10

Hermione flutuou na escuridão, incapaz de sentir seus membros. Seu batimento cardíaco ecoou alto e tamborilando, quase obscurecendo as vozes que dançavam nas sombras que a cercavam.

Temos que deixá-la descansar. Ela passou por um trauma grave. Ela não será boa para nós em sua condição.

Já se passaram três dias. Precisamos de informações e ela as tem. Acorde ela.

Não se atreva a me dar uma ordem novamente.

Hermione lutou contra as nuvens escuras que a seguravam. As vozes eram familiares. Ela as conhecia e elas a atraíam. Ela se contorceu em sua escuridão envolvente, lutou contra ela, e com um grito ofegante ela rompeu. Ela recuperou o fôlego, encontrou seu corpo e as sombras negras se foram.

Ela se sentou em uma cama estreita, em um quarto iluminado apenas por um fino feixe de luz do luar que brilhava através de uma janela estreita em forma de flecha na parede de pedra. A princípio, ela procurou a cadeira e a mesa, o armário alto e os ganchos na parede. Seu estômago revirou quando nenhum dos móveis do quarto eram familiares. Por um momento, ela esperava estar de volta ao castelo, no seu quarto com Draco. Esperava que dentro de alguns segundos ele saísse do banheiro, seu cabelo claro em desalinho e suas longas pernas trazendo-o para perto dela.

Sua mão foi para sua garganta e ela sentiu sua coleira, sentiu os lugares doloridos onde ele cravou os dentes nela quando ela jogou a cabeça para trás e gritou num orgasmo. Ela deixou a mão cair e tremeu. Sem coleira, sem mordidas.

Sem Draco.

Ela enrolou o cobertor fino em volta dos ombros e saiu da cama. Em uma cadeira perto da porta, ela encontrou um par de jeans, gasto na altura dos joelhos, uma blusa túnica larga que estava tão desbotada que sua cor original havia sumido, e um par de tênis manchado de lama. No final da pilha havia um cinto, um sutiã, calcinhas e meias. Hermione passou os dedos sobre cada item, as lágrimas ardendo em seus olhos. Eram dela. As roupas eram dela, deixadas para trás no Largo Grimmauld antes de ir para o combate que matou tantos de seus amigos e terminou com tantos outros capturados como ela.

Ela enxugou o rosto com a ponta do cobertor antes de deixá-lo cair no chão. Ela se vestiu rapidamente, os movimentos estranhos para ela no início, tanto tempo com apenas um vestido e um par de sapatos simples. Hermione evitou olhar para si mesma enquanto se vestia. Ela não queria ver as pontas afiadas de seus quadris pressionando sobre o cós da calça jeans, a cavidade de seu estômago onde o material se abria. Quando ela se endireitou, o jeans escorregou mesmo com o cinto apertando o máximo possível, e ela suspirou de frustração antes de puxar a calça para baixo. Nada, nenhuma das roupas, servia mais, então ela deixou a maior parte na cadeira. A blusa pendurada em torno dela estava como um vestido. Ela puxou a bainha, puxando para baixo. Isso serviria bem o suficiente. O vestido que Draco lhe tinha dado era mais curto, e mesmo apenas com uma blusa ela sentia-se mais coberta do que em meses.

Hermione puxou o cobertor em volta dos ombros como uma capa e pressionou a orelha na porta. As vozes que ela ouviu a princípio ficaram silenciosas, mas quando ela cautelosamente enfiou a cabeça no corredor, ela viu um lampejo de luz na outra extremidade e ouviu outras vozes diferentes murmurando. Descalça, o cobertor agarrado ao seu redor, ela deslizou em direção à luz. O som de pratos, colheres batendo em tigelas e facas em pratos, de jarras, copos e canecas, alcançou seus ouvidos e ficou mais alto enquanto ela se aproximava do feixe de luz que entrava por uma porta entreaberta.

Ela ficou do lado de fora daquela luz quente e dourada, prendendo a respiração quando uma sombra passou por ela. Alguém deixou cair um prato com um grande barulho, e a explosão de vozes assustadas a fez pular, seu coração batendo forte. "Quieto!" alguém disse dentro. "Você vai acordá-la."

"De fato. Deixe a garota dormir." disse uma voz profunda. A respiração de Hermione ficou presa na garganta. Cada sílaba era dolorosamente familiar, o sotaque quente e reconfortante. Ela puxou a porta e a abriu. Em torno de uma mesa havia meia dúzia de figuras, mas eram um borrão para ela. Ela procurava por uma pessoa, apenas uma. No final da mesa havia um lampejo de cabelo loiro claro, um perfil pontudo. Hermione arfou e correu para ele.

Ela se jogou aos pés dele e colocou os braços em volta de sua cintura, balbuciando incoerentemente. Ela não sabia o que disse, não ouviu nenhuma das vozes chocadas e gritantes que encheram a pequena sala. Uma mão caiu em seu cabelo, acariciando seu ombro, e ela enterrou o rosto em sua coxa. "Draco." ela soluçou, ofegando de alívio. "Draco!"

"Srta. Granger." veio a voz arrastada, e os dedos em seu ombro se moveram em um tapinha estranho. "Sinto muito, mas você está enganada."

Hermione olhou para o rosto dele. Os olhos estavam certos, cinza claro e salpicados de azul, mas a boca era muito dura, a testa muito franzida. Hermione o soltou com um empurrão espasmódico. "Lucius." ela sussurrou. Ele acenou com a cabeça e Hermione lamentou. Ela se enrolou no chão com os braços em volta dos joelhos e chorou.

Hermione aconchegou-se nas raízes de uma árvore antiga no jardim atrás da casa, ignorando a fisgada do outono frio que pairava no ar. O frio não significava nada para ela quando podia estar a céu aberto. Ela cravou os dedos dos pés na terra e olhou para a porta pela qual havia corrido, vozes a seguindo em um coro de 'pare, Hermione, espere ' e um comando final profundo: "Deixem-na ir."

Tantos rostos familiares naquela sala, amigos de quem ela tanto sentia falta, amigos que ela temia que estivessem mortos, mas ela não foi capaz de ver quem realmente se sentou naquela mesa. Os rostos em sua mente eram de verdadeiros mortos. Cho, Parvati, Morag. Ernesto, Dino, Anthony.

Tantos rostos naquela mesa, e ela queria ver apenas um. Hermione enterrou a cabeça nos joelhos e tremeu com um soluço baixo. Draco. Ela foi resgatada, ela estava segura, ela estava viva, livre e a salvo, mas ela não conseguia começar a aceitar isso. Ela não podia acreditar em nada sem Draco perto dela. Ele foi tudo o que a manteve viva durante aqueles meses, tudo o que a manteve sã. Sem ele, nada parecia real.

Uma tosse baixa a alcançou, e Hermione olhou para cima para ver Lucius parado a vários metros de distância. Ele segurava uma bandeja nas mãos. "Você precisa comer." disse ele, e novas lágrimas encheram seus olhos com a voz e o sotaque que estavam tão próximos dos de Draco.

"Onde está Harry?" ela perguntou em voz baixa, quase com vergonha de como soava como um rato.

Lucius exalou audivelmente, inclinando a cabeça por um momento. "Não sabemos." disse ele. "Não aqui. Não com este grupo." Ele ergueu a cabeça e içou a bandeja. "Coma." disse ele novamente.

Ele deu um passo mais perto e ela ficou tensa, pressionando as costas contra as raízes da árvore. Lucius congelou imediatamente. Seu rosto estava solene, mas compreensivo. "Sua decisão, Srta. Granger." ele disse calmamente. "Você tem sua liberdade de escolha devolvida a você. Se quiser que eu saia, eu vou, mas posso garantir-lhe que de todos os refugiados reunidos aqui, eu sou o único que tem alguma esperança de entender o que você passou nos últimos meses. "

Ela puxou uma mecha de seu cabelo enquanto o observava, enquanto o examinava para avaliar sua sinceridade. As vestes escuras e elaboradas que ele usava no passado se foram, substituídas por uma camisa e calças simples. Sem os veludos grossos e as lãs pesadas, ele parecia... mais brando. Não amigável, ela pensou, nunca amigável. Mas menos frio e impassível. Ela podia ver os olhos de Draco nos dele, podia ver o rosto que ela conhecia e se preocupava. Hermione acenou com a cabeça para ele, mas se moveu ainda mais para o abraço das grandes raízes da árvore.

Lucius avançou e colocou a bandeja no chão à sua frente, então se sentou em uma raiz próxima. Ele cruzou as mãos entre os joelhos e olhou para longe. Hermione olhou para a bandeja. Um pedaço de pão escuro, uma tigela de ensopado, uma caneca de chá fumegante. A comida mais simples possível, e mesmo assim sua boca encheu d'água. Ela agarrou o pão primeiro.

"Em Azkaban" disse Lucius em voz suave "isto teria sido considerado um banquete. Eu detestava o que nos davam para comer, mas não tive outra escolha, a menos que quisesse morrer de fome. Peguei o que me foi dado, fiz o que era necessário para sobreviver. Logo no primeiro dia que estive em casa, exigi a refeição mais luxuosa que a cozinha do Solar podia proporcionar. Carne a pingar em sumos, as frutas mais doces, sopas quentes, e a mais antiga garrafa de vinho. Tudo o que era rico e delicioso, tudo com que sonhava quando estava preso. Enchi-me com ela, até pensar que poderia explodir. E dentro de uma hora, vomitei tudo. Tudo o que tentei comer durante uma semana, vomitava novamente. O que eu queria com tanto fervor... Quase chorei quando tudo no meu estômago se tornou um pesadelo... o sonho tinha se tornado um pesadelo. Já não estava habituado a nada do que conhecia. Demorou muito para me recuperar. "

Hermione molhou seu pão no ensopado e o observou enquanto mastigava lentamente. "Torta de bife e rim." disse ela, prendendo uma mecha de cabelo atrás da orelha. "Vindalho. Barra de Chocolate Curly Wurly."

Lucius ergueu uma sobrancelha, a expressão tão parecida com o olhar de curiosidade de Draco que ela engasgou com o pedaço de pão. Ela engoliu com um gole de chá e empurrou a bandeja. Enroscando-se na segurança das raízes, ela puxou a blusa até os joelhos e colocou os braços em volta das canelas. "Você não está falando sobre comida." disse ela, olhando para as mãos dele, para a linha pálida em um dedo, deixada por seu anel perdido. "Não apenas comida, pelo menos."

"Não." disse ele. Seus ombros caíram por um momento enquanto ele olhava para o chão. Naquele segundo, ela não viu um malvado bruxo das trevas, nem um comensal da morte. Ela viu um homem exausto e preocupado, separado de sua família e de tudo que ele conhecia. Ela fez um ruído suave de compreensão que atraiu um pequeno estremecimento de Lucius. Ele exalou lentamente e ergueu a cabeça para encontrar os olhos dela. "Os outros lá dentro, eles não vão entender. Eles queriam dar uma festa pelo seu retorno. Uma celebração."

Hermione estremeceu. As únicas celebrações que ela tinha visto por meses foram as festas dos comensais da morte, violentas e sangrentas. Ela balançou a cabeça e murmurou uma recusa. "Eu pensei que não. " declarou Lucius "Eu estou muito familiarizado com o que você pode ter passado. Levará tempo, Srta. Granger. Tempo para recuperar quem você era. Tempo para acreditar que você não é mais uma prisioneira. Eu gostaria de dizer que você receberá todo o tempo que você precisar, mas temos pouco. O Sr. Weasley me informou sobre a última comunicação de meu filho com ele... "

Lucius se interrompeu quando Hermione bradou, levantando sua cabeça para encará-lo com os olhos arregalados. "Weasley. Weasleys?" Ela se arrastou para fora das raízes e se jogou de joelhos. Ela agarrou sua mão e olhou em seu rosto. "Eles estão mortos, estão todos mortos, Bellatrix fez um colar com seus cabelos, Ron morreu enquanto eu assistia, eles estão mortos !"

Apesar do choque em seu rosto, Lucius envolveu os dedos nos dela e segurou a mão dela entre as suas. "Não, Srta. Granger. Eles estão, a maior parte, de fato mortos. Mas não todos. Um sobreviveu." Ele soltou uma das mãos dela e gesticulou para a cabana. Hermione se virou para ver o pequeno elfo doméstico emergindo da porta, sua única orelha agarrada em sua mão. Ela olhou perplexa, então se virou para Lucius com uma careta de confusão no rosto.

"Demorou algum tempo para aperfeiçoar a transformação" disse Lucius. "e infelizmente ele não era capaz de falar até recentemente, mas ele tem cuidado de você desde que foi feito prisioneiro. Nós o inserimos no castelo no início na espera que ele fosse útil. E ele foi. " Ele tirou as mãos das dela e se levantou, sacando a varinha. Hermione se agachou perto da raiz, observando enquanto Lucius se aproximava do elfo doméstico. O elfo doméstico ergueu o queixo e Lucius colocou a ponta de sua varinha sobre o coração do pequeno ser. Hermione não reconheceu o feitiço que ele usou, mas apenas o som dele fez sua pele arrepiar. Magia negra.

Ela prendeu o lábio inferior com os dentes para não gritar quando o pequeno elfo doméstico tossiu e caiu no chão. Ele estremeceu e se contorceu como se estivesse nas garras mágicas de um cruciatus. Enquanto Hermione assistia com horror, suas pernas e braços alongaram, sua orelha encolheu. Sua pele verde desbotou e ficou coberta de sardas. Ele se sentou, puxando a tapeçaria imunda que usava sobre o colo e passou uma mão pelo cabelo ruivo. "Droga, isso dói." George murmurou, antes de olhar para ela e sorrir. "Mas vale a pena. Ei, Hermione."

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