicamente.
As gravações transcorrem normalmente pelo resto do dia. Ren não parece ansioso ou nervoso. Não, ao contrário, se mostra até bem relaxado e tranquilo.
A cena vai ser gravada em uma ruazinha de Amsterdã que parece ter saído de outro século.
Lizzie passa as instruções para nós e nos autoriza a iniciar as gravações.
Em apenas alguns segundos, posso vislumbrar a transformação de Ren em seu personagem. A claquete é batida. Ele me olha e sorri. Estende a mão para mim. Apanho-a. Sua mão é quente e envolve a minha com suavidade. Seus olhos vão parar nos meus. Seu olhar é... hipnotizante. Sinto-me incapaz de desviar os olhos dele, porque eles me prendem. Ele sorri e sua mão livre acaricia meu rosto delicadamente, porém com intensidade. Sinto-me queimar por causa de seu sorriso, seu olhar e o toque de sua pele.
— Corta! — grita a diretora.
Por um instante, eu havia esquecido completamente que estávamos atuando.
— Isso foi... perfeito! — exclama Lizzie. — Era exatamente isso o que eu queria! Foi perfeito! Perfeito!
Me afasto de Ren, atordoada.
Como esta era a última cena do dia, aproveito para voltar ao hotel o mais rápido possível.
Assim que chego ao hotel, me ponho a organizar minhas coisas e até encontro um jeito muito melhor de organizar as roupas. Sou boa na organização tenho que admitir. Será que o pessoal da produção está precisando uma mãozinha?
— Jane — ligo para ela.
— O que foi, Lyra?
— Estava aqui pensando se você não quer minha ajuda para organizar alguma coisa... sabe, sou realmente boa nisso!
— Lyra, você esqueceu que está em outro país?
— Mas, posso organizar aquelas suas planilhas antigas, fazer uma planilha que irá facilitar o seu trabalho...
— Lyra, agradeço a ajuda... mas, me conta, o que está te atormentando?
— Nada, eu só quero te ajudar!
— Sei... quando sua febre da organização ataca, isso só significa uma única coisa, você está com algum problema. Fala, Lyra, o que está perturbando você?
— Jane, não tem nada. Juro.
— E algo me diz — ela me ignora totalmente — que isso tem a ver com certo capricorniano.
— O quê? Deixa para lá, estou com sono, vou dormir.
Desligo o celular e vou para a cama. Porém, o sono não chega. Me ponho então a trabalhar na composição da música que comecei a escrever há alguns dias. Resulto: manhã seguinte, enormes círculos negros ornamentando os olhos.
O dia de gravações é intenso. Mas, não posso afirmar que não gosto disso. Afinal, é bom manter a mente muito bem ocupada e impedir que certos pensamentos estranhos a invadam sem pedir permissão.
— Sam, você pode me levar para o hotel? — indago, quando encerramos as gravações.
— Claro, só estou esperando o Ren...
— Ah... lembrei que tem um restaurante muito bom aqui perto, não precisa me levar, não.
— Também não precisa me levar, Sam. Fiquei curioso com este restaurante que a Lyra conhece... — diz Ren, atrás de mim. Quando será que ele vai perder a mania de chegar sem avisar?
— Ok — e Sam me deixa a mercê de Ren.
— Então onde fica este restaurante? — pergunta ele, colocando-se em minha frente.
— Por que você quer ir lá?
— Curiosidade e... — um sorriso malicioso surge em seu rosto — quero passar um tempo com minha colega...
— Mas, já passamos o dia inteiro juntos!
— Com você me ignorando a maior parte do tempo — contesta.
— Impressão sua... — começo a andar.
— Impressão minha? Acho que não — ele me segue.
Andamos por algum tempo em silêncio.
— Lyra, o que está acontecendo? — ele repentinamente interrompe o silêncio.
— Nada.
— Lyra, sei que está acontecendo alguma coisa... — se coloca em minha frente com os braços cruzados, impedindo que eu prossiga.
O encaro por um instante.
— Você está chateada comigo?
— Não... — desvio os olhos dele. — Eu não estou... — começo a andar. — Estou mais chateada comigo mesma — falo baixinho, sem que ele ouça.
— Você está me evitando desde nossa última cena de ontem...
— Eu estou... — o encaro — confusa! Está bem? Estou confundindo os sentimentos do personagem com os meus! Eu preciso... ser uma atriz melhor. Não posso confundir sentimentos.
— Lyra — ele se aproxima de mim. — Talvez, você não esteja...
— Estou, sim — afirmo com muita convicção e talvez até com um pouquinho de raiva.
— Ah, é? — ele chega ainda mais perto. — Acho que não.
Os olhos de Ren estão nos meus, por algum motivo não consigo desviar meus olhos dos dele por mais que eu queira. Sinto a fragrância de madeira com um toque cítrico de sua colônia. Ele enlaça minha cintura. Sinto seu corpo quente e envolvente.
— Lyra — sussurra. — Você não está confundindo seus sentimentos com a da sua personagem.
Devagar, muito devagar, em um ritmo lento e constante seus lábios se aproximam dos meus. Sinto o sabor dos seus lábios e todas as minhas incertezas e dúvidas são levadas embora. Seus lábios me envolvem como o café envolve o cubo de açúcar e o dissolve.
— Então? — ele diz, afastando seus lábios dos meus. — Eu não estava certo?
— Capricornianos sempre conseguem o que desejam... — resmungo.
— O quê? — ele solta uma risadinha.
— Nada, não.
Ele me envolve em um longo abraço.
— Você tem razão, o amor é um sentimento sem explicação lógica — murmura. — Até nos faz ficar um pouco loucos e não nos importarmos com isso.
— Tenho, é?
— Tem — sorri.
— É, realmente tenho.
Ren envolve minha mão na sua e, no silêncio da noite, caminhamos.
FIM.
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