Capítulo 13
Dave adentrou no apartamento de Max um tanto consternado. Já era manhã, o sol característico de fim de inverno irradiava bem claro e a sua cara carrancuda demonstrava que não estava nada bem.
— Pelo visto a noite não foi tão agradável — o seu melhor amigo sugeriu, enquanto passava o café fresquinho.
Dave bufou, impaciente.
— A noite foi totalmente agradável — ele admitiu em voz alta, com a derrota evidente em sua voz.
— Dá para perceber. Você está fedendo a sexo — Max zombou, fazendo o amigo contorcer ainda mais a sua expressão de mau humor. — Pelo visto não terminou nada bem — ele continuou, retirando o bule da cafeteira e enchendo uma xícara —, tome. É bom tomar um gole para clarear a memória.
— Obrigado — Dave respondeu muxoxo, ingerindo o café quente e amargo posteriormente.
— Quer falar o que houve?
Dave focou os seus olhos em Maximilian e logo o sentimento de camaradagem o atingiu em cheio, o que significa que o chef de cozinha realmente prioriza a amizade entre eles, sendo que ele sempre apoiou Dave a seguir a sua vida após a morte de Samara.
— Marianne.
O outro assobiou.
— Então quer dizer que rolou?
Dave assentiu.
— Ela estava... maravilhosa ontem à noite. Tinha bebido alguns shots de tequila mas estava bem — ele esfregou as têmporas, ficando quieto por um instante. — Eu segui o seu conselho. Aproximei-me dela, lhe paguei uma bebida e ela estava... — ele fechou os olhos, mordendo o lábio inferior e Max levantou as sobrancelhas.
— Daquele jeito — Max supôs. — E qual foi a treta?
Dave balançou uma perna.
— Eu acabei fazendo merda. Não que transar com ela tenha sido uma merda, de jeito nenhum, eu nunca me dei tão bem com uma mulher depois que... — ele fez uma pausa —, hum, não vou compará-la com Samara. É injusto.
Max assentiu.
— Com as duas.
Dave revirou os olhos, inquieto.
— Nunca ousaria dizer que qualquer mulher que trepei eu cheguei a comparar com Samara, por mais que eu sinta falta dela. Sou inteligente o suficiente para separar as coisas — ele argumentou, tamborilando os dedos na caneca. — Só que Marianne é... diferente, entende?
— Whoa! Diferente!
— Ela é a minha paciente, Max — Dave advertiu, cortando o sarcasmo de Max pela raiz. — Eu simplesmente não podia ter permitido isso, se eu pensasse em minha profissão em primeiro lugar. Joguei a minha sanidade no lixo.
— Camarada, você não pode se martirizar por uma foda. Você a queria há tempos, desde que se encontrou com ela no Rebel. Ela não era a sua paciente.
— Mas agora é. Ontem ela já era a minha paciente.
— Você sente culpa? — Max questionou seriamente.
Dave não soube o que responder. Encarou o amigo, completamente transtornado, e resolveu se retirar.
— Eu preciso de um banho.
— Ok, eu vou descer e abrir o restaurante.
— Sim, e eu vou tratar de procurar um apartamento para alugar.
Nisto, Dave adentrou no quarto emprestado em que dormia e foi direto para o chuveiro. Ele arrancou as roupas e mergulhou o seu corpo esguio na ducha gelada, na tentativa de se lavar e reorganizar a sua mente para pensar direito. Ele precisava despertar-se para a realidade de maneira coerente, como sempre fizera.
Em nenhum momento conseguiu desviar os seus pensamentos de Marianne. Não estava arrependido de ter se deitado com ela, mas estranhamente sentia-se culpado. E não era pelo seu diploma. Ocasiões como essa ocorriam a todo tempo, em qualquer lugar e com qualquer profissional que se preze. Menos com ele, até então.
Como era domingo e o movimento do restaurante de Max triplicava durante o almoço, Dave vagava sozinho pela casa do amigo. Estava decidido em alugar um apartamento para si, pois sentia uma falta absurda de ter privacidade. Não que Max interfira, mas Russell já estava há meses em Toronto e já se via disposto em ficar. Com a sua grade de pacientes cheia, ele poderia bem se virar sozinho.
Entre várias pesquisas, achou um excelente lar em High Park, um dos bairros mais tranquilos de se viver na cidade. Não era um flat luxuoso duplex, era mediano, mas para o bolso de Dave era perfeito e suficiente. O homem possuía uma ótima poupança, porém não era podre de rico. Mandou a mensagem virtual para a imobiliária, agendando a visita e parecia ansioso.
Posteriormente, permitiu-se lembrar dos detalhes da noite anterior. Dave conseguia sentir na pele a intensidade de como as coisas aconteceram. Suas veias queimavam. Marianne era por vezes menor e mais delicada que ele, a sensação era que ele segurava uma pluma em seus braços. Ele pôde sentir a sua carência. Marianne estivera sensível o tempo todo, completamente à mercê de seus toques. Ela estava carente de carinho, atenção e adoração.
Dave conhecia bem uma mulher. Era observador e muito esperto. Sabia perfeitamente o que era capaz de despertar em uma. E ele captou todas as sensações dela.
E, porra, ele queria mais.
Deveria se explicar imediatamente para ela.
E era exatamente o que ele iria fazer.
Marianne despertou-se de repente e, quando notou, já era noite. Havia chorado durante um bom tempo em sua cama, na melhor posição fetal que se poderia existir.
Seus olhos e rosto ardiam por conta das lágrimas e sua cabeça doía. Obrigou-se a ir até a cozinha para tomar alguma coisa que aliviasse um pouco a sua dor física.
Sim, física. Se Marianne soubesse desde sempre que envolver-se com alguém após William era destrutivo o bastante, não teria dado a oportunidade ao doutor Russell de ter se aproveitado de sua carência.
Mas ela não poderia culpá-lo. Ela também tinha culpa no cartório por ter ido fundo e ter insistido para que ele a levasse consigo e suprisse o seu desejo. E era exatamente por isso que ela estava tão machucada.
Machucada.
Era irônico e exagero demais sentir-se desta maneira por alguém que mal conhecia e que ainda era alguém o qual ela não poderia, de forma alguma, se envolver.
No entanto, o aperto em seu coração estava lá. Firme, intensa e marcando presença.
Um analgésico não seria suficiente. Havia acordado enérgica e certamente teria dificuldade para dormir outra vez. Resolveu preparar um chá de camomila, que era um ótimo sonífero natural.
Enquanto a chaleira elétrica esquentava a água, a estilista pegou o seu celular e ligou o aparelho, depois de ter deixado desligado o dia todo. Recebeu notificações de mensagens de suas amigas e ela tratou de respondê-las rapidamente.
"Eu estou bem, eu só tive uma ressaca bem pesada. Encontro com vocês amanhã, na academia. Bjs" — ela digitou e enviou a mensagem logo em seguida.
Pensou em desligar o aparelho de novo, quando foi notificada por uma parcela de ligações perdidas do doutor Russell, todas elas realizadas em um curto período de tempo. Ela suspirou, fez uma careta e meneou a cabeça.
O que será que ele quer comigo?
Não deveria ser necessariamente assim, mas obviamente a ferida aberta de Marianne fizera que ela pensasse exatamente o pior. Não iria retornar as ligações de seu terapeuta e com absoluta certeza não voltaria mais a frequentar as sessões.
Queria que ele se ferrasse e a deixasse em paz. Não iria, de forma alguma, permitir que ele machucasse os seus sentimentos. De estragos, Marianne já estava bem servida. Não queria ser contemplada com uma nova versão de William Dash e sofrer em dobro.
De traumas ela já estava esgotada. No limite. Não iria dar o braço a torcer e fazer com que outro homem abale o que lhe resta de bom psicológico, muito embora ela tivesse a certeza que uma parte de sua alma havia virado pó.
A chaleira apitou, fazendo Marianne largar o celular no balcão para preparar a sua bebida quente. Enquanto ela dava atenção ao seu afazer, o aparelho tocou novamente. Ela inclinou o seu pescoço para ver com clareza quem era, surpreendendo-se com o nome de Russell piscando em sua tela. De novo. Marianne mordera os lábios, bufou e bloqueou o número dele, antes de desligar o aparelho outra vez e ficar completamente desconectada com o seu mundo real.
No dia seguinte, Dave precisou conter o seu mau humor. Havia sido rejeitado por Marianne em todas as suas tentativas de falar com ela. Não atendeu nenhuma ligação. Não retornou para saber o que ele queria. Mas tudo bem, ele sabia que ela estava magoada com toda aquela situação.
Foi inevitável adentrar dentro de sua sala e não pensar naquela noite. Cada pedacinho presente no escritório luxuoso havia sido marcado por ela. Dave não podia olhar para qualquer canto daquele lugar que ficava perturbado. Em qualquer minuciosidade presente naquele espaço, as imagens de Marianne nua em seus braços, seus cabelos longos volumosos e seus lábios inchados.
Merda! Ele deveria concentrar-se em seu trabalho antes que a merda vazasse para todos os cantos.
Trabalhou o dia inteiro focado nos problemas de seus pacientes e uma pontinha de esperança surgiu em seu peito. Marianne ainda continuava sendo a sua paciente. Era segunda feira e ela poderia aparecer ali em seu horário de consulta. Era a sua única oportunidade de falar com ela. Precisava se explicar. Urgente.
— Você o quê? — Caroline gritou, incrédula, ignorando os olhares ao redor do bar em que estava, tomando um drinque com suas amigas e Álvaro.
— Não grita — Marianne pestanejou duramente. — Não quero berrar aos quatro cantos que transei com o meu terapeuta, portanto, se controle.
Ela pediu gentilmente e, após sentir o interior de sua boca secar, tratou-se de tomar uma golada generosa de gin com frutas cítricas, ficando quieta e abaixando os seus olhos para a mesa.
Ainda se sentia profundamente envergonhada.
— E você não vai conversar com ele? — Lyssa indagou, preocupada com o desânimo da amiga.
— Claro que não! — Mari retrucou, um tanto furiosa. — Ele me leva para o próprio consultório dele, me seduz e transa comigo, realizando assim a sua fantasia erótica e, na manhã seguinte, te trata com indiferença e diz que precisa conversar seriamente por termos violado uma regra. Pois bem, me senti humilhada e rejeitada — ela mordeu os lábios, tensa. — Tal como William fez comigo.
As outras três pessoas se olharam entre si.
— Fofa, posso te dar um conselho? — Álvaro perguntou. Ela assentiu. — Você precisa parar de relacionar o seu presente com o seu passado. Já fazem dois anos.
Ela engoliu em seco.
— Mas William fez muito mais que aquilo.
— Fez, e você havia superado antes da merda acontecer — Carol advertiu, relembrando-a de algo importante. — Você até começou a sair com aquele carinha da universidade.
Ela sorriu, lembrando-se de um affair, que atendia por James.
— E então a merda aconteceu — ela voltou a dizer. — Não importa quanto tempo passe ou se eu vou superar ou não. A sombra dele está aqui comigo. E ele sempre, sempre irá me submeter, de alguma maneira.
— Mari, você é sempre tão animada quando está se divertindo. Sempre alegre perto de nós três. Por que não se dá uma chance? Por que não dá uma chance para Russell se explicar? Já pensou se ele quisesse fazer o contrário? Não te rejeitar, tal como acha que aconteceu? — Lyssa questionou. — Você se arrepende? Do ato sexual em si?
Ela piscou algumas vezes e o seu pescoço esquentou, bem como as suas veias que começaram a correr alvoroçadas, trazendo-lhe uma sensação gostosa, que ela queria sempre se recordar.
— Não! — admitiu. — Eu nunca, nunca me senti tão bem e segura nos braços de alguém.
Os seus amigos sorriram.
— Foi bom? — Caroline perguntou animada.
O pescoço de Mari ferveu enlouquecidamente, a sua sorte é que o seu cachecol escondia aquele detalhe.
— Bom é uma certa definição modesta — ela confessou, não resistindo ao impulso de sorrir. — Foi perfeito. Ele é muito... intenso.
Os três sorriram.
— Ele te tratou como uma rainha? — Álvaro continuou o jogo de perguntas.
Marianne desviou os olhos e sentiu o seu coração parar na boca.
O que ela deveria responder? Se levasse em consideração a raiva que estava sentindo por ele poderia mentir para os seus amigos, entretanto, mentir era algo que ela não sabia fazer tão bem, exceto esconder tudo o que acontecera com ela de Thomas e Steve.
— Sim — ela afirmou, suspirando em seguida. — Eu nunca, nunca, tinha sido tratada de um jeito tão... carinhoso.
— Nem mesmo quando você tentou superar William com James?
Ela meneou a cabeça negativamente.
— Não. James era um cara legal. O doutor Russell é... ardente.
Álvaro assobiou, chamando a atenção para si, enquanto ele levantava a sua mão direita em polvorosa, atraindo os olhares do garçom.
— Um drinque com várias pedras de gelo, querido, por favor. Está calor aqui — o garçom anotou o pedido e se retirou, fazendo Álvaro suspirar e voltar a sua atenção à Marianne. — Continue com os detalhes sórdidos, por favor.
Ela ruborizou.
— Não, eu não vou entrar em detalhes. É tudo o que cada um de vocês três merecem saber — Marianne deu por encerrado o assunto, tomando todo o resto de seu drinque.
— Só digo uma coisa — Lyssa disse. — Não é porque William Dash sacaneou com você que todos os homens à sua volta irão fazer igual.
— Eu sei, mas acontece que...
— Você precisa se dar uma chance — ela continuou a lhe aconselhar. — Você é uma pessoa incrível, maravilhosa quando se permite. Deveria fazer isso quando conhece algum carinha legal. Você precisa parar de trazer William à tona sempre que se esbarra com alguém. O doutor Russell pode não ter feito a coisa certa ao ter te levado ao consultório dele ou até mesmo por ter violado as regras da profissão dele, mas se ele te tratou bem, certamente não iria rejeitá-la na primeira oportunidade.
Caroline riu.
— Não se iluda, Lyssa. Fiquei com Steve há muito tempo e eu nunca irei esquecer a canalhice que ele fez comigo. Ele me seduziu e depois me jogou fora. Carl fez o mesmo com você.
Lyssa revirou os olhos.
— Se você acha isso, então não sei porque estamos aqui tentando segurar Marianne e querendo saber de tudo o que ela fez, além de ficar dizendo a cada segundo que nenhum homem é igual o outro — ela retalhou a amiga. — O que acontece aqui é que, diferente daquela época, agora todas nós somos adultas e sabemos bem o que é melhor para a gente. E cada uma de nós merecemos ser felizes. E Nanne precisa, urgentemente, parar de achar que cada homem com quem ela transar, ainda que seja sem compromisso, fará com ela tudo o que Dash fez. É esse o principal fundamento do meu conselho — Lyssa apertou a mão de Marianne. — Desculpe qualquer coisa.
— Você está certa, Lyssa. Obrigada por isso. Obrigada a vocês por me ouvirem — Mari agradeceu, dando um sorriso fraco. — Eu preciso voltar à terapia.
— E irá voltar? — Álvaro indagou.
Ela mordeu os lábios.
— Eu não sei. Não tenho estrutura para encarar o doutor Russell depois de tudo o que aconteceu, e ainda por cima revelar o pesadelo que sofri nas mãos de Dash — ela respondeu, sincera.
— Uma hora você vai ter que tirar esse peso de suas costas. Foi culpa dele, não sua. Afinal, você...
— Por favor, Caroline. Não!
Carol comprimiu os lábios, pedindo desculpas silenciosamente, entendo a apreensão envolta nos olhos castanhos da amiga.
Por fim, Mari retornou ao seu apartamento por volta das dez da noite. Suspirou ao observar a sua toca em silêncio e partiu para um longo banho relaxante, com o objetivo de dormir um pouco melhor desta vez.
A conversa com os seus amigos sempre é necessária, e hoje não havia sido diferente. Alimentou os acontecimentos do final de semana e o seu desespero interno por ter feito sexo com Dave, o seu sentimento único de culpa. Todas aquelas três pessoas as quais ela se amparava desde sempre estavam certas, embora ela soubesse que, por mais que doesse e tivesse feito algumas escolhas desconexas, ela também não estava errada. Não fora julgada, como havia pensado que seria. Apenas escutou as verdades dolorosas outra vez.
Era tão difícil.
Ela queria sim, muito, destruir toda e qualquer lembrança ou marca que William deixou em si. Entretanto, era árduo demais para si desfazer-se daquelas situações todas. Se o abuso fosse somente com o seu psicológico e sua autoestima, tudo seria mais fácil.
Mas não foi.
E Marianne deveria lutar consigo mesma para quebrar todos os fantasmas que assombram a sua alma de uma maneira sem fim.
Deveria procurar Russell? Eles precisavam conversar e provavelmente era a coisa certa para se fazer, mas Marianne ainda sentia-se magoada e envergonhada. Não parecia, porém, ela temia muito pelo o que poderia acontecer.
Ela se jogou em sua cama e encarou o celular por longos segundos, até a tela desativar e obrigá-la a desbloquear de novo. Observou o contato de Russell e respirou pesadamente, movimentando o seu polegar sob a tela, antes de tocar naquele pontinho que liberava o contato dele outra vez.
Pensou se deveria dar-lhe alguma explicação por ter faltado à sessão, porém, acabou adormecendo antes de cogitar digitar alguma mensagem de satisfação.
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top