Afetada por sua chegada
- Meu Polenguinho, desculpe pelo atraso. O trânsito estava uma loucura, pareceu até que a Katty Perry estava fazendo uma apresentação exclusiva -- segura meus ombros de forma delicada, os acariciando levemente.
Viro-me para o lado, impedindo as tosses, tampando minha boca com a mão esquerda. Tenho quase certeza de que acabaria morrendo por falta de ar assim que o vi, sentindo meu coração querer pular para fora a cada tossida dada.
Tristan não havia mudado muito, entretanto posso dizer que essa é a primeira vez que o vejo com cabelo penteado, de forma normal. Se é que existe uma forma considerada normal.
Tenho noção de que, se existe, não está em seu vocabulário, sempre mantinha seu jeito não se preocupando com os comentários e os olhares. Ele sabia que era bonito, estando com seus fios para o alto ou careca.
O crucial era que ele estava aqui. Era real e, para completar, encostava em mim apenas como meio de comprovar.
- Polenguinho -- vira seu rosto para mim, seu olhar repleto de ternura -- Precisa pegar leve com a bebida, sabe o que sua mãe pensa sobre isso.
Refere-se as tosses bruscas que dava, provavelmente estando vermelha por conta delas agora. Olhando pelo lado positivo, não estava em tons diferentes por conta de sua presença ou de sua proximidade.
Tristan conseguia disfarçar seus reais sentimentos tão bem. Quase estava acreditando na sua falsa preocupação, porém me recordava de que não havia nenhum motivo para ela existir.
Permito me perder nesses olhos tão nostálgicos e profundos. Ainda se mantinham como imãs, me atraindo para perto instantaneamente.
Um momento, ele anda me chamando de que?!
Minha parte racional dizia que ele havia se confundido ou não estava mentalmente estável naquele fatídico momento.
Por sorte, Tristan decide se direcionar para Peter, voltando para sua posição inicial.
Ele se inclina um pouco na mesa, elevando a mão ao lado da boca, como se fosse contar uma espécie de segredo somente para nós três ouvirmos, excluindo todos os outros.
- No funeral do bisavó materno ela se embebedou de vodka -- sussurra, fingindo uma cara séria, escondendo seu sorriso -- No final da noite, não conseguia se manter em pé sem ajuda e, antes do funeral acabar, dançou em cima da mesa de aperitivos.
Cerro as sobrancelhas, enrugando a testa.
- Ei, não conte mentiras dessa for...-- Tristan logo enfia uma batata frita em minha boca, me calando.
Solto um grunhido, seguido de um breve resmungo.
Preciso admitir, estava gostosa, mas minha raiva apenas aumentou. Não tendo o que fazer, seguro a vontade de cuspir os restos da batata em sua face, imaginando que seria um tremendo desperdício de comida.
Mantenho-me mastigando enquanto o metralhava com o olhar.
- Isso tudo apenas com a roupa de baixo -- finaliza, ignorando minha existência por completo -- Depois disso me pediram para ficar de olho, mas vez o outra meu Polenguinho escapa para beber. Parece um bebezinho, não é?
Como se não bastasse enfiar aquela batatinha gordurosa na minha boca, aperta minha bochecha, fazendo me sentir uma tola oficialmente.
Encaro meu copo vazio fixamente, imergida em pensamentos. Não sentia as horas passando, as vozes ao fundo sendo abafadas pela minha própria mente.
Não prestava atenção em nada ao meu redor, não conseguia.
Depois de toda aquela encenação fajuta, pensei que as coisas ficariam estranhas, fora do lugar desconfortavelmente, mas muito pelo contrário. Tristan mostrou tranquilidade diante da situação, conversando normalmente com todos, de forma amigável.
Todos, menos eu.
Para meu desagrado, nem se importou em direcionar seu olhar para mim enquanto estava emburrada e sentada na cadeira. Era como se minha presença não tivesse passado daqueles minutos onde o mesmo fingiu ser meu parceiro, uma mera figurante no meio de coadjuvantes caricatos.
Uma figurante que conseguiria a proeza de ser cancelada por não ter a capacidade de conquistar os telespectadores do programa, em quatro minutos de aparição.
E, agora, me questiono o porquê seu jeito indiferente me incomoda tanto e porquê raios seu apelido estúpido faz falta. Apelido esse que não conseguia nem ser criativo.
Não querendo me mostrar afetada, a essa altura devendo estar acostumada com sua forma desaforada de agir, apenas brincava de construir casinhas com os palitinhos de dentes. Utilizo os papeis de embalagem como moradores, os amassando, fazendo pequenas bolinhas.
- Não acredito. Esse cara é demais! -- se debruça na mesa, me amassando involuntariamente enquanto alcançava Tristan -- Ele conseguiu fugir da primeira aula do semestre, na faculdade de medicina, sem levar ocorrência.
Ao retornar ao seu assento, apoia sua mão próximo a minha estrutura, a derrubando em questão de segundos. Não sou capaz de salvar nada, acontecendo muito rapidamente.
Observo com pesar os palitos caírem, estática. Minha boca entreabriu, apenas saindo um gemido sôfrego.
Deposito minha mão na mesa, arrastando os palitos para o lado, desistindo completamente do meu plano de ser arquiteta por uma noite.
Com o cotovelo na mesa, apoio o rosto em minha mão, entediada.
Dou uma passada de olho em cada um que estava naquela mesa, nem me preocupando em disfarçar. Afinal, já pensavam que eu era invisível, sendo assim presumo que não irão se sentir constrangidos com minha encarada nem um pouco discreta.
Dois rapazes haviam se retirado por conta das namoradas que ligavam sem parar, não fazendo falta alguma, nem se incomodando em parar a conversa para se despedir. Eu fui a única que acenei e me despedi com um sorriso. Falso, porém ainda assim consegui ser mais educada, ao menos fingir.
Peter estava todo sorrisos, com uma latinha em mãos, se pendurando no pescoço de, ninguém mais ninguém menos que, Tristan. Ele, por sua vez, não esboçava descontentamento com aquilo, mas também não expressava estar...Contente. Não sou capaz de decifrá-lo.
Nunca fui realmente boa nisso. Quando se trata dele, não consigo ser boa em nada.
Outros deles estavam mais conversando entre si. Vez ou outra entrando nas brincadeiras dos dois amiguinhos pimpões.
Me sentia estranha ao analisar a cena, pelo simples motivo de não saber, até o dia de hoje, que ele era próximo de Peter. Imaginava que podiam se conhecer, mas evitava ao máximo pensar a respeito por muito tempo.
Começando a sentir meus olhos pesarem, decido me levantar, pegando minha bolsa e a pondo em meu ombro com destreza.
Dando uma espiada pelo canto de olho para Tristan, repreendo um suspiro entristecido.
O que esperava? Que ele viesse correndo, me pegasse no colo e rodasse no ar em meio a gargalhadas extasiadas? Quanta idiotice em um pensamento só.
Ergo minha cabeça, não me deixando levar por esses pensamentos evasivos. Empino o queixo, buscando o mínimo daquela confiança de antes em mim. Boa parte dessa confiança foi embora, quando os shots que tomei saíram do meu corpo pelo xixi.
Dou alguns passos fracos, parando ao escutar um deles exclamar.
- Já vai, Caccini?! Nem pedimos uma pizza! Visto de onde veio, achamos que fosse te animar mais -- berra, chamando atenção indesejada para nossa mesa. Trinco o maxilar, segurando a vontade de xingá-lo.
- Ela deve ter se decepcionado com aquele que esperou a noite inteira para reencontrar -- revela, retirando a informação das vozes de sua cabeça.
Pensando em apenas ignorar, relembro do momento em que ousei jogar tudo na cara de Peter, batendo a porta. Fui interrompida por Tristan, entretanto agora não havia mais motivos para tal, sendo que tinha conseguido sua almejada entrada triunfal.
Viro-me, sorrindo diabolicamente.
- Sabe de uma coisa? Que tal enfiarem a pizza no rabo do Peter e comerem? Normalmente já fazem isso mesmo, não faria mal se dessa vez envolvesse algum aperitivo -- elevo meu dedo do meio para uma direção não especifica, deixando visível para todos -- Ah, não se esqueçam de lubrificarem com Ketchup. Dá um sabor adicional.
Giro meu calcanhar, seguindo rumo a porta de saída. Me sentia confiante e empoderada a ponto de, antes de empurrar a porta, acenar com a mão esquerda levantada, complementando:
- Aproveitem a refeição, rapazes! -- grito no fim, com teor irônico.
. . .
Parada na calçada em frente a rua, finjo esperar um táxi passar, me esforçando para ignorar sua presença ao meu lado. Era difícil, tenho que admitir, ainda mais com sua intensidade natural que emanava de si.
Lanço uma olhadela discreta. Estamos a uma distância perfeita de seis passos, seu olhar ainda mantinha-se para a rua, não se virando para me espiar em momento algum.
- Por que raios decidiu me seguir? -- me dou por vencida, indagando.
Não tenho uma resposta de primeira. Aguardo balançando meu corpo levemente para frente e para trás, sentindo o vento fresco dos carros que passavam atravessar meu corpo e esfriá-lo.
- Como chegou a conclusão de que sai em plena penumbra, abandonando um restaurante aconchegante para te perseguir no sereno? -- responde com outra pergunta, desviando.
- Deduzindo, oras -- sorrio de escárnio, garantindo que esteja bem no seu ponto de visão.
Reparo em uma leve risada escapar dentre seus lábios, achando graça de meu temperamento complicado. Provavelmente havia perdido o costume, se esquecendo de como sou.
- Para que eles não desconfiem que não somos um casal. Afinal, que cara decente deixaria sua namorada embriagada e sozinha, vagando pelas ruas? -- rebate como se fosse óbvio, me deixando sem argumentos -- Noto que ainda não aprendeu a agradecer.
- Você definitivamente não se enquadra no que a sociedade considera um "cara decente" -- retorno, ácida -- Também noto que você ainda é metido a Sherlock. Velhos hábitos nunca mudam.
- Não me importo com o que a sociedade pensa ou acha. Não há como agradar a todos, de todo modo -- dá de ombros, inocentemente -- E fico lisonjeado que você ainda me compare a ele. Somos igualmente inteligentes e charmosos.
Passo a língua nos meus lábios ressecados, enrugando a testa.
Esfrego minhas mãos uma na outra, buscando aquecer um pouco meu corpo que parecia esfriar cada vez mais ao decorrer da conversa.
- Caso eu tivesse a deixado, ele teria se aproveitado do álcool que consumiu e arrumaria uma forma de levá-la para casa -- apresenta um ponto plausível, me surpreendendo com sua preocupação.
Curiosa, viro minha cabeça para o lado, visualizando sua face. A expressão séria mantinha-se presente desde que saímos. Certo, não diria séria, considerando algo mais neutro.
Incrivelmente, seu sorriso frequente em deboche fazia falta. Nunca pensei que sentiria falta de algo que tanto me aborrecia. Bastava olhar para sua cara com aquele sorriso estampado, nem precisando dizer nada para meus neurônios ferverem.
- Qual é o seu problema? -- dessa vez mantenho meu rosto virado em sua direção, perguntando ríspida.
- Como? -- pisca, atordoado.
Reviro os olhos com sua resposta sonsa.
Decido me aproximar alguns passos, parando em uma distância segura em sua frente. O repreendia com o olhar, segurando a alça de minha bolsa buscando forças.
- Você me faz pensar que não viria, logo surge atrasado e, como se não bastasse, fingindo ser meu namorado. Depois disso age normalmente durante o resto da noite, como se nada tivesse acontecido, como se tudo não passasse de um delírio da minha cabeça -- boto tudo na mesa, exigindo uma resposta válida -- Não sei se é um novo joguinho popular entre os garotos da sua idade ou agiu por agir. Independente disso, quero que me responda porque, infelizmente, não pude compreender sua linha de raciocínio complexa.
Respiro fundo, estando ofegante ao desabafar tudo que pesava em meus ombros e atormentava minha cabeça a noite inteira.
Tristan apenas me encarava, não expressando nada de relevante ou que dedurasse o que pensava. Suas bochechas estavam rosadas devido ao frio que pairava por toda cidade desde semana passada.
Era possível ver fumaça esbranquiçada sair, denunciando sua respiração descompassada.
O analisando por mais tempo, meu coração acaba se remexendo em meu peito.
Ele estava em minha frente, após anos. Cogitava nunca mais vê-lo depois do colegial e, cá estamos nós, um de frente para o outro.
Me culparia e bateria na minha testa repetidas vezes por ceder tão facilmente, sem ele precisar me provocar para eu tomar tal atitude. A verdade é que ele não precisa fazer nada, nunca precisou.
Fecho os olhos com força, prendendo a respiração.
Porque sempre era eu que decidia voltar, não dependendo de nenhuma manifestação sua.
Não tendo mais o controle de minhas pernas, caminho a passos firmes em sua direção. Quando dou por mim, o envolvo em meus braços, sentindo um calor reconfortante se espalhar pelo meu corpo.
Sinto que posso respirar normalmente, aconchegada, achando o momento agradável apesar das circunstâncias.
Meu coração se acalmou, fazendo-me entender sua pausa como aprovação pelo meu feito, saciando sua cede por contato físico e, em parte, sua imensa saudade.
- Apenas quis fazer isso -- responde, rente a minha orelha.
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top