Barman Terapêutica
- Foi assim que tudo começou -- tomo mais um shot, fazendo uma careta no fim.
A funcionária cerrou as sobrancelhas, parecendo refletir, buscando assimilar tudo que eu disse. Isso se ela cogitou me ouvir e prestar atenção em algum momento.
Havia acabado de desabafar minhas frustações e os acontecimentos que ainda me assombravam por todos esses anos, para uma completa desconhecida.
Não me encontrava em estado são. As coisas que vinham a minha mente não passavam de um amontoado de borrões, seguidos de uma forte enxaqueca e a detestável vontade de vomitar. Tenho a leve impressão de que, se eu fizer isso, meu rim vai junto.
Meu estado era deplorável.
Questiono-me como ela conseguiu me suportar todo esse tempo. Deve ter se passado horas desde que cheguei e me sentei nesse banco, começando a falar, não conseguindo mais parar. Somente interrompia minhas palavras para beber.
- Certo, mas o que isso tem a ver com o fato de você estar se embebedando em plena quarta-feira à noite? -- limpava o copo com um pano úmido, dividindo-se entre me escutar e fazer o seu trabalho.
- Você não ouviu nada do que eu disse? -- questiono em meio a resmungos -- É tudo por causa dele.
- Ok, Ok, Ok -- deixa o copo de lado, direcionando seu olhar intenso sobre mim -- Você se aproximou dele, aparentemente, isso eu consegui entender. Mas não responde a minha pergunta. Como veio parar aqui?
Deposito o cotovelo na mesa, apoiando minha cabeça na mão. Por uma fração de segundos, tombo a cabeça para o lado, quase batendo com a mesma na mesa, desencontrando minha mão, estando desnorteada.
Por sorte, essa moça me ajuda, reerguendo-me com sua mão, delicadamente.
- Sabe o que acho? -- meus olhos brilham, explorando sua face.
- Que a essa hora deveria estar em casa comendo biscoitos quentinhos com um bom vinho tinto enquanto assiste uma maratona sem intervalos de Bridget Jones? -- fala rapidamente, servindo mais um copo -- Ou, quem sabe, com seus ex-colegas de classe.
Tento pegar o copo, fazendo um grande esforço que não seria necessário caso eu estivesse sóbria e com meus neurônios intactos.
- Que você deveria ser modelo -- começo a rir comigo mesma, transmitindo loucura. Paro de súbito, somente nesse instante reparando no que disse -- Ei, como sabe do reencontro estudantil?
- Porque você me disse isso, no mínimo dez vezes. Onze agora -- estende o braço, dando a bebida para um rapaz que notei a existência somente agora -- Bom proveito.
Lançou uma piscadela atraente.
Sorriu gentilmente para ele, enquanto eu apenas múrmuro manhosa. Desapontada e decepcionada por não ter recebido outra bebida.
Meu coraçãozinho necessitava de mais um gole para se acalmar.
- Eu disse, não disse? -- bato a cabeça na mesa, em sinal de desistência, choramingando -- Sou um caso perdido.
Um suspiro escapa dentre seus lábios, antes de dar uma batidinha amigável nas minhas costas. Buscava me reconfortar com esse gesto, mas apenas conseguia me fazer sentir mais miserável.
- Todos tivemos corações partidos e, quem não teve, acabará tendo inevitavelmente. Assim como temos nossos corações feridos, também iremos ferir ao longo da vida, mesmo sem querer -- suas palavras foram sábias, mas na minha situação atual, apenas serviram como gatilho.
- Não, ele não. Ele é do mal. Se diverte partindo corações alheios e ainda recolhe os caquinhos para botar em cada refeição sua, os comendo sem dó nem piedade -- levanto rapidamente, batendo meu punho com força na bancada. Arranco uma expressão de espanto sua, devido a minha manifestação de violência -- Ele é como uma bela rosa. Tem seu charme e seu cheiro, mas não se engane, porque ainda há os espinhos.
- Homens -- revira os olhos, desdenhosamente -- Sei como é. Meu irmão consegue ser pior do que todos os meus ex-namorados.
Pego o copo de sua mão e uma garrafa, servindo não para mim, mas para ela. Parecia ter desanimado, estando distante ao mencionar o irmão.
Empurro o copo com o dedo, em sua direção.
- Não bebo em serviço -- recusa educadamente, dando um pequeno sorriso.
- Sua situação é pior do que a minha. Acredite vai fazer bem -- incentivo, querendo fazê-la relaxar -- Se fosse qualquer outro homem, poderia enterrá-lo vivo, mas como se trata da família o assunto se torna mais delicado. Somos obrigadas a suportá-los e segurar essa vontade de afogá-los em consideração a nossa família.
A moça nada diz, mantendo-se quieta. Parecia estar tentada, pensando bastante em minhas palavras e na proposta.
- Permita-se um gole -- formo um sorriso delicado.
- Quer saber? Eu mereço isso -- agarra a bebida, virando tudo em um único gole. Me impressiono ao perceber que ela não expressa nenhuma careta, mantendo-se firme -- Trabalho feito uma condenada, vendo todos se divertirem e se embebedarem. Quem liga se estou em serviço? Muitos fazem coisas piores em seus turnos.
Bato palminhas, orgulhosa de seu discurso.
Obviamente não desejo que ela tenha problemas por beber um simples gole, mas não suporto ver alguém presa, reprimindo uma vontade por medo de ser repreendida. Ainda mais quando o assunto é homens, beber é preciso, é vital e necessário.
Sem a bebida, muito provavelmente os índices de homicídios do gênero masculino aumentariam. O mundo acabaria em questão de meses, com uma belíssima e gloriosa revolução feminina.
- Tenho uma grande solução para todos os seus problemas -- anuncia, ganhando minha atenção -- Basta ir.
- O que? -- ergo uma de minhas sobrancelhas, sem entender.
- É isso que você ouviu -- aproxima-se, seus olhos bem abertos, refletindo a luz. Parece que ela havia se contagiado com minha loucura -- Apenas vá nesse encontro estúpido.
Abaixo o olhar, apavorada somente em imaginar.
- Não consigo -- abaixo a voz pela primeira vez desde que pisei nesse bar -- Não sei se sou capaz.
- E tudo aquilo que você me disse? Apenas eu terei o privilégio de escutar? Diga a ele tudo que você quer, aproveite e diga a todos -- da forma que diz, parece simples -- O que poderia acontecer? Lançarem uma maldição em você?
Maldição.
Ao pensar nisso, minha mente vagueia e para em meus relacionamentos, fazendo uma reprise de todos que tive até o momento. Todos propícios ao fracasso, alcançando o único sucesso de serem péssimos.
Esses relacionamentos tinham duas coisas em comum. Primeiro, tiveram o mesmo fim e, segundo, foram depois de Tristan.
Meu coração não amou ninguém além dele. Por mais que eu me esforçasse, nunca conseguia e no final não sentia absolutamente nada pelo meu atual parceiro. Acabava me decepcionando e os ferindo mesmo que sem intenção. Pessoas inocentes com um futuro pela frente, tendo a má sorte de, no meio do caminho, terem esbarrado comigo.
Fui inconsequente. Em vez de reparar no que estava em minha frente, apenas decidi ignorar e continuar tentando, magoando cada vez mais gente que, novamente, não tinha nada a ver com isso.
Mas agora sei o que fazer para impedir esse acarretamento de corações quebrados e esquecidos. Só eu poderei fazer isso, não há outra alternativa que esteja em meu alcance.
Preciso quebrar essa maldição que ele lançou em mim.
Não adiarei mais. Cedo ou tarde terei que fazê-lo e não pretendo voltar atrás, me atormentando com algo que poderia muito bem ter aproveitado e resolvido.
- Se não ir por você, vá por mim -- suas mãos apertam meus braços, lançando-me uma encarada confiante -- Melhor, não só por mim, como por todas as mulheres que tiveram seus corações partidos ou foram deixadas no cargo de amiga ao invés de serem promovidas para namorada.
Essa foi a gota d'água. Joguei toda minha razão e dignidade no lixo reciclável mais próximo e me dei por vencida, enfim me decidindo.
Minha boca fechada vira um sorriso destemido.
- Esta noite resolverei todos os problemas que me afligem e, se tudo der certo, chutarei a bunda do meu maior problema -- pego uma taça, erguendo estando inspirada. Viro de uma vez, nem me lembrando de respirar.
No meio da bebida, apoio o copo desajeitadamente na mesa, não conseguindo repreender uma careta. O gosto forte impregnava minha boca, percorrendo até chegar em minha garganta, parecendo queimar essa região.
- Acho que estão servindo xixi ao rum -- falo em meio as tosses -- Estão planejando envenenar alguém.
Deveria ter aguardado para sentir o sabor do líquido antes de engolir como se fosse água. Se tivesse tido um pouco mais de paciência, conseguiria cuspir a tempo e meu estômago não estaria suplicando por ajuda agora.
- Meu copo! -- esbraveja, indignado.
Elevo minha mão até o beiço, limpando os resquícios da bebida. Apenas consigo fazer uma expressão de constrangimento, forçando uma risada nervosa.
Sua cara estava fechada, parecendo não ter gostado nem um pouco do meu comentário. Levando em conta que praticamente arranquei o copo de sua mão e tomei seu drink impiedosamente em sua frente, há razão para eu receber uma sequência de disparos de sua forte encarada.
- Tudo bem, senhor. Te darei uma novinha em folha -- abre um amplo sorriso, acostumada com esse tipo de coisa acontecendo -- Por conta da casa.
- Táxi! -- balanço os braços, querendo chamar a atenção dos motoristas.
Uma voz sussurra repetidas vezes que estou os assustando mais do que os fazendo se aproximar. Me faz ter a leve impressão que pareço um boneco do posto.
Preciso admitir, eu seria um boneco do posto bem atraente. Esse vestido azul combina mais comigo do que qualquer outro par velho de meias em meu armário e olha que eu amo todas as minhas meias igualmente, até as furadas, essas são as minhas favoritas porque se estiverem furadas, significa que tem história.
Uma mulher surge, assobiando para o veículo, dando um breve aceno.
Não me contenho, sentindo a necessidade de analisá-la. Possuía um vestido vermelho tubinho que marcava suas curvas, caindo muito bem, sendo nem um pouco discreto.
Ao subir o olhar, ela não estava mais lá, andando em direção a um táxi que havia parado em sua frente. Não esperou míseros minutos, sendo atendida rapidamente.
Abro a boca, encarando fixamente o carro mesmo após sair, seguindo pela rua movimentada de quarta, com todos voltando do trabalho, indo para suas casas.
Como ela conseguiu fazer isso? Sério, preciso urgentemente aprender mais dessas técnicas ardilosas.
- Ei! -- aceno, dando alguns pulinhos.
Não tinha ninguém para me dar carona, estava com álcool percorrendo meu sangue e entupindo meu cérebro, então nem se eu tivesse um carro poderia usá-lo.
Recorreria ao transporte público, entretanto não sei qual devo pegar para o restaurante chinês mais próximo. Escolheram justo o lugar mais difícil de me localizar.
Suspiro exasperada, batendo o pé no chão.
Até então não entendi o porquê de terem parado para ela. Estão querendo me dizer indiretamente que esse vestido não ficou bem em mim ou eles tem preferência nas bronzeadas e altas?
Quando enfim, por um milagre, algum ser de bom coração me notou, decidiu então parar. Evito reclamar por ele ter parado alguns passos a frente, engolindo o choro e caminhando em sua direção.
Estava mais aliviada. Menos uma coisa para eu me preocupar, posso planejar o que fazer ou dizer, dentro do carro.
Se a pessoa for verdadeiramente bondosa, irá ensaiar comigo. Para fazê-lo ficar tentado, uma belíssima avaliação alta na jogada e, tenho quase certeza, que também poderia fingir ser meu par e me acompanhar até a entrada.
Faltando menos de dois passos para chegar, um rapaz passa por mim apressadamente o que, para ser franca, não me importaria SE esse mesmo imbecil não estivesse indo diretamente para a minha carona, pretendendo roubar na cara dura.
- Espere, seu marginal! -- grito a primeira coisa que me vêm a mente.
Corro atrás de si, tropeçando em meus próprios pés, por uma fração de segundos perdendo o equilíbrio. Esses poucos segundos foram o suficiente para me retardar, o deixando na liderança.
Poderia simplesmente me dar por vencida e me esforçar para buscar outro, mas não sabia que horas eram. Não arriscaria perder mais um segundo sequer por conta dessas drogas de veículos baratos do século vinte um.
Perdendo a cabeça ao vê-lo com sua mão erguida preparada para tocar na porta, levanto meu pé direito, me permitindo parar por algum tempo, desafivelando meu salto cor de chocolate.
O alcanço, retirando em seguida e o arremessando. Uma satisfação descomunal preenche meu ser ao ver ele dar um pulo para trás, meu sapato quase atingindo uma parte de seu corpo.
- Ficou louca, dona? -- questiona, irritadiço.
- Não, meu querido, ainda não -- ando a passos firmes. Ao parar, fuzilo com o olhar sem piedade, não me importando em esconder minha fúria -- Você nem imagina como eu sou quando estou louca.
O motorista abaixa a janela, querendo saber o que raios estava acontecendo do lado de fora do seu carro e o porquê de tanta gritaria.
- Vão rachar? -- pergunta sério, arrancando uma risada incrédula minha.
Me recompondo, puxo ar de meus pulmões.
- Nem pensar! -- esbravejamos em uníssono.
Semicerro meus olhos, encarando ele mortalmente. Poderia ser presa somente pelo que estou pensando em fazer consigo, muito provavelmente venderia seus olhos verdes e lucraria com esse pequeno negócio.
Grandes ideias, grandes negócios. É o que dizem, apenas preciso pôr em prática.
- Certo, sendo assim, quem vai?
Direciono meu corpo para ele, segurando toda raiva dentro de mim, buscando paciência. A única forma de nos resolvermos é conversarmos como duas pessoas civilizadas.
- Como nitidamente tenho coisas mais importantes para fazer do que você, nem precisamos pensar muito a respeito -- eleva sua mão a maçaneta, puxando.
Dana-se a civilização! Irei fazê-lo engolir meu sapato até sair pelo seu traseiro!
Forço um sorriso.
- Não entendo do que está se referindo, mas não perderei o tempo que me resta para entender suas frases desconexas -- espalmo minha mão na porta, empurrando para dentro -- Nem pense em tocar nessa porta.
Ri provocativamente, duvidando da minha capacidade de castrá-lo apenas com a força de meu olhar.
- Hm, compreendo -- estufa o peito, se aproximando perigosamente -- O que? Está se referindo a essa porta aqui?
Se faz de sonso, não só encostando como apoiando, fazendo completamente o oposto do que disse. Parece um cachorrinho insolente, quando diz não, entende como um sim.
Não pensando em nada alternativo para fazer em um momento desesperador como esse, temendo chegar atrasada, aceito que situações desesperadoras requerem medidas desesperadas.
- Pelo visto sabe o que é uma porta -- cruzo os braços, meu olhar de desprezo percorrendo seu corpo de cima a baixo.
Sua boca abre, prestes a falar um monte de baboseiras novamente, elevo minhas mãos rapidamente até a barra do vestido.
Fecho os olhos com força, pegando coragem e enfim, erguendo o tecido para cima.
Com a mesma rapidez que levantei, eu abaixei, dando de cara com o homem desnorteado, não acreditando no que tinha visto nem no que tinha acontecido diante de seus olhos.
Nem eu acreditava, mas teria tempo suficiente para refletir e me arrepender disso antes de dormir. Além de sentir vergonha de mim mesma pelos próximos quatro anos.
- Bem, o papo foi legal, mas preciso ir -- sorrio, abrindo a porta em questão de segundos, me jogando para dentro do carro. Antes de ir boto a cabeça para fora da janela -- Não se sinta culpado por isso, qualquer um em seu lugar teria sido facilmente distraído.
Pisco, divertida.
Sem esperar uma resposta sua, vendo que ele ficaria com sua boca aberta em estado de choque por mais longos minutos, fecho a janela, pedindo para o motorista avançar.
Encosto no banco, soltando um longo suspiro.
Tristan, espero verdadeiramente que esteja lá e o que fiz não tenha sido em vão.
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top