Capítulo 10 - O casarão

Os campos verdes se estendiam ao longe, a brisa fazia com que a copa das arvores se movessem calmamente. Os pássaros cantavam e o som de um riacho inundava a minha mente. Olhei a minha volta e não reconheci o lugar, e muitos menos soubera como tinha ido parar ali. A única coisa que eu me lembrava era de ter caído e logo depois... Nada. Um enorme buraco no vazio. Olhei para o horizonte e uma de uma nuvem enevoada começou a aparecer um enorme casarão, e como se algo que eu não pudesse ver me guiasse ate lá, então caminhei pela estrada que se formava aos poucos enquanto meus pés tocavam o chão.

Quando estava a passos da pequena escada que dava acesso a varanda do casarão, uma voz familiar ecoou em minha mente e a porta de madeira branca se abriu devagar, o rosto dele estava enevoado espessamente eu não podia ver quem estava abrindo a porta, mas ele estava devidamente vestido com o que parecia ser um smoking ou um terno – nunca fui muito ligado nessas coisas – seus olhos pareciam preocupados, enquanto a nevoa se dissipava e para minha surpresa eu o conhecia, porque ele era... Eu. Aproximei-me dele, ele não pareceu perceber a minha presença ali, levantei a minha mão sobre seu rosto e ele não pareceu se importar.

"Ele não pode me ver" – pensei comigo mesmo. – "Isso é uma lembrança? Impossível eu não me lembro...".

Então houve um estalo na minha mente.

- Não me importo com a profecia Lucius, me importo com o que é meu por direito.

- Então terei que fazer tudo como nas outras vezes?

Era disso que eles estavam se referindo? Isso já aconteceu antes? Como poderia ter acontecido? Eu não me lembro de nada disso. O que esta acontecendo aqui? Então por um descuido eu o toquei. Um bilhão de imagens passaram pela minha mente e cai no chão atordoado, quando finalmente consegui me recuperar vi que eu estava em pé. Olhei para mim mesmo. E mais uma vez fiquei perplexo.

Eu era ele. Claro que ele era eu e visse versa. Eu estava ficando mais confuso do que nunca, mas o termo mais correto é dizer que agora eu estava dentro do um 'eu' que eu não me lembrava. Meu corpo se moveu sozinho, mas minha boca não se movia enquanto eu falava comigo mesmo. Eu estava sendo um passageiro naquele corpo. Uma versão minha.

- Isto esta a te preocupar Stepan? – disse uma mulher de olhos azuis e cabelos vermelhos que vestia um lindo vestido negro, bem decotado.

- Como não posso me preocupar Katharine? Eles pensam apenas nos seus interesses. Estão dispostos a fazerem o que for para se livrar dessa maldição. Inclusive me matar. O que não está a demorar não é mesmo?

- Como podes falar algo assim? Sabes que seus pais não permitiram tal brutalidade. Eles amam você.

Comecei a ri.

Eu era apenas um espectador. Alguém que deveria ver apenas e pelo pouco que entendi aquilo já havia acontecido há muito tempo.

- Estais tão enganadas com a reputação criada por eles minha cara. A solução para os problemas de nossa linhagem esta na sua frente. Quem tu achas que deu a ideia para tal ritual? Meus amados pais. Em prol do bem-estar de nossa família. De nossa linhagem. Mas só o que vejo é a felicidade deles por finalmente conseguirem sua liberdade.

- O que quer dizer com isso? – ela me olhou atônita.

- Esta tudo preparado, serei morto na lua cheia de hoje. Serei um cordeiro para o sacrifício, eu sou a "liberdade" como meu próprio pai se vangloria. Salvarei a linhagem, impedirei a desgraça dessa família e sobreviveremos a todas as eras.

Os olhos de Katharine estão marejados e ela se aproxima de mim e me abraça.

- O que vais fazer?

- Tenho um plano. Falei com a velha Lockart.

Ela se afastou de mim e me olha perplexa.

- Já não basta onde teus pais estão se metendo, você também ira seguir pelo mesmo caminho?

- Não. – virei e olhei para o largo campo verde que seguia ate onde minha vista podia alcançar. – Irei fazê-los provar do próprio remédio, por todas as eras.

- Me diga o que vai fazer então...

- Sei que posso confiar em você a minha vida e sei que guardara este segredo Katharine.

Aproximo-me dela e a abraço e sussurro:

- Preciso que me ajude.

- Podes contar comigo, sempre.

- E para sempre, levarei você comigo.

Então a nevoa começa a refazer sob meus olhos, o tempo para e algo me expulsa do corpo de Stepan. Sou jogado na grama verde e observo o casarão sendo engolido pela nevoa escura, com as figuras deles desaparecendo enquanto ele conta o plano para Katharine. Tudo começa a desmoronar, a nevoa espessa se aproxima de mim e...

Meus olhos se abrem. O sol já estava no alto do céu e os pássaros cantavam então percebo que estou encharcado e a água corrente passando pelo meu corpo. Veja a copa de uma arvore balançando devagar, ao que parecia eu estava deitado nas margens de um riacho, me levanto devagar e observo o local onde estou. A árvore era enorme e tinha raízes firmes e grossas. O riacho passava por entre suas raízes e quando dei um giro para tentar saber como sair dali fiquei estático ao ver.

O casarão. Seu prédio continuava o mesmo – ou quase – o musgo e as arvores haviam tomado toda a planície verde que havia anos atrás, o riacho deve ter criado um desvio natural. Plantas se aglomeravam em toda a sua antiga imponência. Adentrei o riacho e me pus a caminhar em direção aquele misterioso lugar. Minhas pernas estavam completamente afundadas na água, enquanto eu me esforçava para atravessar o riacho lutando contra a sua correnteza.

Quando finalmente consegui sair da água e me postei em frente ao prédio um calafrio subiu meu corpo. Algo me dizia que eu deveria entrar, mas outra parte de mim mandava eu me afastar dali o mais rápido eu pudesse. E em meio a uma batalha interna para decidir o que eu iria fazer meus pés começaram a caminhar ate a entrada, subi todos os degraus e segurei na velha maçaneta enferrujada, girei e a porta se abriu, rangendo e ecoando no interior da casa.

Caminhei pelos corredores da casa, até que uma mulher de vestido negro, cabelos vermelhos longos e olhos azuis que vagava pelo local se virou e me olhou. Ela se aproximou tão rapidamente que não pude perceber quando ela estava tão perto de mim.

- Como achastes este lugar? – ela me perguntou.

- Katharine? – falei o primeiro nome que me veio à cabeça.

Ela pareceu surpresa e me olhou cuidadosamente.

- Finalmente começou.

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