Separados pela Guerra


Um calafrio. Apenas isso o que senti e foi como se toda a minha vida voltasse para trás. Perdi-me na minha antiga imensidão, aquela que eu pensava que já me havia abandonado. Tal casa abandonada na solidão de memórias de um passado obscuro, cheio de mágoas e tristezas, cheia de dor, sofrimento e uma vontade de deixar a vida para trás, uma vida ainda não vivida, de apenas quinze anos de existência onde ninguém via que eu existia.

No dia em que te conheci um misto de sensações passou por mim, pela minha cabeça, mas principalmente pelo meu coração. Os teus olhos azuis brilhavam tal e qual como o mar quando o sol embate nele. Me davam a calma e a visão de um fututo brilhante que eu tanto desejava e que nunca tinha encontrado até esse dia. Tinha eu vinte e cinco anos nesse dia, deambulava pelas ruas perdidas nos meus pensamentos ou apenas a tentar esquecê-los. E foi aí que te vi. Ias a sorrir com a mão dada a uma pequena criança. Um sorriso leve, fresco e acima de tudo verdadeiro. Escondi-me atrás de uma árvore para poder-te observar melhor, e ali ficaste naquele vasto parque esverdeado a bincar com aquela pequena criança, corrias atrás dela. As vossas gargalhadas fortes e alegres entoavam na minha cabeça como uma melodia alegre, fazendo-me sorrir.

Mas de repente o universo parou e tu reparaste. Reparaste em mim, que me escondia feita coscuvilheira e sorriste-me. Quando dei por mim estava a sorrir de volta, envergonhada, sem saber bem o motivo pelo qual estava a sorrir. Segundos passaram até que os teus passos se dirigiram a mim, quanto mais te aproximavas de mim mais a tua figura esbelta se tornava limpida. Fiquei corada e queria fugir dali, mas os meus pés simplesmente não se moviam, ou talvez eu não quisesse sair de ali.

Um "Olá" surgiu da tua voz rouca, e eu apenas fiquei ali a observar-te, sem um minimo poder de fala. Tu sorrias vendo o quão envergonhada eu fiquei. Ao fim de uns segundos que mais pareceram o tempo em que a terra da volta a si mesma, eu respondi um "Olá" de volta. Convidaste-me para brincar junto de aquela menina, que sorria para mim, um sorriso adorável, apesar de lhe faltar um dente. Decidi aceitar.

Era quase de noite escura quando nos despedimos, nunca me tinha divertido tanto como hoje, disse-lhe num tom envergonhado. Ele voltou a sua face para mim e consentiu. Uma alegria surgiu dentro de mim por saber que, ao fim de vinte e cinco anos de vida, alguém se divertiu comigo. Cresci num orfanato, onde fui muito maltratada, eu e todas as outras meninas que viveram comigo naquele lugar horrendo.

Os dias iam passando e era rara a vez em que não nos encontravamos. Já haviam passado seis meses desde que te conheci e posso afirmar com todas as minhas forças que foram os melhores momentos da minha vida. Estava apaixonada. Apaixonada pela forma como tu vias a vida, pelo teu sorriso apaixonante, pela forma solidária, sempre ajudavas as pessoas, é o meu trabalho, dizias tu para mim com os teus olhos cor do céu num maravilhoso dia de verão. Eras um soldado, defendias a pátrias com tudo o que tinhas e foi isso que nos separou.

Naquele triste dia em que as tropas nazis invadiram o nosso país, deixaste-me para trás com a promessa de que voltarias para mim. Porém, eu sabia. Sabia que era mentira, que nunca mais voltarias e que nunca mais te teria outra vez nos meus braços e que toda minha vida voltaria a ser obscura e na incerteza. Um calafrio. Apenas isso o que senti quando foste para terras conhecidas mas desconhecidas ao mesmo tempo, sem saber em quem confiar, sem saber quem era o aliado e quem era o inimigo.

E aqui estou eu, dez anos depois de nos conhecermos, naquele parque que mudou a minha vida. Continuo na incerteza, sem saber o que foi feito de ti, se conseguiste sobreviver ou se morreste a lutar por aquilo que acreditavas.

Toda eu sou uma leve saudade. Saudade do passado contigo e da pessoa que eu era contigo.


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