Capítulo 3
Meus instintos primitivos me diziam para voltar para dentro do banheiro, trancar a porta e quem sabe bater a cabeça na parede até parar de alucinar.
Mas havia aquela parte. A parte que geralmente te mete em encrencas, havia a parte curiosa. E eu realmente estou curiosa e muito intrigada, mas acima de tudo assustada. Com o coração acelerado e aquele momento congelado onde se tem que dar tempo ao seu cérebro para decifrar o que está acontecendo.
Na minha frente não estava a sala de estar da minha casa no qual deveria estar ali. Não estava meu pai, nem minha mãe e muito menos a minha amiga.
Na minha frente estava um cômodo muito largo e com um teto incrivelmente alto. As paredes cinzas brilhavam com vários pisca-piscas coloridos, havia uma grande árvore de Natal decorada com bolas coloridas e brilhantes.
Nesse cômodo havia várias esteiras, muito parecidas com as que as fábricas usam. Nas mesmas desciam caixas, e és o maior motivo de tanto espanto: na frente das enormes esteiras pequenas criaturinhas trabalhavam, alguns colocavam brinquedos dentro da caixa e outros embrulhavam essa caixa com papel de presente.
Essas criaturinhas trabalhavam entusiasmadas, cantavam e assobiavam. Um deles que trabalhava em uma esteira mais próxima a mim se virou notando a minha presença. Ele sorriu, um sorriso inocente que lhe chegava aos olhos castanhos tão meigos. Foi então que notei, as orelhas eram alongadas, pontiagudas. Minha avó já tinha me contado muitas histórias, era impossível eu não saber o que aquela criaturinha era.
Elfos.
Aquele pequenino se vira para a frente e anuncia em voz alta:
-Ela chegou pessoal!- então todos os pequenos olhos se viram para mim.
Primeiro eles me analisam, depois seus rostos se tornam contentes e eles começam a pular no mesmo lugar, animados.
Pelo visto eu sou uma visita bem vinda. Mas eu não deveria nem ser essa visita. Fecho os olhos com força, dou três tapas leves na minha testa e repito comigo mesma que isso não é real. Qual É! Elfos mágicos não existem.
Abro os olhos bem devagarinho esperando estar na sala da minha casa. Mas que doce ilusão. Eu continuava no mesmo lugar. Com todos aqueles Elfos vestidos de verde me olhando com expectativa.
Atendo meus instintos primitivos, abro a porta atrás de mim. O banheiro é uma excelente opção. Mas quando abro a porta e dou o primeiro passo um frio congelante me faz estremecer.
Neve. Em todo lugar.Em todas as direções que eu olhava. Isso não tem como ficar mais estranho.
Meus dentes começam a bater de tanto frio. Tudo é um deserto branco. CADÊ O MEU BANHEIRO!? Diante das opções eu prefiro os Elfos fofinhos do que morrer congelada.
Volto a fechar a porta. Engulo em seco sem saber o que fazer. Por que essas coisas estranhas só acontecem comigo?
-Então, gente.- começo a falar.- Provavelmente vocês só são frutos da minha imaginação, então podem continuar o que estavam fazendo e me ignorarem, tá bom? A qualquer momento vocês vão simplesmente sumir.- pelo menos eu espero.
Eles gargalham. O que tem de engraçado nisso? Em meio a seus risinhos uma risada mais grossa se sobressai. Olho para a frente e vejo um idoso de barba branca e grande andando na minha direção. Ele usava um grande casaco vermelho de punhos de manga e golas brancas, uma calça da mesma cor do casaco, um cinto e uma bota de couro preto e para completar o visual ainda usava um gorro vermelho.
Esse queria ser Papai Noel.
- Que bom que chegou, Sara.- ele fala tranquilamente.- Todos nós estávamos ansiosos para a sua chegada.- faz um gesto amplo mostrando todo o cômodo.
- Como você sabe meu nome?- indago com uma pulga atrás da orelha.
- Eu sei o nome de muita gente, criança.- misterioso.
Me lembro da neve lá fora. Minha cidade é quente, muito quente. Neve cair é um evento impossível.
- Onde estou?- pergunto sem rodeios.
-No Polo Norte.- ele responde simplesmente. Fico parada esperando algum sinal de ironia, sacarmos, de qualquer coisa que denunciasse a brincadeira. Mas ele continuava sério observando a minha reação.
Então eu começo a rir. Em parte porque é realmente engraçado e também por nervosismo. Polo Norte? Conta outra velho doido. Respiro fundo e seco o cantinho dos olhos. Isso realmente me fez chorar de tanto rir.
- Bom para começar você não está ficando louca, Sara. Tudo isso é real. E como eu não me apresentei, bom, eu sou conhecido pelas crianças e adultos como Papai Noel.- não é o tipo de apresentação que você escuta todo dia.
Eu quase comecei a rir de novo, mas me controlei.
- Você está aqui porque precisamos conversar.- ele retoma a fala.- Me acompanhe.- convida me dando as costas.
Apesar de toda essa doideira ele não tem cara de maníaco. Parece fazer parte dos velhinhos bondosos e fofinhos, como diria minha mãe. Então porque não?
Dou de ombros e o sigo. Os Elfos mágicos voltam a fazer seu trabalho, no fundo da sala havia uma larga mesa com oito acentos de tom bege. Sobre a mesma estavam espalhadas várias cartinhas com letras quase ilegíveis e algumas caixas de papelão.
- Por que estou aqui?- pergunto puxando uma cadeira e me sentando.
- Então é verdade. Me falaram que você é impaciente.- suas fontes estão certas caro velhinho.- Eu já disse, Sara. Só vamos conversar.
Do outro lado da mesa ele puxa uma cadeira e se senta a minha frente. Só enrolação. O tal Papai Noel começa a organizar algumas cartinhas quando pergunta:
- Como está se sentindo?- uma pergunta inesperada.
- No momento estou me sentindo um pouco louca.- respondo olhando minhas unhas. Por algum motivo contato visual me pareceu uma má ideia, como se ele pudesse ler mentes, né Sara?
- Você sabe do que estou falando, criança.- agora ele parecia um vovô preocupado com a neta e de alguma forma isso me tocou.- Pode conversar comigo.
Seus olhos eram reflexo de preocupação. E um sorriso carinhoso moldava seus lábios. Suspirei.
- Eu estou bem.- a mentira deslizou facilmente dos meus lábios.
- Você tem dificuldade com isso, né?- o que ele queria dizer? Fiquei quieta esperando algum complemento, mas ele apenas continuou ajeitando as cartas cuidadosamente.
- Eu tenho dificuldade com o que?- não me aguentei.
- Você sabe, Sara. Dificuldade em dizer o que sente.
E bum. Essa resposta me fez ficar inquieta, porque me fez ter a sensação de que ele me conhecia mais do que deixava transparecer. Mas também me fez confiar naquele estranho velhinho que se dizia ser Papai Noel.
- Eu não sei como me sinto.- comecei umedecendo os lábios.- As vezes parece que não estou sentindo nada. Como se estivesse, sei lá, dormente.- desvio os olhos. Nunca tinha confessado isso em voz alta.
- Então já sabemos o problema. Agora só precisamos encontrar a solução.- ele responde como se fosse algo simples.
- Não tem solução.- levanto os olhos bruscamente.- Acredite, já tentei de tudo. Eu só, só... não sei explicar exatamente o que é isso. É confuso, é como se tivesse milhares de sentimentos acorrentados dentro de mim. E eu não sei como coloca -lós para fora.
Meus olhos começam a arder. Pisco os olhos várias vezes, não vou chorar na frente de um desconhecido.
- Eu sou assim.- continuo.- Eu não tenho a euforia da Beatriz, nunca me apaixonei feito uma adolescente normal e não choro com finais de filmes tristes. Eu sou estranha.
- Não, Sara. Você é normal.- ele sussurra com a voz calma.- Você quer sentir, quer aproveitar a vida ao máximo. Mas você luta contra seus sentimentos.
- É claro que não.- respondo o óbvio.
- Luta.- ele confirma com determinação.- Agora mesmo você está fazendo isso. Você quer chorar, mas não se permite fazer isso. Está lutando contra as lágrimas, suas lágrimas representam algum dos seus sentimentos aprisionados.
Eu fico boquiaberta. Por mais que eu queira contestar eu não posso, não posso porque ele tem razão.
- O que o Natal representa para você?- Noel indaga tirando um lenço branco do bolso o oferecendo a mim.
- Amor, solidariedade, união...- respondo automaticamente. Pego o lenço e seco algumas lágrimas que desciam pelo meu rosto.
- Uma definição muito bonita, criança. Mas você respondeu isso porque te ensinaram que o Natal representa isso ou porque você realmente sente isso no Natal?
- Você é um velho de perguntas muito difíceis, sabia?- resmungo rindo e apertando o lenço.
Mas é uma ótima reflexão. Estamos tão acostumados a ter nossos sentimentos ditados que esquecemos o quanto eles são complexos.
- Você sente, Sara. Por mais que as vezes não pareça. Você só tem que atentar ao seu coração, você é uma adolescente muito racional, tudo para você deve ser bem pensado. Mas isso não se aplica aos sentimentos, você não sente com cérebro.
- As vezes não parece mesmo.- comento.
- Quando você está lendo você está vivendo.- Noel começa a citar.- Quando você está ouvindo as histórias da sua avó você está vivendo. Quando você está ajudando a Beatriz você está vivendo. Quando almoça em família, você está vivendo Sara! São coisas simples que te fazem feliz. Você está vivendo, só tem que ver isso.
Ele inclina o corpo para frente e cruza as mãos sobre a mesa.
- Quer um conselho de um Velho?- ele pergunta e eu só balanço a cabeça confirmando.- Não tenha medo dos seus sentimentos, criança. Mude, se reinvente se for preciso. Mas nunca fuja, seja você mesma. Viva, se liberte.
- Obrigada.- falo com sinceridade. Sinto um quentinho no coração. Um grande alívio, como se um peso enorme tivesse saído dos meus ombros.
- Eu gostaria de conversar mais com você. Mas o nosso tempo acabou.- ele se levanta e eu também.
Nós caminhamos lado a lado em silêncio até a porta que deveria ser do meu banheiro.
- Não se preocupe, Sara. Quando sair por essa porta vai estar no seu banheiro.
Balanço a cabeça. Eu estava leve.
- E mais uma coisa.- ele continua como se estivesse esquecido de algo. Enfia a mão em um dos bolsos da calça vermelha e retira um papel, o reconheço no mesmo instante. Era uma carta que eu havia escrito para o Papai Noel quando tinha apenas 5 anos.
Ele coloca a carta na palma da minha mão.
- Você é especial, criança.- ele diz.- Agora eu quero que vá e viva esse Natal como nunca viveu outro antes. Não perca a essência dessa garotinha de 5 anos que me escreveu essa carta. E algum dia Sara, algum dia você vai encontrar a si mesma.
Eu o abraço e agradeço de novo. Dessa vez sentindo, sentindo a euforia crescente dentro de mim. Sentido que agora eu estava no rumo certo, quase não me aguentando de tanta felicidade.
Giro a maçaneta da porta, mas antes olho para trás e solto:
- Adeus, Papai Noel.- passo pela porta e estou de volta ao meu banheiro, só que agora com um sorriso de orelha a orelha e a cara melada.
Eu prometo Papai Noel que serei mais atenta , que vou viver esse Natal intensamente e que vou encontrar a mim mesma.
Este conto chegou ao fim! Espero que você tenha gostado e obrigada por ter lido até aqui! A Sara ainda tem muito pela frente, não é mesmo? Concurso_Estacoes desafio cumprido!
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