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Eu não queria ser um semideus.

Ah, olá, mortal.

Se está se perguntando o que é ser um semideus, posso te responder com prazer. Sinceramente, é a pior coisa que poderia acontecer a alguém.

Não, não sou Percy Jackson, se é o que está pensando.

Nós somos parentes, mas não chegamos a ser próximos. Ele é filho de Poseidon e eu sou filho do filho do tio dele. Confuso, não é?

Deixe-me apresentar-me para vocês, então.

Meu nome é Jeon Jungkook e sou filho de Apolo. É, aquele deus das músicas, do arco e flecha, das rimas sem graça, das profecias repentinas e do charme barato. O grande deus do Sol.

Não é lá muita coisa ser filho dele, para falar a verdade. Eu até acho sua irmã Ártemis mais legal, apesar de ela odiar todos os homens da Terra.

Ok, desculpa, pai, não precisa atirar uma flecha em mim, eu estava apenas brincando.

A questão é que é chato ser descendente de um deus, ter toda essa responsabilidade de heroi e blá blá blá. Não que eu seja importante e tenha uma história tão relevante como Percy Jackson, Hércules ou até mesmo o outro Perseu. Ainda assim, cumpro missões e nas horas vagas luto contra monstros.

Além disso tudo, sou disléxico e tenho déficit de atenção.

Perfeito, não?

Se também está se perguntando se sou charmoso e bonitão que nem Apolo, minha resposta é sim. Sou tão belo quanto meu pai, posso dizer, mas não sou um "deus grego".

Ha, ha, irônico. Ser chamado de deus grego é um elogio para os mortais.

É estranho. Eles são bem peculiares.

As principais características que herdei do meu pai são a pele bronzeada, as pintinhas, os dentes de coelho, os cabelos claros (que eu pinto de castanho por não curtir muito o tom) e o gosto pela arte. Música, principalmente. O resto é por parte da minha mãe. Meu nariz e meus olhos cor de jabuticaba são totalmente dela.

Este ano, ela me matriculou em outra escola, já que fui expulso da última.

Sim, também sou problemático como o Percy. É coisa de semideuses, isso de ser expulso de todos os colégios possíveis.

Não é ruim estar em novas escolas, até gosto de me socializar com os mortais e conversar. Só é um saco ter que estudar sendo disléxico e tendo déficit de atenção.

Ah, pai, por que invés de me "presentear" com esses transtornos não me deu um poder melhor?

No entanto, não posso reclamar. A distração durante as aulas me dá vantagens nas batalhas. Ter TDAH me fez um bom lutador, modéstia à parte. Eu e meu arco de ouro somos imbatíveis.

Sempre que entro em um colégio novo, torno-me popular. Sou simpático, divertido, brincalhão, caloroso e uma vista maravilhosa para os olhos humanos. E ainda estou sendo modesto. Sou uma ótima companhia, não há como negar.

O problema é que aparentemente nessa escola eu não tive tanto sucesso assim e eu sei bem o motivo.

Kim Taehyung.

Só de citar seu nome, sinto calafrios.

Em apenas uma semana de aula, ele conquistou os meus mortais. É injusto, eu que deveria estar rodeado de amigos e sendo paparicado por ser um ótimo cantor e tocador de ukelele.

A questão é que, diferente de mim, que sou o meio-sangue legal, divertido e interessante de todos, ele é conquistador por ser apenas... bonito.

Não que eu o ache bonito. Longe disso. Acredito que ele é estimado demais. Ele nem é isso tudo que pensam.

O motivo para ele ser tão amado pelas meninas e pelos meninos é por ele ser filho de Himeros. É, esse garoto ridículo de alto, insuportável, branco que nem uma folha de ofício, com cabelo loiro seboso e olhos castanhos cor de vômito, é filho do famoso deus do sexo.

Não me surpreende ele ser tão desejado. Com essa sedução de quinta, até quem não gosta de homens cai pelo seu encanto. Acho ridículo.

Ele é a personificação de um filho de Himeros e é um baita de um safado com uma sede insaciável de sexo. Perdi as contas de quantas vezes vi ele flertar com inúmeros alunos e levar um ou outro para o banheiro, provavelmente para foder. Isso já na primeira semana de aula. Total falta de vergonha e respeito.

Os filhos dos Erotes são todos uns babacas sem noção. Uns forçam os humanos a se apaixonarem contra suas vontades, outros separam casais que parecem estar em crise, e alguns, como Taehyung, encantam pobres mortais só para saciar sua fome de relações carnais.

Repúdio a cada um deles.

Eles também pensam que são arqueiros melhores que eu e meus irmãos. É óbvio que isso é uma mentira. Nós somos milhões de vezes mais habilidosos. Treinamos com arco e flecha desde crianças e acertamos qualquer alvo até de olhos fechados.

E, nesse momento, estou desejando atirar uma flecha de fótons bem na testa oleosa do filho mais insuportável de Himeros.

— Eu consigo sentir seus raios solares me queimando agora, Jungkook.

Esse é Min Yoongi.

Yoongi é meu melhor amigo. Ele é filho de Hermes, o deus da riqueza, da sorte, das viagens, das estradas, do comércio, dos ladrões... Yoongi é um ladrãozinho de merda, adora furtar meus objetos (principalmente meu arco energizado, que foi meu presente de reclamação) apenas para me irritar, mas ainda assim é o ser mais legal que eu conheço. Divirto-me demais quando ele faz graça com o tênis alado que ele ganhou do pai. As primeiras tentativas de voar foram magníficas de assistir e eu me abençoo todos os dias por ter presenciado as quedas hilárias.

— Desculpe, estou estressado — respondo, suspirando.

— É por causa do Taehyung? — pergunta Yoongi, cutucando minhas costas.

— É. Ele me irrita demais.

— Isso tudo é inveja, só porque ele pegou sua fama, seu sucesso e suas paqueras.

— Ótimo conforto, Yoongi, muito obrigado.

— Não há de quê.

— Eu só não entendo. — Bufo frustrado, desejando ter visão de raio laser para desintegrar pelo olhar aquele cretino que está, sem vergonha alguma, flertando com o garoto que eu estava paquerando semana passada. — O que ele tem que eu não tenho?

— Um pau grande.

Viro a cabeça tão rápido que fico com torcicolo.

— O que?

— Estou brincando, filhote. — Yoongi gargalha escandaloso. — Himeros é o pai dele, você esqueceu? O cara praticamente exala feromônios. Ele é lindo e seduz só por existir, é óbvio que todos vão se encantar por ele.

Resmungo outra vez, revirando os olhos.

— Isso é ridículo. Ele nem é tão bonito assim.

— Olha, Jungkook, eu concordo com tudo o que você diz e estou sempre do seu lado, mas dessa vez preciso te contrariar. Até eu acho aquele garoto um gato. Pegava, foda-se.

Lanço um olhar duro para Yoongi.

— Nem pense nisso — digo.

— Por quê? Vai ficar com ciúmes? Se quiser também posso te beijar, sou totalmente aberto a isso.

— Eca, não, sai fora.

Mostro língua a ele.

— Pare de reclamar, vai. Você precisa aceitar que seus dias de glória e fama acabaram. Não é por ser filho do Sol que outros não podem ofuscar seu brilho.

— Você é o pior amigo do mundo.

— É meu dom.

Yoongi sorri e dá um beijo babado na minha bochecha, fazendo-me soltar um barulho de repulsa. Nojento.

Taehyung vira a cabeça para trás e pisca para mim, com aquele sorriso idiota nos lábios. Ele se levanta e sai do refeitório de mãos dadas com o meu paquera, irritantemente ainda sem tirar os olhos de mim.

Eu, Jeon Jungkook, odeio Kim Taehyung com todas as minhas forças possíveis de meio-sangue, e, se pudesse, explodiria esse corpo de merda com milhões de flechas e raios.

Depois da cena ridícula, temos aula de história. A professora é uma idosa adorável, no auge dos seus sessenta anos, com cabelos grisalhos, pele enrugada e lentes de grau forte nos olhos. Depois do professor de arte, ela é a minha favorita.

— Bom dia, turma — diz ela, com sua voz rouca, tossindo contra o punho para limpar a garganta. — Os coordenadores me pediram para informar a vocês que faremos uma excursão no fim do mês que vem para visitar um museu. Não é obrigatório, mas é importante para as próximas provas e as notas finais.

Excursão a um museu?

Genial!

Adoro museus. Para mim, é um grande prazer observar as esculturas bem feitas, os belos quadros, descobrir um pouco mais sobre os artistas de séculos atrás...

Sou um fã da arte, seja lá qual for ela.

— Faremos uma longa viagem de ônibus e ficaremos por dois dias em um hotel próximo ao museu. Tragam autorização por escrito de seus responsáveis, ou não poderão ir.

A aula segue como qualquer outra e eu só consigo pensar no quão legal vai ser a viagem escolar. É uma das coisas que mais gosto, principalmente porque é logo no início das aulas e se uma tragédia acontecer que me faça ser expulso, pelo menos não perderia a melhor parte do ano.

Yoongi, atrás de mim, cutuca minhas costas.

— Ei, você vai?

Viro o rosto para olhar para ele.

— Óbvio. Não perco por nada.

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No dia seguinte, temos química no primeiro horário e a turma é dividida em duplas, cada uma em uma mesa comprida com todos aqueles materiais legais para experimentos. Para minha infelicidade, Yoongi é meu parceiro e ele não está aqui hoje. Deve estar doente. Fico, então, sozinho em minha mesa.

Até uma criatura alta com cabelos loiros cobrindo o rosto se sentar ao meu lado.

— O que está fazendo aqui? — pergunto entre dentes, arrastando minha cadeira para me afastar dessa presença desagradável.

— Sou sua dupla hoje. Minha parceira faltou também. Uma pena, pensava em levá-la ao banheiro depois das aulas. — Taehyung apoia o cotovelo na mesa e estala a língua no céu da boca.

Reviro os olhos.

— Repugnante.

— O que? Os banheiros daqui são limpos. — Ele dá de ombros, despreocupado.

— Você é um babaca.

— Obrigado. Vindo de você, é um elogio.

Meus olhos rolaram outra vez.

— Você só pensa em foder, pervertido.

Taehyung olha para cima, batucando a ponta do dedo no próprio queixo, e sacode a cabeça em negação.

— Não, também penso em outras coisas — responde ele. — Tipo, ser fodido.

Ele sustenta um sorriso ladino nos lábios, que faria qualquer um dessa sala abrir as pernas automaticamente, mas isso só me causa ânsia.

— Prefiro não saber em quais coisas você pensa além dessas. — Afasto a cadeira para ficar o mais longe possível desse meio-sangue descarado, evitando ser contagiado por essa praga ambulante.

— Ei, não se afaste.

Ele puxa as costas do meu assento, puxando-me para perto dele em um movimento rápido. Prendo a respiração.

— Você está louco? — rosno. — Quer me derrubar? Saia de perto de mim.

Desço em um pulo e levo minha cadeira para o mais longe que posso, por pouco não apanhando meu arco e mirando uma flecha em um dos malditos olhos castanhos daquele cretino.

— Até parece que eu sou um monstro e você quer ficar longe de mim. — Taehyung estala a língua e finge uma expressão de desapontamento.

— Você é um monstro e eu quero ficar longe de você.

— Poxa, solzinho. Isso tudo é frustração sexual, é? Está todo irritadinho porque roubei seu macho e agora não tem quem foder? — Ele pende o lábio inferior para fora, pondo no rosto uma expressão de falsa pena. — Desculpe por ter fodido com ele primeiro, bebê.

Outro sorriso de canto aparece naqueles lábios ridículos e eu estou a um passo de me transformar no Sol e queimar ele todinho.

— Vai se foder.

— Se me der a honra de ir comigo...

Rosno, sentindo minha paciência escorrer pelos meus dedos.

— Babaca.

Pelo resto da aula, tento ignorar a presença desagradável, que por nem um segundo sequer ficou quieta. Esse cretino ainda tem a coragem de flertar à distância com os colegas bem do meu lado. Inconveniente ao extremo. Desejo que um raio caia na cabeça dele.

Juro beijar o chão de agradecimento quando o sinal toca e corro para a minha salvação em forma de sala de geografia. Lá, pelo menos, posso me sentar longe desse infeliz sedutor barato.

Sinto falta de quando eu era o centro das atenções. Agora nem uma alma dessa turma me enaltece por ser um grande artista. Nem uma sequer diz que sou o mais simpático e que minha voz é a mais linda já ouvida nesse mundo.

Odeio esse maldito filho de Himeros.

Que essa merda de encanto sexual falhe e o pau dele caia.

Ou eu mesmo farei ele cair. 

:)

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