Capitulo 03 - Math

As aulas estavam longas demais, mais do que o normal. Alice podia ver que eu estava impaciente em minha mesa. Saber que ele estava a poucos metros de mim me deixava angustiado e saber que meu irmão poderia estar aqui também. Jaci havia sido clara que eu sempre a reconheceria, não importava o corpo em que ela estivesse. E mesmo não tendo certeza de que era realmente ela, meu coração já pulava de alegria. Eu queria abraça-lo e tê-lo em meus braços novamente.

Alice se aproximou de mim, juntou nossas mesas para algum trabalho em dupla que eu não prestei atenção. Ela colou um mapa da escola em minha mesa, ela espetou o dedo com um alfinete e pingou o sangue no mapa. Fechou os olhos e recitou algo e em alguns segundos o sangue deslizou pelo papel sem mancha-lo e parou em uma sala do segundo ano. Pela posição, ele se sentava próximo a janela. Só de saber onde ele estava me tranquilizava, eu podia não estar vendo ele, mas sabia que estava bem e que mantinha velhos hábitos.

- Esse sorriso no seu rosto é porque?

- Ele ainda faz o que Eduarda costumava fazer quando teve nosso último filho. Amamentava ele sempre perto da janela. Gostava de ficar olhando a natureza, mesmo que não pudesse toca-la naquele momento era como se estivesse em casa.

- Sinto muito pelo que tem passado todo esse tempo.

- Só de poder reencontra-la fico feliz.

- Acho melhor você não dizer ela. Vai soar estranho.

Dou um breve sorriso tímido. Alice realmente tinha razão, ele com toda certeza não lembrava de nada de suas vidas passadas. Ao contrário de mim, sua mente era algo em branco.

- Mas e quanto ao seu filho?

Desvio o olhar do papel e olho para o quadro negro.

- Foram tantos ao longo dos anos. Com certeza deve ter seus filhos hoje em dia, netos quem sabe... – falo de maneira triste.

- Mas você teve a curiosidade de procura-lo.

Negativo com a cabeça. As últimas vezes ainda doem de alguma forma dentro de mim. A verdade é que todos os meus primogênitos são entregues à própria sorte depois que... essa era uma dor que apenas eu deveria sentir e eu não iria compartilhar isso com Alice, nem mesmo a ela eu já havia dito a verdade. Eu sei que ela sentiria a dor de perder um filho, mesmo que ela jamais tenha visto ele ou se lembre dele.

- Então já sabe como vai ter certeza que é ele?

- Um beijo. – digo escondendo o mapa ao ver que o professor se aproxima.

- Espero que ele não seja forte e meta a mão na sua cara, apesar de que seria muito interessante ver isso, não vou mentir. – ela dá um sorrisinho sarcástico.

- É mais complicado do que pensa.

- Então me explique ô grande lobo original.

- O beijo foi o que nos separou e é o beijo que nos une novamente. Eu só não esperava ter que beijar um garoto.

- Ué, pensei que não tivesse essas limitações morais.

- Só é estranho pensar nisso. E não vamos esquecer que passei por diferentes sociedades e em nenhuma delas eu passei por algo parecido. Ela sempre veio como uma mulher.

- Ainda bem que nos conhecemos para que eu possa ver essa cena épica.

Eu podia ver nos olhos de Alice a expectativa de ver dois garotos se beijando. Mas isso não era nem o começo de meus pensamentos. Quando uma jovem garota parda se aproxima da nossa mesa, seus cabelos cacheados presos em um rabo de cavalo e com um largo sorriso se aproxima de mim e me beija.

- Como vai o trabalho de vocês?

- Acabou de ficar interessante. Preciso de um balde de pipoca e de óculos 3D porque a novela mexicana não tarda a começar. – diz ela com um sorriso maldoso no rosto.

Normalmente eu não encontraria Nina até a fase adulta, então minha adolescência sempre era devagar demais e tediosa e por esta razão eu costumava ter relacionamentos para, eu vou parecer cruel com isso, me distrair. O que era puramente verdade. Eu não tinha o menor interesse em Mariana. Ela era bonita, inteligente, mandava muito bem na cama. Claro a gente transava as vezes.

Suspiro.

- Será que podemos conversar depois Mary? Eu preciso me concentrar no trabalho se não vou bombar nessa matéria.

- Sem problema – ela dá um sorriso e me beija o rosto – Só vim te dá um beijo mesmo.

Ela se afasta devagar e volta a sua mesa. Olhei para o lado e Alice estava ali com aquele sorriso sarcástico e eu claro afundei a cabeça entre os meus braços que eu joguei sobre a mesa.

- Que os jogos comecem! – disse ela rindo.

- Era a última coisa que eu gostaria de ouvir de você nesse momento. – resmungo.

- Claro, vai ser épico ver ela sendo trocada por um garoto, mais novo do que ela. Ela vai ficar chocada quando descobrir que você agora é gay.

- Alice... – resmunguei tampando meus ouvidos.

O som do primeiro tempo soa pela escola. Pego meus livros e aguardo minha fiel escudeira nanica e insuportável arrumar seus livros para irmos em direção ao pátio principal da escola. Em meio ao amontoado de alunos eu vejo a distância que o novato estava com o Samuel. Que parecia ser o segurança dele naquela manhã.

- Porque ele não desgruda dele? – murmuro.

- Boa pergunta. Eles devem se conhecer no mínimo. Para que ele esteja daquele jeito com ele. Super protetor.

- Não gosto disso.

- É melhor se acostumar. Ele chegou primeiro que você. – ela ri.

- Alice!

Todos no pátio param e olham em minha direção. O garoto estava se afastando rápido, mas seus olhos olharam vagamente o amontoado de alunos que se virava em minha direção e seguiu ao lado de Samuel.

- Se você queria atenção. Conseguiu.

- Cale-se. – digo puxando Alice para longe dali.

As aulas daquele dia se encerraram, sem perder muito tempo corri para o estacionamento onde alguns alunos já se aproximavam para pegar seus carros. Alice caminhava devagar em minha direção, parecia entediada, mas se posicionou ao meu lado e colocou seu braço em meu ombro me usando como apoio. A olhei vagamente e enquanto ela fingia que eu não existia.

Não demorou para que Samuel aparecesse com o garoto novo ao seu lado, eles seguiram para o carro de Samuel e aquilo me incomodava de certa forma. Até que sem a menor cerimônia Alice grita:

- Isa! – o tom animado não se parecia em nada com o tedio com que ela aparentava ter.

Uma garota de um metro e setenta, olhos castanhos olhou para ela e acenou. Ela usava jeans rasgado e uma blusa preta, botas de couro preta e mascava chiclete, seus cabelos eram negros com uma mecha vermelha.

- Oi Alice. Tudo bem?

- Tudo menina. – aquela não parecia me nada com Alice. Não havia o menor sarcasmo em sua voz – Mas me conta quem é o aluno novo?

Ela olha na direção do garoto e aponta de forma nada discreta, enquanto ele entra no carro. Parecia perdido em seus pensamentos.

- Math. Ele é um amor de pessoa.

- E ele é parente do Samuel? – sussurrou ela, como se fofocasse.

- É primo dele.

- Ah...

- Mas agora eu tenho que ir, minha mãe me mata se eu não ajuda-la em casa.

- Tudo bem. A gente se fala Isa.

- Até mais.

Elas se despedem. Alice suspira, e dá umas palmadinhas nas minhas costas.

- Agora você sabe o nome dele.

- Eu sei. – digo com um sorriso no rosto.

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