65
Miguel
— Por que você fez isso, você está louca? — Pergunto a ela assim que recobro a consciência e a afasto de mim. Como eu pude deixar isso acontecer? Pensando melhor a nossa conversa nem deveria ter acontecido, se eu soubesse que isso iria acontecer eu nem teria pensado nessa ideia absurda e sem sentido. Onde já se viu eu ter esse tipo de conversa com a Ester, claro que não terminaria de outro jeito.
Idiota!
— Eu achei que... — ela alternava o seu olhar para os meus olhos e lábios, e se eu não tivesse cuidado algo muito pior do que um beijo poderia acontecer aqui.
Eu preciso tirá-la daqui o quanto antes; o quanto antes da Jade aparecer, o quanto antes de eu me perder.
— Qualquer coisa que você tenha achado em relação a isso — aponto para nós dois, me referindo ao beijo — você está errada. Totalmente errada — me levanto da cama não querendo mais ficar perto dela; eu não tenho mais nada para lhe perguntar e mesmo se tivesse o nosso momento aqui terminou assim que isso aconteceu entre nós dois. — É melhor você ir embora — vou em direção a porta do meu quarto, que eu havia deixado aberta, e a seguro para que ela entenda que a sua hora aqui comigo, finalmente, acabou.
— Mas, Miguel... — caminha a passos rápidos para conseguir chegar até mim, e assim que ficamos frente a frente ela segura o meu rosto com as suas duas mãos e me olha de maneira suplicante, como para que eu não corte o que acabamos de ter, aqui. Só que isso que acabamos de ter, talvez para ela signifique alguma coisa, só que para mim, só foi um beijo de despedida, um beijo que nem ao menos deveria ter acontecido, não enquanto eu agora estou sofrendo por uma outra garota.
— Sai daqui, agora! — Gritar com ela foi mais forte do que eu imaginava, eu não queria isso, juro, mas ela só entenderia as minhas palavras se eu fosse grosseiro com ela e ainda bem que funcionou, já que ela logo se afastou de mim, com o impacto das minhas palavras, e tirou as suas mãos do meu rosto, que já me impediam de respirar, literalmente.
— Tá bom, eu já estou indo — ela passa por mim e eu agradeço aos céus por agora poder enfim, respirar. Bato a porta com toda a força e raiva que eu tenho guardado dentro de mim, nesse momento.
Caminho em direção a minha cama, com as mãos em meus cabelos, tentando processar tudo que aconteceu, aqui: Ester entrando no meu quarto, a nossa maldita conversa, até ela achar que tem o direito de me beijar.
É incrível como uma coisa que já está ruim, pode simplesmente piorar a partir das escolhas que tomamos.
Depois de alguns minutos, percebo alguém me chamando. Olho para trás instintivamente já imaginando ser a Ester, que ela não desistiu, só que quando eu vejo a porta se abrindo e a pessoa que está entrando, meu coração se alivia mais um pouco, mas não por muito tempo.
— Irmão, cheguei — Jade adentra o meu quarto com a sua fisionomia triste e eu até imagino porque seja. Sabe quando eu falei que a agradeci por não falar da Flávia comigo, que dava até para ver que ela estava com muita vontade mas preferiu deixar de lado ao ver o meu estado deprimente, e que se fosse ela ao invés da Ester entrar por essa porta aliviaria o meu coração, eu simplesmente retirei tudo o que eu disse sobre ela, quando eu a vi, caminhando em minha direção, se preparando, já que a sua boca se abria e se fechava diversas vezes ao longo do caminho que levava até mim, para disparar a pergunta que eu mais temia. — Você está bem? — Coloca sua mão em meu ombro e eu viro meu rosto para o lado, para olhar esse seu gesto.
Imagino o quanto o coração dela deve estar apertado só em mim perguntar isso, mas o dela não deve estar mais apertado que o meu ao ouvir essas palavras, que até eu mesmo havia feito para mim desde que o dia de hoje, amanheceu: eu estou bem? E eu sempre quando eu ia responder a isso eu dizia que sim ou que pelo menos tentaria ficar.
Só que ao invés de chorar, como eu achei sinceramente que aconteceria quando essa pergunta me fosse feita por uma outra pessoa, eu só a respondi de forma rude, por imaginar que esse foi o jeito mais fácil de a Flávia terminar comigo, assim como foi com a Ester.
— Por que a pergunta? Como você acha que eu deveria estar? — Pergunto ironicamente ao olhar para ela. Eu já não tenho mais o que chorar e se eu disser a minha irmã que estou triste, que a queria aqui, do meu lado, de nada vai adiantar. Então pra que dizer isso a ela, quando eu já posso botar na minha cabeça que a partir de hoje o nosso relacionamento, definitivamente, acabou e que não terá mais volta. Já que a Flávia resolveu ir para longe de mim.
— A Flávia vai embora hoje, Miguel! — Franze suas sobrancelhas surpreendida com o que eu acabei de lhe dizer, ao mesmo tempo em que olha para mim, tentando ver se ainda reconhece o seu irmão que deixou aqui, triste, enquanto tocava em seu violão. Só que eu ainda estou aqui, porém um pouco mais diferente, já que eu não quero mais ficar triste por alguém que não me quer de volta.
— Sim, eu sei que ela vai embora, hoje — digo para ela o que supostamente ela achava que eu havia esquecido, só que eu nunca esqueceria isso, não enquanto o meu coração ainda estivesse doendo. — Ela vai fazer igualzinho ao que a Ester fez comigo. Me deixar. Sair fora — tento ainda continuar sendo rude, só que no meio do caminho eu não consigo mais ser assim e é por isso que eu abaixo a minha cabeça e respiro fundo, já pronto para me preparar para a bronca que a minha irmã vai me dar a seguir para defender a sua amiga, e ela está certíssima por fazer isso comigo. A Flávia não merece essas minhas palavras e muito menos essas minhas comparações.
Não tem nem cabimento eu comparar a Ester com a Flávia; com a Flávia eu sei que eu fiz alguma coisa de errado para ela me deixar, diferente da Ester que só me fez trocar por outro.
— Ela não é a Ester e você sabe muito bem disso! — Essas suas palavras me ferem mais do que o tapa na minha cara que ela acabou de dar em mim. Essa a primeira vez que ela faz isso comigo e no final das contas eu bem que mereci.
Flashback (1 ano e 6 meses atrás)
Então é hoje, o grande dia. Vou pedir a Ester em noivado. Sei que está muito cedo, pois hoje fazemos dois anos de namoro, mas sinto que ela é a mulher da minha vida e eu não vou mais esperar nem um segundo sequer. Eu quero essa mulher para mim!
Vou em direção ao banheiro para tomar um banho. Ao sair do mesmo, paro em frente ao guarda-roupa e tiro de dentro dele uma calça jeans azul e uma blusa polo, cinza. Assim que acabo de me vestir, me olho no espelho — estou tão nervoso, mas sei que vai valer a pena — e ao concordar comigo mesmo, com as minhas palavras, saio do meu quarto já preparado para o meu dia de hoje. Eu havia treinado como iria pedi-la em noivado durante dias, já estou mais do que confiante.
E ao descer as escadas, passar pela sala e começar a abrir a porta de casa, escuto minha irmã falando comigo.
— Então você já vai encontrar a sua namoradinha, para pedi-la em noivado? — Deixo para lá o que estava fazendo para virar o meu rosto e notar que ela descia as escadas, calmante, com uma sobrancelha arqueada. Porque eu sempre paro de fazer as minhas coisas para ouvir as barbaridades, sem sentido, da minha irmã? Como ela ver que eu não respondo sua pergunta, ela logo prossegue: — Porque eu tenho essa sensação de que ela não vai te fazer feliz... — e aqui está ela, de frente para mim, com as mãos na sua cintura.
Essa afirmação dela, que ela sempre diz para acabar comigo, merece sim uma resposta. Então com toda a calma do mundo, a respondo:
— Jade, a minha "namoradinha" — faço aspas com as mãos — tem nome, e é Ester. Já faz dois anos que eu namoro com ela, porque você não aprende a gostar dela, seria pedir demais? — Agora sou eu quem arqueio uma sobrancelha enquanto lhe faço essa pergunta.
— Você sabe que eu não gosto de pessoas falsas — balança a sua cabeça para os lados, e eu descido que agora é a hora certa de eu sair daqui porque senão vamos acabar discutindo, que é o que sempre deveria acontecer, se caso eu não parasse para sair com a Ester ou com os meus amigos.
— Quer saber, não adianta discutir com você — abro a porta, mas antes que eu saia pela a mesma viro meu rosto novamente para encara-la, da qual ainda olhava para mim. — Você sempre vai ter essa ideia errada sobre a Ester, e não há nada que eu diga que lhe faça mudar de ideia — agora sim eu saio de casa e ainda bato a porta para que ela perceba o quanto eu fiquei chateado com as suas palavras; sei que eu já deveria estar acostumado, ela sempre fala isso, mas ela não deveria ter falado isso para mim hoje, não quando eu vou pedir a minha namorada em noivado.
E ao atravessar a rua, já que eu e a Ester somos vizinhos, digo para mim mesmo que a Jade não vai mudar os meus planos. Hoje vai ser um dia feliz. Muito feliz.
Paro em frente à sua casa e com um sorriso no rosto, toco à campainha. Ninguém me atende de imediato, então toco mais uma vez. Segundos depois alguém aparece na porta para me atender, só que não é Ester que aparece — como sempre aparecia para mim —, mas sim a sua mãe. Que aliás é uma mulher muito bonita. Sempre quando a vejo fico embasbacado com a grande semelhança que as duas tem; elas só não compartilham dos mesmos olhos azuis, já que os de sua mãe é castanho-claro, assim como os meus, porém elas têm o mesmo tipo de cabelo loiro, ondulado nas pontas.
— Olá Dona Isabel, a Ester está por aí? — Pergunto a ela não a encarando nesse momento, já que como eu estava à procura de sua filha e achei super estranho ela não ter me atendido agora, olhava por cima de seu ombro para ver se conseguia ver a Ester. Só que até agora, nada.
— Bom, e-ela saiu — começa a gaguejar e quando me viro para encara-la, vejo que a mesma não olhava para mim. — E-ela me d-disse que só v-voltava mais t-tarde — ela já estava prestes a fechar a porta quando eu a impeço de fazer isso, quando coloco o meu braço. Eu tinha que lhe fazer mais uma outra pergunta e ela não iria entrar sem antes me responder.
— E ela foi sair justo hoje? — Arqueio uma sobrancelha achando isso tudo muito estranho; o "sumiço" da Ester, a sua mãe não conseguindo nem falar direto, além de não estar sendo nada receptiva comigo, hoje.
— Sim — diz com certa brutalidade, o que faz eu afastar o meu braço da porta, e assim ela fecha a porta bem na minha cara. Encaro a mesma, de cima a baixo; tem alguma coisa aí.
Descido voltar para casa — mesmo sabendo que a minha irmã vai brincar com a minha cara com relação a isso — porém eu não me importo a casa também é minha, além de que eu não tenho mais nada para fazer na casa da Ester, não depois que eu fui ignorado pela a sua mãe. E eu que sempre a achei bem educada, elegante. Mas é melhor deixar isso para lá, talvez ela só não esteja em um dia bom.
Assim que passo pela porta de casa e chego na sala, vejo que a Jade está bem sentada no sofá e assim que me ver caminhar em direção as escadas, para ir ao meu quarto, ela pega o controle da televisão para desliga-la e eu sei bem porque que ela fez isso, para me importunar, já que quando eu viro o meu rosto para olha-la, a mesma já olhava para mim, com um sorriso satisfatório nos lábios.
— Já chegou, maninho? — Diz ironicamente. — Está bem cedo ainda, não? Ou o meu relógio que está adiantado? — Arqueia uma sobrancelha. Eu poderia rir disso, porque ela nunca muda, são sempre as mesmas piadas, mas eu já estou bem frustrado por ainda não ter visto a Ester. Então só a responder do jeito que ela merece.
— Não me enche o saco, Jade — tento corta-la enquanto digo isso de uma forma bem clara e calma. Espero que ela entenda que agora eu não estou para alfinetas, mas conhecendo a minha irmã do jeito que eu conheço, ela não vai parar.
— Nossa, mas eu só ia perguntar se você pediu mesmo ela em noivado, mas pelo visto ela não aceitou porque você voltou para casa cedo e está aí, todo nervosinho — aponta para mim ao mesmo tempo em que rir descaradamente da minha cara — e ela nem ao menos está ao seu lado, como eu achei que estaria — e essas suas palavras são a gota d'água para mim. Ela nunca entende quando é a hora de parar.
— Já chega, Jade! — Continuo a subir as escadas para ir ao meu quarto, com uma nota mental: nunca mais ouvir as asneiras da minha irmã quando ela quiser falar mal da Ester.
Estou com tanta raiva da minha irmã, como ela pode não gostar da pessoa da qual eu escolhi para ficar comigo o resto da minha vida?
Só que eu até posso está com raiva da Jade, mas certamente estou mais chateado com a Ester. Como ela pôde sair logo no dia em que a gente está fazendo dois anos de namoro, a gente deveria está comemorando agora, não?
Ligo e mando várias mensagens para ela, mas a mesma não me responde nem uma, e muito menos atende as minhas ligações.
O que será que aconteceu com ela?
Fico só ouvindo meu celular apitando, pois estava recebendo várias mensagens. Quando o pego e olho, vejo que as tais mensagens eram dos meus amigos.
— Já foi pedir ela em noivado? — Meu melhor amigo, Cauã, pergunta.
— E então, a minha irmã aceitou? — Raul pergunta.
— Vocês vão comemorar onde? — E a última é do Otávio.
Não respondo nem uma mensagem, mas respondo no meu pensamento e sabia quais respostas daria para cada pergunta: Já fui. Nem vi ela. Não vamos comemorar em canto nenhum, porque nem aqui ela está e eu não sei aonde ela se meteu.
Faço várias coisas, para ver se o tempo passa: assisto televisão, fico na internet, toco guitarra, entre outras coisas. Fico fazendo essas coisas, mas o meu único pensamento é nela. Porque ela não responde pelo menos a minha mensagem perguntando se ela está bem? Estou tão preocupado, não era assim que eu imaginava a nossa comemoração.
A noite vem chegando e com ela o sono; estava tão cansado, mas só ia dormir quando ela me desse pelo menos um sinal de vida. Só que não aguentando mais, já que meus olhos começavam a se fechar, meu celular começa a apitar. Chegou uma mensagem.
Rapidamente o pego e quando vejo era mesmo uma mensagem dela, então logo a abro com um sorriso no rosto, que aos poucos vai se desfazendo quando eu leio o que ela me escreveu.
Oi, Miguel
Pelas mensagens e ligações que recebi de você sinto que deve está muito preocupado comigo, mas não precisa se preocupar, eu estou bem. Você deve ter achado hoje muito estranho, né? Hoje estamos fazendo dois anos de namoro e certamente estaríamos comemorando, mas não foi muito bem isso o que aconteceu, não é verdade?
Só quero lhe dizer que eu gostei bastante de passar esses dois anos com você, mas sinto que minha vida não é ao seu lado e foi por isso que eu saí hoje de casa e vim morar com outra pessoa. Desculpa não lhe dizer nada, nem ter lhe dado alguma justificativa para isso que eu estou fazendo agora com você, mas não mandamos no nosso coração e eu realmente sinto muito. Espero que um dia você me perdoe e espero do fundo do meu coração que você seja muito feliz.
Ester
Quando acabo de ler essa mensagem, que está mais para uma despedida, jogo meu celular bem longe de mim. Não acredito que ela fez isso comigo! Como ela pôde? Por que não me disse nada? Bem que a Jade estava certa em relação a ela e eu nunca a dei ouvidos.
Então na mesma hora prometo a mim mesmo nunca mais amar alguém na minha vida.
(Dias Atuais)
— Sim, eu sei — a respondo ao mesmo tempo em que massageio meu rosto bem no lugar que ela me deu uma bofetada, me recordando do dia em que a Ester me deixou por outra pessoa e penso: É, realmente ela não é a Ester. Nunca foi. Pois ela é melhor. Muito melhor. E eu serei um louco se deixa-la ir sem eu ao menos ir atrás dela, sem eu ao menos pedi-la para ficar.
E como percebendo o jeito que eu fiquei, minha irmã fala comigo:
— Ela já deve estar na rodoviária uma hora dessas, vai logo — me leva em direção a saída do meu quarto — senão você vai acabar perdendo ela — e é bem nessa hora, ao ouvir a palavra "perdendo" que eu volto para a realidade. Eu vou atrás da Flávia, vou atrás do meu grande amor. E com isso saio de casa, com o meu carro cantando pneu.
Só que eu não cheguei a tempo, o seu ônibus tinha acabado de sair.
Agora é tentar seguir em frente mesmo que seja uma tarefa bem difícil.
- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -
Fim do 1° livro.
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top