35
Bernardo
Já fazem exatamente seis meses que a Flávia está em Recife, e ainda assim, todo dia penso nela. Como esquecer aquela bela garota de cabelos curtos que tem um sorriso mais que sexy, aquela que desde pequenos somos amigos, a que sempre fez o meu coração bater mais rápido a cada olhar e principalmente aquela que eu prometi, para mim mesmo, amar para sempre? Não tem como, mas eu também não quero isso.
Me sinto um idiota a cada vez que me lembro daquele ocorrido, ah se eu pudesse voltar no tempo... tudo seria tão diferente.
Eu simplesmente não sei, não sei como fui capaz de deixar aquilo acontecer. Mas eu estava na sorveteria, a espera de um milagre, para a Flávia me encontrar e por puro azar do destino uma garota se senta bem ao meu lado, começa a puxar assunto comigo e quando dou por mim já sentia os seus lábios contra os meus. Eu deveria ter sido mais forte. Deveria tê-la afastado de perto de mim. Mas por algum motivo eu não queria fazer aquilo e eu estaria mentindo para mim mesmo se dissesse que não gostei. Porque eu gostei e não foi pouco.
Só que mesmo assim, no final das contas isso não valeu de nada, pois eu perdi o amor da minha vida. Só que não vai ser assim por muito tempo...
Já fazia alguns meses desde que a Heloísa e a Eloá voltaram de sua pequena viagem a Recife. Éramos amigos, mas depois do que aconteceu comigo e com a Flávia, elas me evitam a qualquer custo.
Saio de casa assim que vejo a Heloísa colocando a chave dentro da fechadura da porta de sua casa, para poder entrar e a Eloá está com algumas sacolas de compras em suas mãos. Eu deveria puxar assunto com elas, vai que elas me contam como a Flávia estar. E é justamente isso que eu faço.
— Oi, garotas — paro ao lado delas e me encosto na parede de sua casa. A Heloísa olha para mim, rapidamente, porém volta a sua atenção para a fechadura, já a Eloá ainda me encara, desconfiada.
— Oi, Bernardo — ela diz depois de algum tempo.
Sempre foi eu, a Flávia e o Benjamin, o trio, só que a nossa turma teve de aumentar quando eles conheceram essas garotas. Não tenho nada contra elas, até porque assim que nos conhecemos logo nos tornamos amigos, e elas são bem legais só que entre as duas, a que sempre foi com a minha cara foi a Eloá. A Heloísa nunca fez nem um tipo de expressão quando me via, por isso eu nunca soube se ela gostava de mim ou não, e mesmo que ela não chegasse a gostar de alguém ela era muito educada para dizer.
— Como foi lá em Recife? É bonito como muitos dizem? — Pergunto sem muita importância, pois eu queria mesmo era saber da Flávia.
— Foi bem legal. Nos divertimos muito. E se você quer mesmo saber, lá é muito bonito — Heloísa responde ao conseguir abrir a porta de casa e em seguida virar o seu rosto para mim.
Acabou de acontecer um milagre, aqui.
— E a Flávia, como ela está? — Pergunto logo de uma vez, alternando meu olhar entre as duas.
— Ela está bem, Bernardo! — Eloá é que me responde, sendo bem direta.
Nossa, essa doeu... você nunca falou dessa maneira comigo, sua irmã fez uma lavagem cerebral em você, foi? Mas penso que é melhor deixar isso de lado e focar só no que eu quero saber agora. É melhor. Para ambos. Eu não quero perder a amizade dela. Se é que ainda temos, mas eu prefiro acreditar que sim.
— Só isso? — Pergunto ao perceber que há mais coisas escondidas por aí, só que elas não querem me contar. Vamos ver por quanto tempo elas vão me esconder.
— Você quer saber se ela está com alguém, é isso? — Heloísa pergunta, com um sorriso vitorioso no rosto, e mesmo com medo da resposta que ela possa me dar a seguir eu assinto com a cabeça.
— Ela está sim... com alguém — dessa vez a Eloá responde o que eu mais temia que acontecesse, mesmo sabendo que já se passaram meses e que a Flávia além de ser um amor de pessoa é simplesmente linda, eu não estava nenhum pouco preparado para esse tipo de informação. Vendo o meu estado, ela delicadamente coloca sua mão em cima do meu ombro, e prossegue: — Eu só te peço, por favor, que não estrague as coisas indo para lá. Ela está tão feliz — tenta dar um sorriso, porém falha quando eu trinco o meu maxilar — você sabe, como eu não queria te dizer isso, mas finalmente ela está te esquecendo...
E essa, foi a gota d'agua para mim. Eu aguentei saber que ela está com alguém, aguentei saber que ela está feliz ao lado dessa pessoa, mas está me esquecendo...? Isso não!
— Ela não podia ter feito isso comigo! — Tiro agressivamente a mão da Eloá de cima do meu ombro e ando de um lado para o outro.
— Fazer o quê? Ser feliz de novo? — Heloísa pergunta, já ficando eufórica.
— Ela não pode me abandonar assim, eu sei que ela ainda me ama! — Paro onde estou e olho para as duas, com fúria nos olhos, agora quem estava ficando exaltado era eu.
— Quem abandonou primeiro a Flávia foi você Bernardo, a traindo, e você sabe muito bem disso — Eloá bate o seu dedo indicador no meu peito, repetidas vezes. Olho para esse seu movimento. Se fosse outra pessoa eu já teria retirado esse dedo daí, mas como era ela, eu deixei. Volto a olhar o seu rosto e ela prossegue: — Você não deveria se fazer de coitadinho para cima de nós, isso não cola — balança sua cabeça para os lados e enfim, para de bater no meu peito. Em seguida elas entram dentro de casa e me deixam aqui, sozinho, encarando essa porta que acabou de ser fechada bem na minha cara.
Meus pensamentos estavam a mil.
Eu tenho que fazer alguma coisa, não posso entregar a Flávia assim de mão beijada para essa tal pessoa que agora está com ela.
— Eu tenho que ir atrás dela! — Falo comigo mesmo assim que volto para minha casa.
Estou decidido a ir atrás da mulher da minha vida. E nada vai me fazer mudar de ideia.
Ester
— Parece que já está na hora de voltar, Ester — enquanto digo isso para mim mesma as palavras vão se tornando cada vez mais pesadas, difíceis até de aguentar o peso que elas transmitem para mim. Ouvir essas palavras saindo da minha própria boca torna tudo tão real.
E eu que pensava que ao fazer aquela escolha minha vida mudaria, e realmente mudou, mas não para melhor como eu achei que fosse mudar. Por um tempo, eu sinceramente achei que ele fosse o cara ideal para mim. Quando ele passava pelo campus e seus olhos piscavam em minha direção, além de ter um sorriso de deixar qualquer garota babando. Isso era apenas alguns de seus flertes dirigidos a mim. E eu não posso mentir, adorava quando ele fazia isso, eu me sentia ainda mais desejada. Eu sei que isso é errado, se sentir atraída por um outro rapaz que não seja seu namorado, mas o que eu posso fazer? Nada. O rapaz com quem eu namorava a um ano e meio e que antigamente só tinha olhos para ele, se chamava Miguel, um garoto muito bonito, gentil, inteligente e carinhoso. Eu sempre jurei, para mim, que ele era o amor da minha vida. Ama-lo foi fácil. Mais também foi fácil trai-lo e esquece-lo (nem que agora eu esteja pensando nele, constantemente).
Eu deveria ter ficado apenas nos olhares, com aquele que eu achei que mudaria a minha vida, não deveria ter prosseguido com aquilo, pois ao deixar de lado o Miguel e prosseguir com os seus beijos e carícias, foi onde eu me entreguei. Ao meu erro. A minha traição. E a minha miséria.
Depois dos olhares vieram as trocas de telefone, os encontros as escondidas onde eu dizia para o Miguel que iria se encontrar com as amigas, até que a pior de todas as mentiras chegou, onde por um momento na minha vida, eu me vejo como uma cretina, foi quando eu disse que ia a um aniversário de uma amiga, mas não cheguei a ir, pois passei a noite com outro.
Maldita a hora em que o conheci! Que os seus olhares se cruzaram com os meus. Você com certeza colocou algum tipo de encantamento em cima de mim. Eu joguei tudo pro alto por sua causa, por um garoto que não valia a pena, foi apenas uma paixão repentina, mas que fez eu perder o homem da minha vida. Mais eu vou dar a volta por cima e nada melhor do que ir morar novamente em frente, para o que agora deveria ser o meu homem. E eu vou fazer com que ele seja!
Será que o Miguel ainda se lembra de mim ou será que ele já me esqueceu, completamente?
Não! Sei que já se passaram anos, mas não quero pensar nessa possibilidade. Ele não deveria se esquecer tão fácil de mim; eu fui a sua primeira namorada, compartilhamos carícias, amor e história. Ele não pode ter se esquecido de tudo isso ou pode?
Em toda a minha vida, desde de criança, eu sempre sonhei com o príncipe encantado e ele até chegou a aparecer na minha vida, quando eu menos esperava, mas naquele tempo eu não dei bola, não percebi o que estava fazendo, só seguia o fluxo sem me importar com as escolhas que eu fazia e com as consequências que isso geraria no futuro.
O único homem que eu amei em toda a minha vida eu simplesmente deixei ele voar, mas sem mim para lhe acompanhar.
— Como eu fui burra, como eu fui burra... — bato minhas mãos na cama em meio as lágrimas que desciam sem parar pelo meu rosto, relembrar a minha burrada do passado é sempre tão cruel.
Nesse momento eu estava arrumando as minhas malas.
— Amanhã estarei em Recife e vou tentar te reconquistar Miguel, me aguarde, pois eu estou chegando para ficar ao seu lado, meu amor — digo para ninguém em particular enquanto limpo as lágrimas que teimavam em descer pelo meu rosto.
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