Capítulo 23

— Eu juro para vocês, se um homem desses chegasse em mim e me fizesse dançar da maneira que o terapeuta gostoso fez com Marianne, eu não o largava nunca mais — Caroline não conseguiu conter a sua língua e, enquanto as três retocavam a maquiagem no banheiro feminino da boate.

— Não aconteceu nada demais, Dave chegou e nós dançamos juntos — Mari revidou, sentindo o seu rosto corar, mas estava bem até demais para sentir algum resquício de vergonha que ainda insistia em aparecer.

Ela deu atenção ao seu batom.

— Dançaram? Eu estava crente que era uma transa em público — Carol provocou, dando uma risada diante os praguejos da amiga, que meneou a cabeça.

Lyssa também gargalhou.

— Já chega, ok? Amo vocês, mas eu realmente não quero expor a minha vida sexual desta maneira — Marianne guardou o batom na bolsa. — Vou indo, Dave está me esperando no bar com uma bebida antes de irmos.

— Então quer dizer que não nos veremos mais hoje? — Carol fez um biquinho, sendo correspondida por Mari.

— Não — ela esboçou um sorriso e abraçou as amigas. — Nos vemos na segunda, na academia.

Marianne despediu-se de Carol e Lyssa e saiu do toalete primeiro, deixando-as por lá.

O corredor onde os banheiros eram anexados tinha pouca luminosidade, mas como sempre haviam pessoas esparramadas por ali, não tinha porquê temer em circular sozinha.

Marianne apertou os passos e tão logo a sensação estranha atingiu-lhe em cheio, causando-lhe um forte arrepio, o qual ela não soube dizer.

O que é que está havendo?

Ela parou de andar imediatamente, sentindo as pernas fraquejarem. Encostou-se na parede e procurou controlar a sua respiração, olhando para os lados e constatando a breve impressão de que havia um vulto à sua volta.

Ela não estava enlouquecendo. Não, de jeito nenhum!

Estava atônita, alarmada e bem desconfiada.

Ah, meu Deus!

E se...

Ela entreabriu os lábios e saiu correndo no instante que sentiu o corpo estranho aproximar-se descaradamente dela. Marianne não olhou para trás para saber do que se tratava.

Forçou-se a correr com aqueles saltos altíssimos e, em questão de segundos, estava no chão, sentindo uma dor forte no seu pé esquerdo.

Merda! Puta merda!

Marianne tentou se recompor enquanto as pessoas olhavam para ela ou tentavam ajudá-la a se colocar de pé, mas logo sentiu aquelas mãos já tão familiares segurando-a firmemente.

— Anjo, o que foi que aconteceu? — ele perguntou, se abaixando e abraçando-a firmemente.

— Me tire daqui, por favor — a voz de Marianne falhou miseravelmente, estava trêmula, dolorida e profundamente em pânico.

Dave franziu o cenho, confuso, mas atendeu o pedido dela prontamente.

Segurando-a bem forte em seus braços, a ergueu do chão com facilidade, praticamente pegando-a no colo.

Carol e Lyssa se entreolharam ao verem a cena e ficaram tão apavoradas quanto. Mari estava nos braços de Dave e as duas suspiraram aliviadas, ao menos o pior não tinha acontecido. Pelo menos não ele todo.

— Mari, está tudo bem com você? — Lyssa indagou, alarmada.

Ela estremeceu, encarando-a com lágrimas nos olhos e entendendo perfeitamente que não estava surtando ou louca.

— Não — ela disse, em pânico. — Ele está aqui, não está?

Ao ouvir a palavra ele, Dave ficou em estado de alerta. Não era qualquer sinal ridículo de ciúmes grotescos, pelo contrário. Ele soube que havia algo de errado no Rebel no instante que adentrou na boate, acompanhado de Max. Aquele loiro que ele se esbarrara ao chegar no local não tirava os olhos de Marianne e Dave estava quase certo de quem se tratava.

William!

Que diabos ele veio fazer aqui?

Dave praguejou porque ele tinha a resposta na ponta da língua. Não era um imbecil filho da mãe que não sabia pensar em coisas que eram óbvias.

— Me leve embora, Dave. Por favor — ela implorou, sem conseguir conter o choro de desespero.

Ele a abraçou fortemente e Max aproximou-se daquela confusão toda.

— O que é que está havendo?

— Max, leve essas duas garotas para a casa, cuide delas, porque eu estou indo embora com Marianne. Depois eu te explico — Dave sibilou, soltando praticamente um grunhido. — Garotas, lamento conhecê-las assim e jogá-las nas mãos do meu amigo, mas eu preciso cuidar de Mari. E não posso deixá-las sozinhas.

Max sorriu, descontraído.

— Seja lá o que tenha acontecido, vocês duas estão a salvo comigo. A propósito, estão com fome?

— Max, sem joguinhos — Dave censurou, impaciente. — Cuide delas e deixe elas seguras em casa. Só vaza daqui o quanto antes.

Dave estava puto.

Se ele não tivesse que cuidar de Marianne agora, provavelmente iria atrás do filho da puta para lhe dar uma lição. Mas briga nunca foi o seu forte e nesse momento não podia deixá-la sozinha, de forma alguma.

Felizmente não faltavam táxis entorno da boate e Dave adentrou no primeiro que vira à sua frente. Queria sair dali o mais rápido possível.

Marianne não parava de tremer em seus braços. E ele tinha certeza que ela estava tendo uma crise de ansiedade e precisava de um banho, um chá quente e um calmante. Precisava, principalmente, de carinho e atenção.

E ele lhe daria.

Quase agradeceu alto pelo fato de nem precisar pagar pelo serviço de transporte, uma vez que a cobrança ia direto para a sua conta digital. Vantagens de viver em uma geração tecnológica.

Marianne estava quieta para caramba e Dave parecia não querer soltá-la. Ele não pretendia, de fato. Atravessou o hall do seu prédio ainda mantendo-a em seus braços e a sorte é que quase nunca circulavam pessoas por ali naquele horário da alta madrugada.

Quando entrou no seu apartamento, fechou a porta atrás de si com um chute e só se virou para trancá-la, voltando a seguir os seus passos pela escada, subindo rapidamente por ela sem qualquer sinal de dificuldade, porque não só parecia, como era realmente fácil carregar Marianne em seus braços.

Ela, por sua vez, estava tão entorpecida e emergida em seu pânico, que sequer tinha forças para notar o quão bravo o seu terapeuta estava. Mas ela sentia que estava segura.

Dave atravessou pelo seu quarto e a colocou na cama.

— Fique aqui. Vou preparar um banho para você — ele disse, ajoelhando-se diante dela e tirando os sapatos de seus pés.

Ela resmungou de dor quando os dedos dele pressionaram o pé direito, próximo ao tornozelo.

— Iremos cuidar disso também — ele disse suavemente e chegou ainda mais perto apenas para beijar a testa da mulher. — Eu já volto.

Marianne assentiu em silêncio e abaixou os olhos, não observando o homem sumir através da porta do banheiro.

Ela estava se sentindo mal. O seu coração estava na boca e todo aquele medo que estava adormecido há pouco mais de dois anos, despertara de novo, feito uma tsunami.

Por que William voltou? Por que ele estava em Toronto? Ele teria a audácia de persegui-la novamente?

Marianne tinha todas as respostas prontas de suas próprias perguntas, mas não estava bem o bastante para montá-las e chegar ao ponto que até o seu subconsciente tinha conhecimento.

Não havia espaço para dúvidas.

William estava ali porque provavelmente o seu tédio havia ressurgido e ele não iria simplesmente deixar de importunar a sua ex namorada. Marianne era o passatempo preferido dele. Seu brinquedinho precioso, aquele que ele largava quando não lhe era mais útil, mas que esporadicamente tinha vontade de destruí-lo outra vez.

Ela engoliu em seco e empalideceu mais. E se ele tivesse planejando fazer aquilo de novo? Ele nunca estaria satisfeito o suficiente? Só iria parar quando ela não respirasse mais? Será que ele estava lá sozinho?

Por Deus, ela precisava sair de Toronto o mais rápido possível.

Dave retornou em silêncio e sua camisa estava desabotoada até o meio do abdômen. A necessidade dele de cuidar daquela mulher era absurdamente insana. Nunca tinha sido daquela forma.

Ele aproximou-se, tocou o rosto dela e encontrou um par de olhos arregalados e cegados pelo desespero, e então, a partir dali, ele só pensou em uma coisa. Não só pensou como fez.

Carregou Marianne até ao seu banheiro e tirou toda a roupa dela, colocando-a dentro da banheira e apenas parou para tirar as suas peças.

Ele estava disposto a cuidar dela. E iria fazer direito.

O coração de Mari acelerou e ficou quentinho quando as pernas dele infiltraram naquela água quente e ele se sentou atrás dela, puxando-a para si, de modo que suas costas ficassem apoiadas no peito firme dele.

Marianne fechou os olhos, aproveitando cada segundo. Não que estivesse se sentindo tão bem e disposta naquele momento, mas ela sabia que, ali, estava protegida e que não deveria ter medo.

Ainda bem que ela não correu de Dave novamente. Ainda bem!

O homem fazia massagem leve em suas costas, procurando desfazer todos aqueles nós de tensão e procurando relaxá-la o máximo possível.

Ele queria proporcionar-lhe o melhor.

Caramba, ele queria fazer exatamente tudo por ela. E aquilo o assustava. Não em um péssimo sentido, mas sim porque horas mais cedo ele disse com todas as letras que não poderia prometer-lhe muita coisa, e agora ele estava ali cumprindo um papel que tão cedo ele pensou que iria executar, que não fosse em seu consultório ajudando pessoas com seus transtornos psicológicos.

Dave não era burro ao ponto de não perceber que já gostava de Marianne. Ele gostava dela. Para cacete. Queria ela cada vez mais perto de si. E, se fosse necessário, a manteria ali para sempre.

Já Mari, não tinha capacidade suficiente para pensar em qualquer outra coisa naquele momento. Apenas deixou as coisas fluírem. Não tinha alguma alternativa que a fizesse enxergar os gestos de Dave enquanto ainda se mantinha entorpecida.

Aquilo era um verdadeiro inferno.

Seu pesadelo iria sempre voltar à tona, como um ciclo vicioso. E ela já não sabia mais como fugir.

Após o banho, Dave a secou e a envolveu em um de seus roupões, trazendo-a até a sua cama e depois desceu até a cozinha apenas para preparar um chá rápido.

Enquanto a água fervia na chaleira elétrica, ele foi até um de seus armários buscar por algum calmante que tinha guardado consigo. Não era nada forte ou que trouxesse risco para alguma dependência química. Era somente uma pílula feita com alguns elementos naturais que eram capazes de acalmar qualquer pessoa. Ele também pegou a bolsa de gelo de dentro do congelador para colocar em cima do pé direito dela, do contrário ele amanheceria no dia seguinte parecendo uma bola.

Quando retornou ao seu quarto com tudo o que tinha organizado, encontrou Marianne do mesmo jeito que havia deixado antes de sair dali. Sentada, com as costas confortáveis pelo auxílio do travesseiro e seus braços abraçados fortemente nas pernas, escondendo o seu rosto. Escondendo-se de alguma coisa.

Não tinha nem como não se comover.

— Ei — ele murmurou, sentando-se na beira da cama após depositar a bandeja que trazia tudo o que ele organizara, e tocando levemente no joelho dela, fazendo-a levantar o seu rosto.

Seus olhos estavam vermelhos.

Céus, ela havia chorado.

A culpa transpassou bem na sua fuça por ter caído fora naquele momento, mas o alívio veio no instante que ele se lembrara que estava fazendo tudo o que podia para confortá-la.

— Eu ainda não terminei com você — ele disse suavemente, nem parecia que há uma hora atrás estava fervilhando de raiva. — Preparei um chá cremoso e vou te dar um calmante para você descansar um pouco. E também vou colocar o gelo no seu machucado. Não vai ser nada legal você tentar andar amanhã e não conseguir encostá-lo no chão.

O coração de Mari vacilou e ela sorriu timidamente.

— Obrigada.

Dave sorriu de volta, entregando a caneca de porcelana para ela e o pequeno comprimido em suas mãos. Marianne aceitou prontamente e tão logo engoliu o calmante, assoprando um pouco aquele líquido para não queimar ferozmente a sua língua. Enquanto ela fazia isso, Dave trouxera o seu pé direito para junto dele e posteriormente colocou aquela bolsa de gelo sobre ele, proporcionando um pequeno choque, que fizera Mari pular e estremecer ao mesmo tempo.

— Dói?

Ela mordeu os lábios, desviando os olhos.

— Não é nada comparado ao que ele fizera comigo. Mas tudo bem, eu vou sobreviver. Mais uma vez.

Dave a fitou, com as sobrancelhas franzidas e a pergunta escapou de seus lábios.

— Eu posso ajudá-la com isso?

O remédio natural parecia surtir efeito muito facilmente e, se ela estava tensa há cinco minutos passados, agora ela já se sentia relaxada, mas não sonolenta.

— É difícil para mim. Algumas coisas parecem nunca querer mudar e William significa isso. Eu não o vi, mas pelo visto ele anda querendo alguma coisa comigo. É sempre assim. Ele nunca me deixará em paz — ela ignorou a bile, mas escorriam lágrimas de seus olhos. — Eu tento fingir. Sigo a minha vida como se nada daquilo tivesse acontecido, mas ele parece querer me perturbar com isso. Eu nunca fui assim. Sempre fui daquele jeito que você conheceu, bêbada, louca e feliz. Mas William veio para me dizer, com todas as letras, que sou pior que isso.

Dave meneou a cabeça.

— Você não é pior que nada. Você é você, Marianne. Você só não pode viver de acordo com todas as coisas que ele te disse, acreditando em cada uma delas. Tudo o que ele falou é uma mentira. Não faço ideia do que ele fazia contigo, mas você precisa convencer a si mesma que aquilo que saia da boca dele não era nada além de uma bela falácia. Uma mentira cabeluda.

As lágrimas ainda rolavam pelo rosto dela.

— Ele era um excelente manipulador — ela disse, com naturalidade, e parecia que Dave não estava ali, escutando atentamente, palavra por palavra. Mas aí ela se virou para ele. — Eu fui facilmente manipulada sem precisar daquilo. Mas era aquela coisa. Nós somos condicionadas a nos apegar nas primeiras vezes, o início de tudo, para justificar os atos. E principalmente para acreditar que aquilo iria mudar. E mudava. William ficava impaciente e puto e cinco minutos depois ficava doce, dizendo que iria melhorar.

Dave assentiu, descartando o gelo que estava derretendo de volta na bandeja e se aproximou dela, abraçando-a fortemente.

— Casos como o seu são mais comuns quanto pensa. Já atendi vários pacientes com o mesmo problema. Os abusos simplesmente acontecem. Alguns homens estão por aí apenas para atingir os mais frágeis em comparação a eles. Não estão nem aí. Tratam as mulheres como se fossem um objeto qualquer e acreditam que têm algum direito sobre elas. O que não é uma verdade. Eu sei o quanto dói, anjo.

— William nunca estava satisfeito comigo. Mas parecia não querer me libertar. Eu não era suficiente. Nunca fui. As traições surgiam como uma coleção e ele fazia questão de jogar na cara. Mas nada me dói tanto quanto...

Marianne ficou trêmula de novo e calou a sua boca.

Dave estava para além de atento em qualquer sinal que ela emitisse. Tanto da sua boca quanto corporalmente.

Ele entendia perfeitamente que ela não iria conseguir ir para frente com aquele assunto. Ao menos não naquela noite.

— Não fale sobre isso. Não agora — ele a embalou em seus braços, ninando-a como se fosse uma criança. Inocente e frágil. — Teremos tempo. Posso ajudá-la a trabalhar nisso. Não quero que você se esconda de mim. Por nada. Durma, baby. Você não o viu e ele nem faz ideia de onde você está. Eu vou te proteger.

Marianne suspirou sobre o peito rijo dele e se aconchegou em seus braços, permitindo que Dave cuidasse dela até quando ela quisesse.

Ou até quando ela se desse conta de que se apaixonar por ele seria fácil. Tão fácil quanto qualquer outra coisa. 

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